
Ligeiramente atordoado e tendo alguns dos meus já precários escaninhos musicais ido praquele lugar há muito tempo, deixo a ZDB rumo ao Cais do Sodré, onde rolaria uma apresentação do músico caboverdiano Tito Paris dentro da festa Gala Kretzeu, num dos armazéns à beira do Tejo que, ao contrário da nossa Praça Mauá e seu eterno processo de revitalização que nunca acontece, são muitíssimo bem aproveitados culturalmente falando. Descendo o Chiado até o Cais, praticamente sem fazer uma curva sequer, desvio de hordas e mais hordas de bruxinhas, diabinhos e mortos vivos e chego ao Armazém F a tempo de pegar a primeira canção do show.
O relógio marca uma da manhã. Em termos de clima, nada mais díspare: no lugar do teto ultra-baixo, da escuridão, e do clima it’s the end of the world as we know it da Zé dos Bois, o Armazém F oferece luzes piscantes, globo de discoteca, dois andares bastante amplos e muita, mas muita gente sacudindo o esqueleto ao som do combo de Tito Paris. Depois fiquei sabendo que, durante o dia, o Armazém F funciona como uma churrascaria rodízio brazuca e que, nos finais de semana, o dono do estabelecimento, um brasileiro chamado Ortiz, ganha a maior grana hospedando grupos de pagode e noites de samba. A sensação era a de estar assistindo a um tremendo bailão caboverdiano em pleno Porcão – ou em pleno Plataforma, se você quiser ser mais cruel.

Pela primeira vez em duas semanas e depois de incontáveis concertos em Lisboa, hub multicultural por excelência, cidade de fronteira nos dizeres de Boaventura de Sousa Santos, tive a chance de ver negros na platéia de um show, e ainda assim em número muitíssimo inferior ao dos casais brancos de meia idade que rodopiavam pra cima e pra baixo. Depois fiquei sabendo que, a despeito de rolar um baita preconceito dos “locais” em relação aos imigrantes dos PALOP (países africanos de língua portuguesa), o caboverdiano é aquele para o qual o português possui maior abertura justamente por não ele não ter a pele tão escura, sobretudo se comparado aos angolanos e moçambicanos. Essa abertura permite a um músico como Tito Paris desenvolver uma série de iniciativas que ajudam a divulgar a música de seu país em Portugal, notadamente através da Casa da Morna, ritmo tradicional caboverdiano que dá nome ao espaço onde o músico articula tais atividades.
Como fazer doutorado implica, entre outras coisas, ser assoberbado por “questões” justo quando os outros mais estão se divertindo, de repente me ocorreu que as pessoas que estavam dançando horrores ao som daquelas canções “sensuais” e “étnicas” seriam as mesmas que prefeririam viajar de pé se porventura tivessem que sentar do lado de um caboverdiano no metrô – ou sentariam mas virariam a cara pro lado, como vi acontecer num trem em Nápoles certa feita, em relação a dois senegaleses. Lembrei-me do Bauman naquele livro Comunidade, quando ele diz que o discurso multicultural muitas vezes concede o direito à representação cultural mas bloqueia o direito à participação e ao reconhecimento como cidadão. Nada mais metaforicamente adequado a essa reflexão do que o fato de a praça onde outrora se queimvam “infiéis” na inquisição, nos arredores do Rossio, hoje ser ponto de encontro de imigrantes africanos.

Uma pena que eu tenha ficado a pensar nessas coisas justo durante o show. Ok, o fato de estar sozinho não me animava muito a dançar, e pessoalmente tendo a me identificar mais com o clima da ZDB do que com o do Armazém F (ruim da cabeça e doente do pé, you know, mas a despeito disso, uma boa pessoa) – o que não me impede de reconhecer, no som de Tito Paris, a matriz musical de um caminhão de estilos e bandas que eu admiro incondicionalmente. Pense em Stevie Wonder, Madness, The specials, nos Paralamas do Sucesso fase “Cinema mudo” e nos novíssimos Vampire Weekend e lá estarão a percussão marcada, o baixo vigoroso e o, vá lá, “balanço” característico das sonoridades africanas (e caribenhas, e brasileiras, e etc) que o músico caboverdiano, com o suporte de uma tremenda seção de metais, articula de maneira admirável. Às vezes, era como se eu estivesse num clube de salsa, às vezes numa roda de samba, como se a música em si atravessasse diversos contextos culturais, espaciais e temporais. Não me admira (o que não quer dizer que eu concorde com a classificação ou desconsidere a pertinência de outros aspectos na configuração da mesma) que artistas como Tito Paris e seus conterrâneos sejam mormente enquadrados como world music nas lojas de discos, porque de fato é como se através dessa música fosse possível percorrer todo o mundo e todos os tempos, numa síntese intrigante pelo modo falsamente simples como ela se apresenta. O que, por sua vez, me fez lembrar da conferência de Arjun Appadurai que tive a chance de acompanhar na Fundação Calouste Gulbenkian, na manhã do dia 27 de outubro, quando ele disse que toda música é, simultaneamente, world music e somewhere music.
Deu o que pensar, essa noite das bruxas...
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