
Dica de leitura obrigatória para quem se interessa por cultura hip hop, sobretudo pra galera que está iniciando uma pesquisa acadêmica sobre o assunto: “Fixar o movimento – representações da música rap em Portugal” (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2003, com prefácio de Gilberto Velho), resultado de uma dissertação de mestrado em Antropologia defendida pela autora Teresa Fradique no ISCTE. Quem conhece a minha pesquisa sobre pop/rock português sabe que ela meio que passa ao largo do rap e do hip hop (o que talvez constitua uma lacuna séria, ainda estou às voltas com esse dilema...); este fato, contudo, não impediu que a leitura do livro de Teresa me trouxesse alguns insights metodológicos indispensáveis, que transcendem a especificidade do objeto rap e se aplicam às pesquisas sobre música, mídia e culturas juvenis contemporâneas de modo mais amplo.
Dá gosto ver, nos dois primeiros capítulos (de cunho mais “técnico” e com toda aquela precisão no lidar com os conceitos muito característica da Antropologia), como a autora vai desmontando, uma a uma, as armadilhas mitificadoras que o próprio tema por vezes coloca. É tudo de uma lucidez e maturidade raras por estas bandas, e ao afirmar isso sei que algumas pessoas podem ficar incomodadas com essa declaração, mas basta ver a parca quantidade de publicações efetivamente consistentes sobre música popular midiática em Portugal para vocês verem que eu não estou exagerando. Por tudo isso, “Fixar o movimento” é obra que merece atravessar o oceano e figurar entre as melhores obras de Antropologia urbana em língua portuguesa. Alô, alô, editoras universitárias brasileiras, anyone, anyone?