sábado, 31 de outubro de 2009
conhece o klaus nomi?
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Chico Buarque censor???
Para quem não sabe, estou lutando a dois anos (serio mesmo, dois anos) para publicar uma história da MPB vista através da carreira de Wilson Simonal. No entanto uma série de problemas vem colocando obstáculos sem fim à publicação que tem o título de "Simonal: Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga".
O subtítulo é uma referencia ao LP do cantor de 1968, que tem como título principal "Alegria, alegria vol. 2 ou Quem não...". No entanto, grande problema não é Simonal (acreditem se puderem), mas uma presumida censura do compositor Chico Buarque.Pois bem... Venho aqui dividir estas aflições...
Hoje estive conversando com a editora do livro (Record - que sustenta data de publicação para 24/11/2009) e eles disseram com todas as letras que não vão publicar as fotos "comprometedoras" de Chico Buarque no caderno de fotos da minha obra.
Parece que nos dias de hoje o problema não é "resgatar" Wilson Simonal... isso já se tornou senso-comum. Mesmo com as poucas resistências... E muitas vezes de forma ingênua ele vem sendo "resgatado" servindo de música para os mais "cults".
O problema, no entanto, vai além. A questão é que Simonal está sendo resgatado como mais uma estrela "esquecida" "maldita", da MPB ... ou seja, "erramos" em relação a ele. Agora, com as devidas "bênçãos", ele pode voltar a ocupar "seu devido lugar". Mas a questão vai além. Porque só AGORA ele é chamado a ocupar este lugar? Porque só AGORA tornou-se tão "óbvia" a sua inocência? Porque pouco se problematiza o fato de que os mesmos que pisaram em Simonal durante décadas estão AGORA empenhados no seu resgate? Penso que essas são questões importantes e pouco faladas ultimamente...
De qualquer forma voltemos ao "problema" Chico Buarque. O que são as tais fotos "comprometedoras"? Na verdade são apenas fotos que tendem a problematizar a "construção" do mito Chico Buarque. Para além de uma verdade em si, a mitologia em torno do compositor foi construida algumas vezes voluntariamente outras nem tanto.
E como as fotos problematizam a construção do mito? Ora, uma foto que gera muito problema entre os editores é uma imagem de Chico Buarque segurando o boneco MUG na mão.
Assim como Simonal, Chico fez propagando do tal boneco que, dizia-se, dava sorte. Era na verdade o mascote de uma grife de roupas da MPB em empreitada combativa contra as roupas da Jovem Guarda. A grife da MPB acabou não sendo lançada mas a da Jovem Guarda virou alvo dos criticos da ditadura identificados com o "boa música" e a resistencia. As roupas da Jovem Guarda, a jaqueta do Tremendão, a roupa da Ternurinha, etc., essas sempre lembradas por aqueles que acusam o movimento de Roberto Carlos e cia de "mercadológico". Chico também fez propaganda, assim como vários artistas da MPB, pois também estava envolvido na defesa da "musica brasileira" frente a "alienação importada" da Jovem Guarda. E se o mercado também foi o palco dessa disputa, a grande maioria dos artistas identificados com a MPB não via grande problema nessa "descida" ao terreno "vil" do comercialismo. A questão é que, depois de se tornar padrão estético afinado às elites nacionais, os artistas da MPB frequentemente se vêem como fazendo uma arte "de autor", "superior" pois comprometidas apenas com o viés artistico. Bem... no começo as coisas não eram bem assim... Talvez o primeiro grupo a problematizar a questão comercial de fato de forma critica tenha sido os tropicalistas, sem bravatas e palavras de ordem, aliás debochando destas...
Outra imagem "problemática" é uma propaganda do Banco da Lavoura de SP na qual Chico Buarque aparece ao lado do pai. No subtitulo esta escrito "o amigo da familia". Ela circulou na revista Realidade de dezembro de 1968, ou seja, no mesmo mês do AI-5. Essa era a imagem hegemônica do compositor ("bom moço") até, pelo menos, ele voltar do auto-exílio italiano, ou melhor, até ele compor "Apesar de você" e o disco "Construção" (1970/1). Somente aí ele tornou-se o "resistente ideal" tomando o estandarte das mãos de Vandré, que até então ocupava esse imaginário.
Fotos de Chico Buarque fazendo propaganda de máquinas de costura e sandálias também foram vetadas.
Queria mostrar, com a publicação das fotos e o texto, que pilantragem, Jovem Guarda e MPB não eram, na época, tão distintos como hoje frequentemente os vemos. Pelos contrário, lógicas comerciais e tentativas de se impor como padrão estético hegemônico eram bem parecidas. Aliás, por exemplo, o Tropicalismo foi acusado de ser uma "pilantragem", e vice-versa. Para os que não sabem a Pilantragem foi o projeto estético através do qual Simonal atingiu níveis de popularidade e reconhecimento impressionantes nos anos 1960/70. No entanto a memória da Pilantragem foi para o ralo junto com Simonal. Mas, hoje,o problema agora não é mais "resgatar" a Pilantragem... Essa virou "cult".
Mas não se pode tocar em outros mitos. Especialmente porque a imagem através da qual Simonal é resgatado para a MPB é a de que ele é "inocente", para alguns, um "ingênuo", para muitos. Quando muito, foi "usado". Ou seja, Simonal pode ser resgatado pois, assim como toda a sociedade, teria sido vítima do regime militar. Ora, se ele também foi vítima do regime, então também pode entrar no panteão de seus heróis. Ele também teria sido "exilado", não fora do Brasil mas dentro de seu proprio pais, como gostava de falar. Ora, mantém-se a lógica da MPB como bastião da luta contra o regime. De fato, não se pode problematizar nem sequer contextualizar o nascimento dessa postura, pois isso enfraqueceria sua lógica. Por isso Chico não pode ser questionado, parece-me. Por isso o medo em relação a um processo que, para além de perdas monetárias, geraria uma "perda" na imagem da editora. Ninguém quer se colocar "a favor" a ditadura. Nem eu. Mas também não dá mais pra naturalizar certos conceitos e noções da MPB como se ela sempre tivessem sido assim.
O argumento da editora para tal autocensura (desculpe mas não há outro nome) é que o compositor não permitiria sua publicação e se o fizéssemos mesmo assim isso poderia acarretar um processo. Mas estas imagens são fotos já publicadas em revistas e jornais, ou seja, já foram publicadas alguma vez. São, enfim, documentos historicos, fontes abertas a todos. Em tese só precisariamos da liberação do fotógrafo, o que não é dificil de conseguir, bastando vontade. Mas o medo do processo inviabiliza,na prática, qualquer publicação porque entende que o sujeito que aparece na foto tem que autoriza-la! Imagina se formos pedir autorização ao Lula por toda foto que ele aparece? Imagina fazer isso em época de foto digital e internet? Seria melhor, caso o Chico Buarque realmente se importasse de fato muito com sua memoria, que ele acusasse o uso do Photoshop para deturpá-lo, ou de um simples "Paintbrush" para desgastá-lo... o que não foi o caso, obviamente, mas em tempos de virtualidade e simulacros, tudo pode vir a convercer. Ou quase tudo.
De fato, cada dia mais as editoras estão com medo de publicar temas e/ou imagens polêmicas devido a possíveis processos. O problema é que se está evitando posturas corajosas em nome do resguardo do policamente correto! Agora o medo justifica qualquer forma de autocensura. Aliás, esse foi a atitude de muitos órgãos da imprensa durante o regime militar que, passada a ditadura, se vangloriam de ter colocado "receitas de bolo" no lugar de manchetes como se todos fossem entender isso. O curioso é que essa auto-censura nas editoras, pelo menos, me parece ser bem recente! Trata-se de algo posterior a publicação de livro de Paulo Cesar de Araújo sobre Roberto Carlos em 2006. Antes o livros saiam até sem os créditos das fotos (o livro "A Era dos Festivais" de Zuza Homem de Mello saiu assim), o que também não pode, né! Mas de qualquer forma tal ousadia denotava a despreocupação com "patrulha da auto-censura". Voltando ao caso "Roberto Carlos em detalhes", é de se espantar como o autor foi "silenciado": na comemoração dos 50 anos de carreira do cantor seu livro só foi lembrado pelo debochado Agamenon, do Globo. O oba-oba dos 50 anos do rei apagou a censura real. Voltamos a sociedade de soberania? O Foucault se fucô? Esperemos que não.
U2 no You Tube - ironia ou convergência?
Mas, quem é este público? Ou melhor, quem é esta banda? Não, não é uma banda que surgiu na Internet. Nem é o último sucesso midiático da última semana. A ironia é que esta é a maior banda pop do século XX ainda em atividade. (Ok – pra alguns também a mais chata...mas não vamos falar disto.)Um dos dinossauros que, ao lado de Madonna e Michael Jackson, construiu sua reputação junto a um público fiel a partir das principais estratégias da indústria da música massiva no século XX. Falo, claro, dos videoclipes carissimos dirigidos por diretores badalados, da puta produção, nos discos e nos shows da banda desde os anos 80, da gravadora sustentando os lançamentos e distribuindo os discos mundialmente, das turnês grandiosas. Sem falar no discurso "vamos salvar o mundo" globalizado e politicamente correto de Bono Vox. Do tipo - "ganho muito dinheiro com os fãs mas também sou legal".
Cris Anderson, lá naquela discussão da Cauda Longa, aposta que teremos mais artistas sendo ouvidos por menos público, mas menos unanimidades. Pluralidade de vozes, fragmentação, efemeridade,volatilidade dos gostos – estas algumas das consequências do modelos de negócios da rede. Eu também aposto nisto. Mas, é que estanos ainda na , oops, transição.
O evento também permite outras reflexões. Como, por exemplo, a do povo assistiu fazendo ao mesmo tempo comentários no twitter, em rede, para os amigos.
Projeto AR!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Marco Regulatório Civil para a Internet Brasileira
O Ministério da Justiça lança amanhã a consulta pública sobre o tema, às 15h, na sede da FGV Rio. O documento inicial estará em consulta pública por 45 dias no site do Fórum de Cultura Digital Brasileira, e a discussão subsidiará o projeto de lei que será elaborado pelo Ministério da Justiça e que ficará também em consulta pública por mais 45 dias.
Inscrições no link: http://direitorio.fgv.br/marco-regulatorio
sábado, 24 de outubro de 2009
Videoclipe pornô?
Videoclipe pornô? Isso existe? Isso pode?
Todos já sabemos que videoclipe é uma forma de a banda fazer propaganda de si e de sua música. Se as imagens são cândidas, o artista quer ser visto como cândido; se o clipe é nojento, a banda quer ter sua imagem atrelada a algo chocante (e que lembre certa atitude rock), se o clipe é de difícil compreensão e cheio de metáforas, o artista quer ser visto como um produto cult, e assim por diante. Por mais que o videoclipe seja arte – e é – não adianta fugir desse tipo de relação, pois essa característica faz parte da natureza do gênero.
Pois bem. Toda essa lenga-lenga inicial foi construída para discutir um videoclipe que acabou de ser lançado e que é diferente de tudo que já se viu. Não me refiro à estética ou à linguagem, que são até bem tradicionais. Refiro-me à temática e à forma como ela foi ilustrada no videoclipe. Pussy, do grupo Rammstein, é tão chocante, mas tão chocante que dificilmente você vai assisti-lo com sua irmã mais nova ou no trabalho, junto com a secretária. Isso porque o videoclipe é extremamente pornográfico.
Mas como assim, videoclipe pornográfico?
Pois é, esta é a questão. O videoclipe, segundo o grupo, quer discutir o turismo sexual na Alemanha, país onde a prostituição é legalizada. Para tanto, os integrantes da banda aparecem como personagens estereotipados ligados à prática, como o cowboy, o sado-masoquista e o empresário cheio de dinheiro. O clipe começa apenas sugerindo o sexo, com mulheres de lingerie acariciando os integrantes da banda. Mas com o passar dos segundos, as imagens vão ficando cada vez mais sexuais: mulheres nuas, homens nus, a banda transando a olhos vistos, masturbação, sexo oral de ambas as partes e no fim, acreditem, um dos integrantes ejacula. Tudo seguindo o ritmo intenso da música.
Aliás, a música em si já é, digamos, pesada. “Pussy”, em inglês, é um termo forte e politicamente incorreto para se referir à vulva, a parte do órgão genital feminino onde se encontra o clitóris, que é o símbolo do prazer sexual da mulher e um dos grandes fetiches dos filmes pornôs. A letra é parte cantada em inglês e parte em alemão, e enfatiza a prática sexual com termos jocosos e pejorativos. Repare neste trecho:
You've got a pussy,
I have a dick,
So what's the problem?
Let's do it quick!
So take me now before it's too late
Life's too short, so I can't wait.
Take me now, oh don't you see,
I can't get laid in Germany
Provavelmente a letra e o videoclipe criticam uma nova prática na Alemanha: bordéis que cobram um preço único para que os clientes façam sexo à vontade. O fato tem provocado protestos naquele país inclusive por defensores dos direitos humanos. Em junho, uma grande cadeia de bordéis foi inaugurada por lá, a Pussy Club. Seu slogan é bem a cara do videoclipe: “sexo com todas as mulheres, quando e como você quiser”.
O videoclipe é dirigido pelo grande Jonas Åkerlund, diretor suíço aclamado por obras como Ray of Light, Music e Jump, de Madonna, Walk On, do U2, e Paparazzi, de Lady GaGa. Não é à toa que a pornografia foi retratada com belos takes, uma fotografia bem trabalhada e uma edição avassaladora. E a crítica à Alemanha que a banda quis fazer dificilmente deixa de ser compreendida mesmo por quem não entende a letra: bandeiras alemãs tremulando enquanto o sexo é feito enlouquecidamente.
ATENÇÃO: ASSISTA AO VIDEOCLIPE APENAS SE FOR MAIOR DE 18 ANOS. CONTÉM CENAS CHOCANTES
Mais do que qualquer outro videoclipe já feito, Pussy trabalha não apenas com uma temática diferenciada, mas com imagens para lá de ousadas. Perto desse videoclipe, o polêmico Girls on Film, feito pelo Duran Duran no início dos anos 80, vira um filme inocente de Sessão da Tarde. Este clipe mostra apenas duas mulheres com pouquíssima roupa, às vezes com os seios à mostra, brigando e fazendo apologia a fetiches masculinos, como uma piscina cheia de sabão e as mulheres se lambuzando nela. Na época ele foi censurado em todas as televisões que veiculavam videoclipes. O vídeo do Rammstein, ao contrário, foi feito já sabendo que não ia ser veiculado em lugar nenhum, com exceção da internet. Tanto que a banda construiu um site apenas para veiculá-lo.
Com tantas inovações, pode-se afirmar que um novo tempo está sendo construindo no mundo do videoclipe. A imagem da banda continua nas imagens do videoclipe. Quem já viu qualquer videoclipe do Rammstein sabe que eles adoram polêmica e as temáticas consideradas de mau gosto. Já fizeram, por exemplo, clipes sobre canibalismo e pedofilia, e essa característica ajuda a fazer com que alcancem sucesso no mundo todo. Nem é, aliás, a primeira vez que aparecem nus no videoclipe. Seus singles estão sempre nas importantes paradas da Alemanha e em outros países também. E isso mesmo cantando boa parte das músicas em alemão.
Mas apesar disso, pode-se perceber que a liberdade proporcionada pela internet tem incentivado novas práticas, novas linguagens e novas maneiras de ilustrar as músicas. Antes, fazer um videoclipe pornográfico era quase um atestado de fracasso. A MTV o veicularia? O Fantástico o veicularia? Atualmente, pode ser uma forma extremamente inteligente de chamar atenção para um assunto e, claro, para a banda em particular. Mesmo que a televisão e até o YouTube se neguem a veicular.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
mais gênero!
Segue abaixo o cartaz. A discussão é em torno do gênero sexual na música eletrônica. A idéia é analisar este aspecto identitário tanto de quem a produz quanto de quem a consome.

Ele diz neste artigo que observou uma mudança nas prioridades estéticas e artísticas da música erudita depois dos anos 80, época em que houve uma entrada de mulheres neste campo como nunca tinha ocorrido antes. As regras da disputa simbólica aqui mudaram conforme a identidade dos jogadores se diversificou.
A presença das mulheres não alterou a natureza maleável das regras da disputa simbólica no campo da música erudita, e sim trouxe à tona questões novas, segundo o Gann.
Pensei em trabalhar esta questão depois da entrevista que eu fiz com Larry Tee, quando ele me disse que apesar de o electroclash ser um gênero da música eletrônica como qualquer outro, não é por acaso que, como o new wave, nele música e performance andam de mãos dadas - gays e mulheres são os produtores mais freqüentes deste estilo. É uma afirmação ardilosa, se a gente parar pra pensar. Mas será que ela não faz nenhum sentido?
Perfeito coração
O que eu vou dizer agora até pode soar um bocadinho mórbido, mas parece que eu dei sorte em chegar a Portugal justo no semestre em que se celebram os dez anos da morte de Amália Rodrigues. Em nenhum outro contexto seria tão abundante a quantidade de matérias de jornal, especiais televisivos e exposições em tributo à célebre fadista. Como os veículos de mídia portugueses são razoavelmente diferentes entre si, não dá pra unificar todos numa mesma abordagem comum, mas em menor ou maior grau, todos eles de alguma forma deixam patente o desejo de desmitificar Amália, retirando-a do pedestal dos deuses intocáveis e aproximando-a da rica e contraditória figura humana que ela foi (e continua sendo, ora).
Isso implica na problematização de certos sensos comuns que, de tão repetidos ao longo das décadas, acabaram por se configurar como verdades incontestes: por exemplo, a ideia de que o repertório de Amália concentra-se exclusivamente no fado (Amália cantou chanson francesa, flamenco, música brasileira...) ou de que a artista era uma espécie de ícone cultural do Estado Novo e protegida de Salazar (mito este muito difundido após o 25 de abril e que atingiu não apenas Amália como também todo o universo do fado). O modo como Amália fez-se presente na vida cultural portuguesa para além de sua atuação como cantora – são inúmeros os longas-metragens protagonizados pela artista, e suas múltiplas aparições na TV lusa encontram-se devidamente documentadas no excelente documentário “Estranha forma de vida”, de Bruno de Almeida – os papéis sociais e identitários que articulou através de sua performance e mesmo dos trajes que vestia (e que, algumas vezes, ela mesma desenhava) parecem cada vez mais inscrever Amália Rodrigues no rol dos ícones pop portugueses, coisa que, não faz muito tempo, seria impensável, dado o caráter intocável que o fado e a figura de Amália possuíam.
Curioso que o processo de poparização de Amália Rodrigues se dê no mesmo momento em que um álbum de versões pop/rock do repertório amaliano, projeto concebido e executado por integrantes das bandas The Gift e Moonspell, esteja faz 23 semanas na lista dos 30 discos mais vendidos em Portugal, e há pelo menos um mês liderando o top de vendas, com concertos esgotados em todos os sítios. Parece não haver habitante desta península que ainda não tenha escutado pelo menos uma vez a onipresente versão dos Amália Hoje para “Gaivota”, ratificando, ao meu ver, uma tendência que já vinha se definindo bastante clara desde o êxito de álbuns como o “Canção ao lado” da Deolinda e do recente “Tasca beat” do Oquestrada: tem gente por estas bandas querendo revirar o fado de trás pra frente, o que é ÓTIMO; o fato de tais iniciativas estarem sendo bem recebidas pelo público em geral (embora o Amália Hoje tenha recebido algumas bordoadas da crítica) demonstra um desejo consciente ou inconsciente de se recuperar e transformar o passado musical português; por fim, e embora algumas pessoas só estejam dando conta disso agora, tenho pra mim que o fado e Amália não se tornaram pop de uma hora pra outra. Eles sempre foram.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
"Especialistas" do MEC ignoram convergência tecnológica
Não se trata de especulação vazia. Basta observar o documento da Comissão de Especialistas - sempre me espanta a falta de transparência e de consulta pública com que o MEC define quem é "especialista" - responsável pela elaboração das Diretrizes Nacionais para o Curso de Jornalismo
(ver http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/documento_final_cursos_jornalismo.pdf)
Com a finalidade de tornar compatíveis o requisito da titulação do corpo docente e a necessidade de aderência às disciplinas ministradas, a Comissão de Especialistas recomenda a criação de um Programa Nacional de Aperfeiçoamento Docente destinado às novas gerações de professores de Jornalismo. Muitos foram titulados pelos cursos de pós-graduação da área teórica de Comunicação ou de disciplinas conexas, sem ter exercido plenamente a profissão e não raro sem o domínio cognitivo da sua especificidade. Concomitantemente, deve ser fomentada, nas Escolas de Comunicação, a abertura de cursos de mestrado e doutorado com áreas de concentração em Jornalismo, para atender à demanda crescente de novos professores para os cursos de graduação e de projetos de pesquisa científica na área. (grifos meus)
Afora o absurdo evidente de uma comissão criada para normatizar cursos de graduação em jornalismo extrapolar a sua autoridade para também normatizar a pós-graduação - o que significa simplesmente passar por cima da Compós como forum de debate sobre o assunto - fica evidente uma atitude preconceituosa em relação à formação teórica em Comunicação. Como esta é a matéria prima básica do nosso modelo de pós, dá para se ver o tamanho da ameaça.
abraços,
Afonso"
Paul McCartney não morreu?
A suposta morte de Paul McCartney continua rendendo. Segue o link para um blog de um quadrinhista brasileiro que disponibilizou uma HQ online sobre essa lenda urbana do mundo pop:quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Pastéis de nata sortidos
No mais, como dizia o meu avô: “E não é?”.
***
Por aqui, costuma-se dizer que os meses de julho e agosto correspondem à silly season televisiva, que é quando as emissoras despejam na grade uma série de programas inócuos destinados a desanuviar a cabeça da galera durante o verão. Basta dizer que o maior sucesso desta última temporada foi um game show da SIC chamado “Salve-se quem puder”, cujo epicentro dramático, por assim dizer, era aquele desafio made in Endemol que no programa do Faustão durava se tanto meia hora e recebia a alcunha de “De cara no muro”.
Para aqueles cujas necessidades televisivas vão um pouco além de testemunhar celebridades portuguesas vestindo macacões colantes sendo atiradas à água, havia o “5 para a meia-noite”, um talk show muito do bacaninha que, infelizmente para mim, também entrará em recesso no final de setembro. O programa ia ao ar de segunda a sexta na RTP2, o canal generalista mais próximo de um canal a cabo que há por estas bandas, e a exemplo do saudoso “Jô Soares onze e meia”, também nunca entrava no ar na hora prometida. Cada dia era pilotado por um apresentador diferente, e a dinâmica do programa misturava entrevistas, números musicais e esquetes de humor, tudo permeado por uma dose de anarquia que raramente se vê na TV portuguesa. Com a graça de Deus, o politicamente correto passava longe do “5 pra meia noite” – nem a inglesinha Maddie, desaparecida há dois anos numa praia do Algarve, era poupada das piadas ácidas dos apresentadores. E havia uma autoconsciência pop atravessando todo o programa, manifesta no uso que era feito do Twitter, dos blogs e da internet de uma forma geral, que muito me agradava. Pois é. Vou sentir saudades particularmente do Trivial Parvoíce, do Ódio de Estimação, dos telefonemas “Eu amo você” do Nilton, das boinas do Boinas e da Filomena Cautela, pelo conjunto da obra. Boiou? No Youtube é possível encontrar alguns vídeos do programa. E que venha a reentrée.
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Se há dois artistas que nos anos 90 simbolizaram uma certa música portuguesa “moderna” – ou seja, fora do âmbito do fado e do cançonetismo – com vastas ambições de internacionalização, estes foram o Madredeus e Pedro Abrunhosa. Embora por vias diferentes – o Madredeus partindo da tradição para transcendê-la, Abrunhosa flertando com o acid jazz para chegar num tipo muito particular, e muito português, de crônica político-afetiva urbana – tanto um quanto o outro me pareciam extremamente representativos de um Portugal que se abria para o mundo e entrava com os dois pés na sociedade de consumo e na cultura midiática.
Curioso como a virada do milênio revelou-se ingrata com ambos: depois da saída de Tereza Salgueiro, o Madredeus segue com Pedro Ayres Magalhães aplicando sucessivos choques desfibrilatórios ao falecido, primeiro adotando um formato pop-sinfônico (no álbum Metafonia, o primeiro com A Banda Cósmica), e agora enveredando por um caminho new age de gosto algo duvidoso (o que tem rendido ao último disco do Madredeus, “A nova aurora”, umas belas bordoadas da crítica local).
De Pedro Abrunhosa, o mínimo que se pode dizer é que parece ter perdido a capacidade de provocar. Seu último concerto, dentro do projeto Lisboa ao Parque, arrastou um público muito aquém do esperado para um sujeito que, há não menos de cinco anos, era visto pelo mercado fonográfico luso como a salvação da lavoura. Quem viu o Parque Mayer transbordando de gente durante a apresentação do Da Weasel sabe do que eu estou falando. Com novos músicos de apoio (depois de, com o perdão do trocadilho infame, ter exorcizado o Bandemónio), Abrunhosa parece indeciso entre seu glorioso passado soul-funk e um incerto futuro baladeiro-lamecha. As canções antigas menos empolgam quanto mais se afastam dos arranjos originais, e as novas não empolgam porque... porque não empolgam, ué. Tudo isso, somado à postura do cantor no palco, exalando pose como se ainda estivesse na crista da onda, gera um punhado de momentos constrangedores. O maior de todos foi, sem dúvida alguma, durante a última música do show, quando Abrunhosa começou a chamar criancinhas para o palco e encerrou o concerto ao piano com uma menina de quatro anos e laçarote na cabeça sentada no seu colo. Um gesto tão singelo, cometido logo após uma canção intitulada “Talvez foder”, vamos combinar que ficou esquisito à beça...
***
Eis que meu post sobre Roberto Leal revelou-se um insuspeito sucesso de público. A todos os que deixaram comentários, meus mais sinceros agradecimentos e alguns pê-ésses esclarecedores: a votação on line para Roberto Leal mudar de nome não foi inventada por ninguém que não o próprio departamento promocional do artista. É uma estratégia para criar um novo posicionamento da “marca” Roberto Leal junto a um público que tinha certa resistência ao cantor. Posso estar falando besteira, mas tenho lá minhas dúvidas se uma rádio prestigiada (nas palavras do Victor) como a Antena 1 daria espaço ao Roberto Leal dos primeiros discos, por exemplo. É no sentido da conquista dessas outras fatias de mercado que a iniciativa de marketing que cerca o lançamento de “Raiz/Raiç” se dirige.
Last but not least, em nenhum momento foi a minha intenção denegrir ou menosprezar a imagem do Roberto Leal. Apenas invoquei algumas memórias de infância para dar um sabor extra ao post, e se forcei a barra nas ironias, bem, a maior prova de que Deus também possui senso de humor foi o fato de Ele ter criado os ornitorrincos.
***
E o prêmio de letra mais genial da nova vaga da música pop portuguesa vai para “Teimoso”, de Samuel Úria.
Eu nunca fui do prog rock
Eu já nasci depois do PREC
Tarde demais pra proto-punk
Branco demais pra ser do rap
Eu nunca fui do prog rock
Sou neo-retro redneck
Nasci num antro só de enters
Já não sei carregar no rec
Eu nunca fui do prog ro-o-ock
Só se o prog rock for o Beck
Nasci quando Bob renasceu
E o Tom gravou o “Heartattack”
Eu nunca fui do prog rock
Já nem sei carregar no rec
Rewind corre pros meus ouvidos
Fast fowards fora do meu leque
Teimoso que nem um moleque
Teimoso que nem um moleque
Teimoso que nem um moleque
Teimoso que nem um moleque
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Rumos da indústria da música
A íntegra da entrevista pode ser acessada aqui.
Vale a pena também conferir o site da Phonobase, que exemplifica algumas questões discutidas no LabCULT. A página inicial traz imagens que ilustram diferentes suportes para a escuta musical, e a empresa diz que seu objetivo é "tentar entender aquilo que chamamos de 'cultura auditiva', ou seja, a forma como as pessoas se relacionam com a música de corpo (o consumo) e de alma (a experiência musical)".
terça-feira, 6 de outubro de 2009
VH1 - O melhor dos anos 70, 80 e 90!

Dando continuidade a discussão iniciada por Heitor sobre a constante mudança das categorias de premiação do VMB, que acabou sendo redirecionada pelas contribuições da Ariane sobre a audiência da MTV, gostaria de fazer um post sobre o VH1. O que vocês acham? Eu me identifico muito com esse canal. O repertório é menos viciado e toca muita coisa das décadas de 70, 80 e 90. A primeira vista parece mais uma homenagem a MTV que já existiu e deixou órfão seu público inicial que inevitavelmente envelheceu. Mas numa pesquisa rápida, descobri que o VH1 sempre buscou uma diferenciação da Music Televison.
O VH1 nasceu no dia 1° de Janeiro de 1985 com o objetivo de concretizar o formato inaugurado pela MTV (baseado em videclipes). Tanto o VH1 quanto o MTV são canais pertencentes ao MTV Networks da Viacom e, portanto, não são necessariamente concorrentes, mas canais complementares. A MTV trabalhava com o segmento jovem tendo uma programação musical mais restrita. Já a VH1 surge buscando ampliar esse repertório executando artistas menos populares e de gêneros não executados pela MTV: Jazz, folk e R&B com destaque para artistas como Tina Turner, Sting, Elton John, Ace of Base, entre outros cantores e bandas consumidas por um público, digamos, mais adulto.
Como Ariane já havia apontado, a MTV atravessou as duas últimas décadas buscando se atualizar diante dos interesses da audiência. Também o VH1 passou por adaptações na programação. Na década de 90 foi se distanciando do formato music video para criar programas em torno dos bastidores da música. Agora, nos anos 2000, enquanto a MTV optou por deixar sua audiência inicial de lado para se ater a nova geração, agregando estilos musicais mais populares entre a garotada como o hip-hop, a VH1 parece ter encontrado seu lugar tentando satisfazer a antiga geração saudosa dos ídolos de décadas passadas. A VH1 usa vários recursos para recriar essa atmosfera; sua programação é construída em cima de clipes clássicos, especialmente do gênero rock. Em nenhum outro canal é possível ouvir com tanta freqüência David Bowie, por exemplo.
Também tenho prestado atenção nas vinhetas do canal. Várias delas trazem a montagem de imagens de suportes de gravação (discos de vinil, fita cassete e até mesmo o CD) associados a ícones da música numa espécie de romantização dos antigos hábitos de escuta musical. O atual slogan do canal é “Isso sim é cultura pop". Ao fechar as vinhetas com esse slogan, a VH1 nos leva a concluir que cultura pop não é formada apenas pelos artistas e suas músicas, mas também pelos suportes: toca-discos, fones de ouvido, fitas cassetes e outros suportes que são idealizados como ícones de uma geração e revalorizados. Juntos; repertório, vinhetas e slogan homenageiam as décadas passadas criando uma identificação com a geração anterior e talvez com uma nova também, que numa atitude retrô elegem o passado como moderno.