Dica de leitura obrigatória para quem se interessa por cultura hip hop, sobretudo pra galera que está iniciando uma pesquisa acadêmica sobre o assunto: “Fixar o movimento – representações da música rap em Portugal” (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2003, com prefácio de Gilberto Velho), resultado de uma dissertação de mestrado em Antropologia defendida pela autora Teresa Fradique no ISCTE. Quem conhece a minha pesquisa sobre pop/rock português sabe que ela meio que passa ao largo do rap e do hip hop (o que talvez constitua uma lacuna séria, ainda estou às voltas com esse dilema...); este fato, contudo, não impediu que a leitura do livro de Teresa me trouxesse alguns insights metodológicos indispensáveis, que transcendem a especificidade do objeto rap e se aplicam às pesquisas sobre música, mídia e culturas juvenis contemporâneas de modo mais amplo.
Dá gosto ver, nos dois primeiros capítulos (de cunho mais “técnico” e com toda aquela precisão no lidar com os conceitos muito característica da Antropologia), como a autora vai desmontando, uma a uma, as armadilhas mitificadoras que o próprio tema por vezes coloca. É tudo de uma lucidez e maturidade raras por estas bandas, e ao afirmar isso sei que algumas pessoas podem ficar incomodadas com essa declaração, mas basta ver a parca quantidade de publicações efetivamente consistentes sobre música popular midiática em Portugal para vocês verem que eu não estou exagerando. Por tudo isso, “Fixar o movimento” é obra que merece atravessar o oceano e figurar entre as melhores obras de Antropologia urbana em língua portuguesa. Alô, alô, editoras universitárias brasileiras, anyone, anyone?
Perdoem o post (a princípio) pouco acadêmico, mas esta é para aqueles que curtem música eletrônica e querem pular um carnaval diferente este ano!
Dos dias 10 a 16 de fevereiro ocorrerá, na Marina da Glória (RJ), o Rio Music Conference. Trata-se de um evento voltado totalmente para a música eletrônica, que conta com palestras gratuitas (dias 10 e 11/fev), workshops, painés e, claaaaaro, muita música (dias 12 a 16/fev).
Alguns dos DJs que vão tocar são: Armin Van Buuren (que também participará de debate no dia 10), Erick Morillo, Steve Angello, além dos brasileiros Renato Ratier, Leo Janeiro, Flow & Zeo, só para citar alguns nomes.
As palestras prometem ser bastante interessantes, tanto no quesito "temas" (Mundo Digital, Momento DJ, Direitos Autorais, Música Independente etc.), quanto no quesito "participantes e mediadores" (Joe Roberts da DJ Mag UK, DJ Magal, Gaía Passarelli do rraurl, entre muitos outros). Espero apenas que a organização dê espaço para o pessoal da plateia fazer perguntas...
O site do evento é: http://www.riomusicconference.com.br/
Parece que fazer pesquisa de campo em pleno carnaval não vai ser tão ruim... ;)
Neste meu mês muito nerd, acabei de ler um artigo de Kay Dickinson analisando um videoclipe MUITO legal do Busta Rhymes: Gimme Some More, de 1997. O material foi dirigido pelo grande Hype Williams, um baita diretor que dirige clipes principalmente de artistas afro-americanos.
Eu adoro esse videoclipe porque ele satiriza o cartoon, porque é esteticamente criativo, porque é hiper bem editado e porque consegue fazer as imagens falarem ao som da música, ou seja, é bastante sinestésico.
A questão que me intrigou no artigo é que o principal argumento da autora afirma que este videoclipe é um ótimo exemplo de audiovisual que, através de uma "metáfora sinestésica", mostra "claramente" uma crítica à cultura racista que predomina até hoje nos Estados Unidos. Através de metáforas, diz a autora, vemos inicialmente um american way of life sendo transgredido. E os afro-americanos, que aparecem pouco em audiovisuais de maneira geral e sempre em papéis fixos e estereotipados, neste videoclipe são percebidos como personagens diferentes, engraçados e descolados.
Bem... aí eu fiquei pensando: se o videoclipe traz um monte de mensagem usando metáforas, como a gente pode afirmar que essas mensagens estão "claramente" presentes no vídeo? Tenho que confessar que até ler o artigo, eu não via neste videoclipe nada nesse sentido. A não ser, é claro, o fato de saber que Hype Williams é um lutador contra o preconceito racial.
Os argumentos são até legais para quem estuda videoclipe (a autora afirma, por exemplo, que a sinestesia pode também trazer algo de político, indo de encontro à principal crítica feita a ela), mas eu achei a argumentação um pouco forçada :/
Nestas quentes férias cariocas (ontem a sensação térmica chegou a inacreditáveis 45 graus...), estou no último capítulo de um livrinho muito útil para pesquisadores/amantes de novas tecnologias, audiovisual e música: YouTube: a revolução digital, de Jean Burgess e Joshua Green.
Pois é, um livro sobre o YouTube. Seguindo uma corrente liderada por Henry Jenkins, o mago contemporâneo da convergência cultural, o livro aborda o YouTube sob a perspectiva da cultura participativa, uma característica fundamental do site para a qual eu ainda não tinha dado a devida importância. Além de analisar o modelo de negócios (essa parte achei meio chatinha) e a história de surgimento do YouTube, o livro conta interessantes casos de pessoas comuns que através de seus canais, comentários, videos amadores, vlogs e muito mais, estão inseridas em uma imensa e complexa rede social que tem a sua própria lógica. Isso é denominado pelo autores de "Youtubidade" (adooro neologismos, hehe).
Uma das histórias fofíssimas se refere ao usuário "geriatric1927", um viúvo britânico de 82 anos que faz experimentações simples usando o Windows Movie Maker e comentários pessoais sobre tudo em seu canal. Seu primeiro vídeo, denomidado humildemente de "First Try" foi postado em 2006 e até agora tem mais de 2,8 milhões de acessos. Seu canal conta com mais de 51 mil assinantes e vem crescendo constantemente. Peter, o dono do canal, já fez até gora 222 vídeos. Quem não se apaixona por um velhinho simpático, modesto e tecnológico?
O vídeo é tosco mas arrebatou corações ao redor do mundo. Inclusive o meu :-)
Além de história muito interessantes com esta, o livro conta com um artigo de Henry Jenkins ("O que aconteceu antes do YouTube?". O texto notoriamente segue o pensamento de Raymond Williams ao tentar mostrar a necessidade social que já estava patente no mundo todo antes do nascimento do site) e um artigo de John Hartley sobre YouTube e alfabetização digital (este é o último capítulo. Ainda não li).
Enfim, uma leitura agradável para dias quentes, quentes, quentes.
Depois que a XM de Coimbra anunciou que ia fechar as portas para mudança de endereço, e a Louie Louie do Chiado, em Lisboa, começou a deixar a desejar no quesito variedade de acervo, fiquei meio órfão no quesito lojas-de-discos-bacanas-além-mar. Até descobrir a Carbono, que fique registrado. Não se deixe enganar pelo site, que dá toda a pinta de não ser atualizado desde a década passada: a Carbono é um autêntico lugar de perdição onde viciados em LPs, CDs e DVDs de segunda mão são capazes de passar tardes inteiras à cata daquele álbum que pode mudar a sua vida, além de te deixar um punhado de euros menos favorecidos. Fica na Rua do Telhal (o acesso se dá pela Rua das Pretas, justo no momento em que ela começa a virar uma ladeira hardcore), perpendicular à Avenida da Liberdade, no lado oposto à Praça da Alegria.
Os LPs mais bacanas custam um bocadinho caro, é verdade (coisa que me parece uma constante em toda a Europa, aliás), mas garimpando bem dá pra encontrar muita coisa boa em CD na faixa dos 5 a 10 euros (artigos que na FNAC sairão por mais de 15 ou sequer estarão disponíveis). Fora as caixas, boxes e antologias afins, que no momento não são para o meu bico.
O grande diferencial da Carbono, contudo, fica logo à entrada da loja: uma prateleira de DVDs especializada em gore/exploitations diversos/pornô clássico-vintage onde sempre paro antes de explorar os CDs. A maioria dos artigos desta seção é importada, o que dá uma levantada considerável no preço, mas onde mais seria possível encontrar “Il gatto Nero” de Lucio Fulci com legendas em norueguês? Há disparates fora do meu escopo monetário, como uma caixa do Jodorovsky a meia-centena de euros ou uma edição da Criterion Collection do alucinado e reichiano “Sweet movie”, de Dusan Makajeiev por 30, embora – de novo – não há nada que uma boa pesquisa não resolva: nessa brincadeira, arrematei uma boa caixa com os cinco primeiros longas-metragens de Mario Bava a honestos 25 euros (média de 5 euros por cada filme, o que me parece bastante razoável) e, por um valor semelhante, um belo Box do Zé do Caixão. No caso, Coffin Joe, já que a edição era Made in UK.
***
Alguns de vocês devem estar se perguntando por que diabos eu vim até Lisboa para comprar um Box inglês do José Mojica Marins. Eu respondo: porque ele deixa no chinelo a até bastante boa caixa que a Cinemagia lançou no Brasil já faz uns cinco, seis anos. Além de ser mais em conta para o bolso (na última vez em que vi esta caixa a venda no Brasil, ela saía por cerca de 140 reais, e hoje desconfio que a mesma esteja fora de catálogo), o Box inglês possui o adicional de trazer mais dois filmes que, no Brasil, só existem em VHS – “A estranha hospedaria dos prazeres” e “Inferno carnal” – plus o documentário sobre o cineasta dirigido pela dupla Barcinski & Finotti, outrora premiado em Sundance. Ok que a caixa brazuca ganhava muitos pontos no quesito extras, mas vamos combinar que alguns deles eram bem dispensáveis.
Ao fim e ao cabo, taí mais um aspecto que nos aproxima de Portugal: falta dar mais valor à prata da casa...
***
O Pai Natal passou rapidinho aqui pela Alfama (o trânsito na IC19 andava meio congestionado por causa da chuva) e deixou perto do meu aquecedor/ grelhador de sardinhas a edição em vinil do mais recente álbum do mestre Tom Waits. “Glitter & doom” é o registro da célebre turnê que percorreu o interior dos Estados Unidos e alguns palcos pouco óbvios da Europa no ano retrasado – mas não passou por Portugal e, oh que surpresa, também não pelo Brasil. O álbum encontra-se disponível em LP e CD duplos, sendo que o CD2 é uma espécie de spoken word demencial com quase 40 minutos de Waits tergiversando sobre a vida, o universo e tudo o mais. Aqueles que optaram pelos bolachões recebem junto com o belo disco um cupom para sacar, no sítio da gravadora Anti-, não apenas a supracitada faixa de blábláblá (não incluída no vinil) como também a íntegra de “Glitter & doom” em mp3. Ou seja, nós sabemos que todo mundo vai ouvir o álbum nos seus players e Ipods mesmo, então nada mais justo que disponibilizar os arquivos com uma boa qualidade de som a quem já adquiriu o LP. Isso diz muita coisa sobre o modo como estamos ouvindo música hoje em dia, não? Eu acho que sim. O line up do show cobre parte significativa da carreira de Waits pós-“Swordfishtrombones”, dando preferência à recriação indecifrável de faixas obscuras de seus discos mais recentes que pouca gente ouviu – em outras palavras, nada de “Downtown train” ou “Ol’55” em “Glitter & doom”, o que pode tornar a experiência um bocado árida para os não convertidos.
Blog coletivo do Laboratório de Pesquisa em Culturas e Tecnologias da Comunicação - LabCULT. Comentários, resenhas de livros, entrevistas e artigos acadêmicos sobre cibercultura, com foco no entretenimento e na cultura da música são os assuntos dos posts. Plataformas musicais, tecnologias para a produção, circulação e consumo musical; cultura participativa, videoclipe, identidades e gêneros musicais, música eletrônica, música underground, música pop, games e narrativas digitais são alguns dos temas que pesquisamos e, sobretudo, adoramos discutir. Comente os posts e se quiser falar com algum pesquisador diretamente, os e-mails estão na seção logo abaixo.
Pesquisar este blog
Quem participa do LabCULT
O LabCULT é coordenado por Simone Pereira de Sá e vinculado à linha de Tecnologias do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM/UFF) e ao Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense. Veja abaixo, mais informações sobre titulação, tema de pesquisa e interesses de cada um dos participantes, além dos nossos contatos.