sábado, 28 de fevereiro de 2009

Museu da Língua - novas tecnologias e velhas teorias



Separando material para a disciplina "Mídia e Educação" que vou oferecer na UFF este semestre, me lembrei da visita que fiz ao Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo, um dia depois do Congresso da ABCiber, em novembro passado. Foi uma experiência que me fez pensar, mais uma vez, como o potencial das novas tecnologias é desperdiçado, porque continuamos presos a um modelo de educação e de construção de conhecimento funcionalista.
A visita começou com a projeção de um filme sobre a língua portuguesa falada no Brasil, numa tela gigantesca. Aliás, uma não, são três telas com a exibição simultânea de três imagens diferentes em que anônimos e famosos narram a história da língua que falamos. Estava na quarta fila. À minha frente, só crianças. Atrás, adolescentes. Todos embasbacados com o espetáculo visual e auditivo que acontecia naquela sala de cinema. Quando o filme acabou, a tela foi suspensa e entramos em uma outra sala, agora em formato de arena. Os guias que acompanhavam as crianças e os adolescentes uniformizados foram indicando os lugares nas pequenas arquibancadas que rodeiam a sala. Enquanto entrávamos, uma voz repetia o verso de Drummond:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Penetra surdamente no reino das palavras.

E a sensação era de que estávamos sendo penetrados, pelas palavras e pelo mundo que a gente constrói com elas, pois letras e imagens projetadas - idealização de Arthur Nestroviski e José Miguel Wisnik, com direção artística de Marcelo Dantas - iam e vinham no teto e nas quatro paredes da sala, enquanto as crianças se admiravam:
- Olha, quantas palavras!
- Caramba!
- Coqueiro!
- Queijo!
- Palavra!
- Quei-jo. Pa-la-vra.
- Olha! [o mar]
- Jo-ão Gui-ma-rães Ro-sa.
- Que isso, parece que está chovendo!

Estava achando tudo ó-ti-mo, até que...
Nelson Cavaquinho começou a cantar.

O sol...há de brilhar mais uma vez
A luz...há de chegar nos corações
O mal...será queimada a semente

As crianças e os adolescentes, entusiasmados, começaram a bater os pés no chão, no ritmo da música, e foram repreendidos pelos guias - ao que parece, contratados pelas escolas - que as acompanhavam.
- Xiiiiiiiiiiiiiii.
A partir daí, eram xiiiiis e mais xiiiiiiis, seguidos de frases como:
- Se vocês não pararem vamos acabar com a projeção e tirar vocês daqui.
Os adolescentes e as crianças tentavam acompanhar a projeção em silêncio, mas era difícil resistir a misturas como trechos do poema de Gregório de Mattos, escrito no século XVII, na voz do rapper paulistano Rappin' Hood:

Que falta nesta cidade?……………Verdade
Que mais por sua desonra?………Honra

Falta mais que se lhe ponha……..Vergonha

Saindo da projeção, havia muitas outras coisas interessantes no museu. Uma sala interativa, no segundo andar, mostrava a história da língua portuguesa, dos primórdios ao "internetês", passando pelas gírias de grupos sociais específicos (grafiteiros, presidiários, prostitutas), pela influência de outras línguas no português do Brasil e pelo papel que os meios de comunicação tiveram na mudança dos padrões linguísticos.
Crianças chegaram com o guia da escola e se espalham pelos monitores eletrônicos. O guia advertiu:
- Vocês podem olhar os monitores, mas o primeiro que correr vai ficar sentado no banco no meio da sala.
Um outro grupo teve menos sorte. As crianças não puderam interagir com os monitores, tiveram que seguir a linha do tempo da língua, atrás do guia que falava muito rapidamente, simplificando os fatos e pulando etapas:
- Prestem atenção, porque vai cair na prova.
Entrou um grupo de adolescentes. A guia - desta vez, do próprio museu - perguntou:
- Em algum lugar do mundo fala-se latim?
- ...
- Vocês estão na 8ª série, já deveriam ter bagagem suficiente para responder isso, né?

Por sorte, nem todo o cenário era assim. Na exposição temporária do primeiro andar, sobre Machado de Assis, um guia de cabelos compridos, jaqueta de couro e brinco na orelha instigava outro grupo de adolescentes. Mas não era só a roupa que fazia diferença. As perguntas eram outras, o modo de percorrer os corredores e interagir com o espaço era outro.
- O que essas imagens passam para vocês? - perguntou, diante de reproduções enormes de fotografias da época da escravatura.
Cada adolescente respondeu uma coisa diferente.
- Então, viram como uma mesma imagem pode gerar muitas interpretações? - e seguiu-se um papo sobre escravidão, relações sociais, o papel da fotografia e da literatura na história, etc.
O Museu da Língua Portuguesa é movimentadíssimo. Recebe a visita de 20 a 25 escolas por dia, inclusive aos sábados, e a presença de um público majoritariamente jovem fica registrada nos livros de visita, cheios de recados amorosos, desenhos e assinaturas estilizadas, como as carteiras escolares.
Já ouvi elogios e críticas em relação a ele. Do lado dos elogios, a exaltação da tecnologia, como se o fato dela estar sendo aplicada dentro de um museu, por si só, fosse atrair público e provocar um mergulho na língua portuguesa. Do lado das críticas, o velho argumento de que o uso das novas tecnologias, das imagens e dos sons simplifica o conteúdo (para ler uma delas, do escritor Sérgio Rodrigues, clique aqui). Em ambas as opiniões, esquece-se do público ou, para falar a linguagem da comunicação, volta-se ao esquema informacional em que o emissor provoca efeitos no receptor, enquanto o que deveríamos discutir é de que modo os frequentadores - em sua maioria, crianças e jovens - dão significado a esta experiência e de que modo as tecnologias disponíveis podem ser utilizadas na construção - e não só na reprodução - de novos conhecimentos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

É o máximo!!

De Leonard Cohen, citado na matéria do Globo de hoje que iluminou meu café da manhã, sobre as suas músicas sendo mais conhecidas em regravações de outros cantores:

- Meu sentido de posse com essas coisas é muito fraco - diz. - E isso não resulta de uma disciplina espiritual. Sempre foi dessa maneira. Meu sentido de propriedade tem sido tão débil que, na verdade, não presto atenção e deixei de ganhar os direitos autorais de um monte de canções.

E sobre os rumos da própria vida, aos 74 anos: "Há muito que já deixei de querer ter controle sobre isto"

Pausa para suspiros...

Mas, antes que vocês acusem este blog de estar muito mulherzinha -( hã? eu? mais suspiros) informo também que Cohen está em turnê pelos Estados Unidos e depois entre em estúdio pra, oba!, gravar um novo disco.

PS -Eu li no Globo impresso, mas parte da matéria tá no online. Googleia aí!!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Ultimamente, várias das minhas pesquisas no Google têm acabado em Baltimore, capital do estado estadunidense de Maryland. Um dos caminhos que me levaram até lá: John Waters, por quem tenho me interessado bastante ultimamente. Tem também o Animal Collective, banda que conheci no ano passado - e que me foi apresentada pela Marina, orientanda do Marildo. E o bom e velho psychobilly, estilo que todo mundo deve já conhecer mas que sobre o qual eu gosto sempre de falar.
Bom, vou seguir com o Waters e com o psychobilly, e só dou a dica de que o Animal Collective é um prato cheio para quem curte música experimental e/ou simplesmente inovadora!

Acredito que já esteja muito bem disseminado que Baltimore está para o John Waters como o Rio de Janeiro está para Vinícius de Moraes (por mais infame que esta comparação pareça). Uma enorme parte dos filmes dele tem seus enredos desenrolados no espaço ora transgressor ora burguesamente suburbano de Baltimore. Não só em Pink Flamingos ou em Hairspray, mas também em outros trabalhos antológicos seus como Female Trouble e Mondo Trasho, é exaltada a receptividade e a repulsa que a população da sua terra natal tem simultaneamente em relação à juventude.
Gosto bastante de que antes mesmo dos eventos de Stonewall, ocorridos em 1969, John Waters problematizava de maneira sarcástica e inventiva tabus sexuais. Expulso da faculdade de cinema da New York University em 1966 por ter usado drogas no campus, Waters volta a Baltimore para filmar roteiros completamente anti-comerciais com seu velho amigo de infância Glenn Milstead - que ficou conhecido principalmente como a drag queen Divine. E não foi à toa que a filósofa Judith Butler fez referência a esta dupla na introdução de seu livro Gender Trouble, de 1990 (lançado dois anos após a morte de Divine). Sem reivindicar nada além do direito à ironia e ao choque, Waters foi sem dúvida um dos grandes instauradores da subversão da identidade de gênero sexual na cultura pop.
Utilizando o rock 'n' roll dos anos 50 e 60 como trilha sonora, Waters trouxe para o cinema figuras infames como Patty Hearst - que na vida real aderiu a um grupo terrorista depois de ter sido seqüestrada por ele - e Traci Lords, atriz e cantora que burlou a legislação da indústria de filmes pornográficos ao estrelar neles quando ainda era menor de idade.

Ainda pensando no John Waters, Baltimore, rock 'n' roll e drapes em geral, aproveito para indicar um link que acho bem legal: é um portal psychobilly de Baltimore, que tem uma rádio virtual bastante interessante para quem quer conhecer melhor do estilo, além do subportal The Subculture Collective, cheio de informações a respeito de psychobilly, hellbilly e rockabilly. Aviso: a página da rádio tem alguns anúncios e um aspecto um tanto quanto rústico, mas não se preocupe com pop-ups indesejadas ou spywares.

E no começo deste mês, o mundo perdeu um dos mais ativos participantes do psychobilly e do punk nova-iorquino: o vocalista do The Cramps, Lux Interior. Membro de uma das primeiras gerações de artistas que fizeram de palco o C.B.G.B.s, o Lux morreu de problemas decorrentes do coração. Sua morte repentina foi um choque para os fãs e para a sua esposa e parceira de palco, Poison Ivy, que o acompanhou durante 37 anos.
Abaixo, segue um video do The Cramps de 1995. A música, que se chama Naked Girl Falling Down the Stairs leva um tempo para começar (25 segundos).

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Carnaval Off Rio

Se você não gosta da folia, mesmo sem ser doente do pé, deixo aqui duas ou três diquinhas de Carnaval off, para você se divertir durante o feriado.

A primeira acontece daqui a pouco e estou correndo pra lá. As oito, no Plano B, Enema e Gejonte, um duo que faz um industrial que - acabei de conferir no My Space - achei bem bacana. E ouvi falar que ia ter tb um bloco saindo do Plano B - mas esta informação eu não consegui conferir. ( O plano B fica na Francisco Muratori, na Lapa, ali pertinho da Cecilia Meirelles)

A segunda é o tal festival de música eletrônica - Rio Music Conference - que tá rolando desde quarta lá na Marina da Glória. Tudo bem que o evento é um pouquinho comercial demais - ou, na linguagem dos informantes de Marcelinho, mainstream. Um monte de Djs gringos, workshops, conferências. Mas, amanhã tem o Pete Tong - claro que vcs sabem que é aquele DJ que tem um programa na BBC. É pop, mas é bacana (tocando com Gui Boratto) e acho que vale conferir. E a Marina é sempre muito legal com este calorão.

Depois, tem na segunda-feira o Bloco dos Malditos, as oito da noite, em frente à Casa da Matriz em Botafogo - deve ser engraçado.

Finalmente, esta dica é de um bloco. Mas, ele é sui generis...o Zoo Bloco. É que vai todo mundo fantasiado de bicho, e ele só toca músicas com temática de bichos.É super engraçado e o local é bacana - a histórica Praça Quinze.Na terça, as quatro da tarde.

Ah! e se vc quer fazer uma festinha, descobri hoje (na Academia!) um CD imperdível chamado O Bonde das Marchinhas. Tem MC Catra, Latino, Bochecha e outros cantando marchinhas em ritmo de funk. Quiemei um CD na hora e estou ouvindo sem parar - é muito bom!

Fecho este post desejando pros leitores, durante o Carnaval, aquilo que Tim Maia pedia:"Mais grave, mais agudo, mais eco, mais retorno, mais tudo!"

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Prix Ars Electronica 2009

Divulgo mensagem que recebi dos organizadores desta importante premiação. Se alguém tiver sugestões, encaminhem nos comentários.

"For the 23rd time, Prix Ars Electronica, the foremost international prize for computer-based art, calls for entries in the categories Computer Animation / Film / VFX, Interactive Art, Hybrid Art, Digital Communities, Digital Musics, [the next idea] Grant, the Media.Art.Research Award and u19 - freestyle computing, Austrian´s largest youth computer competition.More than 3,000 submissions in 2008 have further enhanced Prix Ars Electronica´s reputation as an internationally representative competition honoring outstanding works in the cyberarts. This year, six Golden Nicas, twelve Awards of Distinction and approximately 70 Honorary Mentions, [the next idea] Grant as well as the Media.Art.Research Award are presented to participants. The 2009 winners will receive a total of 122,500 euros in prize money.We would like to ask you to help us 'spread the word' in your community by circulating the information as widely as possible. We also would be very glad if you could help us identify some projects, which in your opinion should participate in the competition. Please nominate such projects for the competition via our website: http://email2.terra.com.br/cgi-bin/vlink.exe?Id=cA6QitnJ19Nb8daEgSwDTtEWHwHCNPSUAm%2BD7qOhG1xirfSzOJZ8kw%3D%3D&Link=http%3A//www.aec.at/prix_nominate_en.php For a detailed description of the competition, please consult our website http://email2.terra.com.br/cgi-bin/vlink.exe?Id=cA6QitnJ19Nb8daEgSwDTtEWHwHCNPSUAm%2BD7qOhG1xirfSzOJZ8kw%3D%3D&Link=http%3A//prixars.aec.at The deadline for submissions is March 6, 2009(Please note a special submission deadline for the Media.Art.Research Award: February 20, 2009)If you need any further information or support, please do not hesitate to contact: info@prixars.aec.at With best regards,Bianca PetscherBianca PetscherProducer Prix Ars ElectronicaArs Electronica Linz GmbH Hauptstraße 2-4 4040 Linz, AustriaTelefon: 0043-732-7272-79 Fax: 0043-732-7272-674 E-Mail: info@prixars.aec.at http://email2.terra.com.br/cgi-bin/vlink.exe?Id=cA6QitnJ19Nb8daEgSwDTtEWHwHCNPSUAm%2BD7qOhG1xirfSzOJZ8kw%3D%3D&Link=http%3A//prixars.aec.at"

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Falando em documentários sobre personagens musicais...



Quem “abre” o show de Frejat sábado agora, dia 14, é o documentário 'LOKI - Arnaldo Baptista'. O filme sobre o ex-mutante (e que conta co a participação de Tom Zé, Gil, Sean Lennon, Lobão, entre outras personalidades musicais) será exibido ao ar livre no Morro da Urca, no projeto Verão do Morro.



Para mais detalhes sobre o evento, clique aqui .

Músicas mais executadas pelas rádios comerciais portuguesas em 2008

Deu na Blitz: a música mais executada pelas rádios portuguesas em 2008 foi “Apologize”, do One Republic + Timbaland., segundo dados fornecidos pela Associação Fonográfica lusa. Na vice-liderança, “Mercy”, de Duffy – a Amy Winehouse em versão careta. A terceira posição ficou com “The story”, de Brand Carlile. “A tabela foi construída com base na audição de 16 rádios nacionais: RDP Antena 1, RDP Antena 3, Best Rock, Capital, Cidade FM, Festival, Mega FM, Nova Era, Orbital, Radar, Rádio Clube de Matosinhos, Rádio Comercial, RFM, Rádio Renascença, TSF e 94 FM.”

Ainda segundo a revista, o artista português que alcançou a melhor colocação na lista foi o grupo pop Per7fume, um projeto musical composto por ex-membros de bandas como Blunder e Ornatos Violeta, com a canção “Intervalo”. O clipe pode ser conferido aqui – o tiozinho que dueta com os rapazes é ninguém mais ninguém menos do que Rui Veloso. Outro que também marcou presença na lista foi David Fonseca, ex-líder dos Silence 4 e atual queridinho do pop luso, com duas canções: “Kiss me, oh kiss me” e “Superstars”.

Dos temas portugueses que fazem parte da lista de 50 músicas mais executadas, 12 cantam na língua de Camões e apenas 3 cantam em inglês. Ok que a pesquisa se baseou em dados obtidos junto às emissoras de circulação massiva (não cobrindo, portanto, os veículos mais “alternativos”), mas esse dado não deixa de ser surpreendente, uma vez que meu mapeamento-relâmpago da cena undergound lisboeta, em outubro, me revelou justamente o contrário: uma predominância das bandas que ou cantam em inglês, ou fazem um som próximo do chamado post-rock, sem letras e com muitas dissonâncias, a exemplo do duo Galadrop, ultra-festejado pela crítica do jornal Público.

A pergunta que não quer calar, contudo, continua sendo: cadê o Tony Carreira?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Salve ela!



Dediquei quatro anos da minha vida a esta mulher!E não me arrependo. Minha musa, pra mim ela é "o cara".

Como vocês já devem ter ouvido em algum Jornal Nacional da vida, Carmen Miranda faria cem anos na data de hoje.

O que dizer sobre ela... Bem, muito do que eu queria dizer, escrevi na minha tese de doutorado e depois no livro - que se chama Baiana Internacional - As mediações Culturais de Carmen Miranda (MIS-2001)
.
Mas, só pra lembrar - foi uma das mais importantes cantoras do Brasil.Participou da invenção da indústria do entretenimento musical, foi a cantora mais bem paga da década de 30, arrebentou nas telas de Hollywood, inventou modas copiadas até hoje, inspirou meio mundo - do Caetano tropicalista até o movimento gay e de quebra, fica impossível falar de música e identidade nacional no Brasil sem tocar no nome dela.

Acho pouco qualquer homenagem que se faça a Carmen.E, mesmo já distante da pesquisa que realizei sobre esta personagem tão bacana da música e da cultura brasileira, posso sentir as marcas que ela deixou na minha vida - no amor que tenho pela música do Rio de Janeiro, pelas boas risadas que dei ao assistir aos filmes dela para a tese e ao encanto que ela ainda produz cada vez que vejo sua imagem tropical explodir em qualquer fotografia.

Faço coro com Caetano, então, pra cantar - Viva a ban-da-da-da, Carmen Miranda,da-da-da-da!

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Documentário dos Titãs

“Pra que tudo isso? Isso é rock and roll! Tá parecendo Yes, cara!” – o produtor Liminha constrange o baterista dos Titãs, Charles Gavin, interrompendo a execução de uma música para a gravação do disco “Jesus Não tem dentes no país dos banguelas”, em 1987. Gavin, após alguns segundos de silêncio, ainda cabisbaixo, procura defender (“Pô, mas essa é a minha concepção do trabalho...”) as suas constantes “viradas” de bateria, pontuando as pausas dos riffs de guitarra. CORTA para a execução da música pronta, muito menos marcada pelas “viradas” de Gavin. CORTA para os músicos da banda aplaudindo o fraterno abraço entre o produtor e o baterista. Sorrisos por todos os lados.


Essa é uma das cenas do documentário “A vida até parece uma festa”, que assisti recentemente no cinema. O filme sobre os Titãs (que está cheio de imagens raras captadas pelo co-diretor e um dos componentes da banda, o Branco Mello) é (praticamente) um extenso videoclipe, marcado por poucas falas e muita música, fragmentado (mas bastante conexo) e, na minha opinião, dá conta de apresentar cinematograficamente a trajetória biográfica do grupo. Quem estiver a fim de se aprofundar em um ou outro detalhe, que vá googlar ou, talvez, dar uma fuçada em um livro lançado há não muitos anos sobre a banda.


No início do post, tentei reproduzir a cena em que o produtor Liminha trabalha em estúdio com os Titãs pela sua importância para o meu projeto de pesquisa no doutorado, focado na produção musical de um modo geral e, mais especificamente, na função do produtor musical, analisando os alicerces que legitimaram e legitimam essa função profissional ainda nos dias de hoje. Assim, aproveito para saudar a chegada desse filme às telas por ser mais um documento que pode enriquecer as pesquisas sobre música popular massiva e mídias. E que venham muitos outros! (Falando nisso, no trailer dessa sessão, estava sendo anunciada a estréia de um documentário sobre o cantor Wilson Simonal – que, inclusive, estava presente no filme sobre os Titãs, atuando como jurado de um programa de TV que julgava a apresentação de uma das bandas que vieram a formar os Titãs, a “Mamão e as Mamonetes”, se não me engano...)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A (r)evolução não será televisionada


Outro dia falávamos sobre torrents de filmes portugueses, post que me rendeu um comentário super pertinente do João (alô, João!), no qual ele apontava que o maior problema para se efetuar downloads desses filmes é o fato de as pessoas deletarem os arquivos de seus HDs, reduzindo a possibilidade de “semeamento” dos respectivos torrents. Pouco tempo depois de ter publicado o post, comecei a vasculhar a net à procura de discos de Carlos do Carmo e sem querer esbarrei com o torrent do bom documentário “Lusofonia – a (r)evolução”, produzido pela delegação portuguesa da Red Bull Music Academy. O filme se propõe a fazer um passeio pelas sonoridades luso-africano-brasileiras que possuem, em comum, o fato de se expressarem na língua de Pessoa. Do hip hop ao rock, passando pelo fado e pelos ritmos de Angola e Cabo Verde como o kuduru e a morna, o doc articula, de uma maneira super ágil e sobretudo agradável aos ouvidos, diversas manifestações musicais lusófonas, da época da colonização até os dias de hoje.

Para quem se interessa pelo rock português, é duplamente saboroso conferir alguns trechos de videoclipes produzidos durante aquele período, alguns involuntariamente engraçados, como “Cairo” do Táxi, outros geniais, como o raríssimo “É pr’a amanhã”, de António Variações. Mas eu desafio qualquer “antenado” musical, daqueles que conhece o mais novo lançamento da mais nova sensação do post rock finlandês que o Zé e o Gordinho tocaram na última edição da Maldita, a reconhecer pelo menos três dos mais de 40 artistas e bandas que aparecem no documentário – Chico Buarque, Caetano Veloso, Marcelo D2, Seu Jorge e Fernanda Abreu não contam... Ao final do filme, você terá, mais do que nunca, a sensação de que não conhece absolutamente NADA do que está sendo feito em termos de música no âmbito dos países de língua portuguesa. É a (não tão) boa e velha ladainha que eu venho repetindo há pelo menos um ano: o rapper de Amadora sabe quem é Marcelo D2, mas a gente não faz idéia de quem sejam Mind da Gap, Tito Paris ou Bonga.

Mais detalhes sobre o projeto da Red Bull Music Academy vocês encontram aqui. E como as chances de “Lusofonia” freqüentar o nosso circuitinho cinematográfico ou ser exibido pela TV brasileira (talvez na TV Brasil, quem sabe?) são próximas de zero, segue o link para o respectivo torrent.

[Às vezes não custa nada ser didático: para baixar o arquivo torrent, você precisa ter um programa de download de torrents instalado no seu computador. Eu recomendo o BitTorrent, o UTorrent ou o Azureus. Os melhores sites para se encontrar arquivos torrent continuam sendo o The Pirate Bay ou o Mininova. Boa pescaria!]