Tenho postado pouco aqui no blog. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, nesta reta final da minha estada por aqui. na McGill.
Fico até janeiro.Mas, já estou sentindo o gosto de reta final porque fechamos o curso do Sterne, na semana passada. Com direito a chopp e almoço festivo.( E mais uma festa final que ainda vai acontecer no dia 13...oba! )
E, após participar de uma banca de doutorado, na última sexta, me senti, de certa maneira, concluindo os compromissos acadêmicos "oficiais".
Pois, dezembro, aqui como aí, é mês de celebrações.
Mas, porque este papo todo meio "nariz de cera"? Porque as pessoas têm me perguntado se estou gostando a experiência. E, do início até este finalzinho de temporada, minha sensação é de enorme satisfação pessoal e profissional.
Primeiro, pelo lado acadêmico da história. Ao invés de ficar "solta" como fazem muitos colegas, escolhi me vincular e me dedicar efetivamente ao grupo de pesquisa e ao curso de pós do Jonathan Sterne. Isto resultou não só numa possibilidade de reflexão e discussão muito produtiva em torno do tema dos "Sound Studies", como em conversas muito legais.
Confesso que nos primeiros encontros eu me sentia numa posição meio incômoda. Devo falar ou não, o que é que eu faço na sala de aula? Afinal, há uns dez anos que só sento na cadeira de professora e aqui eu não sou nem professora nem aluna."Visitor Professor" é a minha posição.Um pouco professor, mas um tanto "visitor".
Mas, depois de umas aulas, relaxei. E aí foi bem legal participar das discussões, apresentar a minha pesquisa para os alunos e entrar em contato com a cultura universitária daqui. Muitas idéias, um calhamaço de leituras e inspiração pra discussões que pretendo compartilhar com os alunos no Brasil já no primeiro semestre, no curso que vou ministrar na pós utilizando a bibliografia pesquisada .(em breve divulgo as informações sobre o curso).
E, junto com isto, a alegria de confirmar minha expectativas de interlocução com o Sterne para o meu trabalho - a quem eu só conhecia da obra Audible Past. Arguto, delicado, irônico, um tanto workholic como nós, com um humor delicioso e comentários acadêmicos precisos, o cara é ainda melhor ao vivo do que no livro - se é que isto é possível. Pra vcs terem uma idéia - eu fui comentar que tinha vontade de conhecer os subúrbios da cidade e ele inventou um passeio pelos arredores cujo ápice foi um restaurante indiano suburbano, cafona e delicioso, neste sábado passado, dizendo que ele também adora estas incursões mas nunca tem companhia pra ir.
Tem também o Will Straw - meu colega e vizinho de "office" do andar de baixo da McGill- nossas salas ficam perto uma da outra e a gente volta e meia se esbarra na escada, toma um café e troca boas idéias acadêmicas.Uma das figuras mais encantadoras, gentis, delicadas, sensíveis e inteligentes...cuja amizade, por sinal, herdei de outro querido, que é o Jeder Janotti, da UFBa.
Participei de uma banca a convite dele, Will, na sexta. Sobre a indústria da música no Canadá de 1970 a 1998. (a referência completa é "Making Canadian Music Industry Policy 1970-1998." Autor - Richard Sutherland). 350 páginas de informação detalhada e documentada, que valeu o esforço da leitura, pois a discussão foi ótima, sem falar no papo e no vinho depois da defesa.
E acho que o conjunto destas experiências é muito legal, pois envolve afetos e experiências que se estendem para além do estritamente profissional.
Mas, junto com isto, tem outras coisas bacanas que o pós-doutorado permite. Em primeiro lugar, tempo - para ler, pensar, parar, fazer nada de vez em quando, processar as reflexões.
Segundo, lidar com a diferença cultural e tudo que isto implica - desde a "etiqueta acadêmica", ao cotidiano de outra língua (no caso, DUAS), os hábitos culturais e tudo mais.
E ainda tem a mudança cultural mais ampla - descobrir uma cidade adorável como Montreal, explorar os bares, as livrarias, os museus;voltar aos lugares que a gente gostou, tomar um café, andar de bicicleta, ir ao Jardim Botânico, ficar amiga do casal que aluga o apartamento pra gente e que acaba de ter um baby chamado Stella, que mora no andar de cima. Descobrir que o frio pode ser razoável quando se tem uma boa bota e um casaco de pena de ganso, ver a primeira neve cair, encontrar uma echarpe linda que custa 3 dõlares no brechó da esquina de casa, mais uma bota italiana espetacular por dez dólares.
E ainda ir pra acadenia de ginástica com a temperatura a menos 10, e achar que se está na Jamaica - pois toca reggae, tem céu azul e sol do lado de fora e o lugar está superaquecido, com todo mundo de camiseta, suando. E à noite, quanto mais frio, mais os bares enchem, mais se bebe e se enlouquece por aqui. Pequenos prazeres que valem a vida, né!
Por conta disto tudo, adoro esta cidade.Pois ela não é grandiosa, mas é absurdamente cosmpolita e charmosa. Me sinto à vontade, em casa, tanto quanto no Rio.Mesmo quando os termômetros lá fora marcam menos doze graus, como hoje, dá pra ser feliz em Montreal. E, sim, "contra dor, moléstia, crime", todo professor merece um pós-doc num lugar legal. No mínimo seis meses, que ninguém é de ferro!!
PS - A foto é da estátua do Mr Mcgill, lá no campus, todo branquinho da primeira neve que caiu em Montreal.




