Sede habitual de shows de rock e freqüentada por uma parcela do público indie-alternativo de Lis
boa, o Santiago Alquimista havia recebido, na semana anterior, a banda Lemonheads. Noves fora os preços exorbitantes prtaicados em seu interior (7 euros a dose de Black Label, 2 euros o Imperial da Sagres – que é como os portugueses chamam a cerveja de pressão, o nosso chope – quase três vezes mais caro no bar do Santiago Alquimista do que na tasca lisboeta mais safada, onde o mesmo imperial custa cerca de 0,75 cêntimos), o espaço é um must. Ao que tudo indica, nunca fica insuportavelmente cheio. Os portugueses, salvo raras exceções, até que respeitam a lei que proíbe o fumo em lugares fechados, então você sai do Santiago Alquimista sem aquele onipresente cheiro de cigarro grudado nas roupas. E a convivência entre mil e tantos anos de história algumas ruas acima e o que há de mais contemporâneo sendo feito em termos de música portuguesa torna a experiência duplamente saborosa.
Antes do concerto, conhecia apenas uma faixa do Legendary Tiger Man, intitulada “Honey you’re too much" e incluída na coletânea dupla Novo rock português editada pela Chiado Records em parceria com a Rádio Antena 3 em 2007 e que eu havia baixado pela internet. Soava-me como uma espécie de Ladytron com floreios e sem arroubos glam, nada significativamente distinto das demais canções do álbum. Ao vivo, a coisa muda de figura. Embora o paredão sonoro forneça a (falsa) impressão de que há pelo menos três pares de braços em cima do palco, o LTM nada mais é do que uma one-man-band cujo one-man, que atende pela graça de Paulo Furtado, alterna-se entre o manuseio de guitarra, bateria e sintetizadores, além de cantar e soprar um troço assemelhado àqueles apitos de chamar patos que a gente via nos desenhos do Pica Pau. Espécie de figura aglutinadora da atual cena rock and roll pré-mainstream portuguesa – e acreditem em mim, crianças, há muita coisa boa sendo feita aqui – além do Legendary, Furtado também integra os Wraygunn e dirige algumas das viagens videoartísticas experimentais que são projetadas num telão ao fundo do palco durante sua performance. Numa delas, aparece pelado em nu frontal tocando bateria no meio de uma estrada. Em outro vídeo, este dirigido por um coletivo cujo nome não me recordo (mas a canção se chamava “Love train”), via-se uma apaixonante garota viajando num trem, num preto e branco artificialmente envelhecido de derrubar o queixo de Philippe Garrel.
O efeito obtido já seria por si só bestial não fosse a música feita por Furtado uma porrada sonora da melhor qualidade. Pense num espectro sonoro que vai de Screaming Jay Hawkins a Sonic Youth, ou então no XTRMNTR do Primal Scream tocado por um único cara totalmente puto da vida por se encontrar preso numa cadeira de rodas (Furtado passa o tempo inteiro sentado) e você vai ter uma amostra do som do LTM, cujo novo álbum, Masquerade (seu terceiro) deve sair em breve.
Música portuguesa? Com certeza. Não há um laivo sequer de diálogo com a “tradição” (oficial) do cancioneiro luso na música de Paulo Furtado, não no sentido que autorizaria, lá pelas tantas, a aparição súbita de uma viola ou de uma guitarra portuguesa a la Carlos Paredes. Também não se canta em português, e o fato de não estar trabalhando com a língua materna (embora, em certo nível, esteja trabalhando a partir dela) apenas reforça o modo lúdico com que Furtado escolhe e mastiga o idioma inglês. E ainda assim... Há uma portuguesidade na música do LTM apenas na medida em que essa portuguesidade não existe, seja em termos absolutos ou relativos, mas talvez apenas como elemento de identificação e reconhecimento. Porque num certo nível, para as pessoas presentes naquele concerto, era música portuguesa que se ouvia.
Com a cabeça fervilhando de questões, chego ao Chiado e deparo-me com a Praça Camões hiperlotada de pessoas e carros, ambos congestionando todos os acessos ao Bairro Alto. São grupos de jovens aglutinados aqui e ali, copo de cerveja na mão, atribuindo à praça pública uma função social que há muito não se vê no Rio de Janeiro, talvez em virtude da inseguraça reinante que o resultado das atuais eleições, muito sinceramente, não me parece lá capaz de solucionar. Subindo a Rua da Rosa, passo em frente a incontáveis bares que exalam músicas de todas as origens e estilos, de salsa cubana a “The killing moon”, mas vencido pelo cansaço, retorno à pensão para uma merecida noite de sono.
Antes do concerto, conhecia apenas uma faixa do Legendary Tiger Man, intitulada “Honey you’re too much" e incluída na coletânea dupla Novo rock português editada pela Chiado Records em parceria com a Rádio Antena 3 em 2007 e que eu havia baixado pela internet. Soava-me como uma espécie de Ladytron com floreios e sem arroubos glam, nada significativamente distinto das demais canções do álbum. Ao vivo, a coisa muda de figura. Embora o paredão sonoro forneça a (falsa) impressão de que há pelo menos três pares de braços em cima do palco, o LTM nada mais é do que uma one-man-band cujo one-man, que atende pela graça de Paulo Furtado, alterna-se entre o manuseio de guitarra, bateria e sintetizadores, além de cantar e soprar um troço assemelhado àqueles apitos de chamar patos que a gente via nos desenhos do Pica Pau. Espécie de figura aglutinadora da atual cena rock and roll pré-mainstream portuguesa – e acreditem em mim, crianças, há muita coisa boa sendo feita aqui – além do Legendary, Furtado também integra os Wraygunn e dirige algumas das viagens videoartísticas experimentais que são projetadas num telão ao fundo do palco durante sua performance. Numa delas, aparece pelado em nu frontal tocando bateria no meio de uma estrada. Em outro vídeo, este dirigido por um coletivo cujo nome não me recordo (mas a canção se chamava “Love train”), via-se uma apaixonante garota viajando num trem, num preto e branco artificialmente envelhecido de derrubar o queixo de Philippe Garrel.
Música portuguesa? Com certeza. Não há um laivo sequer de diálogo com a “tradição” (oficial) do cancioneiro luso na música de Paulo Furtado, não no sentido que autorizaria, lá pelas tantas, a aparição súbita de uma viola ou de uma guitarra portuguesa a la Carlos Paredes. Também não se canta em português, e o fato de não estar trabalhando com a língua materna (embora, em certo nível, esteja trabalhando a partir dela) apenas reforça o modo lúdico com que Furtado escolhe e mastiga o idioma inglês. E ainda assim... Há uma portuguesidade na música do LTM apenas na medida em que essa portuguesidade não existe, seja em termos absolutos ou relativos, mas talvez apenas como elemento de identificação e reconhecimento. Porque num certo nível, para as pessoas presentes naquele concerto, era música portuguesa que se ouvia.
Com a cabeça fervilhando de questões, chego ao Chiado e deparo-me com a Praça Camões hiperlotada de pessoas e carros, ambos congestionando todos os acessos ao Bairro Alto. São grupos de jovens aglutinados aqui e ali, copo de cerveja na mão, atribuindo à praça pública uma função social que há muito não se vê no Rio de Janeiro, talvez em virtude da inseguraça reinante que o resultado das atuais eleições, muito sinceramente, não me parece lá capaz de solucionar. Subindo a Rua da Rosa, passo em frente a incontáveis bares que exalam músicas de todas as origens e estilos, de salsa cubana a “The killing moon”, mas vencido pelo cansaço, retorno à pensão para uma merecida noite de sono.

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