Algumas pessoas realmente não têm do que reclamar quando o assunto é trabalho. Isso porque elas têm o trabalho dos sonhos de muitos marmanjos de plantão. Cheguei a esta conclusão ao assistir a determinados programas sobre gêneros musicais em canais a cabo. Um deles é o That Metal Show (TMS), apresentado pelo radialista Eddie Trunk e seus dois amigos, Don Jamieson e Jim Florentine.
O que mais me chamou atenção neste talk show underground foi o enquadramento deste estereótipo cultural num programa televisivo. Como fazer um programa em que os fãs de heavy metal se identifiquem? No caso do TMS, eles fizeram o seguinte: a grande sacada foi colocar pessoas (sejam malas ou não) que entendam do que estão falando. A pior coisa do mundo para um headbanger é perceber que alguém, quando fala de heavy metal, está tratando o estilo com desrespeito. Junte o cenário com baixa iluminação, móveis antigos, a predominância de roupas escuras e demais adereços de culto ao metal. Adicione entrevistas com ídolos; disputas de conhecimentos sobre bandas...uma ação para distinguir os verdadeiros amantes de metal dos, então, “posers”. Querendo ou não, as pessoas que possuem mais informações sobre determinadas bandas e foram a maior quantidade de shows possível, adquirem um certo status no grupo.
Por isso, para saber até quanto cada um conhece sobre o universo do heavy metal, existe o quadro “Detone o Trunk”. Neste momento, participantes da plateia testam os conhecimentos musicais de Eddie através de perguntas complicadas. Quando o apresentador erra a resposta, o “vencedor” escolhe um prêmio da “Caixa de Lixo do Eddie Trunk” (que de lixo não tem nada). A surpresa é trazida por Jennifer, uma loira dentro de padrões estéticos que encarna a personagem “Senhorita Caixa de Lixo”. Jennifer é o próprio estereótipo da “groupie” (mulheres que ganharam fama, nas décadas de 60 e 70, por se relacionarem com os membros de bandas).
O programa é ácido, recheado de ironia e muito sarcasmo, tanto dos apresentadores quanto dos convidados. Palavrões e brincadeiras de cunho sexual nunca são descartados. O clima do TMS já é revelado em sua abertura, com máximas do tipo:
“O heavy metal é nossa religião e o That Metal Show é sua igreja”;
“Este programa foi gravado como se fosse uma grelha automática. Nós ligamos e esquecemos”;
“O TMS foi gravado em um longo plano de sequência. Não temos a menor ideia de como editar isso”;
“O heavy metal está em nosso DNA!”;
“O That Metal Show foi gravado porque vocês não estavam lá. Sim, realmente nos importamos com vocês!”;
“Este é o seu lar quando se trata de hard rock e heavy metal”;
É neste ambiente que os entrevistados contam curiosidades sobre bastidores das turnês, das gravações dos álbuns, das festas de arromba, de suas tentativas frustradas ou não de se livrar das drogas, de como destruíam hoteis....No final das entrevistas, os três apresentadores acabam se gabando de que são amigos dos ídolos, e de como isso é surreal para eles até hoje.
Durante estes “trinta minutos de puro heavy metal na sua televisão”, um dos quadros mais esperados é o “Throwdown”. Nele, apresentadores e convidados têm dois minutos para discutirem sobre formações de bandas; álbuns; turnês; histórias bizarras etc. Quando o tempo termina, eles escolhem qual banda é a melhor de acordo com a categoria escolhida. Enfim, o programa faz tanto sucesso entre os ídolos do metal, que Kirk Windstein, guitarrista do Down, tatuou o símbolo do TMS no peito. Situação explorada em uma das matérias especiais do programa.
Bem, forçando ou não esta atitude rock'n roll na televisão, acredito que este seja um daqueles fortes exemplos que se encaixam muito bem na categoria “empregos dos sonhos”. Se eu tivesse a oportunidade de trabalhar num programa desses, iria correndo. (Desde que não fosse como a Senhorita Caixa de Lixo). Mas, enquanto esta oportunidade não chega, continuo acompanhando os episódios do “That Metal Show” na VH1, às segundas, às 21hs.