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sexta-feira, 25 de março de 2011

Leituras podem ser boas e MUITO divertidas!

Quarta passada tivemos a segunda aula da disciplina Som + Imagem que Simone e Fernando Morais, professor de cinema e membro recente do PPGCOM, estão ministrando aos alunos da pós.

Eu já terminei meus créditos no doutorado mas desde que li a ementa, achei arrebatadora a ideia de acompanhar discussões vindas de uma professora do som, ligada à Sociologia, e outro do cinema (embora Fernando estude com ênfase o som no cinema).

Como eu imaginava, hoho, a aula foi inspiradora. Lemos os três primeiros capítulos do livro The Audible Past, do Jonathan Sterne, e passamos quase quatro horas discutindo a importância dos sons na modernidade e como a escuta é socialmente construída. Eu achei a leitura muito madura (para usar uma expressão que Fernando falou bastante) e "abridora de mentes", hehehe.

Mas mais do que isso, achei a leitura extremamente divertida. E acho que isso faz toda a diferença.

Em meio às reflexões mega sofisticadas, Sterne conta a história de um cidadão com problemas de surdez que desenvolve uma engenhoca para curar o mal e tenta "patentear a si mesmo", hahahahaha! 

Ou quando ele analisa uma propaganda de 1925 sobre fones de ouvido que começa com "Você PRECISA de um fone de ouvido", numa tentativa sintomática de persuasão. Ou quando ele conta as versões oficiais de surgimento de algumas tecnologias de reprodução sonora e lembra que provavelmente boa parte da narrativa pode ter sido modificada porque muita gente se empolga ao relatar  a sua própria descoberta e costuma cometer lapsos para deixar tudo mais florido. Quem nunca fez isso???

Ou, pra finalizar com chave de outro, quando o inventor do fonoautógrafo, a partir de observações do ouvido humano, inseriu partes de um ouvido humano DE VERDADE no meio da invenção. E para evitar fofocas, medos e preconceitos, disse que eram partes de um ouvido de cachorro :-PPP

Já li muita coisa reflexiva e divertida, como Cultura da Convergência, de Henry Jenkins, e vou confessar que acho admirável um autor conseguir pensar o mundo - no meio de toda a sua fascinante complexidade - de uma forma bem humorada e leve. Lembro até hoje que logo na introdução, Jenkins comenta que quis comprar um celular que apenas fizesse ligações, "sabe, para poder falar", e não conseguiu.

Um dos maiores exemplos disso pra mim vem de Richard Campbell, um grande pensador do jornalismo e autor de 60 Minutes and The News: a Mythology for Middle America. Ele começa a introdução de seu livro falando de um diálogo que teve com sua avó croata (!!). Com uma tradução lindamente feita pela mãe de Afonso de Albuquerque, professor de comunicação e política e jornalismo da pós, me despeço deste texto com os dois parágrafos iniciais e GENIAIS desse autor delicioso:

Certa vez, no início da década de 1980, tentei explicar à minha avó croata - ela também no início de seus oitenta anos - porque eu tinha abandonado um ótimo emprego de professor de inglês numa escola secundária para ingressar num programa de doutorado em rádio, televisão e cinema na Northwestern University.  Do seu ponto de vista, lá de Dayton, Ohio, só podia haver duas razões.  Primeiro, ela achou que seu neto pudesse estar atrás do emprego de âncora de Walter Cronkite, na CBS, mas quando Dan Rather conseguiu esse emprego, ela teve que rever sua opinião.  Em seguida ela passou a achar que seu neto, armado com um doutorado em rádio-TV-cinema, certamente estaria qualificado para consertar seu aparelho de televisão que recentemente tinha ficado complicado pela transmissão a cabo.

Minha avó sempre foi um ponto de referência na minha vida - um bom antídoto para aqueles momentos em que começo a me sentir muito superior e intelectual.  Quando vou a Ohio, levo minha avó à igreja e ocasionalmente assisto com ela à televisão (e faço também alguns ajustes no seu aparelho de TV e desse modo ela fica sabendo que minha educação não foi completamente desperdiçada).  Seus programas favoritos incluíram, ao correr dos anos, Lawrence Welk, luta livre de estúdio, Dallas e 60 Minutes.  Os seus hábitos de assistir televisão, porém, desafiam a caracterização acadêmica, tipicamente elitista, dos espectadores de televisão como “batatas de sofá”.  Quando está se sentindo extraordinariamente bem, minha avó conversa com a televisão.  Ela anda pela sala.  Ela grita com os personagens.  Sendo uma Democrata fã de Roosevelt (Franklin Delano Roosevelt), ela discute política com a televisão.  Eu já a vi quase maldizendo Ronald Reagan, Mike Wallace ou um vilão do 60 Minutes.

Dá MUITA vontade de ler o resto né? Pois sim, o resto também é tão bom quanto ;-)

quinta-feira, 5 de março de 2009

Sound Studies

Divulgo, abaixo, a ementa e programa do curso que darei na Pós-graduação em Comunicação da UFF neste semestre. O curso é aberto aos alunos dos Programas de Pós do Rio de Janeiro (pois temos um convênio entre os quatro programas). Outros pesquisadores de pós interessados na temática também são bem-vindos.



Curso – Estudos de Som e Música
Prof. Simone Pereira de Sá
Horário - Quintas-feiras -10.00 as 13 horas
04 créditos
Início:19 de março de 2009
Local: PPGCom UFF
Rua Tiradentes, 148 - Ingá - Niterói

O curso tem por objetivo apresentar aos alunos algumas questões ligadas ao campo dos estudos sobre sonoridade, música e audição na modernidade, a partir das mediações tecnológicas, chamado fora do Brasil de “Sound Studies”.
Partindo da discussão de Jonathan Sterne, na obra “The Audible Past” – que aborda a origem da reprodutibilidade técnica do som e a genealogia das formas modernas de escuta, o curso privilegia a discussão entre música e tecnologias da comunicação, a partir de quatro grandes eixos.
1) A escuta sonora na modernidade (original e cópia, analógico e digital, música e ruído, formatos e suportes da escuta, som e imagem no cinema e na tv, etc.)
2) Som e espaço urbano (Soundscape, cenas musicais e territórios sonoros, mobilidade e customização do som, celulares e I-pods, etc)
3) Formas de escuta e novos ambientes sonoros (música para games, plataformas sociais para distribuição de música tais como Last.FM e My Space, mash ups, experimentações da cultura musical underground)
4) Dilemas do campo da música – produtores x artistas, arte x indústria, copyright x copyleft, underground x mainstream, etc


Bibliografia básica:*

Adorno, Theodor – Essays on Music. (textos “The Curves of the needle” e “The form of the Phonograph”. Richard Leppert (ed). Berkeley, Univ. of California Press, 2002 (1927-1934)
Altman, Rick(ed) – Sound Theory, Sound Practice. New York, Routledge, 1992.
Braun, Hans-Joachim(org.) – Music and technology in the twentieth century. pp 158-167. Baltimore and London. John Hopkins Univ. Press, 2002
Bull, Michael – Sound Moves.Ipod Culture and urban experience.New York, Routledge, 2008.
Chion, Michel – Audio-Vision – Sound on Screen. New York, Columbia Univ.Press, 1994.
Collins, Karen – Game Sound. An Introduction to the History, Theory and Practice of Video Game Music and Sound Design. Cambridge, MIT Press, 2008.
Gitelman, Lisa – Always already new. Media, History and the data of Culture. Cambridge, MIT Press, 2006
Kittler, Friederich – Gramophone-Film-Typewriter.(trad. por Winthrop and Wutz) Stanford, Stanford Univ. Press, 1999
Schafer, R. Murray – The Soundscape. Our Sonic Environment and the tuning of the world.Rochester, Destiny Books, 1994 (1977)
Sterne, Jonathan – The Audible Past. Cultural Origins of Sound Reproduction. Durham, Duke University Press, 2003.
TAYLOR, Timothy – Strange Sounds –Music, Technology and Culture. London/New York: Routledge 2001
Thebergé, Paul – Any sound you can imagine: making music/Consuming technology. Hanover and London. Wesleyen Univ. Press/ Univ. Press of New England, 1997
*Obs – A bibliografia será complementada por artigos e capítulos de outros livros, que serão detalhados posteriormente, por ocasião da apresentação aos alunos do planejamento do curso aula a aula.