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sábado, 24 de maio de 2008

Profissões por um Fio

Como já foi noticiado anteriormente aqui no blog, neste mês de maio estarei apresentando uma série de palestra nas cidades de Salvador e Rio de Janeiro. Depois de marcar presença na UNEB no último dia 09 de maio, com a palestra "Games e Marketing Viral" agora é vez de apresentar meu trabalho na Faculdade Dois de Julho, aqui em Salvador. Durante os dias 26, 27 e 28 deste mês, o curso de Comunicação Social promove o Policom – Congresso de Comunicação Social e Políticas Culturais. Em meio às mostras de documentários, seminários e exposições, estarei apresentando a palestra “Profissões por um fio: novas perspectivas para o mercado de Comunicação Social”. A minha idéia é mostrar como a internet vem habilitando novas profissões e que cargos como gerente de palavras-chave, animador de rede, coordenador de comunidades virtuais e puppetmaster são opções reais à disposição do profissional de Comunicação Social.
É interessante ressaltar que o conteúdo da palestra é resultado do acompanhei durante meu período de mestrado e minha experiência em estágio docente no Curso de Estudos de Mídia, ambos na UFF. Ainda neste evento, pretendo apresentar parte do meu trabalho na produção de games, especialmente no ARG Obsessão Compulsiva, relacionado ao filme “Meu Nome Não é Johnny”. Quem quiser conferir a programação do Policom basta clicar aqui. E no próximo dia 02 de junho, será a vez de me apresentar no programa Fluxo da Eco/UFRJ, que em breve estarei divulgando também neste blog.

Da consciência do mito (sobre "O reino da caveira de cristal")


[O post a seguir contém alguns spoilers. Se você ainda não assistiu ao filme ou é daqueles que se incomoda em saber coisas do tipo "o personagem do Bruce Willis estava morto em 'O sexto sentido'" ou "em 'Clube da luta', o personagem do Brad Pitt só existe na imaginação do personagem do Edward Norton", por favor me ignore a partir de agora]

Não contendo a expectativa e tendo comprado ingresso antecipado, fui assistir a "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" na última quinta-feira. Havia lido alguns comentários a respeito e sabia mais ou menos o que esperar do filme. Só não esperava que, depois de 20 anos, Spielberg, Lucas & cia. tivessem amadurecido uma consciência tão plena do valor simbólico contido no material com o qual estavam lidando. Desde a sua primeira aparição, apanhando o clássico chapéu no chão, até a cena final, passando por incontáveis enquadramentos em contra plongée que redimensionam a figura imponente de Indiana Jones, não há margem para dúvidas: estamos diante de um Mito, daqueles que a Cultura da Mídia e do Entretenimento tão habilmente constroem, alimentam e que constantemente se reconfiguram diante dos nossos olhos. Com o perdão do exagero, ter a oportunidade de testemunhar um desses momentos de reconfiguração dá uma sensação de relevância histórica daquelas...

Não, "O reino..." não está pra tetralogia de Indiana Jones como "A ameaça fantasma" estava pra saga de Star Wars. É um filme muito mais contido em sua tentativa de atingir as novas platéias. Sei que vou soar como um velho reaça agora, mas me arrisco a dizer que é precisamente nos momentos em que o filme tenta parecer "moderno" que ele mais derrapa. O que sempre me fascinou nas aventuras do arqueólogo interpretado por Harrison Ford foi a sua habilidade em conjugar a inverossimilhança mais descarada com um pezinho na, digamos assim, realidade objetiva das coisas. Dito de outra forma: a sensação de "cara, que caô" convivia de maneira relativamente harmônica com uma impressão de que aquilo ali poderia estar acontecendo. No âmbito da técnica, os efeitos mecânicos e o uso de dublês ajudavam - e muito - a reforçar essa impressão de realidade (coisa que decerto não se verifica em emulações recentes do universo jonesiano, como em "O retorno da múmia" ou nos filmes da série "National treasure", com o Nicolas Cage). Em "O reino...", essa harmonia é diversas vezes comprometida pela praga do CGI. Toda a seqüência que começa no Rio Amazonas e termina nas Cataratas do Iguaçu (sic), com direito a ataque de formigas selvagens e um passeio de cipó na companhia de macacos, é exemplar nesse (mau) sentido.

Eu dizia que Speilberg, Lucas & cia haviam amadurecido a compreensão do valor simbólico materializado no personagem Indiana Jones. Sob essa perspectiva, entre mortos e feridos, "O reino..." tende a ser mais agradável para que já era fã da antiga trilogia do que para aqueles que estão conhecendo o herói agora. E o mais legal é que o filme não se furta de acenar carinhosamente tanto pros antigos quanto pros novos fãs, embora eu tenha a impressão de que os primeiros certamente irão se divertir mais (como esse lugar de fala de "fã das antigas" é o espaço que me cabe, temo não ser capaz de efetuar uma leitura diferenciada). As constantes menções a personagens queridos porém ausentes (o Dr. Jones de Sean Connery decerto ocupa um lugar de destaque neste panteão, mas quem recebe as homenagens mais bacanas, ao meu ver, é o Marcus Brody de Denholm Elliot, já falecido) são a manifestação mais evidente desse desejo, mas como diria o Álvaro Garnero, "O reino da caveira de cristal" ainda tem muito a oferecer: eu confesso que fiquei arrepiado quando, na seqüência inicial, os russos abrem a porta daquele depósito e na trilha sonora toca um trecho do tema que, no primeiro filme da série, anunciava a aparição da Arca Perdida. É uma associação tão sutil que talvez só consiga ser percebida por aqueles que assistiram à saga incontáveis vezes. Neste preciso momento, dar uma risadinha no cinema é uma forma de demonstrar, para si mesmo e para os demais presentes, que você foi capaz de "pescar " uma informação que a grande maioria muito provavelmente não conseguiu. Ponto para Bourdieu.

Não quero transformar esta esboço de, vá lá, crítica numa demonstração ostensiva de capital cultural, mas só pra concluir, gostaria de destacar a maneira precisa como o quarto filme se insere na lógica dos demais episódios. Andaram criticando o fato de "O reino da caveira de cristal" misturar arqueologia e alienígenas, mas se a gente parar pra pensar, faz todo o sentido: se nos três primeiros filmes Spielberg dialogava com a matriz cultural do filme-de-aventuras da década de 30, o episódio atual se apropria da matriz cultural da ficção científica dos anos 50, o que é perfeitamente coerente com a época em que a(s) trama(s) se ambienta(m). E tanto "Caçadores da Arca Perdida" quanto "O templo da perdição" e "A última cruzada" incorporavam explicações de ordem mística no desfecho de suas tramas: se antes os Nazistas derretiam ao se confrontarem com o Poder de Deus; se corações eram arrancados e o sujeito continuava vivo; e se beber a água do Cálice errado levava ao envelhecimento acelerado, por que não atribuir a origem da Caveira de Cristal a um ser de outro planeta? Se é Deus, ok, mas com ETs fica forçado? Eu hein.

E há toda a questão da passagem do tempo, dos laços familiares, da figura paterna pela qual Spielberg é obcecado desde o início de sua carreira como cineasta. Há um trecho particularmente tocante que é quando o reitor interpretado por Jim Broadbent diz para Indy que eles entraram naquela idade em que as coisas mais importantes começam a ser perdidas. Menos de 10 minutos depois, Indy conhece aquele que, futuramente, será revelado como sendo seu filho (aliás, "conhecimento" é uma palavra chave para se ler "O reino da Caveira de Cristal": a idéia está presente tanto nas revelações de insuspeita paternidade quanto na motivação dos alienígenas ao construirem o Templo). Perdas e ganhos. Rupturas e continuidades. Modernidade e tradição. Quem foi que disse que um blockbuster de Hollywood não dá o que pensar?


PS.: by the way, a propósito de toda a polêmica envolvendo a representação estereotipada dos russos (como comunistas bebedores de vodka e dançarinos de balalaika) pelo filme, uma coisa eu fiz questão de comemorar: que bom que os 19 anos longe das telas não tiraram de Indiana Jones a boa e velha incorreção política...

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Aliás e a propósito... (ainda sobre Indiana Jones)

De forma naaaada oportuna (ou seria "oportunista"?), há coisa de aproximadamente um mês, a Rede Globo exibiu Caçadores da arca perdida numa Temperatura Máxima da vida, depois de pelo menos uma década sem Indiana Jones na telinha. Tenho certeza de que os filmes do arqueólogo não freqüentavam a TV há muito tempo, pois quando eu era moleque em Anchieta, sem vídeo-cassete em casa até 1996, pelo menos, a única chance que eu tinha de ver Indiana Jones era quando a Globo cismava de exibir algum filme na Sessão da Tarde - coisa que eu aguardava ansiosamente, a não perder.

Óbvio que larguei tudo o que estava fazendo para rever o Caçadores, e qual foi minha surpresa ao descobrir que toda a seqüência final, quando os nazis abrem a arca e derretem ao se confrontarem com o Poder de Deus havia sido impiedosamente picotada, de forma a eliminar as cenas mais "chocantes". Tá bom que o próprio Spielberg andou embarcando numa trip politicamente correta, quando, à época do relançamento de ET nos cinemas, em 2002, ele eliminou digitalmente as armas na mão dos policiais, substituindo-as por inofensivos walkie-talkies (agora me explica se você, na pele do pequeno Elliot em sua bicicleta, teria medo de policiais portando walkit-talkies?). Também ouvi um boato de que numa eventual "versão para os cinemas" da trilogia Indiana Jones (a idéia do relançamento parece ter sido abortada), Spielberg cortaria a célebre cena na qual Indy dispara contra um egípcio fanfarrão que desafia o herói fazendo mil malabarismos com sua cimitarra - o diretor achou que a cena seria considerada preconceituosa contra o povo árabe, vejam vocês...

O que mais me surpreendeu é que Caçadores estava sendo exibido às duas da tarde, como sempre o fora durante os anos 90. Do nada, a cena dos nazis derretendo ficou chocante? Indiana Jones virou "Censura 12 anos"? E quando exibirem O templo da perdição, nada de coração arrancado e cérebro fresco de macaco? Periga virar um curta-metragem...

Do you, Mr. Jones?


Costumo dizer que o mundo (ou pelo menos o mundo nerd pós-década de 80) se divide entre os admiradores fervorosos de Star Wars e os fãs incondicionais de Indiana Jones. Aos que humildemente se enquadram no grupo #2 (tal e qual este que vos blogueia), um dia 22 de maio nunca representou tanto. Assim que virarmos o mês, logo mais à noite, faltarão pouco mais de 20 dias para a estréia mundial do quarto filme da saga do personagem que fez todo garoto hoje na faixa dos 20-30 anos sonhar em ser arqueólogo um dia. Para os que eram muito pequenos na época em que A última cruzada - o último (e, na minha modesta opinião, o melhor) episódio da (até então) trilogia - freqüentou os nossos cinemas, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal deve possuir um sabor duplamente especial, já que ouvir o clássico tema de John Williams numa sala com som THX e tela gigante promete ser qualquer coisa. Para os demais, é a chance de retornar à infância ou, numa perspectiva mais cínica, confrontar-se com a incontornável passagem do tempo (garanto que vai ter muita gente dizendo que "naquela época é que era bom", que "o personagem envelheceu mal" ou então que "bons mesmos eram os efeitos de 1981").

Muito pouco foi revelado sobre a trama do longa, mas sabe-se que ela possui pontos de conexão com a história do primeiro filme (como a volta da personagem Marion, par romântico do herói em Caçadores da arca perdida e algumas cenas ambientadas naquele depósito ultra-secreto para onde a arca é levada), que desta feita os vilões são russos (já que a ação transcorre nos anos da Guerra Fria), que Cate Blanchett está morena e que a matriz com a qual o filme dialoga é a da ficção científica dos anos 50, no lugar do cinema de aventuras da década de 30 (não se surpreendam, portanto, se as tais Caveiras de Cristal do título possuírem origem alienígena - quem sabe os ETs de Contatos imediatos do terceiro grau?). O trailer, disponível aqui, dá pistas de que os efeitos visuais serão mais mecânicos do que digitais (ainda bem, já que a praga do CGI consegue transformar até as pirâmides do Egito em monumentos artificiais, conforme visto n'O retorno da múmia) - dispensável apenas o close inicial na bandeira americana tremulante, mas o que esperar do ultra-patriota Spielberg?

Outro dia estava revendo um documentário muito bacana sobre o cinema americano da década de 70 - a famosa "geração Easy Rider", de Scorsese, Coppola, Lumet, Friedkin e cia. - intitulado A decade under the influence. O filme narra de forma bastante precisa como todo o ímpeto contestador e contracultural dos anos 60 e da primeira metade da década seguinte (que gerou produções como Taxi driver, O poderoso chefão e Um dia de cão, além do já citado Easy rider) foi se esgotando no final dos anos 70. À medida que eventos como a derrota na Guerra do Vietnam, a queda de Nixon e as crises petrolíferas iam semeando, junto ao público consumidor de cinema, um desejo por "entretenimento escapista", que o afastasse dos problemas cotidianos, Hollywood começava a formatar aquilo que, da década de 80 em diante, ficou conhecido como "Cultura dos Blockbusters".

Os primeiros símbolos dessa nova forma de fazer cinema, onde filmes custavam muitos milhões de dólares, eram lançados em milhares de salas e encontravam-se amparados por uma poderosa máquina publicitária (capaz de vender de trilhas sonoras a bonequinhos, passando por biscoitos e guarda-chuvas temáticos do filme em questão), foram, justamente, Tubarão (de Steven Spielberg, 1975) e Star Wars (de George Lucas, em 1977) - dupla que se reuniu, em 1981, para levar às telas a busca de um certo arqueólogo por uma certa arca perdida... É provável, portanto, que o lançamento do quarto episódio da saga seja pontuado por incontáveis discursos anti-entretenimento massivo, já que O reino da caveira de cristal deve tomar os cinemas de assalto e, conseqüentemente, reduzir o espaço para os lançamentos de menor apelo mercadológico (o cinema brasileiro é um que muito provavelmente vai se dar mal nessa briga).

Também confesso ter uma curiosidade algo mórbida para verificar como vai se dar a atuação dos vendedores piratas, quanto tempo vai levar entre a premiére mundial do filme no Festival de Cannes e a primeira cópia a circular na internet e, por fim, para saber de que forma o herói cinematográfico da minha geração será recebido pela turma mais nova, acostumada a frenéticos Homens-Aranha e congêneres. Cairá Spielberg na "armadilha" (da qual George Lucas e sua retomada da saga Star Wars decerto não saíram muito bem) de tentar alcançar "novas platéias", desagradando os "antigos fãs" (as aspas são de propósito)?