quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Lan houses no Central da Periferia

O quadro Central da Periferia, comandado por Regina Casé, voltou ao ar no Fantástico no último domingo, focalizando as lan houses. O interesse que levou a apresentadora a abordar o tema foi o mesmo que me levou ao mestrado, no final de 2007: quem anda pelas periferias das grandes cidades do Brasil tem visto crescer o número de centros públicos de acesso pago ao computador. A observação empírica (numa cidade grande, da região Sudeste, como é Niterói) bate com os números da TIC Domicílios 2007, pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil: 49% dos acessos à internet hoje acontecem nas lan houses e cibercafés.
Liguei a TV para assistir ao Central da Periferia com muita curiosidade, é claro, já que estou pesquisando a relação entre lan houses, telecentros de acesso gratuito e políticas públicas de inclusão digital. E o primeiro programa da série (veja aqui) traz várias questões importantes.
As lan houses significam, hoje, muito mais do que o acesso de jovens a jogos de computador (o que por si só já era interessante), mas um espaço freqüentado por pessoas de todas as idades, que utilizam as novas tecnologias de informação para vários fins: comunicação, realização de trabalhos escolares, procura por emprego, acesso a serviços públicos etc.
Esse tipo de comércio, como destaca Regina Casé, é "fruto da criatividade e do empreendedorismo de alguém que não tinha nada". Ou seja, ela chama a atenção para o protagonismo - palavra que já está sendo banalizada - das camadas mais pobres da população em se inserir na sociedade midiatizada. Essa iniciativa é dificultada pela legislação restritiva a que estão submetidas as lan houses, consideradas casas de jogos e não centros de acesso ao computador ou de inclusão digital, como diz Mario Brandão, presidente da Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital (ABCID). Como o próprio nome da entidade indica, os donos de lan houses se uniram para mudar a classificação desse tipo de estabelecimento comercial, retirando da legislação restrições como a proibição de lan houses a menos de 1 Km de distância de escolas.

"Se antes a gente não sabia direito
onde era o centro, onde a periferia,
agora bagunçou geral".

Regina Casé, na abertura do programa

"No mundo da internet você é quem você quer ser,

você vai onde você quer ir, se você souber utilizar
a ferramenta computador mesclada com internet,
você acha que você consegue tudo".
Dono de lan house, no final do programa


No entanto, apesar das boas questões levantadas e do carisma da apresentadora, o tom do programa é de excessivo otimismo em relação à penetração do computador e da internet nas periferias via lan houses, como se o simples fato de estarmos todos conectados acabasse com as distâncias e as desigualdades sociais. O otimismo pode ser questionado, em primeiro lugar, pelo baixo número de conectados no Brasil - só 34% da população brasileira têm acesso à internet - e pela desigualdade de distribuição - 64% dos 5.565 municípios brasileiros não possuem acesso à banda larga, o que chama a atenção para a necessidade de políticas públicas para a universalização do acesso às novas tecnologias.
Outro ponto de questionamento é a atribuição de uma perspectiva revolucionária no simples acesso à tecnologia, ilustrada, entre outras, pelas duas frases citadas acima. O acesso às novas tecnologias tem de estar relacionado ao domínio de uma série de outras competências (culturais, cognitivas) e de uma autonomia que contribuam para uma democratização da comunicação e para um maior poder de influência dos indivíduos nas decisões políticas. A comunicação, nesta perspectiva, é vista como um direito. Quanto mais as pessoas se apropriarem ativamente das novas TICs, entendendo seu processo de funcionamento e o que elas significam nos dias de hoje, maiores serão as chances de contribuírem para as transformações em curso, maiores são as possibilidades de se romper barreiras e de multiplicação de espaços de negociação, conflitos e resistências, influenciando, inclusive, políticas de acesso à educação, saúde, emprego etc., sem as quais o domínio da tecnologia não conseguirá romper barreiras.

4 comentários:

Simone Pereira de Sá disse...

Olivia,
Adorei o post. Será que eu acho a matéria no you tube?

bj,
S.

Olívia Bandeira de Melo disse...

O programa está disponível no site da globo.com, e está linkado no post, em Central da Periferia.

Vou arrumar o post e deixar o link mais claro.

Beijos!

Mario Brandao disse...

Maravilhosa sua perspectiva e a perspicácia de suas observações. no entanto, os seus contrapontos me levam ao questionamento sistematico que eu me faço a todo sempre. FAto. esses espaços fazem um trabalho incompleto inclusório. mas o fazem a contragosto do poder publico, com toda uma legislacao restritiva de operacao e com toda uma acao de negacao de formalidade, que induz a ilegalidades e tem consequencias não desejadas por todos. suposição- não seria solucao a mudança no tratamento do papel desses espaços e de sua funcao para que pudessemos efetivamente ter uma acao completa de apropriacao por parte desse publico? até hoje as lans e cyber foram tratados como problema, não poderiamos ve-los como parte de uma solucao?

Olívia Bandeira de Melo disse...

Oi, Mário, concordo plenamente com você. Acho mesmo que a legalização deve ser incentivada e que a legislação não seja tão restritiva como é hoje.
A ABCID está participando da pesquisa da FGV sobre lan houses? Eles também questionam muito essa legislação, não é mesmo?