
Quando dei início a minha atual pesquisa, no já longinquo ano de 2008, lembro-me de partir de um pressuposto algo questionável enquanto problema de investigação, que era a ideia de assimetria para explicar as trocas simbólicas e musicais entre Brasil e Portugal. Hoje posso afirmar que se o Tiago-pesquisador já não utiliza mais o conceito de ruídos & assimetrias como pressuposto de pesquisa, o Tiago-melômano continua incapaz de disfarçar um certo incômodo diante da indiferença que, no Brasil, parece cercar quaisquer evocações do imaginário musical luso. E o que me deixa mais chateado nem é o fato de as pessoas não darem a mínima para o que Portugal produz em termos de música pop – muita gente, eu inclusive, desconhece o que rola em termos de música pop no, sei lá, Azerbaijão e nem por isso o mundo deixa de rodar – mas sim os motivos por trás da recusa, quase sempre fundamentados por preconceitos bobos que chegam a impedir a pessoa de sequer escutar alguns segundos de determinada música a fim de emitir algum tipo de opinião. Fiz o teste com alguns camaradas meus e, via de regra, apenas os artistas que se expressam em inglês (Legendary Tigerman, Micro Audio Waves e, surpresa, Minta & the Brook Trout, cujo disco de estreia é de fato uma graça) conseguiram despertar algum tipo de adesão pré-escuta, do tipo, “ok, põe aí pra gente ver”. Quanto ao resto, a simples ideia de escutar alguém cantando em português de Portugal parecia suficiente para despertar a aversão das minhas cobaias. O (excelente, diga-se de passagem) último álbum do B Fachada só sobreviveu no cd-player até a metade porque a partir de um certo momento as pessoas se fixaram nas melodias e esqueceram das letras, a ponto de um amigo ter comentado “bacana isso, quem é?”, ao que eu respondi “o mesmo para o qual há dez minutos você havia torcido o nariz”.
Tenho pra mim que a gente devia prestar mais atenção no que a Terrinha produz em termos musicais quando não por uma questão de cortesia, dado o interesse que eles frequentemente demonstram por várias coisas que a gente manda pra lá. E nem me refiro à equalização – igualmente problemática que eu fazia no início da pesquisa – entre a Ivete Sangalo e o Samuel Úria. Falo de sujeitos tipo Romulo Fróes, que mesmo nas rádios brasileiras não costuma ser lá muito escutado, e com quem, para minha surpresa, esbarrei dia desses ao escutar, via internet, as edições antigas do Portugália. O Portugália é um programa quase diário – rola de segunda a quinta (22h), e aos domingos (17h) – que vai ao ar na Antena 3 e é apresentado pelo gente-boa-toda-a-vida Henrique Amaro, com quem tive a oportunidade de conversar enquanto estava morando em Lisboa, no ano passado. Durante o papo, volta e meia surpreendia-me com a menção reverente que o radialista fazia de determinado artista ou banda brazuca que eu, vergonhosamente, desconhecia. Ok que, no caso do Portugália, estamos nos referindo a um programa específico pilotado por um ator social específico no contexto de uma emissora de rádio já de resto bastante singular se comparada às vizinhas de dial (a outra exceção talvez seja o Agência Lusa da RadarFM, comandado pelo Pedro Moreira Dias, outra figuraça). Ainda assim, trazendo o problema pro lado de cá do Oceano e tirando iniciativas esporádicas como o RoncaRonca de Maurício Valadares, que outro programa de rádio confere espaço para imaginários musicais não-hegemônicos?
Então fica a dica. Se você quiser saber o que anda rolando de mais instigante no cenário musical pop-rock luso (e, ocasionalmente, no brasileiro também!), basta sintonizar o Portugália on line, em http://ww1.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=1074. E tenho dito.
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No próximo post, prometo falar de dois lançamentos em disco dos mais aguardados por este que vos blogueia: o segundo álbum do Deolinda, intitulado “Dois selos e um carimbo” e o quinto de Tiago Guillul, simplesmente intitulado... “V”. Deste último, posso garantir que a manhosa “Sacudindo o pó dos meus pés” já é presença garantida na próxima festa do PPGCOM.







Divulgando a pedido do colega Pedro Nunes (INET-MD/UNL)...