
Conheci a
XM na primeira vez em que estive em Portugal, em abril de 2007. Situada em Coimbra, mais precisamente na Rua do Quebra-Costas, logo após a primeira porta da cidade velha e bem no início da (longa) subida que vai dar na tradicional universidade (daí o nome de Rua do Quebra-Costas se revelar mais do que adequado), a XM é uma agradável mistura de sebo de livros e discos (CDs e vinis), loja hype de design e ponto de encontro da malta indie local. Recordo-me que foi durante minha primeira visita à XM que apanhei o fanzine a partir do qual muitas das questões detonadoras da minha atual pesquisa começaram a surgir. Sendo um espaço possuidor de tamanha importância afetiva, pois, nada mais natural do que retornar à loja por ocasião desta nova viagem a Portugal.
Num papo com maior clima de “Alta fidelidade” do qual fizeram parte os balconistas da XM, Isabel e Vasco, o estudante do curso de Artes da Faculdade de Coimbra e agitador cultural da cena local, Alexandre, além deste que vos blogueia, surgiram alguns tópicos bacanas que me fizeram retornar à Lisboa com a cabeça fervilhando de idéias no comboio. Ei-los:
#1. Coimbra proclama-se como a capital portuguesa do rock and roll. Enquanto Lisboa é mais cosmopolita, espécie de melting pot semi-periférico que abriga desde a música caboverdiana às transgressões experimentais do ZDB, e o Porto, naquele jeitão fechado e caladão parece andar sediando qualquer coisa de interessante na seara da música eletrônica, em Coimbra quem mandam são as guitarras. Diz-se que há uma forte cena rockabilly na cidade, algo que não se percebe em outros cantos do país, e que, nas palavras de quem vive e faz a cena, essa tradição rocker remonta à década de 80, com o surgimento de bandas seminais como o Pop Dell’Arte e o É M’as Foice de Tony Fortuna, que num caso de promiscuidade musical não raro por estas paragens, depois veio a formar o Tédyo Boys.
#2. Segundo Alexandre, essa predominância do rock estaria indissiociavelmente ligada à presença da universidade (a Rádio Universidade de Coimbra - RUC, para os íntimos - desempenharia um papel fundamental nesse sentido). Como, por um lado, “não há pais e mães em Coimbra” (porque a maioria dos jovens meio que se muda para os alojamentos estudantis quando começa a faculdade – experimente pegar um comboio, qualquer comboio, saindo de Coimbra às 18h de uma sexta-feira para se deparar com a maior concentração de jovens com malas
ever) mas, por outro, a própria universidade, em todo o seu rigor e tradição seculares, passa a funcionar como instância de autoridade, criariam-se as condições necessárias para que o discurso do rock se transformasse no grande articulador desses sentimentos (será?). Haveria, também, um desejo de se afastar da tradição dos fados de Coimbra e da geração dos trovadores dos anos 60 – vale lembrar que José Afonso e Adriano Correia de Oliveira começaram a dar os seus primeiros passos musicais naquele ambiente.
#3. A música portuguesa contemporânea não é conhecida no Brasil porque, entre outros fatores, a precária (para não dizer inexistente) indústria fonográfica lusa não teria fôlego para atingir um mercado tão auto-suficiente como o brasileiro com edições próprias, ou seja, sem que os lançamentos tenham que se dar através da mediação de uma companhia discográfica verde e amarela. Como a única possibilidade concreta de lançamento é via gravadoras brasileiras, acaba que as opções ficam praticamente restritas ao que, de partida, já se revelaria um êxito mercadológico em potencial, criando uma espécie de círculo vicioso
a la tostines em que o disco só chega aqui porque corresponde ao que se espera de uma “música portuguesa”, reforçando, assim, a mesma pré-concepção que impede que a música portuguesa seja compreendida para além dos “formatos de sempre”.
#4. Um exemplinho extra-XM mas totalmente coimbrão ainda assim, visto que a banda em questão vem de lá. No domingo 2 de novembro, assisti ao pocket-show gratuito da banda
The guys from the caravan na FNAC Colombo, que fica num centro comercial nos arredores do Estádio do Benfica, distante uns 20 minutos de Lisboa pegando o metrô. O quarteto acabou de lançar seu primeiro disco,
Noah’s ark of pain, uma deliciosa bijuteria pop cantada em inglês (apenas a faixa “Maria” é entoada no idioma de Camões) e totalmente inspirada pelo universo do n

eo-southern rock de bandas bacanas como o Kings of Leon e The Racounters. Embora a sonoridade do The Guys... seja pop até a raiz do bigode (em breve preparo um super podcast com algumas das descobertas decorrentes da última viagem, mas desde já desafio qualquer um a escutar a faixa que tem o nome da banda e não ficar com aquele bendito assobio grudado na cabeça), os caras sejam bonitinhos e algumas faixas até estejam tocando nas rádios comerciais portuguesas, fico me perguntando se alguma editora discográfica brasileira se interessaria em jogar o The guys... às feras do já combalido mercado brazuca, classificando-a como música portuguesa e arcando com as conseqüências da não-adequação às expectativas do que essa música viria a ser, ou então catalogando-a na seção pop/rock na qual os pobres gajos teriam que se estapear com trezentas outras bandas de sonoridade semelhante e investimentos de marketing e promoção inifinitamente superiores.
Aí eu te digo: "Bom, mas tem Os Pontos Negros...".
E você me pergunta: "Pontos Negros"?
Sim, Os Pontos Negros. Muito brevemente, aqui neste espaço.