
Costumo dizer que o mundo (ou pelo menos o
mundo nerd pós-década de 80) se divide entre os admiradores fervorosos de
Star Wars e os fãs incondicionais de
Indiana Jones. Aos que humildemente se enquadram no grupo #2 (tal e qual este que vos blogueia), um dia 22 de maio nunca representou tanto. Assim que virarmos o mês, logo mais à noite, faltarão pouco mais de 20 dias para a estréia mundial do quarto filme da saga do personagem que fez todo garoto hoje na faixa dos 20-30 anos sonhar em ser arqueólogo um dia. Para os que eram muito pequenos na época em que
A última cruzada - o último (e, na minha modesta opinião, o melhor) episódio da (até então) trilogia - freqüentou os nossos cinemas,
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal deve possuir um sabor duplamente especial, já que ouvir o clássico tema de John Williams numa sala com som THX e tela gigante promete ser qualquer coisa. Para os demais, é a chance de retornar à infância ou, numa perspectiva mais cínica, confrontar-se com a incontornável passagem do tempo (garanto que vai ter muita gente dizendo que "naquela época é que era bom", que "o personagem envelheceu mal" ou então que "bons mesmos eram os efeitos de 1981").
Muito pouco foi revelado sobre a trama do longa, mas sabe-se que ela possui pontos de conexão com a história do primeiro filme (como a volta da personagem Marion, par romântico do herói em
Caçadores da arca perdida e algumas cenas ambientadas naquele depósito ultra-secreto para onde a arca é levada), que desta feita os vilões são russos (já que a ação transcorre nos anos da Guerra Fria), que Cate Blanchett está morena e que a matriz com a qual o filme dialoga é a da ficção científica dos anos 50, no lugar do cinema de aventuras da década de 30 (não se surpreendam, portanto, se as tais Caveiras de Cristal do título possuírem origem alienígena - quem sabe os ETs de
Contatos imediatos do terceiro grau?). O trailer, disponível
aqui, dá pistas de que os efeitos visuais serão mais mecânicos do que digitais (ainda bem, já que a praga do CGI consegue transformar até as pirâmides do Egito em monumentos artificiais, conforme visto n'
O retorno da múmia) - dispensável apenas o close inicial na bandeira americana tremulante, mas o que esperar do ultra-patriota Spielberg?
Outro dia estava revendo um documentário muito bacana sobre o cinema americano da década de 70 - a famosa "geração
Easy Rider", de Scorsese, Coppola, Lumet, Friedkin e cia. - intitulado
A decade under the influence. O filme narra de forma bastante precisa como todo o ímpeto contestador e contracultural dos anos 60 e da primeira metade da década seguinte (que gerou produções como
Taxi driver, O poderoso chefão e
Um dia de cão, além do já citado
Easy rider) foi se esgotando no final dos anos 70. À medida que eventos como a derrota na Guerra do Vietnam, a queda de Nixon e as crises petrolíferas iam semeando, junto ao público consumidor de cinema, um desejo por "entretenimento escapista", que o afastasse dos problemas cotidianos, Hollywood começava a formatar aquilo que, da década de 80 em diante, ficou conhecido como "Cultura dos Blockbusters".
Os primeiros símbolos dessa nova forma de fazer cinema, onde filmes custavam muitos milhões de dólares, eram lançados em milhares de salas e encontravam-se amparados por uma poderosa máquina publicitária (capaz de vender de trilhas sonoras a bonequinhos, passando por biscoitos e guarda-chuvas temáticos do filme em questão), foram, justamente,
Tubarão (de Steven Spielberg, 1975) e
Star Wars (de George Lucas, em 1977) - dupla que se reuniu, em 1981, para levar às telas a busca de um certo arqueólogo por uma certa arca perdida... É provável, portanto, que o lançamento do quarto episódio da saga seja pontuado por incontáveis discursos anti-entretenimento massivo, já que
O reino da caveira de cristal deve tomar os cinemas de assalto e, conseqüentemente, reduzir o espaço para os lançamentos de menor apelo mercadológico (o cinema brasileiro é um que muito provavelmente vai se dar mal nessa briga).
Também confesso ter uma curiosidade algo mórbida para verificar como vai se dar a atuação dos vendedores piratas, quanto tempo vai levar entre a premiére mundial do filme no Festival de Cannes e a primeira cópia a circular na internet e, por fim, para saber de que forma o herói cinematográfico da minha geração será recebido pela turma mais nova, acostumada a frenéticos Homens-Aranha e congêneres. Cairá Spielberg na "armadilha" (da qual George Lucas e sua retomada da saga
Star Wars decerto não saíram muito bem) de tentar alcançar "novas platéias", desagradando os "antigos fãs" (as aspas são de propósito)?