domingo, 30 de maio de 2010

Você já ouviu o Portugália hoje?

Quando dei início a minha atual pesquisa, no já longinquo ano de 2008, lembro-me de partir de um pressuposto algo questionável enquanto problema de investigação, que era a ideia de assimetria para explicar as trocas simbólicas e musicais entre Brasil e Portugal. Hoje posso afirmar que se o Tiago-pesquisador já não utiliza mais o conceito de ruídos & assimetrias como pressuposto de pesquisa, o Tiago-melômano continua incapaz de disfarçar um certo incômodo diante da indiferença que, no Brasil, parece cercar quaisquer evocações do imaginário musical luso. E o que me deixa mais chateado nem é o fato de as pessoas não darem a mínima para o que Portugal produz em termos de música pop – muita gente, eu inclusive, desconhece o que rola em termos de música pop no, sei lá, Azerbaijão e nem por isso o mundo deixa de rodar – mas sim os motivos por trás da recusa, quase sempre fundamentados por preconceitos bobos que chegam a impedir a pessoa de sequer escutar alguns segundos de determinada música a fim de emitir algum tipo de opinião. Fiz o teste com alguns camaradas meus e, via de regra, apenas os artistas que se expressam em inglês (Legendary Tigerman, Micro Audio Waves e, surpresa, Minta & the Brook Trout, cujo disco de estreia é de fato uma graça) conseguiram despertar algum tipo de adesão pré-escuta, do tipo, “ok, põe aí pra gente ver”. Quanto ao resto, a simples ideia de escutar alguém cantando em português de Portugal parecia suficiente para despertar a aversão das minhas cobaias. O (excelente, diga-se de passagem) último álbum do B Fachada só sobreviveu no cd-player até a metade porque a partir de um certo momento as pessoas se fixaram nas melodias e esqueceram das letras, a ponto de um amigo ter comentado “bacana isso, quem é?”, ao que eu respondi “o mesmo para o qual há dez minutos você havia torcido o nariz”.

Tenho pra mim que a gente devia prestar mais atenção no que a Terrinha produz em termos musicais quando não por uma questão de cortesia, dado o interesse que eles frequentemente demonstram por várias coisas que a gente manda pra lá. E nem me refiro à equalização – igualmente problemática que eu fazia no início da pesquisa – entre a Ivete Sangalo e o Samuel Úria. Falo de sujeitos tipo Romulo Fróes, que mesmo nas rádios brasileiras não costuma ser lá muito escutado, e com quem, para minha surpresa, esbarrei dia desses ao escutar, via internet, as edições antigas do Portugália. O Portugália é um programa quase diário – rola de segunda a quinta (22h), e aos domingos (17h) – que vai ao ar na Antena 3 e é apresentado pelo gente-boa-toda-a-vida Henrique Amaro, com quem tive a oportunidade de conversar enquanto estava morando em Lisboa, no ano passado. Durante o papo, volta e meia surpreendia-me com a menção reverente que o radialista fazia de determinado artista ou banda brazuca que eu, vergonhosamente, desconhecia. Ok que, no caso do Portugália, estamos nos referindo a um programa específico pilotado por um ator social específico no contexto de uma emissora de rádio já de resto bastante singular se comparada às vizinhas de dial (a outra exceção talvez seja o Agência Lusa da RadarFM, comandado pelo Pedro Moreira Dias, outra figuraça). Ainda assim, trazendo o problema pro lado de cá do Oceano e tirando iniciativas esporádicas como o RoncaRonca de Maurício Valadares, que outro programa de rádio confere espaço para imaginários musicais não-hegemônicos?

Então fica a dica. Se você quiser saber o que anda rolando de mais instigante no cenário musical pop-rock luso (e, ocasionalmente, no brasileiro também!), basta sintonizar o Portugália on line, em http://ww1.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=1074. E tenho dito.


***

No próximo post, prometo falar de dois lançamentos em disco dos mais aguardados por este que vos blogueia: o segundo álbum do Deolinda, intitulado “Dois selos e um carimbo” e o quinto de Tiago Guillul, simplesmente intitulado... “V”. Deste último, posso garantir que a manhosa “Sacudindo o pó dos meus pés” já é presença garantida na próxima festa do PPGCOM.

sábado, 15 de maio de 2010

Quem vai?


Uma boa forma de confrontar a evidência – quase sempre incômoda, por vezes reconfortante e geralmente inevitável – de que o tempo está passando é constatar que dois Rock in Rio Lisboa já transcorreram desde que você começou a fazer a sua pesquisa. Nos dias 21, 22, 27, 29 e 30 de maio, o Parque da Bela Vista, no subúrbio oriental de Lisboa, volta a sediar o evento que já teve mais edições na Terrinha do que na cidade onde originalmente nasceu. Parece ou não parece uma espécie de eco daquela discussão que atribui ao fado uma origem brasileira, embora ele tenha se consagrado como “música nacional” em Portugal? Eu acho que parece. De qualquer modo, e talvez justamente por causa desta particularidade, o Rock in Rio Lisboa sempre me soou como um belo estudo de caso para se analisar em que pé andam as relações simbólicas e musicais entre Brasil e Portugal.

Que o RIR Lisboa é um caso de sucesso me parece incontestável. Que seu perfil é muito mais massivo e “familiar” do que o perfil dos demais Festivais de Verão dos quais o RIR costuma ser uma espécie de tiro de largada idem (compare-se o Rock in Rio Lisboa com o Paredes de Coura ou mesmo o Sudoeste em termos de acessibilidade e presença de bandas hypadas e o Festival que começa semana que vem, ao alcance de cinco estações de metrô e dispensando a barraca de camping, mais se assemelhará à escalação musical de um programa da SIC do que à lista de melhores-discos-do-ano do suplemento Ípsilon). O que mais me interessa no RIR Lisboa como evento, contudo, é o modo como ele catalisa algumas das contradições mais instigantes do atual panorama musical luso-brasileiro, sobretudo no que tange à (1) suposta hegemonia da música brasileira em Portugal e (2) glorificada fase áurea do pop made in Portugal. Vamos a elas:

(1) Reza a cartilha do senso comum que a música brasileira é venerada pelos portugueses, fornecendo a – no mais das vezes – distorcida impressão de que o lugar ocupado pela nossa música na mídia lusa é equiparável ao da música massiva made in USA/UK. Pelo menos eu iniciei esta pesquisa defendendo esta hipótese. Sendo assim, é no mínimo desapontador (para a confirmação da minha hipótese, quero dizer) que uma artista como Ivete Sangalo esteja escalada para o ingrato horário da 20h30 (ok, no palco principal do primeiro dia de evento), abrindo os trabalhos para John Mayer e Shakira. As maiores surpresas nesse sentido parece que ficaram reservadas para o Palco Sunset que, tendo em vista o perfil deste tipo de Festival, corre o risco de ficar às moscas, com shows começando às 17h, quando a maior parte da galera ainda está descansando da ressaca da noite anterior antes de encarar uma nova rodada de shows noturnos. Quem madrugar na Bela Vista, entretanto, terá a oportunidade de conferir duetos luso-brasileiros apetitosos, como Rui Veloso, Maria Rita & Toni Garrido (22 de maio), Jorge Palma & Zeca Baleiro (dia 27), Tiago Bettencourt (ex-Toranja) & Tiê e Luis Represas & Martinho da Vila (dia 29) – se os shows do Palco Mundo, começando mais ou menos pelo mesmo horário, não ofuscarem as apresentações desta turma.

(2) A presença da música portuguesa no line up do RIR, curiosamente, obedece a uma dinâmica semelhante a que acomete os artistas brasileiros, mas a impressão que eu tenho é de que na edição atual há mais espaço para a música portuguesa no Palco Principal do que em anos anteriores, embora seja quase sempre na inglória condição de show de abertura (a fadista Mariza no dia 21, João Pedro Pais seguido do Trovante no dia 22, Xutos e Pontapés – oh, surpresa! – no dia 27 e o D’ZRT no dia 29). Já no palco Sunset, a música portuguesa é quase dominante: no dia 21, o cardápio oferece do fado alentejano de Antonio Zambujo ao fado felliniano do Oquestrada, passando pelo hip hop de Boss AC, que sobe ao palco junto com o músico angolano Yuri da Cunha; nos outros dias, além dos duetos luso-brasileiros já mencionados, rolará de Fingertips a Lucia Moniz, de Tim (dos Xutos) & Mariza ao rap do Expensive Soul. Estranho apenas a ausência de nomes como David Fonseca e Legendary Tigerman, pois se é de música massiva que o RIR se trata, nada mais natural do que incluir no line up dois dos músicos portugueses que mais venderam no ano que passou (embora depois do entrevero ocorrido no último Sudoeste, eu tenha sérias dúvidas de Paulo Furtado alguma vez será visto novamente em outro Festival de grande porte). Estranho, mas não me surpreendo, pois o massivo do RIR sempre esteve mais pra D’ZRT do que para David Fonseca (vejam que eu nem me dei ao trabalho de lamentar a ausência de um B Fachada ou mesmo do Blasted Mechanism...).

Enfim, tal qual Gordon Gekko, especulo, especulo. E aí, quem se habilita a continuar a discussão? Comentem, opinem, provoquem, façam o pino... A temporada dos festivais está apenas começando.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Vinis diferentões

Lembrei da Simone quando vi essa matéria: uma coleção de mais de 500 vinis de diferentes cores, formatos e impressões foi reunida no livro "Extraordinary Records", organizado pelo produtor Giorgio Moroder. O produtor se juntou com colecionadores e reuniu alguns dos discos esteticamente mais interessantes da música.

Trata-se claramente de uma baita reconfiguração do vinil, visto agora como produto diferenciado e em vários aspectos cult. Claro que a banda para a qual foi feito o vinil é relevante, mas o que mais importa nesses casos não é a música que eles contém, mas a materialidade do vinil em si. Olha que capas maravilhosas o livro tem:



Valerie Claire: Shoot Me Gino, Vinyl Multicolorido 12" polegadas, 1985, Blow Up Records


Vários artistas: The Label (Sofa), LP, 1979, The Label Records
The Rolling Stones: She Was Hot, Single com formato especial, 1984, EMI

Ron Wood: Sure The One You Need, LP Multicolorifo, 1974, Perfect Beat

Milltown Brothers: Here I Stand, Vinyl Entalhado 12", 1991, A&M Records



Demais né? Uma matéria interessante sobre isso está no site do UOL Música. E as informações sobre os discos eu tirei do site ABC Design.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Evento sobre crítica musical na Universidade Nova de Lisboa

Divulgando a pedido do colega Pedro Nunes (INET-MD/UNL)...


Critica musical.jpg

(Ok que o evento acontece um bocadinho longe da gente, mas divulgar iniciativas bacanas nunca é demais...)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Mão Morta no [Jornal do] Brasil

O Caderno B do Jornal do Brasil (quem diria!), cujo atestado de óbito eu havia decretado faz mais ou menos quatro anos, voltou a dar sinais de relevância cultural na última semana, ao veicular uma matéria sobre o grupo de rock português Mão Morta. A reportagem de André Duchiade merece discretos aplausos não apenas pelo caráter insólito da "descoberta", como também pela pertinência das especulações sobre a baixa penetração da música pop portuguesa no Brasil. Segundo o fã e jornalista Alex Antunes, "acho que a cultura pop portuguesa é nula no Brasil porque pop e português vão em direções opostas na cabeça brasileira. Portugal é o atavismo que queremos abandonar, pop é o mundo que queremos acessar. Com isso, perdemos muita coisa boa, porque a cultura portuguesa, quando quer ser radical, é radical mesmo."

A banda bracarense é das minhas favoritas no atual cenário do pop/rock luso, e foi a única cujo concerto me apeteceu conferir duas vezes - na abertura das Festas Populares de Corroios e como cabeça-de-cartaz no último dia do Noites Ritual do Porto, em duas performances completamente distintas. Seria capaz de conferir o Mão Morta uma terceira vez, sobretudo agora, que o grupo acabou de lançar um novo álbum, "Pesadelo em peluche" à venda nas melhores lojas (e acessível nos melhores soulseeks...). Faz parte da tradição da banda a alternância de discos mais experimentais com obras de maior apelo junto ao público, e depois de uma trinca de discos considerados "difíceis" (o paranóico "Nus", de 2004, o tour de force "Maldoror", de 2008 e do diálogo com a obra de Maya Deren em "Rituais transfigurados"), o Mão Morta regressa com um álbum repleto de riffs grudentos e invejável balanço. Na minha modesta opinião, fica assim-assim com o já clássico "Mutantes S.21" (do hit 'Budapeste'), embora estética e conceitualmente ele me pareça um primo distante do álbum de 1998, "Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável", ultrapop a despeito do título extenso e das inúmeras referências às reflexões de Guy Debord sobre a sociedade do espetáculo (!!).

O videoclipe do single "Novelos da paixão" já pode ser conferido on line. Excelente oportunidade para ser introduzido no universo demencial e delirante de Adolfo Luxúria Canibal e sua gangue. Já a íntegra da matéria do JB pode ser conferida aqui.