
Separando material para a disciplina "Mídia e Educação" que vou oferecer na UFF este semestre, me lembrei da visita que fiz ao Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo, um dia depois do Congresso da ABCiber, em novembro passado. Foi uma experiência que me fez pensar, mais uma vez, como o potencial das novas tecnologias é desperdiçado, porque continuamos presos a um modelo de educação e de construção de conhecimento funcionalista.
A visita começou com a projeção de um filme sobre a língua portuguesa falada no Brasil, numa tela gigantesca. Aliás, uma não, são três telas com a exibição simultânea de três imagens diferentes em que anônimos e famosos narram a história da língua que falamos. Estava na quarta fila. À minha frente, só crianças. Atrás, adolescentes. Todos embasbacados com o espetáculo visual e auditivo que acontecia naquela sala de cinema. Quando o filme acabou, a tela foi suspensa e entramos em uma outra sala, agora em formato de arena. Os guias que acompanhavam as crianças e os adolescentes uniformizados foram indicando os lugares nas pequenas arquibancadas que rodeiam a sala. Enquanto entrávamos, uma voz repetia o verso de Drummond:
Penetra surdamente no reino das palavras.
Penetra surdamente no reino das palavras.
E a sensação era de que estávamos sendo penetrados, pelas palavras e pelo mundo que a gente constrói com elas, pois letras e imagens projetadas - idealização de Arthur Nestroviski e José Miguel Wisnik, com direção artística de Marcelo Dantas - iam e vinham no teto e nas quatro paredes da sala, enquanto as crianças se admiravam:
- Olha, quantas palavras!
- Caramba!
- Coqueiro!
- Queijo!
- Palavra!
- Quei-jo. Pa-la-vra.
- Olha! [o mar]
- Jo-ão Gui-ma-rães Ro-sa.
- Que isso, parece que está chovendo!
Estava achando tudo ó-ti-mo, até que...
Nelson Cavaquinho começou a cantar.
O sol...há de brilhar mais uma vez
A luz...há de chegar nos corações
O mal...será queimada a semente
As crianças e os adolescentes, entusiasmados, começaram a bater os pés no chão, no ritmo da música, e foram repreendidos pelos guias - ao que parece, contratados pelas escolas - que as acompanhavam.
- Xiiiiiiiiiiiiiii.
A partir daí, eram xiiiiis e mais xiiiiiiis, seguidos de frases como:
- Se vocês não pararem vamos acabar com a projeção e tirar vocês daqui.
Os adolescentes e as crianças tentavam acompanhar a projeção em silêncio, mas era difícil resistir a misturas como trechos do poema de Gregório de Mattos, escrito no século XVII, na voz do rapper paulistano Rappin' Hood:
Que falta nesta cidade?……………Verdade
Que mais por sua desonra?………Honra
Falta mais que se lhe ponha……..Vergonha
Saindo da projeção, havia muitas outras coisas interessantes no museu. Uma sala interativa, no segundo andar, mostrava a história da língua portuguesa, dos primórdios ao "internetês", passando pelas gírias de grupos sociais específicos (grafiteiros, presidiários, prostitutas), pela influência de outras línguas no português do Brasil e pelo papel que os meios de comunicação tiveram na mudança dos padrões linguísticos.
Crianças chegaram com o guia da escola e se espalham pelos monitores eletrônicos. O guia advertiu:
- Vocês podem olhar os monitores, mas o primeiro que correr vai ficar sentado no banco no meio da sala.
Um outro grupo teve menos sorte. As crianças não puderam interagir com os monitores, tiveram que seguir a linha do tempo da língua, atrás do guia que falava muito rapidamente, simplificando os fatos e pulando etapas:
- Prestem atenção, porque vai cair na prova.
Entrou um grupo de adolescentes. A guia - desta vez, do próprio museu - perguntou:
- Em algum lugar do mundo fala-se latim?
- ...
- Vocês estão na 8ª série, já deveriam ter bagagem suficiente para responder isso, né?
Por sorte, nem todo o cenário era assim. Na exposição temporária do primeiro andar, sobre Machado de Assis, um guia de cabelos compridos, jaqueta de couro e brinco na orelha instigava outro grupo de adolescentes. Mas não era só a roupa que fazia diferença. As perguntas eram outras, o modo de percorrer os corredores e interagir com o espaço era outro.
- O que essas imagens passam para vocês? - perguntou, diante de reproduções enormes de fotografias da época da escravatura.
Cada adolescente respondeu uma coisa diferente.
- Então, viram como uma mesma imagem pode gerar muitas interpretações? - e seguiu-se um papo sobre escravidão, relações sociais, o papel da fotografia e da literatura na história, etc.
O Museu da Língua Portuguesa é movimentadíssimo. Recebe a visita de 20 a 25 escolas por dia, inclusive aos sábados, e a presença de um público majoritariamente jovem fica registrada nos livros de visita, cheios de recados amorosos, desenhos e assinaturas estilizadas, como as carteiras escolares.
Já ouvi elogios e críticas em relação a ele. Do lado dos elogios, a exaltação da tecnologia, como se o fato dela estar sendo aplicada dentro de um museu, por si só, fosse atrair público e provocar um mergulho na língua portuguesa. Do lado das críticas, o velho argumento de que o uso das novas tecnologias, das imagens e dos sons simplifica o conteúdo (para ler uma delas, do escritor Sérgio Rodrigues, clique aqui). Em ambas as opiniões, esquece-se do público ou, para falar a linguagem da comunicação, volta-se ao esquema informacional em que o emissor provoca efeitos no receptor, enquanto o que deveríamos discutir é de que modo os frequentadores - em sua maioria, crianças e jovens - dão significado a esta experiência e de que modo as tecnologias disponíveis podem ser utilizadas na construção - e não só na reprodução - de novos conhecimentos.
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