terça-feira, 30 de setembro de 2008

Lançamento do livro: "Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da Música"


O post está um pouco atrasado, mas vale a pena divulgar. Será lançado daqui a pouco, às 19h30, na livraria do Unibanco Arteplex, na Praia de Botafogo, 316 (Rio de Janeiro), o livro Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da Música, de Ronaldo Lemos e Oona Castro (Editora Aeroplano).

Segue o texto de divulgação, enviado por Oona:

"O livro é resultado de um estudo sobre modelos de negócios abertos que realizamos ao longo de 2006 e 2007. A pesquisa foi realizada pelo Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV DIREITO RIO, em parceria com o Overmundo, a FGV Opinião e a FIPE-USP. E contou com o patrocínio do IDRC (International Development Research Centre), órgão do governo canadense de apoio à pesquisa e desenvolvimento.

Publicado pela Aeroplano Editora, o livro faz parte da coleção Tramas Urbanas.

A obra baseia-se em relatórios e materiais produzidos pelos pesquisadores dessas instituições: mais diretamente, compuseram o grupo de pesquisa Ronaldo Lemos, Oona Castro, Hermano Vianna, José Marcelo Zacchi, Alessandra Tosta, Elizete Ignácio, Marcelo Simas, Monique Menezes, Arilson Favareto, Ricardo Abramovay e Reginaldo Magalhães.

Para saberem um pouquinho do se trata, vejam o que Hermano Vianna diz:

Que a indústria fonográfica mundial está em crise, disso ninguém duvida. Todo mundo anda procurando o "novo modelo de negócios". Escondido em Belém do Pará, o tecnobrega testa uma original economia criativa há anos, na marra. As músicas saem direto de estúdios de periferia e são distribuídas nos camelôs da cidade, animando gigantescas festas de aparelhagem, sem mais depender da grande mídia ou gravadoras. Um mundo paralelo cujo funcionamento é finalmente revelado neste livro, estudo pioneiro sobre as novas indústrias culturais que comandam a vida musical mais popular no Brasil de hoje. Quem quiser pensar o futuro da música não pode ignorar as lições tecnobregas da Amazônia digital. (Hermano Vianna)"

IPod e afins

Voltando ainda ao livro do Michael Bull - Sound Moves - que comentei no último post. A partir de uma pesquisa etnográfica com usuários de Ipods, o autor analisa a forma como os habitantes das metrópoles organizam, privatizam e "isolam" o espaço acústico da cidade nos seus trajetos cotidianos, produzindo ao mesmo tempo uma trilha sonora particular.
Desta maneira, produz-se o que ele chama de uma nova cultura "of personal mobile sound" - cultura que tem como características estas noções de personalização e mobilidade.
De maneira geral, o trabalho traz observações interessantes - especialmente porque é rico em exemplos etnográficos do uso de Ipods na vida urbana.
O problema é que a tese central baseia-se em algumas premissas que eu acho altamente discutíveis. São elas:

1) Sobre a frieza das relações sociais na cidade, ecoando um pouco a nostalgia da comunidade perdida que já discutimos tanto no LabCult (e dá-lhe Sennett e Simmell para sustentar os argumentos)
2) Sobre os espaços urbanos como "não-lugares" - citando o Marc Augé no livro de mesmo nome
3) Sobre a impossibilidade do jovem suportar o silêncio, o que vai explicar a necessidade de conexão e mediação tecnológica
4) Conexão que, por sua vez, não significa "verdadeira" relação social, mas sim isolamento do mundo ao redor.Ou seja - o autor conclui que o usuário de Ipod transnformou o espaço público da cidade no seu espaço privado.

Duvido das quatro premissas.

Eu li o livro pensando o tempo todo no trabalho do Michel de Certeau - o Invenção do Cotidiano ( não sei se é mesmo este o título). Penso no volume 2, mas de cabeça, pois não tenho o livro em mãos. É quando ele fala das apropriações e trajetos que fazemos na cidade e que vão dialogar e se sobrepor a outros trajetos desenhados por outros habitantes, tanto quanto com os trajetos pré-planejados dos urbanistas.

Assim, por que não pensar na cultura do Ipod nesta perspectiva - como uma "apropriação" do espaço acústico que dialoga e acrescenta uma nova "camada sonora" ao soundscape da grande cidade, que é povoada por inúmeros e múltiplos sons, ruídos, etc.?
Porque não usar uma idéia tão legal que é a da cidade polifônica?
Porque não explorar esta tensão entre indivíduo e coletivo e entre espaço público e privado - que sem dúvida são fundadoras da experiência da modernidade - de uma maneira mais sofisticada ?
E mais -de onde este povo tira esta afirmação de que "o jovem não se permite a verdadeira relação social" - só pq tá falando no seu telefone celular ou ouvindo o seu MP3 ? Nunca entendi o que é mesmo a tal verdadeira relação social - ou melhor, nunca entendi onde está a "falsa"...
Afinal, as mediações tecnológicas fundam a nossa experiência com o mundo também desde o início da modernidade.

Foi com estas afirmações que eu impliquei, mas , como disse, tem uma discussão legal sobre usos do Ipod, tem a fala dos informantes justificando suas escolhas e isto é bem interessante.

Deixo então a referência completa do livro, pra quem quiser conferir e comentar aqui.

Sound Moves - Ipod culture and urban experience -Michael Bull - Routledge, 2007

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Soundscape, ruídos e trilhas urbanas

Tenho lido alguns textos sobre soundscapes e paisagens sonoras.Por conta disto, não resisto a um comentário que, de outra maneira, seria quase banal. É sobre as sonoridades, barulhos, ruídos e músicas que dão personalidade a uma cidade, bairro ou ambiente.
Moro num bairro muito silencioso no Rio, o Cosme Velho. Terceiro andar de um prédio baixo, numa rua sem saída. Mesmo assim, estranhei o silêncio de Montreal à noite, logo que cheguei.Mas, estranhei mais ainda a galera local me perguntar se eu estava conseguindo dormir, uma vez que estava numa rua "muito barulhenta" da cidade.
Agora, me mudei para uma ruazinha ainda mais calma.Super silenciosa, mesmo.Moro num térreo, do lado de um restaurante. Espantosamente, nada de barulho externo. Por outro lado, apesar do pé direito alto, as paredes revestidas de madeira deixam passar o som do apartamento de cima...não claramente, mas a ponto de saber se tem gente em casa.

Mas, o que me provocou mesmo este post é -podem rir, mas vou dizer...bem, é a minha academia de ginástica. Acabo de chegar de lá. É que no Rio nunca malhei ao som de uma trilha legal - a não ser que leve meu MP3 Player.
Aqui, o som ambiente é um techno clássico, super bem equalizado, numa altura de festinha animada, que faz com que ninguém tenha que ouvir aquelas conversas chatas de marombeiro...E a academia ainda fica aberta até meia-noite. Inclusive sábados e domingos. É festa ou não é!!
Fico prestando atenção na textura das músicas, nas mixagens e esqueço que estou malhando...O que me lembra a vez que fui a Londres, no auge da popularização da música eletrônica por lá nos anos 90. Momento em que a paisagem sonora da cidade - da garota que limpava meu quarto no hotel à lojinha de sapatos mais simplezinha passando pelos garotos no metrô - estivesse também impregnada da sonoridade techno, na época ainda uma novidade no Brasil, mais ligada à cultura underground e jamais fazendo parte da trilha da faxineira.

Acho que vale a gente desnaturalizar um pouco esta conversa e pensar nas sonoridades que nos rodeiam e que dão sentido ao nosso cotidiano; outras que nos afastam de certos ambientes sem a gente nem mesmo saber porque.Não falo só de música, não. Falo da tal "paisagem sonora" que interessava a Murray Schafer no seu livro chamado The Soundscape, composta por ruídos e sonoridades de ordens diversas - dos celulares que tocam na sala de aula à feira na sua rua, do carro da pamonha aos tiros da Rocinha, passando pelo funk do Chapéu Mangueira - conforme Chico já cantou na música Carioca - e tantas camadas sonoras mais.

E aí, claro, o assunto ainda se desdobra em muitas outras questões ligadas à escuta. Por exemplo, a relação da memória afetiva com certos sons que nos transportam imediatamente para certos lugares. (pensem no som de badalar de sinos, de um apito de fábrica, de uma batucada ou do barulhinho que avisa quando chegou e-mail no computador).

Ou ainda a discussão sobre o quanto a escuta é cultural - ou seja, o quanto suportamos de barulho, que ruídos ou sonoridades são aceitáveis em certas (sub)culturas e como isto é negociado socialmente, nada tendo de "natural".

(É só lembrar da história do rock, que era considerada "barulho" pela geração anterior, que ouvia Frank Sinatra...)

Para discutir o assunto, além do livro citado acima, tem também o recém-lançado do Michael Bull, "Sound Moves" sobre I-pods usados como soundscape para a vida urbana. Estou lendo e implicando um pouco com o argumento central - que aposta no esvaziamento da vida pública e analisa o I-Pod como ferramenta para fortalecimento do individualismo. Mas, de qualquer maneira, tem lá umas questões "boas pra pensar" estas relações entre espaço urbano, cultura e identidade, que valem o investimento. Mesmo se a gente discordar das conclusões do cara.

Um filme bestial



Na próxima quinta-feira, dia 2 de outubro, dentro do Ciclo Tela Lusitana: Cinema Português Ontem e Hoje, o Cineclube Cinerama da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro exibe o magistral Recordações da Casa Amarela (1989, 119 minutos) de João César Monteiro. Vencedor do Leão de Prata (Melhor Direção) no Festival de Veneza daquele ano, Recordações... é o filme que consagrou internacionalmente o saudoso diretor português, além de ter iniciado a trilogia com o personagem João de Deus (interpretado pelo próprio Monteiro), que daria as caras novamente em A comédia de Deus (1996) e As bodas de Deus (1998). Iconoclasta, provocador e sem freios na hora de desafiar o conservadorismo luso, Monteiro era dado a experimentações e ousadias, como misturar Schubert e Quim Barreiros na trilha sonora de seus filmes, ou então como quando rodou Branca de Neve (2000), filme cujos 75 minutos de projeção transcorrem quase que inteiramente com a tela preta. Clicando aqui e aqui, é possível assistir a trechos de duas reportagens feitas pela RTP à ocasião do lançamento deste último, que nos permitem ter uma amostra do estilo mordaz a virulento do diretor.

Falecido em 2003, após concluir as filmagens do igualmente cáustico Vai e vem, Monteiro é figura que certamente deixa saudades, ainda mais tendo em vista o panorama da atual produção cinematográfica portuguesa, que estou tendo a chance de acompanhar no Festival do Rio e que, em breve, pretendo comentar aqui neste espaço.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Oi investe em Webcomics

O site online UNIVERSOHQ divulgou hoje que a OI começou a investir em webcomics, dando oportunidade para uma nova safra de escritores e desenhistas, ao seguir uma tendência de outros países. Em muitos lugares do mundo, os quadrinhos estão conquistando cada vez mais as companhias de telefonia móvel que ofertam HQS digitas exclusivas para seus usuários. O retorno financeiro e institucional para as operadoras e editoras envolvidas tem sido bastante satisfatório, de acordo com a matéria. Vamos ver se aqui, no 5o maior mercado de quadrinhos do mundo, isso vai dar certo. Para quem quiser ler a matéria completa, é só clicar aqui.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Filmes portugueses no Festival do Rio 2008

Saiu na última segunda-feira (22), encartado no exemplar para assinantes do jornal O Globo, a programação oficial do Festival de Cinema do Rio de Janeiro, que começa na próxima quinta-feira. Como sempre, são muitos filmes tentadores para pouco tempo disponível, então a exemplo do ano passado, vou focar minha programação nos filmes portugueses, que dificilmente (dificilmente mesmo!) serão lançados comercialmente no circuito brazuca. Vale lembrar que a produção cinematográfica lusa não compreende muito mais do que dez filmes por ano: sob essa perspectiva, os QUATRO longas-metragens selecionados para a edição 2008 do Festival (bastante inferior, em termos numéricos, à lista do ano passado, com cerca de oito produções) permitem que o espectador faça uma idéia de a quantas anda o cinema português contemporâneo.

Eis os filmes:

Mostra Expectativa
AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO
Miguel Gomes, Portugal/França, 2008, cor, 150 min, legendas eletrônicas em português, 12 anos
Com Sônia Bandeira, Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho
Em Portugal, agosto é marcado por festividades. Movido pelo desejo de fazer um filme neste universo, o diretor sai em busca de um roteiro e de atores.
SEX, 26: Estação Vivo Gávea 5, 13h20 [GV501] e 19h [GV503]
SAB, 27: Estação Barra Point 1, 22h10 [BP110]
SEG, 29: Espaço de Cinema 3, 16h30 [EC324] e 24h [EC368]

Mostra Panorama
CALL GIRL
António-Pedro Vasconcelos, Portugal, 2007, cor, 124 minutos, legendas eletrônicas em português, 14 anos
Com Soraia Chaves, Ivo Canelas, Nicolau Breyner
Prostituta de luxo é contratada por um empresário para seduzir o presidente da câmara e poder chantageá-lo depois. Mas algo sai errado.
SAB, 27: Estação Vivo Gávea 1, 13h30 [GV106] e 17h50 [GV108]
DOM, 28: Estação Barra Point 2, 17h45 [BP213]
TER, 30: Espaço de Cinema 3, 13h45 [EC329] e 23h30 [EC334]

A CORTE DO NORTE
João Botelho, Portugal, 2008, cor, 122 minutos, legendas eletrônicas em português, 14 anos
Com Ana Moreira, Rogério Samora, Ricardo Aibéo
Jovem mulher investiga a história de sua ancestral, Rosalina de Souza, ex-prostituta que chocou a sociedade portuguesa no século XIX.
QUA, 1: Estação Vivo Gávea 4, 18h [GV428]
QUI, 2: Espaço de Cinema 3, 13h45 [EC343] e 21h45 [EC347]

O JULGAMENTO
Leonel Vieira, Portugal, 2007, cor, 105 minutos, legendas eletrônicas em português, 14 anos
Com Júlio César, José Eduardo, Alexandra Lencastre
Professor universitário alcóolatra vive atormentado pelas lembranças de sua prisão durante a ditadura de Salazar. Quarenta anos depois, ele reencontra o policial que torturou e matou um de seus companheiros. Atormentado, seqüestra o policial para que ele confesse seus crimes.
DOM, 28: Estação Botafogo 3, 14h15 [EB314] e 21h [EB317]
QUI, 2: Estação Barra Point 2, 18h15 [BP233]
TER, 7: Estação Botafogo 3, 12h15 [EB367]


Dos autores em cartaz, não conheço a obra de nenhum em particular, mas sei que de Leonel Vieira e António-Pedro Vasconcelos podemos esperar flertes com a linguagem mais narrativa clássica do cinema de entretenimento hollywoodiano. A contrapartida radical vem com João Botelho, diretor do formalmente ousado, beirando o experimental Quem és tu? e nitidamente inspirado pelos mestres João César Monteiro e Manoel de Oliveira. Curiosamente, dos filmes programados, o que me desperta maior expectativa é o longa de Miguel Gomes. Vale lembrar que foi numa Mostra Expectativa de dois ou três anos atrás que tivemos a chance de conferir o magistral Alice, talvez um dos grandes filmes portugueses de sempre.

* * *

E aproveitando a oportunidade, faço meu jabá: dando prosseguimento ao ciclo Tela Lusitana: Cinema Português Ontem e Hoje, na próxima quinta-feira (25) será exibido o surpreendente longa-metragem de terror Coisa ruim, de Tiago Guedes e Frederico Serra, anteriormente comentado nesse blog. Maiores informações no blog do Cineclube Cinerama. Em breve, reunirei aqui no espaço do LabCULT uma compilação de todos os textos elaborados a propósito dos filmes da mostra.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Levemente doce, levemente salgado

Em tempo de tribos a Coca-cola, que não é boba nem nada, vêm fazendo sucesso com um projeto de marketing misto de programa de TV e gravação de CD/DVD difícil de nomear. Trata-se do "Estúdio Coca-cola Zero" que consiste em misturar bandas de gêneros musicais diferentes em um mesmo show. No site dá prá assistir as quatro mais recentes apresentações casadas entre o MPB da Vanessa da Matta e o rock Charlie Brown Jr; o reggae do Natiruts e o funk do DJ Marlboro; o sertanejo da dupla Chitãozinho e Xororó e o emo (emo é gênero musical?) do Fresno e mais recentemente o rock do Paralamas com o calipso do Calypso. Paralelo ao show, rolam espécies de reality-shows em que fãs trocam baladas e experimentam fazer parte de uma outra tribo.

Além da curiosidade que é ver Herbert Vianna tocar ao lado de Chimbinha e Joelma, o bacana é perceber como a noção de gênero musical é central nesse esquema. Se a princípio poderíamos pensar sob uma perspectiva pós-moderna e apontar tal colaboração como um evidente traço de perda das demarcações por gênero em reflexo a identidade contemporânea, mais fluída, sem perfis estabilizados que permite a qualquer um ouvir todos os tipos musicais sem choques culturais, o projeto acaba por ratificar a importância da categorização por gênero na administração da música massiva. Uma vez que o foco está na mistura proposital de ritmos bastante díspares e esta diferença entre os artistas é medida acima de tudo a partir do gênero musical ao qual pertence, o que assistimos é mais do que uma dobradinha entre bandas, é um provocação entre estilos musicais no qual se espera que os elementos tradicionais de cada estilo compareçam em palco. Nessa lógica, quanto mais distantes os gêneros, melhores são os resultados. Ouvindo Calypso com uma pegada rock e o Paralamas com direito a reboladas percebemos que os gêneros ficam mais evidentes quando são expostos a alterações.

Trilhas sonoras dos games

Como já contei, tenho frequentado o curso do Jonathan Sterne sobre Sound Studies aqui na McGill. A bibliografia e as discussões estão muito boas.

Por conta disto, leio no momento - e queria recomendar - um livro interessantissimo. O tema são as trilhas musicais dos games. Infelizmente, o livro ainda não foi lançado e estou com a cópia de uma versão no prelo. Mas, ainda sai em 2008.
O nome é Game Sound, An Introduction to the history, theory and Practice of Video Game Music and Sound Design.Cambridge, MIT Press, 2008.A autora, Karen Collins.

É muito informativo, traz análises da "função" não só das músicas como tb do som em diversos gêneros de games, abordando aspectos deste tema pouquissimo explorado.
O assunto me chamou atenção pela primeira vez quando teve aquele concerto aí no Rio (Video Games Live) que roda o mundo, e é uma apresentação de uma orquestra tocando as trilhas de games. Na época, fiquei louca com esta história, pois fez um super sucesso e o povo comparecia vestido com cosplays - as roupas dos personagens prediletos dos games.Pensei em escrever um artigo, mas acabei - como tantas outras idéias - deixando meio na gaveta por conta da falta de tempo.
Depois, no ano passado - graças ao Luiz Adolfo, que fez a mediação - orientei um trabalho de graduação que discutia a trilha sonora do game Final Fantasy. Claro que aprendi muito com o trabalho e percebi a lacuna bibliográfica sobre o tema.
Agora, este livro vem trazer umas discussões bem bacanas.
Vcs conhecem mais algum trabalho ? Quem souber de mais alguma coisa, passa aí nos comentários dicas pra gente, pois acho um tema muito rico para ser explorado.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Diga o que ouves e te direi quem és.

























A Universidade escocesa Heriot Watt realizou estudo para tentar responder a uma velha pergunta: Um determinado gosto musical pode definir a personalidade da pessoa? Segundo a pesquisa SIM. A partir de questionários nos quais os participantes respondem sobre seus hábitos de consumo musical e afinidade com estilos, os pesquisadores chegaram à conclusão de que quem curte indie rock, normalmente, tem baixa auto-estima e é desmotivado. Já os fãs de rap são auto-confiantes, os de dance music extrovertidos e egoístas e os de pop são pouco criativos e gentis. Lógico que a pesquisa gera questionamentos e suspeitas... Mas afinal... quem já viu um baladeiro ficar em casa curtindo fossa ao som Fatboy Slim? Ou algum roqueiro super animado para ir à praia? Ok ok... talvez existam casos raros, nesse caso não dá prá generalizar.
Como tenho assistido as aulas com o Vinícius Pereira lá na UERJ sobre materialidade da comunicação, fiquei me perguntando... será que a associação entre gênero musical e comportamento está mais relacionado a esfera da afetividade ou da sensorialidade da música? É muito comum relacionar gêneros como o rock a revolta política, introspecção e crise existencial, por exemplo. Isso se dá no campo cultural, ou seja, roupas, cortes de cabelo, jeitos de dançar ou não dançar e temas das letras de música acabam sugerindo essa identidade. Mas será que a materialidade da música, suas caracteristicas físicas como rítmo, harmonia, graves e agudos entre outros aspectos sonoros próprios de cada estilo não estimulam experiências diferenciadas que fundamentariam tais associações entre comportamento e gênero musical? Estou apenas externando pensamentos; Talvez aspectos materias do som estejam dialogando com o corpo gerando determinados perfis comportamentais. Prá quem se interessou pela pesquisa segue o link com os questionários em inglês.

sábado, 13 de setembro de 2008

ARG das Olimpíadas chega ao final




No último mês de agosto, foi encerrado o Alternate Reality Game (ARG) relacionado aos Jogos Olímpicos de Pequim – 2008. The Lost Ring, este é o nome do game, foi disputado desde o mês fevereiro deste ano e o desafio mobilizou jogadores de todos os continentes.
O desafio dos chamados ARGs parte de um determinado domínio na internet e vai se desenrolando até chegar nas ruas das cidades, transformando o espaço urbano em um ambiente de competição.
Em The Lost Ring, duas cidades brasileiras – São Paulo e Salvador – foram escolhidas como palco para estas ações ao vivo entre jogadores, chamadas de “lives”. Fui convidado para acompanhar os dois momentos do jogo que aconteceram na capital baiana.
O primeiro aconteceu dia 20/07/2008 nas ruas do bairro da Pituba. Munidos de um trakstick, aparelho que transmitia nossa localização, deciframos o mapa que continha um labirinto formado pela intersecção das ruas locais. Depois de 4 horas, contado com a ajuda de jogadores de outras cidades conectados por celulares, conseguimos superar os obstáculos e fazer o labirinto.
O segundo live soteropolitano foi disputado no último dia 22/08, no Jardim dos Namorados, também na Pituba. Desta vez, a organização do ARG - chamada popularmente de base - enviou um modelo gráfico em espiral que deveria ser desenhado no chão do local. Em seguida, era necessário apontar um jogador do grupo para percorrer à pé e de olhos vendados o espaço figura no menor tempo possível.
A experiência em The Lost Ring foi de extrema importância pois trata-se do primeiro ARG intercontinental que envolveu países América do Sul, como o Brasil - podemos encontrar na internet registros de lives disputados em cidades da Argentina, Uruguai, Peru e Bolivia. Na condição de ARGueiro confesso, posso dizer que foi muito gratificante e divertido jogar The Lost Ring. Neste vídeo, recebemos os parabéns da "base" por conseguir superar o desafio.

Podcast - Brian Eno


Aproveitando a lebre levantada pela Simone em seu último post, resolvi retomar o esquema dos podcasts informais do LabCULT e colocar um pouco de Brian Peter George St. Baptiste de la Salle Eno nas idéias do povo. A seleção que vocês conferem clicando aqui [não se esqueçam de abrir como nova aba/janela] contém músicas dos álbuns Here come the warm jets, Taking tiger mountain by strategy (ambos de 1974), Another green world (1975), Before and after science (1977) e My life in the bush of the ghosts (1981), parceria entre Eno e o ex-líder do Talking Heads, David Byrne, anterior ao novo 'disco' que a Simone recomendou (e que nesse exato instante encontra-se em processo de download, btw) - ou seja, a seleção vai do glam mais purpurinado à world-funk-beat dos anos 80. Privilegiei as faixas cantadas - noutra ocasião disponiblizo alguns dos atmospheres and soundtracks criados por Eno na série Ambient, sem a qual, ouso dizer, muito pouco ou quase nada de música eletrônica pós-década de 80 seria possível.

Vale lembrar que Eno é o cara por trás dos últimos discos de Coldplay e Paul Simon, e que atualmente se encontra em estúdio finalizando o novo álbum do U2 (será que vem outro Achtung baby aí?), além de ter co-produzido a majestosa Trilogia de Berlin de David Bowie ('Heroes', Low e Lodger) no final dos anos 70. Quer currículo melhor do que este? Diante de tantas obras-primas, a gente até perdoa o fato de o cara ter sobrenome de sal-de-fruta...

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O que vcs querem ouvir primeiro ?

Uma notícia ruim, outra muito boa.

A ruim é a que o site da muxtape saiu do ar, por conta de contendas com a RIAA. Não conheço os detalhes do processo, só soube que a RIAA está processando o site por considerar que ele viola as regras de copyright...argh!

A boa é o disco (?) de Brian Eno e David Byrne, chamado Everything that happens, will happen today.

É a primeira parceria dos dois em trinta anos, lançada somente pelo site, sem gravadora, totalmente free.

O texto de apresentação convida as pessoas a ouvir o trabalho, informando que ele está disponível para divulgação, compartilhamento, etc. Fui conferir e não me arrependi. As músicas são muito boas.
Ah! E se algum de nossos muito bem informados leitores não souber quem são os dois nomes da parceria - tem gente aqui nascida depois de 1995 (céus!!) - vamo lá! Eles são daqueles que a crítica musical sempre se refere como tendo mudado o rumo da música. David Byrne, como o cabeça dos Talking Heads; e Brian Eno como um radical experimentador e pensador da música, um dos pais do ambient, parceiro, dentre muitos outros, de David Bowie, U 2 , etc, etc, etc.


Mais uma colher de chá, na forma de recomendações. Pro Eno, duas boas entradas no seu universo musical são as obras Another Green Word, e Apollo : Atmosphere and Soundtracks.

E para o Byrne, os trabalhos Speaking in Tongues (de 1983) e True Stories (1986) - este último, um sucesso cult no Rio de Janeiro dos 80.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Para brincar de fazer música eletrônica

Entre uma reunião e outra aqui no trabalho, eis que me enviam o link do Tony-b Machine. Apesar do nome lembrar algo ligado a funk melody, o site reproduz num desenho um tecladinho muito divertido pra quem gosta de brincar (ou pra quem leva a sério mesmo) de ser DJ.



Tem várias bases pré-gravadas, linhas melódicas de baixo, cordas, além das batidas. É prato cheio para fazer músicas. Além das bases, também tem uns samples gravados de músicas como Techonologic do Daft Punk e versos (?) clássicos como Everybody dance now e Boom Diggy Diggy Diggy Boom (???). Dá pra ficar horas brincando na Tony-b Machine.

Também vale a pena checar as músicas feitas e salvas por usuários do programa. Muito legal. Entra aqui então http://www.tony-b.org/

Culturas Juvenis no Século XXI

É com alegria que volto da Intercom comunicando o lançamento da coletânea Culturas Juvenis no Século XXI organizado por João Freire e Silvia Borelli e editado pela Educ e Eco-pós. A obra tece um panorama bastante vivo do que está a se pesquisar ao redor do Brasil em relação à juventude. Rio, São Paulo, Curitiba, Pernambuco: são diversas as localidades aí representadas e salta os olhos a qualidade de trabalhos das mais distintas perspectivas. Percebe-se como a temática juvenil está longe de se esgotar e se constitui como uma área de estudo bastante fértil. O que nos alegra ainda mais é que a participação dos pesquisadores do Labcult mostra os frutos do trabalho em parceria que viemos desenvolvendo. Através do artigo "Música eletrônica e rock: entre ruídos e riffs: gêneros musicais em tempos de hibridismo" eu, Simone e Lucas tentamos entender como a noção de música eletrônica se constitui a partir de uma tensão com rock e como ela pode ser pensada hoje, quando, mais do que nunca, falamos em misturas e gêneros híbridos. Nosso trabalho se integra a um denso panorama que analisa desde a cultura hip-hop (Micael Herschmann e Tatiana Galvão), a relação entre cinema e juventude (Angela Prysthon), a regulação do prazer juvenil (João Freire Filho) e o nexo entre violência e consumo Juvenil (Rose de Melo Rocha e Josimey Costa da Silva), até a cultura dos pixadores (Rita de Cassia), grafiteiros (Janice Caiafa), cosplays (Adriana Amaral e Renata Duarte), fãs de filmes trash (Mayka Castellano), de Harry Potter (Silvia Borelli), passando por outras temáticas. Até Martin Barbeiro esteve presente nessa empreitada, investigando a mudança na percepção da noção de juventude na contemporaneidade. Em breve teremos o lançamento no Rio, aguardem!

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Cinerama ECO-UFRJ apresenta "Tela Lusitana: cinema português ontem e hoje"

Para descobrir Portugal

Em se tratando de um país com o qual possuímos relações que ultrapassam os 500 anos de história, é surpreendente que saibamos muito pouco ou quase nada do que tem sido feito em Portugal, hoje, em termos de cultura midiática (cinema, música, televisão). Para além dos discursos que pensam Portugal como sinônimo de tradição (literária, gastronômica, religiosa) ou que representam a cultura portuguesa a partir de determinados elementos da ordem do estereótipo e do clichê (o fado, o bacalhau, o vira, as mulheres de bigode, o Seu Manoel da Padaria, Roberto Leal - a lista se estende até o infinito...), o desafio proposto pelo ciclo Tela Lusitana: cinema português ontem e hoje, é o de enxergar um Portugal contemporâneo, em que determinados quadros de modernidade convivem, às vezes tensa, às vezes harmonicamente, com as "formas tradicionais" a partir das quais costumamos pensar a cultura portuguesa.

O cinema português é uma esfinge que apenas eventualmente temos a oportunidade de decifrar, seja em Festivais e Mostras esporádicas (em que reina o desisteresse por parte do grande público), seja quando do lançamento da última produção de Manoel de Oliveira, o mais velho realizador ainda em atividade (100 anos completados em 2008) e único diretor português a ter sua obra exibida com regularidade no Brasil, embora restrita ao circuito alternativo. É fato que o volume da produção portuguesa é reduzido (em Portugal, são produzidos cerca de 12 filmes por ano, e lá, à época da ditadura salazarista, houve um hiato semelhante ao verificado no Brasil entre as décadas de 80 e 90): ainda assim, resumir o cinema português à estética de Manoel de Oliveira é desconsiderar a pluralidade criativa de uma cinematografia onde há espaço tanto para a experimentação de linguagem mais radical (caso de Recordações da casa amarela, do iconoclasta - e saudoso provocador - João César Monteiro) quanto para um eficiente exercício na seara do cinema de gênero (caso do terror Coisa ruim, relativo êxito de bilheteria na Terrinha em 2006). Além dos filmes já mencionados, o ciclo Tela Lusitana apresenta também duas crônicas sobre solidão e perda ambientadas em uma Lisboa muito além do cartão postal (o soturno Alice, de Marco Martins, e o transgressor Odete, de João Pedro Rodrigues), acrescidas de um autêntico poema visual sobre a questão da imigração (Lisboetas, de Sergio Treffaut), documento indispensável para se pensar as relações sociais e de poder que configuram a Europa hoje.

Tiago Monteiro

Nesse mês de setembro o Cinerama apresenta a mostra Tela Lusitana, com diversos filmes da produção portuguesa cinematográfica contemporânea. Os filmes são:

11/9 Alice (Marco Martins)

18/9 Lisboetas (Sergio Treffaut)

25/9 Coisa Ruim (Tiago Guedes e Frederico Serra)

2/10 Recordações da Casa Amarela (João César Monteiro)

9/10 Odete (João Pedro Rodrigues)


______________

Às 18.30, no auditório da CPM-ECO (Av. Venceslau Brás, n. 71, [Botafogo], campus da Escola de Comunicação da UFRJ - Rio de Janeiro/RJ).


quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O culto ao vinil

Edição de domingo do New York Times comenta o culto do vinil por culturas de nicho; e Jonathan Sterne fez referência ao fenômeno no blog dele, lembrando de uma piada já meio velhinha que circulou pela internet anos atrás, que dizia que a salvação da indústria fonográfica na era do download já tem nome.

Trata-se de um aparato meio esquisito, que atende por uma sigla:R.E.C.O.R.D. Piadas à parte, acho que o assunto rende muito e por isto ele tem merecido atenção no LabCult. Escrevi um artigo sobre o culto ao vinil para a coletânea organizada pelo Sergio Amadeu sobre a morte do CD (ainda no prelo). Chama-se "O CD morreu: Viva o vinil" - tratando das reapropriações do vinil por várias destas subculturas tais como a da música eletrônica.

E estamos iniciando - eu e Tiago Rubini - uma etnografia com colecionadores de vinil no Rio.

Acho muito interessante pensar no retorno de tecnologias ditas obsoletas e como elas se reconfiguram ao se conectar com as "novas". É o caso do Sleeveface, de que falei em outro post. E também uma das questões que estou trabalhando no projeto sobre os sistemas de recomendação - do tipo Last Fm e outros - que desenvolvo aqui na McGill. E que tem como uma dos interesses analisar a materialidade destas nova formas de consumo de música e a compreensão de com elas "dialogam" ( nos termos de Bolter e GRusin no livro Remediation) com as anteriores - e em especial com o disco e a noção de álbum.

E meu argumento lá no artigo é o de que a materialidade do vinil - ou seja, suas características físicas, materiais, sônicas e estéticas (a capa, o tamanho do disco, os encartes, a forma de colecionar e organizar a música, o "calor" da bolacha na mão dos usuários) vai ser fundamental para entender esta reapropriação.

Um segundo elemento importante é a noção de distinção e de capital (sub)cultural, nos termos discutidos por Bourdieu.. Ou seja, no momento em que os tocadores de MP3 se popularizam, ter um toca-discos e colecionar discos torna-se hype por ser raro, difícil...e isto é bem discutido na matéria do NYT, ao comentar que enquanto os pais apresnedem a usar o Ipod com os filhos, estes retornam aos toca-discos e reviram os discos dos pais.

. Montreal tem lojas de discos para todos os gostos. Lindas, charmosas, undergrounds... (vi um vinil dos Beatles por 5 dólares outro dia...). E um amigo daqui me contou que a cidade é conhecida internacionalmente por suas pechinchas em vinil, atraindo comerciantes de outros paises, que viajam pra cá para comprar mercadoria e revender.O que explica a existência deste guia para colecionadores de vinil, com mil endereços bacanas.
Em suma - há toda uma movimentação econômica e cultural em torno do vinil, que merece análises mais apuradas do que a interpretação de que isto seria somente nostalgia, tal como Plaskettes propôs em seu artigo sobre o tema. Abaixo, uma lista de sugestões de leituras sobre o assunto.E tb as referências dos trabalho de Bolter e Grusin e Bourdieu citados neste post. Boa leitura!



BOLTER. J. e GRUSIN. D. – Remediation.Understanding New Media. E.U.A., MIT Press, 2000.



BOURDIEU, P. – Distinção. Crítica Social do Julgamento.SP, EDUSP, 2007.



FERREIRA, P. P. – O Analógico e o Digital: a politização tecnoestética do discurso dos DJs, ANAIS da XXIV reunião da ANPOCS, Caxambu, MG. 2004



FRAGA, Danilo Dantas - MP3, A MORTE DO ÁLBUM E O SONHO DE LIBERDADE DA CANÇÃO? – Encontro da ULEPICC



YOCHIM, E. C. e BIDDINGER, M. - It kind of give you that vintage feel; vinyl records and the trope of death, IN: Media, Culture and Society, Vol. 30(2) 183-195; Los Angeles, London,. New Delhhi, Singapore, 2008.



KEIGHTLEY, Keir – Long Play: Adult-Oriented Popular Music and the temporal Logics of the Post-War Sound Recording Industry in the U.S.A. In: Media, Culture & Society, vol. 26, 375-391. London, Thousand Oaks, New Delhi. 2004.



MAGOUN, Alexander B. – The origins of the 45-rpm Record at rca Victor, 1939-1948. In: Braun, Hans-Joachim(org.) – Music and technology in the twentieth century. pp 148-157 Baltimore and London. John Hopkins Univ. Press, 2002



PLASKETTES, G. (1992) ‘Romancing the Record: The Vinyl De-evolution and Subcultural Evolution’, Journal of Popular Culture 26(1): 109–22.



SÁ, Simone Pereira de - A música na era de suas tecnologias de reprodução. Revista E-Compós, n. 8 – agosto 2006. – Brasília, 2006



SÁ, Simone Pereira de - O vinil morreu? Viva o vinil!!! (Texto no prelo – para a

coletânea: A música depois da morte do CD – org de Sergio Amadeu)

psychobilly is all around!

Ao estar em Curitiba, você irá se deparar com muitas pessoas tímidas e, por muitas vezes, um tanto obtusas e polidas ao extremo (posso falar porque sou de lá). No inverno é muito frio, e nas outras estações do ano é, pelo menos, levemente frio. O centro da cidade e as regiões adjacentes são bonitas e limpas, e é fácil de perceber o esforço da prefeitura em manter a fama de excelência turística em toda a parte.
O slogan "a cidade da gente" nos tubos dos ônibus biarticulados, os guardas municipais tranqüilos conversando com os velhinhos que jogam dominó na Boca Maldita, as adolescentes indo fumar cigarrinhos de canela no intervalo do cursinho Positivo, o Crystal Fashion com a elite wannabe vitoriana, os chafarizes holográficos do shopping Estação e as famílias sentadas nas gramas bem aparadas do Jardim Botânico. Esta é Curitiba.

E quando as pessoas que gostam de música punk se entreolham meio constrangidas pelo tédio, sabem que estará tudo bem: acontece o PsychoCarnival em fevereiro e o PsychoFest em setembro.

Se você ainda não conhece, o psychobilly é uma vertente do punk; hoje em dia, está popularizado por bandas que beiram - ou estão completamente embebidas pelo - Pop, como os HorrorPops, cuja vocalista bonitona, Patricia Day, ostenta um enorme baixo acústico adornado com figuras de pin-ups zumbis e fofuras travestidas de elementos de filmes de terror.

Híbrido de punk e rockabilly, o psychobilly deve muito a bandas como os Stray Cats e The Cramps, ambas nova-iorquinas dos anos 70, que transformaram o bom e velho rock 'n' roll de Elvis Presley num estilo ácido e, no bom sentido, marginal, levando ao extremo aquele adjetivo - drape - popularizado por John Waters em Cry-baby. Lux Interior e Poison Ivy são os membros fundadores do The Cramps, e chegaram a se apresentar no CBGB's ao lado de gente com os Ramones e a Patti Smith. Não colheram tantos frutos com a sua arte na época, mas hoje em dia são cultuados no mundo todo. Sua performance beira o teatral, e o choque sempre foi uma boa estratégia quando aliado à sua qualidade sonora; o traje tradicional de Lux Interior é um macacão de vinil e saltos altos, e suas afetações fazem contraste com a quase sóbria postura de Poison Ivy (que também gosta de roupas extravagantes), contradizendo os papéis de gênero do rock tradicional.

The Cramps.

Fazendo jus ao que Antonio Bivar disse no seu trabalho sobre os punks paulistas, os psychobillies brasileiros construíram alianças fortes com as cenas semelhantes do resto do mundo. Curitiba é considerada por muitos a capital latino-americana do psychobilly - não só por ser a casa de bandas internacionalmente conhecidas como Os Catalépticos, os Chernobillies, o Ovos Presley e recentemente as Diabatz, mas também por causa dos festivais e eventos ligados ao gênero. Não raramente, bandas internacionais comparecem aos festivais: já os prestigiaram o Mad Sin (Dinamarca), Demented are Go! (País de Gales), e neste próximo PsychoFest estará o Frantic Flinstones (de algum lugar do Reino Unido), cujo vocalista tornou-se um dos mais novos moradores de Curitiba.

O porte dos festivais é sempre modesto, sendo que o público de cada dia geralmente não passa de 500 pessoas. De qualquer maneira, é importante para a classe média curitibana que se interessa por cultura urbana alternativa. O tradicional Festival de Teatro, apesar de consagrado nacionalmente e ter um grande público, não necessariamente corresponde a todo o tipo de expressão cultural da cidade. No PsychoFest geralmente acontecem exposições de fotografia (nesta edição contando com os trabalhos de Andye Iore), e os cartazes são da autoria de desenhistas locais que se engajam em revistas e artes para outros artistas - como o cartunista G-Lerm, que já participou de publicações como o Almanaque Entropya e fez trabalhos para a lenda psychobilly Reverend Horton Heat.

Se for passar por lá nos dias 5, 6 e 7 de setembro, vale a pena dar uma conferida. Mais informações no forum oficial psychobilly do Brasil.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Pela Conferência Nacional de Comunicação


As petições online continuam circulando como forma de pressionar o governo e influenciar políticas públicas. Desta vez, o abaixo-assinado é em prol da convocação da I Conferência Nacional de Comunicação, para a qual já existe verba no orçamento da união.

A petição está sendo encabeçada por uma comissão criada em 2007 e formada por mais de 30 entidades da sociedade civil, pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDMH) e pelo Ministério Público Federal. O abaixo-assinado está circulando de mão em mão e também online. (Para assinar, clique aqui.)

O objetivo da conferência, como acontece em outros setores, é fazer um balanço das ações do poder público na área, propor diretrizes para as políticas públicas de comunicação e apontar prioridades de ações governamentais dentro destas diretrizes.

A realização dessa conferência é de extrema importância para subsidiar a criação de um novo marco regulatório do setor de comunicações no Brasil, essencial no momento em que estamos vivendo, com a chegada da TV e do rádio digitais, a discussão sobre convergência de mídias e a iminente aprovação de leis que criminalizam e limitam o uso da Internet, como a lei do senador Eduardo Azeredo (PL 84/1999), que já foi aprovada no senado e agora caminha, em regime de urgência, na Câmara dos Deputados.

Espero que o abaixo-assinado em favor da Conferência Nacional de Comunicação repita o sucesso da petição online contra a Lei Azeredo, que já conta com mais de 110 mil assinaturas. Apesar do projeto ter sido aprovado no senado, há esperanças de que não passe na Câmara ou não seja sanciondado pelo presidente Lula. De acordo com o blog do sociólogo Sérgio Amadeu, os deputados Jorge Bittar (PT-RJ) e Paulo Teixeira (PT-SP) apresentaram, no último dia 7 de agosto, um requerimento de audiência pública para discutir o projeto na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara. A justificativa dos deputados é a polêmica que a matéria vem causando.

Antes que o verão se vá - descobertas musicais da cena canadense


Hoje é feriado aqui no Canadá (e também nos EUA).Labor Day - o dia do trabalho deles e de certa maneira também a despedida do verão, já que o ano letivo reinicia amanhã em grande parte das escolas e Universidades.

Um lindo dia de verão, com a temperatura alta, por volta dos 30 graus - fato raro por aqui. Praças e parques lotados com gente se jogando no sol, como se estivessem mesmo se despedindo da estação - como a foto aí em cima mostra bem.

E os cadernos culturais anunciando as novas atrações da temporada de outono, que tem show pra todos os gostos - de Nick Cave a Madonna(U-HU duplo!)

Vamos então à listinha das minhas descobertas de verão.São bandas e músicos legais, engraçados ou bizarros do Canadá - com uma exceção francesa - que descobri especialmente a partir do Festival Osheaga, do qual já falei em outro post.


Chromeo – Duo de electro aqui de Montreal, formado por Dave 1 e P-Thugg. Traz os principais elementos do gênero-sintetizadores anos 80, vocais tb remetendo ao synth pop e letras engraçadas e legais.
Abriu a turnê do Bloc Party em 2007 (oops – já não é uma boa referência), tem música no game Space Colony, ganhou MTV Awards...

O CD deles que tá bombando nas lojas é o Fancy Footwork, de 2007 .


Duchess says – Punk rock, screaming guitars, baixo a la Manchester e uma gata com “vocais convulsivos” (expressão da crítica local), Annie C. Lançou o primeiro CD, ainda fresquinho – Anthologie des 3 Perchoirs.


La Patère Rose – Electro-pop teatral. Dizem que foi a banda mais ouvida em Quebec neste verão. Trio – formado por Fanny Bloom, Roboto e Kilojoules, são da cidade por Sherbroke, aqui perto. Ainda estão gravando o primeiro disco.


Chocolat – Mais uma pérola montrealense, com referências dos anos 60 na linha folk-Bob Dylan mais garage rock.Jimmy Hunt é o nome do cara; e Piano Elegant o nome do último CD.
http://www.myspace.com/montrealchocolat

Bonjour Brumaire– “ Atmosfera de um café francês, somado a um pub inglês do moento inicial do punk mais a barulheira do boulevard Saint-Laurent aqui de Montreal (rua que te alguns bares legais que tocam industrial, noise, etc). Lançaram este ano o primeiro CD chamado De la Nature des Foules.


Broken Social Scene – De Toronto, esta é mais conhecida – banda-coletivo indie, meio Orquestra Imperial (se esta fosse roqueira) no Rio.Conta com 11 membros e é de onde saiu gente como a Feist, que faz agora carreira solo.


Sebastien Tellier – Não é canadense, mas francês “da França”. E tira a maior onda de francês no palco. A apresentação no Osheaga foi fazendo caras e bocas de “enfant terrible”, tipo “estou entediado num cabaré” – um palco mínimo e enfumaçado, ele de chapéu, blazer preto, fumando e bebendo muito, óculos escuros, tu-do meio escuro...Pretensioso, quase chato,não fossem as músicas ótimas, que merecem ser ouvidas no MP3, sem o cara encenando. A favor dele, a lua quase cheia que apareceu depois de um domingo chuvoso, a presença na trilha sonora de Lost in Translation, da Sofia Coppola. E a produção do último disco – Sexuality - pelo Homem-Christo (do Daft Punk.)