domingo, 30 de novembro de 2008

Games independentes na mídia

Essa semana foi liberada a lista dos inscritos no 11o Festival Anual de Games Independentes. Dentre os 226 inscritos, alguns interessantes que vêm sendo comentados na mídia:

Between, do mesmo autor de Passage, Jason Rohrer, considerado pela Esquire como um dos "Best and Brightest" de 2008. Rohrer é conhecido como um autor-artista, criando games a partir de emoções e transferindo essas emoções para os jogadores. Between é sobre "consciência e isolamento";

um comentado entre os "serious games" é Hurricane Katrina: Tempest in Crescent City, no qual Vivica, a personagem principal, percorre as ruas de Nova Orleans logo após o furacão procurando a mãe e ajudando aqueles que encontra pelo caminho. O jogo foi desenvolvido com a ajuda de estudantes do segundo grau, como parte do programa "Global Kids Playing 4 Keeps";

I wish I were the moon, de Daniel Benmergui, inspirado em um livro de Italo Calvino, é simples e romântico; e

The Graveyard
, de Auriea Harvey and Michaël Samyn do Tale of Tales, é um jogo "artístico" sobre a morte. Essa semana o Gamasutra publicou um postmortem do jogo escrito pelo próprio Michaël Samyn, que vale a pena conferir.

Esses são só alguns dos 226 jogos concorrendo na categoria principal. A lista completa pode ser acessada em http://www.igf.com/php-bin/entries2009.php.

Link

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

III Coneco

Assistimos, hoje, à abertura do o 3o Coneco, Congresso Nacional de Estudantes de Comunicação. Amanhã e sexta teremos às apresentações dos trabalhos. O nível do debate das duas edições anteriores foi bastante elevado e, pela programação desse ano, seguiremos no mesmo rumo. É uma pena que o site do Congresso não apresente a listagem das papers de cada GT. Sendo assim, disponibilizo aqui a programação do grupo de trabalho do qual participo, o Gt 2 - Comunicação e Culturas Juvenis. Espero todos vocês lá:

Mesa 1 - 27 de novembro, quinta-feira – 08h30 às 12h.

Ricardo Valadão Siqueira Matos (Mestrando - PUC-Rio): Baile funk, drogas, armas e morte: imagens dos funkeiros no Cinema Nacional Contemporâneo.

Marcelo Garson (Mestrando - UFF): Quem é o melhor DJ do mundo? - Disputas de valor na cena de música eletrônica brasileira.

Lydia Barros (Doutoranda - UFPE): Tecnobrega, entre o apagamento e o culto.

Jefferson Mickselly Silva Chagas (Mestrando - UFF): Programação radiofônica: Sintonizando identidades juvenis.


Mesa 2 - 27 de novembro, quinta-feira - 14h30 às 17h30.

Carla Marques (Mestranda - UFRJ): O leilão midiático da juventude de 68: Representações da rebeldia 40 anos depois.

Tatiana V. B. Galvão (Mestranda - UFRJ): As possibilidades e os limites na formação de comunidade e na produção de uma mídia radical alternativa pelo hip hop.

Taiane Cristine Linhares Pinto (Graduanda - UFRJ): Pelo fim da exploração animal: a adoção do veganismo por jovens do movimento punk e suas relações de consumo.

Rodrigo de Oliveira Morais (Doutorando - UFRJ): Problemas da cibercultura: reprodutibilidade digital, consumo e resistências.


Mesa 3 - 28 de novembro, sexta-feira – 8h30 às 12h.

Thiago Falcão (Mestrando - UFBA): Reflexões sobre a relação entre trabalho e lazer nos mundos sintéticos.

Georgia Natal (Mestranda - UTP-PR) e Lucina Viana (UTP – PR): Economia da reputação: as práticas de produção e consumo participativos através da ciber-representação juvenil.

Candice Campos Habeyche (Especialista - UCPEL): Cultura digital juvenil – o consumo do videolog YouTube.

Rachel Rimas da Silva Guedes (Graduanda - UFRJ) e Tatiane Cruz Leal (Graduanda - UFRJ): Uma escolha de vida: construções da sexualidade juvenil nas séries televisivas Gossip Girl e Skins.


Mesa 4 - 28 de novembro, sexta-feira – 14h30 às 17h30.

Alex Cabistani (Mestrando - UFF): Clique aqui para comprar uma pele identitária: o upgrade tecnológico da camiseta como expressão juvenil geek.

Patrícia Matos dos Santos (Graduanda - UFRJ): Performance, investimento afetivo e disputa simbólica no interior da comunidade de fãs do grupo Backstreet Boys.

Pedro Curi (Mestrando - UFF): Made in Brasil: Fan cinema brasileiro para gringo ver?


SERTANEJO UNIVERSITÁRIO



Depois do forró, no final dos anos noventa e início deste novo século, agora é a vez do sertanejo receber o rótulo de universitário.
De acordo com uma matéria do Portal Globo, neste novo subgênero do sertanejo, "abusa-se dos violões e guitarras e até mistura percussão de axé. As letras e composições costumam ser 'fáceis', e a roupagem não é nada parecida com duplas como Zezé di Camargo e Luciano muito menos com Chitãozinho e Xororó. E o público também é outro. Os jovens que curtem o sertanejo universitário não são necessariamente adeptos de chapéus e fivelas de cinto". É o sertanejo da "night", da "balada".
A emergência de um novo movimento de produção e consumo musical como este aponta não somente para as transformações sociais que os gêneros musicais constantemente sofrem, como também para o fato de que estas transformações ocorrem dentro de características da cartografia musical do local de onde surgem (não por acaso que as boates citadas na matéria do Globo.com sejam todas de São Paulo, um dos lugares mais privilegiados para a emergência da música sertaneja moderna no final dos anos oitenta e noventa).

Segue o link para a matéria que fala sobre a emergência do tal sertanejo universitário.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Reflexões Coimbra acima (e abaixo)

Conheci a XM na primeira vez em que estive em Portugal, em abril de 2007. Situada em Coimbra, mais precisamente na Rua do Quebra-Costas, logo após a primeira porta da cidade velha e bem no início da (longa) subida que vai dar na tradicional universidade (daí o nome de Rua do Quebra-Costas se revelar mais do que adequado), a XM é uma agradável mistura de sebo de livros e discos (CDs e vinis), loja hype de design e ponto de encontro da malta indie local. Recordo-me que foi durante minha primeira visita à XM que apanhei o fanzine a partir do qual muitas das questões detonadoras da minha atual pesquisa começaram a surgir. Sendo um espaço possuidor de tamanha importância afetiva, pois, nada mais natural do que retornar à loja por ocasião desta nova viagem a Portugal.


Num papo com maior clima de “Alta fidelidade” do qual fizeram parte os balconistas da XM, Isabel e Vasco, o estudante do curso de Artes da Faculdade de Coimbra e agitador cultural da cena local, Alexandre, além deste que vos blogueia, surgiram alguns tópicos bacanas que me fizeram retornar à Lisboa com a cabeça fervilhando de idéias no comboio. Ei-los:

#1. Coimbra proclama-se como a capital portuguesa do rock and roll. Enquanto Lisboa é mais cosmopolita, espécie de melting pot semi-periférico que abriga desde a música caboverdiana às transgressões experimentais do ZDB, e o Porto, naquele jeitão fechado e caladão parece andar sediando qualquer coisa de interessante na seara da música eletrônica, em Coimbra quem mandam são as guitarras. Diz-se que há uma forte cena rockabilly na cidade, algo que não se percebe em outros cantos do país, e que, nas palavras de quem vive e faz a cena, essa tradição rocker remonta à década de 80, com o surgimento de bandas seminais como o Pop Dell’Arte e o É M’as Foice de Tony Fortuna, que num caso de promiscuidade musical não raro por estas paragens, depois veio a formar o Tédyo Boys.


#2. Segundo Alexandre, essa predominância do rock estaria indissiociavelmente ligada à presença da universidade (a Rádio Universidade de Coimbra - RUC, para os íntimos - desempenharia um papel fundamental nesse sentido). Como, por um lado, “não há pais e mães em Coimbra” (porque a maioria dos jovens meio que se muda para os alojamentos estudantis quando começa a faculdade – experimente pegar um comboio, qualquer comboio, saindo de Coimbra às 18h de uma sexta-feira para se deparar com a maior concentração de jovens com malas ever) mas, por outro, a própria universidade, em todo o seu rigor e tradição seculares, passa a funcionar como instância de autoridade, criariam-se as condições necessárias para que o discurso do rock se transformasse no grande articulador desses sentimentos (será?). Haveria, também, um desejo de se afastar da tradição dos fados de Coimbra e da geração dos trovadores dos anos 60 – vale lembrar que José Afonso e Adriano Correia de Oliveira começaram a dar os seus primeiros passos musicais naquele ambiente.


#3. A música portuguesa contemporânea não é conhecida no Brasil porque, entre outros fatores, a precária (para não dizer inexistente) indústria fonográfica lusa não teria fôlego para atingir um mercado tão auto-suficiente como o brasileiro com edições próprias, ou seja, sem que os lançamentos tenham que se dar através da mediação de uma companhia discográfica verde e amarela. Como a única possibilidade concreta de lançamento é via gravadoras brasileiras, acaba que as opções ficam praticamente restritas ao que, de partida, já se revelaria um êxito mercadológico em potencial, criando uma espécie de círculo vicioso a la tostines em que o disco só chega aqui porque corresponde ao que se espera de uma “música portuguesa”, reforçando, assim, a mesma pré-concepção que impede que a música portuguesa seja compreendida para além dos “formatos de sempre”.


#4. Um exemplinho extra-XM mas totalmente coimbrão ainda assim, visto que a banda em questão vem de lá. No domingo 2 de novembro, assisti ao pocket-show gratuito da banda The guys from the caravan na FNAC Colombo, que fica num centro comercial nos arredores do Estádio do Benfica, distante uns 20 minutos de Lisboa pegando o metrô. O quarteto acabou de lançar seu primeiro disco, Noah’s ark of pain, uma deliciosa bijuteria pop cantada em inglês (apenas a faixa “Maria” é entoada no idioma de Camões) e totalmente inspirada pelo universo do neo-southern rock de bandas bacanas como o Kings of Leon e The Racounters. Embora a sonoridade do The Guys... seja pop até a raiz do bigode (em breve preparo um super podcast com algumas das descobertas decorrentes da última viagem, mas desde já desafio qualquer um a escutar a faixa que tem o nome da banda e não ficar com aquele bendito assobio grudado na cabeça), os caras sejam bonitinhos e algumas faixas até estejam tocando nas rádios comerciais portuguesas, fico me perguntando se alguma editora discográfica brasileira se interessaria em jogar o The guys... às feras do já combalido mercado brazuca, classificando-a como música portuguesa e arcando com as conseqüências da não-adequação às expectativas do que essa música viria a ser, ou então catalogando-a na seção pop/rock na qual os pobres gajos teriam que se estapear com trezentas outras bandas de sonoridade semelhante e investimentos de marketing e promoção inifinitamente superiores.



Aí eu te digo: "Bom, mas tem Os Pontos Negros...".
E você me pergunta: "Pontos Negros"?

Sim, Os Pontos Negros. Muito brevemente, aqui neste espaço.

Lan houses no Central da Periferia II

Como narrado dois posts atrás, o quadro Central da Periferia, do Fantástico, está exibindo uma série sobre lan houses. Mas a questão não fica restrita à TV. As discussões continuam no blog do programa, onde, inclusive, o post do LabCULT foi citado: http://especiais.fantastico.globo.com/centraldaperiferia/

Vale a pena conferir.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Tecnobrega - link para o livro

Já falamos aqui no blog sobre a pesquisa do Ronaldo Lemos e Oona de Castro, que virou livro, analisando o fenômeno da música tecnobrega do Pará.
O excelente livro, vendido pela Aeroplano, também está disponível gratuitamente neste link para download.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Lan houses no Central da Periferia

O quadro Central da Periferia, comandado por Regina Casé, voltou ao ar no Fantástico no último domingo, focalizando as lan houses. O interesse que levou a apresentadora a abordar o tema foi o mesmo que me levou ao mestrado, no final de 2007: quem anda pelas periferias das grandes cidades do Brasil tem visto crescer o número de centros públicos de acesso pago ao computador. A observação empírica (numa cidade grande, da região Sudeste, como é Niterói) bate com os números da TIC Domicílios 2007, pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil: 49% dos acessos à internet hoje acontecem nas lan houses e cibercafés.
Liguei a TV para assistir ao Central da Periferia com muita curiosidade, é claro, já que estou pesquisando a relação entre lan houses, telecentros de acesso gratuito e políticas públicas de inclusão digital. E o primeiro programa da série (veja aqui) traz várias questões importantes.
As lan houses significam, hoje, muito mais do que o acesso de jovens a jogos de computador (o que por si só já era interessante), mas um espaço freqüentado por pessoas de todas as idades, que utilizam as novas tecnologias de informação para vários fins: comunicação, realização de trabalhos escolares, procura por emprego, acesso a serviços públicos etc.
Esse tipo de comércio, como destaca Regina Casé, é "fruto da criatividade e do empreendedorismo de alguém que não tinha nada". Ou seja, ela chama a atenção para o protagonismo - palavra que já está sendo banalizada - das camadas mais pobres da população em se inserir na sociedade midiatizada. Essa iniciativa é dificultada pela legislação restritiva a que estão submetidas as lan houses, consideradas casas de jogos e não centros de acesso ao computador ou de inclusão digital, como diz Mario Brandão, presidente da Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital (ABCID). Como o próprio nome da entidade indica, os donos de lan houses se uniram para mudar a classificação desse tipo de estabelecimento comercial, retirando da legislação restrições como a proibição de lan houses a menos de 1 Km de distância de escolas.

"Se antes a gente não sabia direito
onde era o centro, onde a periferia,
agora bagunçou geral".

Regina Casé, na abertura do programa

"No mundo da internet você é quem você quer ser,

você vai onde você quer ir, se você souber utilizar
a ferramenta computador mesclada com internet,
você acha que você consegue tudo".
Dono de lan house, no final do programa


No entanto, apesar das boas questões levantadas e do carisma da apresentadora, o tom do programa é de excessivo otimismo em relação à penetração do computador e da internet nas periferias via lan houses, como se o simples fato de estarmos todos conectados acabasse com as distâncias e as desigualdades sociais. O otimismo pode ser questionado, em primeiro lugar, pelo baixo número de conectados no Brasil - só 34% da população brasileira têm acesso à internet - e pela desigualdade de distribuição - 64% dos 5.565 municípios brasileiros não possuem acesso à banda larga, o que chama a atenção para a necessidade de políticas públicas para a universalização do acesso às novas tecnologias.
Outro ponto de questionamento é a atribuição de uma perspectiva revolucionária no simples acesso à tecnologia, ilustrada, entre outras, pelas duas frases citadas acima. O acesso às novas tecnologias tem de estar relacionado ao domínio de uma série de outras competências (culturais, cognitivas) e de uma autonomia que contribuam para uma democratização da comunicação e para um maior poder de influência dos indivíduos nas decisões políticas. A comunicação, nesta perspectiva, é vista como um direito. Quanto mais as pessoas se apropriarem ativamente das novas TICs, entendendo seu processo de funcionamento e o que elas significam nos dias de hoje, maiores serão as chances de contribuírem para as transformações em curso, maiores são as possibilidades de se romper barreiras e de multiplicação de espaços de negociação, conflitos e resistências, influenciando, inclusive, políticas de acesso à educação, saúde, emprego etc., sem as quais o domínio da tecnologia não conseguirá romper barreiras.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

... e terminou em Cabo Verde




Ligeiramente atordoado e tendo alguns dos meus já precários escaninhos musicais ido praquele lugar há muito tempo, deixo a ZDB rumo ao Cais do Sodré, onde rolaria uma apresentação do músico caboverdiano Tito Paris dentro da festa Gala Kretzeu, num dos armazéns à beira do Tejo que, ao contrário da nossa Praça Mauá e seu eterno processo de revitalização que nunca acontece, são muitíssimo bem aproveitados culturalmente falando. Descendo o Chiado até o Cais, praticamente sem fazer uma curva sequer, desvio de hordas e mais hordas de bruxinhas, diabinhos e mortos vivos e chego ao Armazém F a tempo de pegar a primeira canção do show.

O relógio marca uma da manhã. Em termos de clima, nada mais díspare: no lugar do teto ultra-baixo, da escuridão, e do clima it’s the end of the world as we know it da Zé dos Bois, o Armazém F oferece luzes piscantes, globo de discoteca, dois andares bastante amplos e muita, mas muita gente sacudindo o esqueleto ao som do combo de Tito Paris. Depois fiquei sabendo que, durante o dia, o Armazém F funciona como uma churrascaria rodízio brazuca e que, nos finais de semana, o dono do estabelecimento, um brasileiro chamado Ortiz, ganha a maior grana hospedando grupos de pagode e noites de samba. A sensação era a de estar assistindo a um tremendo bailão caboverdiano em pleno Porcão – ou em pleno Plataforma, se você quiser ser mais cruel.

Pela primeira vez em duas semanas e depois de incontáveis concertos em Lisboa, hub multicultural por excelência, cidade de fronteira nos dizeres de Boaventura de Sousa Santos, tive a chance de ver negros na platéia de um show, e ainda assim em número muitíssimo inferior ao dos casais brancos de meia idade que rodopiavam pra cima e pra baixo. Depois fiquei sabendo que, a despeito de rolar um baita preconceito dos “locais” em relação aos imigrantes dos PALOP (países africanos de língua portuguesa), o caboverdiano é aquele para o qual o português possui maior abertura justamente por não ele não ter a pele tão escura, sobretudo se comparado aos angolanos e moçambicanos. Essa abertura permite a um músico como Tito Paris desenvolver uma série de iniciativas que ajudam a divulgar a música de seu país em Portugal, notadamente através da Casa da Morna, ritmo tradicional caboverdiano que dá nome ao espaço onde o músico articula tais atividades.

Como fazer doutorado implica, entre outras coisas, ser assoberbado por “questões” justo quando os outros mais estão se divertindo, de repente me ocorreu que as pessoas que estavam dançando horrores ao som daquelas canções “sensuais” e “étnicas” seriam as mesmas que prefeririam viajar de pé se porventura tivessem que sentar do lado de um caboverdiano no metrô – ou sentariam mas virariam a cara pro lado, como vi acontecer num trem em Nápoles certa feita, em relação a dois senegaleses. Lembrei-me do Bauman naquele livro Comunidade, quando ele diz que o discurso multicultural muitas vezes concede o direito à representação cultural mas bloqueia o direito à participação e ao reconhecimento como cidadão. Nada mais metaforicamente adequado a essa reflexão do que o fato de a praça onde outrora se queimvam “infiéis” na inquisição, nos arredores do Rossio, hoje ser ponto de encontro de imigrantes africanos.

Uma pena que eu tenha ficado a pensar nessas coisas justo durante o show. Ok, o fato de estar sozinho não me animava muito a dançar, e pessoalmente tendo a me identificar mais com o clima da ZDB do que com o do Armazém F (ruim da cabeça e doente do pé, you know, mas a despeito disso, uma boa pessoa) – o que não me impede de reconhecer, no som de Tito Paris, a matriz musical de um caminhão de estilos e bandas que eu admiro incondicionalmente. Pense em Stevie Wonder, Madness, The specials, nos Paralamas do Sucesso fase “Cinema mudo” e nos novíssimos Vampire Weekend e lá estarão a percussão marcada, o baixo vigoroso e o, vá lá, “balanço” característico das sonoridades africanas (e caribenhas, e brasileiras, e etc) que o músico caboverdiano, com o suporte de uma tremenda seção de metais, articula de maneira admirável. Às vezes, era como se eu estivesse num clube de salsa, às vezes numa roda de samba, como se a música em si atravessasse diversos contextos culturais, espaciais e temporais. Não me admira (o que não quer dizer que eu concorde com a classificação ou desconsidere a pertinência de outros aspectos na configuração da mesma) que artistas como Tito Paris e seus conterrâneos sejam mormente enquadrados como world music nas lojas de discos, porque de fato é como se através dessa música fosse possível percorrer todo o mundo e todos os tempos, numa síntese intrigante pelo modo falsamente simples como ela se apresenta. O que, por sua vez, me fez lembrar da conferência de Arjun Appadurai que tive a chance de acompanhar na Fundação Calouste Gulbenkian, na manhã do dia 27 de outubro, quando ele disse que toda música é, simultaneamente, world music e somewhere music.

Deu o que pensar, essa noite das bruxas...

Sexo, drogas,rock and roll and... Andy Warhol




Não necessariamente nesta ordem! Mas, simultaneamente, he, he, he!

É que duas exposições que se complementam, estão acontecendo nos dois mais importantes museus da cidade de Montreal - o Musée de Beaux-Arts e o Musée d'art Contemporain (MAC). E complementam-se por terem como tema a importância da música pop e do rock nas artes.

A primeira - do MAC - chama-se Sympathy for the Devil: Art and Rock and Roll since 1967 . E a segunda - Warhol live - é sobre a centralidade e a influência da música na obra de Andy Warhol.

Ainda que o MAC traga propostas artísticas bacanas, diversificadas, abrangendo de pinturas a videoclipes - que inclui até um coletivo brasileiro contemporâneo, sediado em Nova York, sem nome, que se diz influenciado por Oiticica e Tropicália - foi mesmo a de Warhol que me impressionou mais fortemente. Pois, quando a gente pensa que já conhece a obra do grande nome do pop pelos mais explorados ângulos, eis que surge esta curadoria totalmente inusitada, com uma idéia genial porque óbvia.

O argumento é mais o menos o seguinte - uma das poucas expressões artísticas que Warhol não explorou é a música. Entretanto, ele respirava e se inspirava na música e sem ela - a música - sua obra não teria a força e a relevância que tem. Caramba!Mas é claro, como ninguém pensou nisto antes!!.

Tem uma sala só dedicada aos retratos que ele fez de Mick Jagger. De chorar de emoção, se vc é Stone-maniáco. Outra, que me fez voltar três vezes - dedicada a umas 50 capas de discos que ele fez ao longo da carreira, com discos mais do que históricos ...dos próprios Rolling Stones e mais um bando de coisas bacanas que eu não sabia que eram dele.

Tem ainda as entrevistas em vídeo do Programa de Televisão que ele fazia com "celebridades" do pop. Paredes enormes dedicadas a vídeos e fotos do Velvet Underground - a banda mais do que legendária que ele empresariou e que lançou o Lou Reed, a Nico e o Cale. Fotografias que ele fez de meio mundo do pop nos anos 80, onde surgem, ainda babies, gente como Madonna. Michael Jackson, Sting...

E quando a gente pensa que acabou, a sala final recria o ambiente do Studio 54, a discoteca nova iorquina que era a segunda casa dele, com uma trilha sonora de clássicos e obscuros sons dos anos 80.Matadora!

A exposição é muito densa, cheia de informações e merece mais de uma visita. Mas, o que mais me tocou foi refletir sobre a centralidade e a poesia do pop. Não falo da "arte pop" que classifica as obras do próprio Warhol. Mas da música pop como o melhor veículo para a tradução do século que vivemos (o XX) - efêmero, banal, passional, superficial, erótico, dionisíaco, destruidor, arrebatador. E, Warhol merece o título de "o artista pop" do século, pois captou esta energia como poucos. Fica claro, vendo esta exposição, que a frase (do Deleuze, acho) sobre a densidade do superficial (não é esta a frase, mas algo parecido) faz sentido.

Me lembro de uma outra exposição - mega - que vi no Brasil com a obra de Warhol.No Centro Cultural do Banco do Brasil, acho. Por conta disto, não custa torcer pra que esta também faça um turismo pela América do Sul e apareça em algum de nossos museus bacanas do Rio. Vou torcer, mas enquanto isto, confiram os sites dos museus daqui de Montreal.
PS - Simone Sá, citando Deleuze, quem diria!! Acho que são os ventos francófonos, de acento quebecoise, aqui da cidade. Mas, calma aluninhos, não fiquem aflitos pois, reparem que nem citei a frase completa (!!!).

domingo, 16 de novembro de 2008

Entretenimento +/x play

A thing of beauty is a stout green toy: palestra de James Wallins

Uma apresentação de slides super interessante sobre a (distância e) aproximação entre entretenimento e "play", passando por experimentações literárias do Oulipo e sugestões para o futuro dos jogos.

Vale conferir!

Via Grand Text Auto

sábado, 15 de novembro de 2008

Acesso livre para revistas da Sage

Dica imperdível de nossa amiga Flora Daemon:

A principal editora internacional de revistas acadêmicas liberou o
acesso ao textos completos de 24 títulos no campo da Comunicação e
estudos de Mídia. O interessado deve se cadastrar no site
http://sagepub. list-manage. com/track/ click?u=d378f805 1379af132c6d9665 0&id=a42b0a1e70&e=OTeJCOhYDg
e poderá ter acesso livre para ler e baixar artigos até 31 de dezembro.
As revistas colocadas à disposição são:

- Animation
- British Journalism Review
- Business Communication Quarterly
- Communication Research
- Convergence
- European Journal of Communication
- Games and Culture
- Global Media and Communication
- International Communication Gazette
- Journal of Business and Technical Communication
- Journal of Business Communication
- Journal of Communication Inquiry
- Journal of Creative Communications
- Journal of Social and Personal Relationships
- Journalism
- Management Communication Quarterly
- Media, Culture & Society
- Media, War & Conflict
- New Media & Society
- Science Communication
- Television & New Media
- The Harvard International Journal of Press/Politics
- Visual Communication
- Written Communication

Os pesquisadores poderão fazer uma lista de revistas de sua
preferência e continuar recebendo os sumários com acesso aos resumos
mesmo após 31 de dezembro. Várias universidades já disponibilizam o
acesso às revistas da Sage via uma conta da instituição ou da Capes.
Em caso de dúvida, entre em contato direto com a Sage pelo e-mail
onlinesupportUS@ sagepub.com ou com a Diretoria de Relações
Internacionais da Intercom pelo e-mail international@ intercom. org.br .

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

“Novo” formato midiático para aparelhos celulares

Depois da Oi começar a investir em webcomics, como anunciado no blog semanas atrás, foi a vez de outra operadora de telefonia móvel se preocupar com a distribuição de conteúdo diferenciado para celulares.

A Claro lançou nesta semana a série "Rango e Charlote" no Minha TV, canal de vídeos da operadora. Trata-se de uma fotonovela. Isso mesmo! É o antigo formato midiático de sucesso em outros tempos aparecendo repaginado pelas novas tecnologias da comunicação.

Escrita e dirigida pelo publicitário Guilherme Verzoni, "Rango e Charlote" é uma combinação de ficção científica, romance e terror. Com cenários psicodélicos e figurinos coloridos, a fotonovela conta a história de um casal que vive de maneira alucinada em uma cidade imaginária chamada Retro-Plágeo, na qual cobaias sexuais e paranóias alienígenas fazem parte da rotina. Os episódios foram pensados especialmente para serem vistos no celular (cada um tem dois minutos de duração e o visual é adequado para telas pequenas).

Para quem quiser conferir um pouco do visual dessa fotonovela para celulares, é só clicar aqui.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Congresso da ABCiber

Algumas confusões, falta de tempo e até mudança de fuso horário me fizeram estar vergonhosamente ausente deste blog nos últimos dias. De volta, divulgo com atraso, mas em tempo de ainda informar sobre a última conferência que acontece daqui a pouco, o evento da Associação Brasileira dos Pesquisadores e Cibercultura -a ABCiber.



O evento - que iniciou-se no dia 11 na PUC-SP e encerra-se hoje á noite - está muito bacana. Participei da comissão de seleção dos trabalhos de Arte Digital e gostei muito da qualidade da grande maioria dos trabalhos.



Então, pra quem não está lá e quer sentir o gostinho dos debates, este link dá acesso live às conferências.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A noite que começou no interior de uma CPU...



Em termos de experiências extremas, dificilmente outra noite lisboeta das que vivenciei ao longo das últimas semanas chegará aos pés daquela madrugada de Halloween – festividade, aliás, celebrada com alguma seriedade pela juventude local. Comecei minha longa jornada noctívaga pela afamada Galeria Zé dos Bois, no coração do Bairro Alto, vizinha de portas da ultra hype livraria Ler Devagar (aberta até às duas da manhã!!) e há 14 anos prestando serviços à cena indie de Lisboa. Além de shows, a Zé dos Bois (ZDB para os íntimos) também funciona como galeria de arte durante o dia. Seriam três bandas ao módico preço de 6 euros: Escravos de Zonk, Aquaparque e Galadrop, esta última com CD recém-lançado por aquelas paragens e saudado com críticas super positivas pela revista (especializada em música) Blitz e pelo jornal Público.

Chego na hora marcada para o primeiro show e deparo-me com a ZDB entregue aos ácaros, evidência incontestável de que o (péssimo) hábito brazuca de atrasar-se a torto e a direito possui raízes bem lusitanas. Para uma pista vazia, o DJ local mixava batidas eletrônicas com aquelas faixas instrumentais do David Bowie fase-Berlin. A atmosfera me captura na hora. Dirijo-me ao bar, onde o atraso permite-me trocar idéias com a simpática Micaela, barwoman da ZDB, em cujo discurso pude perceber uma defesa apaixonada do local como um espaço autêntico de resistência da cultura underground lisboeta. Entre um Martini e outro, fico sabendo que passar pela ZDB é uma espécie de pré-requisito para qualquer banda que aspire à consagração no circuitinho (mas não necessariamente no mainstream, palavras dela). E que as bandas atuantes no ZDB dificilmente terão uma música incluída na trilha sonora de uma telenovela portuguesa.

Lá pelas tantas, faltando poucos minutos para o primeiro show, uma canção a la Joy Division cujo refrão repetia insistentemente “That’s the spirit of the age” anunciava, com propriedade, o que estava por vir.

O Escravos de Zonk são dois caras, um nos teclados e outro manipulando uma engenhoca esquisita, ambos nos vocais, tocando para uma platéia que não sabia muito bem como reagir àquilo tudo, se fazendo um headbanger doentio ou simplesmente chapando no chão. Na dúvida, o povo resignava-se a permanecer estacionado na pista, olhando fixamente para a dupla e tentando (eu, pelo menos, tentei) extrair da cacofonia reinante algum vestígio de melodia que fosse possível assobiar. A sensação era a de estar amarrado nos circuitos de uma placa de computador com alguém berrando intensamente do lado de fora (porque também não dava pra dizer que a dupla cantava no sentido popular midiático da expressão...). Nos momentos, vá lá, mais pop, parecia Yo la tengo ou Future sound of London no intervalo da lobotomia; quando a dupla aloprava, a coisa chegava num ponto de experimentalismo de fazer Arrigo Barnabé, Lou Reed fase Metal machine music e o Fantômas darem as mãos com o Lulu Santos.

(continua...)

domingo, 9 de novembro de 2008

Para uma malhação mais divertida...

Depois do bambolê e da aula de step do Wii,


a academia ainda tem uma chance...
Seguindo a linha, atualmente muito bem-sucedida, dos jogos de exercícios, a empresa Expresso Fitness lançou uma bicicleta-jogo que vem sendo adotada nas academias (americanas, pelo menos).

Para quem aqueles minutos correndo na esteira, pedalando na bicicleta ou se equilibrando no transport também são intermináveis, a perspectiva de uma distração imersiva, que pode envolver desde uma corrida de bicicleta até uma luta com dragões (enquanto você continua pedalando para correr deles, é claro!), parece bastante atrativa...


Fotos: Nintendo Wii Fit e Expresso Fitness.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

I PROGRAMA DE FOMENTO À PRODUÇÃO E TELEDIFUSÃO DE SÉRIES DE ANIMAÇÃO BRASILEIRAS - ANIMATV

Foi divulgado nessa semana um edital inédito na área de animação. Aí segue ele (fonte: http://blogs.cultura.gov.br/):



A Secretaria do Audiovisual e a Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, a Empresa Brasil de Comunicação - TV Brasil, a Fundação Padre Anchieta - TV Cultura, a Associação Brasileira das Emissoras Públicas Educativas e Culturais - ABEPEC, com o apoio da Associação Brasileira de Cinema de Animação - ABCA, lançam o Programa Nacional ANIMATV.

O Programa ANIMATV é realizado no âmbito do Programa Nacional de Estímulo à Parceria entre a Produção Independente e a Televisão e do Programa de Desenvolvimento da Economia da Cultura.

O ANIMATV tem como objetivos estimular o desenvolvimento da indústria brasileira de animação a partir da sistematização de ações que visam a geração de projetos de série de animação em diversos pontos do País; a realização de ações regionais de capacitação que reforçam a cultura da série de animação para televisão; a articulação de um circuito nacional de teledifusão de séries de animação brasileiras; a dinamização da produção entre estúdios no território nacional; e a inserção da animação brasileira no mercado internacional.

O ANIMATV selecionará projetos de série de animação que contemplem tanto o potencial de geração de audiência junto aos públicos telespectadores brasileiros quanto o de co-produção (nacional e internacional), dividindo-se em duas etapas.

Na primeira etapa o ANIMATV premiará 18 Projetos de Série de Animação dirigidas à infância e à adolescência nas faixas etárias de 6 a 11 anos ou de 12 a 14 anos com:
01 Contrato de Co-produção no valor de R$ 110 mil (cento e dez mil reais), para a realização de um episódio-piloto de 11 minutos e o desenvolvimento do Projeto Completo da Série de Animação (denominado internacionalmente como bible);
Teledifusão nacional do episódio-piloto em Rede Pública de Televisão;
Participação do Autor do projeto e seu respectivo produtor na Oficina para Desenvolvimento de Projetos ANIMATV, que reunirá os 18 vencedores da primeira etapa com 04 renomados especialistas do mercado internacional de animação para debate e aperfeiçoamento dos projetos, antes do início da produção dos Projetos Completos de Série de Animação e Episódios-piloto.

A segunda etapa de seleção será realizada após a exibição dos 18 episódios-piloto da Série ANIMATV em Rede Pública de Televisão. Durante a veiculação serão feitas Pesquisas Qualitativas e Quantitativas de receptividade do público aos pilotos apresentados. As pesquisas também balizaram a decisão da Comissão de Seleção na segunda etapa. Esta etapa premiará 02 dos 18 projetos com:
01 Contrato de co-produção no valor de R$ 950 mil (novecentos e cinqüenta mil reais), para a produção de mais 12 episódios de 11 minutos;
Teledifusão nacional da série em Rede Pública de Televisão.

Para a inscrição no ANIMATV, as propostas de pré-projetos de série de animação deverão estar assim estruturadas:

Conceito Geral (Breve descrição do conceito da série com no máximo 8 linhas, estabelecendo de forma resumida o tema e tom da série e seu enredo base);

Proposta de Série de Animação em 1 página (Apresentação da proposta de série de animação, incluindo tema, tom e resumo do enredo da série, com indicação da faixa etária escolhida);

Personagens (Descrição dos personagens principais, incluindo seu perfil psicológico e as relações que estabelecem entre si. Quinze linhas para cada descrição);

Concepção Visual (Descrição do estilo de direção de arte que se pretende imprimir ao projeto e sua relação com custos e prazos de produção. Máximo de 1 página);

Arte Conceitual (No mínimo cinco desenhos de personagens e cenários, exemplificando a direção de arte da série);

Roteiro do Episódio-Piloto (Roteiro completo do Episódio-Piloto da Série, a ser produzido em caso de seleção do projeto);

Storyboard de uma cena do episódio-piloto;

Argumentos Preliminares (Argumentos de 6 episódios da série. 10 linhas para cada argumento);
Desenho de Produção (a partir de Formulário Padrão a ser publicado em anexo ao regulamento);
Orçamento (a partir de Formulário Padrão a ser publicado em anexo ao regulamento).

O ANIMATV realizará ainda Oficinas para Formatação de Projetos. As Oficinas tem como objetivo promover o desenvolvimento dos pré-projetos a partir do formato do Programa, dando oportunidade ainda para a discussão de séries clássicas e contemporâneas de animação, além de propor a discussão técnica e estética dos caminhos possíveis para o escopo proposto.
Para participar das Oficinas os interessados deverão apresentar uma idéia inicial de série para faixa etária compreendida entre os limites de 6 a 14 anos. Esta proposta inicial deverá conter:
a. Conceito Geral (três linhas apresentando de forma geral e resumida a proposta de série a ser trabalhada na oficina);
b. Proposta de Série de Animação (dois parágrafos detalhando o conceito geral, com informações sobre o tema e o tom da série, seu enredo e conflitos centrais);
c. Personagens (descrição de pelo menos três personagens da série. Mínimo de duas linhas para cada);
d. Concepção Visual (três linhas descrevendo a concepção visual que se pretende dar ao projeto); e. Arte Conceitual ilustrativa (mínimo de 1 desenho);
f. Argumento do episódio-piloto (mínimo de dez linhas);
g. Desenho de Produção (a partir de Formulário Padrão a ser publicado em anexo ao regulamento).
OBS: É opcional a inclusão de trecho de estudo para storyboard; argumentos de outros episódios e orçamento (a partir de Formulário Padrão a ser publicado em anexo ao regulamento).

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Donos da Mídia

Está no ar um importante veículo para quem estuda comunicação no Brasil, o site Donos da Mídia - o mapa da comunicação social (http://donosdamidia.com.br). O site é resultado do trabalho iniciado, na década de 80, pelo jornalista, professor e militante Daniel Herz, morto em 2006, e conta com o trabalho voluntário de profissionais da mídia, professores e estudantes universitários para a atualização constante de informações. São apresentados dados, análises, gráficos, mapas sobre as redes de rádio e TV do Brasil, os veículos existentes, os grupos nacionais e regionais que controlam mais de um veículo, os políticos que, contrariando a lesgislação, detêm concessões, além de artigos e legislação sobre comunicação.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Discos retirados da estante

Uma das maiores comunidades da rede social Orkut está ameaçada de ser retirada do ar. Discografias é uma comunidade dedicada a compartilhamento de arquivos MP3 e vem incomodando a APCM (Associação Antipirataria Cinema e Música), entidade que defende a propriedade intelectual.

O endereço existe desde 2005 e conta com três administradores anônimos abrigando mais de 780 mil participantes. Através dos fóruns os internautas disponibilizam links para sites de armazenamento como "Rapid Share", "4 Shared" e "Easy Share", onde discos inteiros ou apenas faixas raras, áudios de shows e B-sides são baixados gratuitamente. "É o nosso principal cliente. Em se tratando de música, ninguém tem mais arquivos que violam direitos autorais do que a 'Discografias'", declarou Edner Bastos, coordenador antipirataria da APCM que pressiona a Google para a retirada da comunidade.

Com as ameaças, os integrantes estão protagonizando uma verdadeira guerra contra o Google; colocaram no ar uma lista para colher assinaturas resistindo ao fim da comunidade. Em entrevista a Folha Online declararam: "Muitas bandas, hoje, tanto no Brasil quanto no exterior, assumem que não fariam sucesso se não fosse a internet. Até o Presidente da República deu uma declaração favorável na semana passada sobre 'baixar músicas da internet'. Ilegal e pirataria, na nossa opinião, é a venda de CDs piratas".

Só no primeiro semestre de 2008, a APCM tirou do ar 118.750 links de filmes e músicas, 22.113 blogs e 20.332 arquivos P2P ("peer-to-peer", referentes a programas de compartilhamento como eMule) da internet. A comunidade "Discografias" continua na rede, mas os moderadores já começaram a notar a retirada de alguns tópicos e afirmam que desde que a administração do Orkut passou para o Brasil, a vigilância tem aumentado.

Félix Ximenes, diretor de comunicação do Google no país diz que leva em consideração a "liberdade de expressão" e só retira o tópico do ar quando é constatado algum tipo de violação. "A comunidade é legítima, porque há discussão de música também. Além disso, você sabe, a gente deleta uma, eles criam outra." Só rindo!


O lendário tigre do Castelo

Sexta-feira, 31 de outubro, meia-noite e meia. Desço a Alfama contornando a Sé de Lisboa e sigo a Rua da Conceição até o Chiado, após o concerto do Legendary Tiger Man no Santiago Alquimista. Para chegar no Santiago Alquimista, pega-se o Eléctrico 28E na direção do Martim Moniz ou do Cemitério dos Prazeres, saltando na parada do Miradouro de Santa Luzia ou na própria Sé, e subindo a rua de São Tiago como se você pretendesse ir até o Castelo de São Jorge. É um casarão do século passado que abriga uma escola de artes e um curso de teatro, além de possuir uma bela sala de espetáculos que se aproxima, no tamanho e na configuração espacial (pista + mezanino) ao nosso Teatro Odisséia.

Sede habitual de shows de rock e freqüentada por uma parcela do público indie-alternativo de Lisboa, o Santiago Alquimista havia recebido, na semana anterior, a banda Lemonheads. Noves fora os preços exorbitantes prtaicados em seu interior (7 euros a dose de Black Label, 2 euros o Imperial da Sagres – que é como os portugueses chamam a cerveja de pressão, o nosso chope – quase três vezes mais caro no bar do Santiago Alquimista do que na tasca lisboeta mais safada, onde o mesmo imperial custa cerca de 0,75 cêntimos), o espaço é um must. Ao que tudo indica, nunca fica insuportavelmente cheio. Os portugueses, salvo raras exceções, até que respeitam a lei que proíbe o fumo em lugares fechados, então você sai do Santiago Alquimista sem aquele onipresente cheiro de cigarro grudado nas roupas. E a convivência entre mil e tantos anos de história algumas ruas acima e o que há de mais contemporâneo sendo feito em termos de música portuguesa torna a experiência duplamente saborosa.
Antes do concerto, conhecia apenas uma faixa do Legendary Tiger Man, intitulada “Honey you’re too much" e incluída na coletânea dupla Novo rock português editada pela Chiado Records em parceria com a Rádio Antena 3 em 2007 e que eu havia baixado pela internet. Soava-me como uma espécie de Ladytron com floreios e sem arroubos glam, nada significativamente distinto das demais canções do álbum. Ao vivo, a coisa muda de figura. Embora o paredão sonoro forneça a (falsa) impressão de que há pelo menos três pares de braços em cima do palco, o LTM nada mais é do que uma one-man-band cujo one-man, que atende pela graça de Paulo Furtado, alterna-se entre o manuseio de guitarra, bateria e sintetizadores, além de cantar e soprar um troço assemelhado àqueles apitos de chamar patos que a gente via nos desenhos do Pica Pau. Espécie de figura aglutinadora da atual cena rock and roll pré-mainstream portuguesa – e acreditem em mim, crianças, há muita coisa boa sendo feita aqui – além do Legendary, Furtado também integra os Wraygunn e dirige algumas das viagens videoartísticas experimentais que são projetadas num telão ao fundo do palco durante sua performance. Numa delas, aparece pelado em nu frontal tocando bateria no meio de uma estrada. Em outro vídeo, este dirigido por um coletivo cujo nome não me recordo (mas a canção se chamava “Love train”), via-se uma apaixonante garota viajando num trem, num preto e branco artificialmente envelhecido de derrubar o queixo de Philippe Garrel.
O efeito obtido já seria por si só bestial não fosse a música feita por Furtado uma porrada sonora da melhor qualidade. Pense num espectro sonoro que vai de Screaming Jay Hawkins a Sonic Youth, ou então no XTRMNTR do Primal Scream tocado por um único cara totalmente puto da vida por se encontrar preso numa cadeira de rodas (Furtado passa o tempo inteiro sentado) e você vai ter uma amostra do som do LTM, cujo novo álbum, Masquerade (seu terceiro) deve sair em breve.
Música portuguesa? Com certeza. Não há um laivo sequer de diálogo com a “tradição” (oficial) do cancioneiro luso na música de Paulo Furtado, não no sentido que autorizaria, lá pelas tantas, a aparição súbita de uma viola ou de uma guitarra portuguesa a la Carlos Paredes. Também não se canta em português, e o fato de não estar trabalhando com a língua materna (embora, em certo nível, esteja trabalhando a partir dela) apenas reforça o modo lúdico com que Furtado escolhe e mastiga o idioma inglês. E ainda assim... Há uma portuguesidade na música do LTM apenas na medida em que essa portuguesidade não existe, seja em termos absolutos ou relativos, mas talvez apenas como elemento de identificação e reconhecimento. Porque num certo nível, para as pessoas presentes naquele concerto, era música portuguesa que se ouvia.
Com a cabeça fervilhando de questões, chego ao Chiado e deparo-me com a Praça Camões hiperlotada de pessoas e carros, ambos congestionando todos os acessos ao Bairro Alto. São grupos de jovens aglutinados aqui e ali, copo de cerveja na mão, atribuindo à praça pública uma função social que há muito não se vê no Rio de Janeiro, talvez em virtude da inseguraça reinante que o resultado das atuais eleições, muito sinceramente, não me parece lá capaz de solucionar. Subindo a Rua da Rosa, passo em frente a incontáveis bares que exalam músicas de todas as origens e estilos, de salsa cubana a “The killing moon”, mas vencido pelo cansaço, retorno à pensão para uma merecida noite de sono.