Antes que o evento acabe e eu perca o bonde da história, lá vai: a Copa do Mundo é uma oportunidade fascinante para quem se interessa pelos diversos modos segundo os quais os discursos do estereótipo são (des)construídos. Outro dia mesmo, em seu programa matinal, a inenarrável Ana Maria Braga comentava qualquer coisa sobre a força das “seleções sul-africanas” (sic), como se não houvesse apenas uma, mas várias, Áfricas-do-Sul disputando o torneio. Vindo de quem veio eu nem chego a me surpreender, mas tendo em vista que um dos símbolos da transmissão global é uma bola de futebol com o contorno de TODO o continente africano em sua superfície, desconfio que deva ter uma galera considerável reunindo Argélia, Gana, Nigéria, Costa do Marfim e os donos da casa num mesmo saco. Há momentos em que eu me sinto no século XIX. E aquela roupinha cáqui dos repórteres da Globo não deixa todos eles com a maior pinta de Dr. Livingstone?
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Segunda-feira de manhã, intervalo do bailarico oferecido pela seleção portuguesa ao escrete da Coreia do Norte: entra um repórter da supracitada emissora, ao vivo da Casa de Portugal em São Paulo, onde uma torcida animada acompanhava a partida. A plateia era majoritariamente idosa/de meia idade; havia vinho, sardinha e bacalhau sobre uma mesa próxima, e a trilha sonora, a base de concertina e bumbo, era chamada de “vira” pelo repórter até um dos velhinhos esclarecer que, na verdade, se tratava de uma chula.
Corta para as arquibancadas do estádio sul-africano onde transcorria o jogo. Usando a bandeira verde-e-vermelha como se fosse uma capa, trajando músculos de espuma e ostentando um enooorme bigode postiço, um torcedor português mandava vibes positivas para a seleção. Se isto não é uma apropriação criativa do clichê, então já não sei mais do se trata.
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O programa “Lá e cá”, da TV Cultura/RTP2, continua firme e forte em suas transmissões dominicais, que podem ser assistidas já a partir de segunda no site do programa. Alguns episódios ecoam diretamente questões volta e meia discutidas por este que vos blogueia aqui no LabCULT. A sensação de não estar falando sozinho é de fato muito boa.
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Polêmica à vista, segundo a edição on line da revista portuguesa Blitz: depois que “I got a feeling” dos Black Eyed Peas foi escolhida pela seleção portuguesa de futebol como a música oficial de Portugal na Copa, diversos artistas da cena pop lusa – de Rui “GNR” Reininho a Tiago Guillul, passando por Fernando Ribeiro (que canta em inglês no Moonspell) e Rui Veloso – vieram a público demonstrar seu descontentamento. “Mais uma vez a nossa atitude é a mais parola de todas as equipas: ir buscar uns americanos quaisquer. Isto mostra o provincianismo português em todo o seu esplendor", diz o líder dos GNR. Já o vocalista do Moonspell declara que a seleção "representa futebolisticamente e não culturalmente o nosso país. A música devia ser portuguesa porque a selecção é portuguesa, mas há outras maneiras de defender e preservar a nossa cultura”.
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E sendo ano de Copa do Mundo com o verão às portas, o Top + da Associação Fonográfica
Portuguesa começa a ser tomado de assalto não apenas por discos da MPV (Música Popular para o Verão, ou Música Popular Alternativa, segundo o PortalPimba, grata descoberta que fiz por acaso dia desses, numa definição que dá pano pra manga...), como também por discos da MPV com temática trocadilho-futebolística. O destaque absoluto vai para a nova obra do mestre Quim Barreiros, “Deixai-me chutar”. Eu por cá acho que qualquer faixa deste disco daria um hino melhor do que “I got a feeling” do BEP, mas isto deixa pra lá.
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No mais, é esperar por sexta-feira.


