quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Na pista


Não sei se isso também acontece como vocês, mas às vezes a gente adquire determinado material (com fins de investigação acadêmica ou não), coloca ele na gaveta e só depois de um tempo, quase sempre do nada, o dito cujo cruza o nosso campo de visão e a gente pensa “como eu nunca dei importância para isso antes?”. Fenômeno congênere ocorreu comigo semana passada quando, ao vasculhar a minha estante de álbuns adquiridos durante a estadia em Portugal à procura de algo novo para escutar, deparei-me com o “3 Pistas – volume 2”. O disco já é meio velhinho (foi lançado em 2009), mas só agora sinto-me capaz de tecer algumas considerações sobre ele.


O projeto “3 Pistas” foi idealizado pelo radialista Henrique Amaro como rubrica do programa “Portugália”, da Antena 3. Cada banda convidada tem à sua disposição três pistas de áudio para gravar duas canções – uma de própria lavra e uma versão. O que poderia funcionar como limitação técnica, muito pelo contrário, parece estimular a criatividade dos artistas no sentido de construir releituras minimalistas de determinadas músicas (tarefa na qual algumas bandas se saem melhor do que outras, nomeadamente aquelas que já possuem uma estética lo-fi logo à partida).


Mas o mais bacana do projeto “3 Pistas” fica reservado às versões. Poucas coisas são tão reveladoras dos graus de filiação e parentesco que determinado artista deseja estabelecer com outros músicos, e do modo como esse mesmo artista busca se inserir numa dada linha genealógica do universo pop, quanto uma aparentemente inocente versão (álbuns de duetos também são excelentes objetos nesse sentido). Pena que, para o público brasileiro, boa parte da graça advinda de um disco como o “3 Pistas” dependa de um conhecimento mínimo do quem-é-quem da música portuguesa durante os últimos 40 anos (a exceção que muito nos toca talvez seja a releitura quase fiel – inclusive no sotaque – que JP Simões faz do “Retrato em branco e preto” de Chico Buarque e Tom Jobim). Tiago Guillul gravando “A glória do mundo” dos Heróis do Mar e trazendo para primeiro plano a atmosfera religiosa que já habitava a versão original; Linda Martini pegando na canção “Adeus tristeza” de Fernando Tordo e transformando-a numa toada épica de mutilar o coração; ou ainda Os Pontos Negros revisitando com tintas strokeanas a festivalesca “Esta balada que te dou”, de Armando Gama: as implicações de tais escolhas infelizmente permanecem obscuras pra nós. Restam-nos, a título de consolo, as releituras no âmbito do pop/rock anglófono que nos são muito mais familiares: nesse quesito, o volume 2 do “3 pistas” alterna casamentos quase óbvios (Sean Riley & the Slowriders com Bruce Springsteen, The Vicious Five com AC/DC e, por que não dizer, JP Simões com Chico Buarque) com flertes verdadeiramente surpreendentes (D3ö e Amy Winehouse, Dapunksportif e Billy Idol, Clã e Klaxons).


Minhas faixas favoritas incorrem neste último domínio, aliás. Embora depois que a gente escute a relação faça todo o sentido, dificilmente alguém imaginaria “Where is my mind” do Pixies aparecendo assim quase nua, coberta apenas por um tecladinho Casio manhoso (encontrado na rua, reza a lenda) e pela voz de David Santos como o Noiserv imaginou. E encerrando o álbum de forma majestosa, temos At Freddy’s House despindo “Dancing in the dark” de Bruce Springsteen de qualquer vestígio épico e convertendo-a numa balada de insuspeita melancolia.


***


E como dizia o outro, quando menos se espera, chega o (Pai) Natal.

Um feliz 2011 – também conhecido como o ano da tese – para todos.

E que as Musas Lusas nos protejam.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Dicas de presentes: livros sobre música




Como ninguém escapa de ter que comprar pelo menos um presente de Natal nem de ler sobre "os melhores" de 2010, resolvi juntar as duas coisas neste post. Sim, leitores, era mesmo inevitável...

Mas, desde que comprar Cds para os amigos ficou old fashion, passei a privilegiar as livrarias da cidade e por isto pensei numa lista de livros sobre música. Era pra ser só dicas de livros recentes. O pior é que me empolguei e a lista virou a dos meus livros favoritos sobre música da década. Ou melhor: os livros que eu li nesta década e que gostaria de recomendar, descartada a bibliografia acadêmica, que faz parte do nosso trabalho (aí não tem graça para o leitor não especialista). Pensei em 10 livros que dão prazer, divertem, emocionam, polemizam fazem pensar e mudam a nossa vida (juro, em alguns casos extremos isto já aconteceu comigo).A lista está dividida em duas partes: os meus favoritos, que recomendo sem restrições; e a lista dos que não li e gostaria de ganhar de Papai Noel.


I) Meus Favoritos da década
Na categoria romance não tem para ninguém. Nick Hornby é o cara! Seus dois romances: Alta Fidelidade e Juliette Nua e Crua são geniais. O universo do rock e da cultura pop, dos fãs, do underground e no caso de Juliette também das redes sociais - descrito a partir de um ponto de vista amoroso, irônico e perspicaz é a marca do escritor inglês. Tenho total identificação geracional com ele e estes livros são bíblias pra mim. Mas, vamos citar só Juliette, uma vez que Alta Fidelidade é da década passada.

Na categoria biografias, tem um monte, mas também fico com dois. O primeiro é um amor recente: o livro Só Garotos, escrito pela minha musa Patti Smith, que li nos últimos dias. A cena musical e artística da Nova York dos anos 60 e 70; o caso de amor e amizade dela com o artista plástico Robert Maplethorppe; a presença de Andy Warhol e do pop valem cada página. Chorei pra cacete, é lindo e emocionante, ainda que não tenha nada de triste.

O segundo livro é a biografia do Tim Maia escrita pelo Nelson Motta há alguns anos. Pra contrabalançar o anterior, neste as lágrimas são de riso. O livro é é hilário, genial, engraçado, delicioso, afetivo e de quebra recheado de fatos e dados históricos importantes sobre a indústria da música no Brasil

Nesta categoria, apesar de ter sido retirada de circulação por mandato judicial, recomendo a biografia Roberto Carlos em Detalhes, escrita pelo Paulo Cesar Araujo em 2008. Trabalho de historiador, com fontes meticulosamente pesquisadas e respeito desmedido pelo biografado, o trabalho pode ser encontrado numa gogleada. Ponto a favor de Paulo Cesar e única bola fora do Rei, que, inexplicavelmente, processou os editores e copnseguiu retirar a obra de circulação. Mesmo para quem não gosta de Roberto, também é um livro importante sobre a consolidação da indústria fonográfica e a cultura de massa no Brasil. Imperdível!
Na categoria "relatos de cenas musicais" - tem um monte e vou citar quatro dos quais gosto muito. O primeiro é o calhamaço do Simon Reynolds sobre a cultura da música eletrônica, chamado Ecstasy Generation (infelizmente sem traduçaõ no Brasil). Foi lançado em 1999 mas só li em 2001, por isto entra na minha lista pessoal da década. O segundo é o Heavy Metal com Dendê, de Jeder Janotti sobre a cena metaleira de Salvador - livro super interessante que relata as dificuldades da cena do metal baiano tentando se organizar apesar do onipresente axé.
O terceiro é o Babado Forte, da Erika Palomino, que descreve a cena clubber paulistana dos anos 80/90, numa visão muito pessoal e idiossincrática, mas deliciosa. Detalhes e fofocas do mundo fashion, da montação das drags e doors é o forte. Também é de 1999, lido por mim circa de 2001/2002.E o quarto é o Batidão, livro do jornalista Silvio Essinger sobre a cena de funk carioca.

O nono livrro da lista é a reunião das críticas viscerais do lendário Lester Bangs para a nata das revistas tais como Creem, Rolling Stone (dos bons tempos) Village Voice, New Music Express, dentre outras - chamado Reações Psicóticas. Rock na veia, no tempo em que se fazia crítica cultural de verdade em revistas especializadas. De quebra, uma viagem de volta aos anos 70.

E o décimo é um livro bem bizarro, o Alucinações Musicais: relatos sobre a música e o cérebro, do neuro-cientista Oliver Sacks, que discute experiências humanas intrigantes ligadas a reações inusitadas do cérebro á música. (por ex: uma síndrome que torna acomete crianças, tornando-as hiper-musicais).
Colocando as sugestões em ordem, minha top ten fica então assim:
10) Alucinações Musicais - Oliver Sacks - (Cia das letras; 2007)
9) Reações Psicóticas - Lester Bangs (Ed. Conrad, 2005)
8) Babado Forte: moda, música e noite - Erika Palomino (Ed Mandarim, 1999)
7) Batidão - Uma história do funk - Silvio Essinger (Ed, Record; 2005)
6) Heavy Metal com Dendê: Rock Pesado em tempos de globalização - Jeder Janotti Jr (Ed. E-Papers, 2004)
5) Vale tudo: O Som e Fúria de Tim Maia - Nelson Motta (Ed. Objetiva; 2006)
4) Roberto Carlos em Detalhes - Paulo Cesar Araújo (Ed. Planeta; 2006)
3) Generation Ecstasy: into the world of techno and rave culture - Simon Reynolds (Routledge; 1999)
2) Juliette Nua e Crua - Nick Hornby (ed. Rocco; 2009)
1) Só Garotos - Patti Smith (Cia das Letras-2010)

E sobre a minha cesta de Natal? Bem, na minha wish list só tem biografias. Sobre o contexto brasileiro,"50 anos a 1000, a biografia do Lobão (discordâncias e polêmicas à parte, deve ser um ótimo panorama da música nos anos 80)"; mais a auto-biografia do Erasmo Carlos; e também a do André Midani, chamada "André Midani, Música, Ídolos e Poder - do Vinil ao Download”, contando os detalhes da sua história nos bastidores das gravadoras. Fora das terras brasilis, quem resiste a ler sobre a vida do Keith Richards?Mas, esta não preciso ser presenteada, pois já entrei na fila de empréstimo de um amigo que ganhou o livro esta semana...
Completam a lista os livros do Lou Reed e do Nick Cave e lista fechada.
Discordem, comentem, façam suas próprias listas e Feliz Natal!



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Totalmente fumado


Algumas das coisas mais bacanas da música portuguesa contemporânea surgiram e continuam surgindo por intermédio de pequenas gravadoras. Nos anos 80, a vertente mais arrojada do rock português não teria existido sem a articulação de companhias discográficas como a Dansa do Som e a Ama Romanta. No contexto atual, veja-se o caso das “primas” Flor Caveira e Amor Fúria, cada uma a seu modo contribuindo para a oxigenação do pop/rock lo-fi made in Portugal. Ou mesmo a Merzbau (de Tiago Sousa), que entre 2005 e 2009 consolidou-se como referência no âmbito da música experimental/exploratória, e por onde Noiserv, B Fachada (pós-FC), Jesus the Misunderstood e Walter Benjamin (!) lançaram CDs e EPs recomendadíssimos. Com o fim da Merzbau, quem parece ter herdado sua reputação é a Mbari, cujo elenco inclui Tó Trips (a metade sem cartola do Dead Combo), Norberto Lobo, Lula Pena, Tigrala e... B Fachada, que num ritmo intenso de dois álbuns por ano, acaba de soltar no mundo mais uma obra (“B Fachada é pra meninos”, um primor de título).

Longe de mim estar aqui aproveitando este espaço para fazer uma defesa dos pequenos contra os grandes, do “underground” contra o “mainstream” ou coisa que o valha, até porque a gente tá careca de saber que os territórios são menos demarcados do que se supõe. Contudo, me parece que a relação menos tensa que tais empresas desenvolvem com determinados imperativos de mercado pode, em alguns casos, fomentar estudos de caso interessantes.


Imerso que estava no universo da Flor Caveira e família, confesso que nunca dei a devida atenção à portuense Meifumado. Até que outro dia comecei a receber umas newsletters da gravadora anunciando o lançamento de mais uma banda nova – chamada Guta Naki – e resolvi fazer justiça à malta. A editora discográfica, que faz 7 anos em 2011, vem se destacando pelo ecletismo de sua proposta e pelo caráter de ponta de seus lançamentos. Enquanto na FC e na Amor Fúria o conceito estético que reúne os artistas a elas vinculados parece algo evidente (por exemplo, no diálogo com o imaginário tradicional ou na invocação de certas marcas de portugalidade, e em que se pese a diferença entre, digamos, Tiago Guillul, João Coração e Os Golpes), no caso da Meifumado o buraco é muito mais embaixo. Não há nada, a princípio, que aproxime os trabalhos de Mc Jihad, Abstrat SirQ (os nomes são um capítulo à parte) ou Paco Hunter a não ser uma certa tendência ao minimalismo mutante e a multiplicidade de propostas. Mesmo nomes como Paulo Zé Pimenta, um dos fundadores da Meifumado, parecem assumir diversas personalidades dependendo do projeto em que estão engajados.


Conheci a Meifumado meio por acaso, ao esbarrar num disco espertamente intitulado “5 anos, 13 merdas” enquanto garimpava CDs pelos sebos de Lisboa ano passado. De cara, a tosquíssima arte da capa chamou a minha atenção, e passado o estranhamento sonoro inicial, logo logo tornei-me fã de algumas faixas, como “Foz girl” (PZ) e “Pensacola” (Paco Hunter). Vasculhando no site da gravadora para escrever este post, surpreendi-me ainda mais. Primeiro, pela varidade do “catálogo”. Em um segundo momento, pelas estratégias que a Meifumado utiliza para fazer circular tão vasta produção. E aí não consegui evitar as comparações com o caso Flor Caveira, que aqui seguem sem qualquer juízo de valor, vale ressaltar – apenas dão conta de propostas diferentes. Lembro que, ao adquirir os discos da Flor Caveira, havia me surpreendido com o esquema mezzo do-it-yourself mezzo artesanal da editora: CD-Rs com o nome do disco escrito à mão e que não raro travavam nos aparelhos leitores, mas que ao mesmo tempo vinham embalados em capas cuidadosamente elaboradas do ponto de vista do design gráfico. No caso da Meifumado, depois de escutar as faixas em streaming no próprio site da gravadora (coisa que recomendo efusivamente, sobretudo se a sua parada são as sonoridades eletrônicas), você tanto pode adquirir o CD, o MP3 ou efetuar o download de faixas isoladas por módicos 0,99 de euro. Como se não bastasse, ainda é possível assistir a uma série de vídeos, cada um mais criativo do que o outro, só perdendo em termos de arrojo para as criações de Paulo Furtado na persona do Legendary Tigerman.


Ao visitarem o site da Meifumado, não deixem de clicar no link “Info”. É onde vocês podem compartilhar da missão da gravadora, exposta num português mais-claro-impossível:


A Meifumado continua a cagar na precaução...

Com o mesmo utópico objectivo:
a criação e edição de boa música (conceito original, não?)

Todas as convenções implícitas de uma editora são orgulhosamente ignoradas.

Venham ver o barco a afundar !”


Afundemos todos juntos, ora pois. E com muito gosto.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Os 100 mais do MySpace (Brasil)

Aproveitando o mote da lista dos mais mais no Youtube esse ano, fica aqui também um link para a lista das páginas mais acessadas no My Space em 2010, destacando a forte presença de artistas novos (que apareceram na grande mídia nos últimos anos) nas primeiras colocações (Maria Gadu, Justin Bibber, Strike) e a liderança absoluta do "happy rock" no "pódio", com ouro para Restart, prata para Cine e bronze para Hori. Os dez mais são: 1° Restart 2° Cine 3° Hori 4° Hevo 84 5° Replace 6° Justin Bieber 7° Strike 8° Maria Gadu 9° Fresno 10° Felguk
Resta saber quais estratégias utilizadas pelas bandas que bombam no myspace e se o sucesso nessa rede está realmente mais relacionado ao "bom" uso da plataforma ou às particularidades do perfil do público que a acessa, bem como qual a relação (e o impacto do MySpace) no sistema midiático contemporâneo. Enfim...Resta saber muita coisa.

Top Top Youtube 2010

Clique aqui para conferir uma matéria sobre a lista de vídeos mais acessados do Youtube. Interessante perceber a necessária (e estratégica) separação em duas listas (entre vídeos comerciais/profissionais e amadores) e também como os vídeos amadores ainda têm um patamar bastante inferior em termos de números, mesmo os que mais "bombam" (ainda que a sua expressividade seja ainda sim inegável). Só pra constar, o já comentado (neste blog) "Bed Intruder Song", 1o da lista dos amadores, obteve 61 milhões de acessos, enquanto o 1o da lista de vídeos comerciais, "Baby", videoclipe oficial de Justin Bibber, 406 milhões. Outro aspecto interessante na divisão entre essas listas a ser observado é o fato de que o clipe oficial do Ok Go figurar na lista de amadores. De acordo com a matéria, isso se daria por dois motivos: 1) Pelo fato da banda não estar mais vinculada a uma grande gravadora; 2) Por conta da banda ter obtido reconhecimento pelos vídeos criativos disponibilizados na plataforma antes de assinarem com a EMI.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Victor e Leo em Niteroi

por Gustavo Alonso


Há cerca de duas semanas, no dia 28 de novembro, aconteceu o primeiro show da dupla Victor e Leo em Niteroi. Foi no clube Rio Cricket, em Icarai. Não pude perder essa oportunidade de ir no show da dupla, visto que em diversas oportunidades escrevi sobre a atual musica “sertaneja universitária” e sobre o trabalho dos rapazes neste blog. (Veja posts anteriores sobre o sertanejo universitario: 1, 2, 3, 4)

Fiquei sabendo do show através de um dos inúmeros cartazes espalhados pela cidade. O cartaz e o flyer do show tinha como chamariz os seguintes dizeres: "um evento para toda familia". Apesar de toda família niteroiense ter sido convidada, conheço vários niteroienses que sequer os perceberam e/ou estão pouco se lixando para saber quem é Victor e Leo.

Entrei no site dos rapazes e me impressionei com a quantidade mensal de shows. O mais incrível é que eles alternavam shows no Sul do Brasil e no Sudeste. Por exemplo: dia 25 eles estavam em Ribeirão Preto/SP; no dia 27 em Esteio/RS; no dia 28 em Niteroi. Me perguntei: como isso é possível? Mais tarde descobri a resposta. A dupla tem dois palcos e estruturas que viajam pelo Brasil. Enquanto a estrutura que atualmente esta no Sudeste viaja e se realoca em outro lugar eles fazem show no Sul do Brasil. Isso permite uma intensa agenda de shows e a maximização do tempo. Por outro lado, se os percursos dos palcos “diminui”, as milhagens aéreas da banda cresce, a medida que é forçada a cortar o Brasil de sul a norte em busca de palcos distintos e habilitados. Trata-se de uma estrutura bastante profissionalizada.

Percebe-se isso claramente quando se vai a um show destes. Mesmo consciente disso, me surpreendi. Parecia que eu estava entrando num show do Rock in Rio. Das roletas aos mictórios, das tendas de cerveja ao palco, tudo lembrava muito os grandes shows internacionais que já vi por aqui no Rio. O show, diga-se de passagem, é patrocinado pela cerveja Itaipava, que tem exclusividade na venda de álcool. Havia uma área VIP, mictórios suficientes, barracas bem organizadas e sempre livres. Comprava-se cerveja com tickets obtidos em “containers” também sem fila. O preço da cerveja era amargo: 4 reais a lata! Fiquei com a sensação de que, se essa estrutura me surpreendeu, imagine o quanto não deve ser impactante para alguém do interior? Ou não...

De qualquer forma é importante que se diga que o show não lotou! De fato, os dois campos de futebol do Rio Cricket são gigantescos. Não sei quantas pessoas caberiam là, mas eu chutaria que o show teve metade de sua lotação máxima. Estava confortável. Mesmo assim a impressão era de que estava relativamente cheio, tamanha a quantidade de pessoas que foram ver os mineiros.

O show não era barato, paguei 40 reais por uma meia entrada masculina.² Em relação a classe social presente, claro, notei pessoas de classe média em sua maioria, brancas, algumas poucas (pouquíssimas, mas já foi o suficiente para me espantar!) vestidas de “cowboy”, botas e chapéus. Também havia algumas poucas aparentemente de classe social mais baixa, mas nada que me chamasse a atenção de forma decisiva. Com certeza o preço do ingresso pesou. Mas, mais do que qualquer valor monetário, o que pesou para a relativa baixa lotação do show foi o fato de Victor e Leo ainda serem pouco conhecidos no Rio de Janeiro.

Já escrevi neste blog sobre como o Rio de Janeiro ainda é visto como um dos poucos bastiões da resistência ao atual sertanejo universitário que, desde do inicio da década vem tomando o Brasil, tomando palcos que antes tocavam o axé e outros ritmos populares. O Rio é um dos poucos lugares onde as pessoas encontram dificuldade de relacionar a musica a determinados artistas; poucos são os que conseguem diferenciar Victor e Leo de Fernando e Sorocaba, por exemplo; as rádios cariocas ainda tocam muito timidamente o gênero musical do sertão.

Vamos ao show propriamente dito. Confesso que estava meio alterado, pois o show aconteceu depois de um final de semana (domingo) cheio de atividades etílicas. Apesar de neste final de ano os rapazes terem lançado um novo disco (“Boa sorte pra você”, sobre o qual já escrevi aqui) a turnê ainda se chamava “Ao vivo e em cores”, nome do disco e DVD ao vivo anteriores à “Boa sorte...”. Ou seja, parece que os rapazes lançaram "meio que mais ou menos" o novo CD. No show cantaram apenas a canção titulo do novo disco e se esqueceram do resto do novo repertorio. Foi uma pena. Mas senti que esta atitude foi voluntaria, afinal eles demonstram-se muito preocupados em “conquistar” o Rio de Janeiro. Nesse sentido, cantar musicas que sejam “conhecidas” deste publico pouco habituado ao sertanejo é essencial. Daí a preferência pelo repertorio já consagrado no dois discos “ao vivo” da dupla.

Durante o show me diverti bastante, mas de certa forma me decepcionei. Menos com o concerto, a estrutura ou a atitude dos rapazes e mais com a participação tímida do publico. Esperava um atitude menos recatada da platéia, que estava bastante tímida, não conhecia as canções menos famosas e pouquíssimas vezes cantou junto com Leo. Houve momentos que ficou meio constrangedor perceber que o publico não conhecia as letras, apesar dos mineiros tentarem fazer o publico acompanha-los. Por isso fiquei um pouco frustrado. Talvez por que estivesse muito influenciado pelos vídeos vistos via Youtube das apresentações “ao vivo” da dupla, nas quais o publico canta TODAS as musicas, dos antigos sucessos às novas canções. A todo momento ficava claro que eu estava no Rio de Janeiro e não em qualquer cidade do interior do Brasil. Talvez por isso tudo não tenha havido o tradicional ‘bis’. Nem eles ameaçaram fazê-lo, nem o publico exigiu. Foi estranho. Isso não impediu, no entanto, que Victor declarasse ao final do show: “Niteroi: vocês entendem de sertanejo!”.

De fato em diversos momentos Victor e Leo deixam claro essa intenção de romper a barreira estética carioca. Embora já tenham feito shows até na Marina da Gloria (em 24/07/2010), eles raramente se apresentam aqui. No programa “Estrelas” de 28 de novembro de 2009, entrevistados por Angélica em um saveiro no meio da Baia de Guanabara, Leo demarcou esse pouco conhecimento da cidade: “ é engraçado... o básico do ciclo turistico do Rio a gente não conhece ainda... o Pão de Açucar, o bondinho, o Cristo...”. Essa tentativa de se aproximar do Rio de Janeiro vem, nas falas dos irmãos, junto com a tentativa de se legitimar esteticamente como gênero. Afinal, deslocar o Rio de Janeiro como epicentro da cultura nacional é compreensível. Foi no Rio que se construiu o imaginário do samba enquanto símbolo do Brasil. Para ser legitimado enquanto gênero nacional é preciso conquistar esta praça. No entanto, este talvez seja o território mais duro de se conquistar, justamente porque a sociedade carioca resite ser deslocada do ultimo quinhão que resta a essa antiga capital política e econômica, agora reduzida a capital cultural. Mas por quanto tempo ainda serà o Rio a capital cultural brasileira? O axé baiano, o sertanejo, o pagode mineiro, goiano e paulista da década de 1990 jà haviam balançado a preponderância carioca. As investidas de Victor e Leo parecem apontar a continuação desta desestabilização do Rio de Janeiro.

Na ultima premiação do prêmio Multishow de 2010, quando ganharam o titulo de dupla sertaneja do ano, Victor proferiu um discurso para os “resistentes” à musica sertaneja, muitos dos quais cariocas:

“Dentro de um espaço longo de tempo o pessoal comentou sobre do preconceito [acerca] da musica sertaneja, tida por muito como chula... o breganejo... como dizem. Em todos os estilos o que [hà] é a essência, e se houver verdade, as palavras não vão precisar ser ditas. A musica pode ser ouvida e vai dizer muito mais que palavras”.

Logo após a vitoria, Leo escreveu no site da dupla: “Muito mais que uma vitória da dupla Victor e Leo, foi o grande passo dado pela música brasileira, através deste prêmio, que abre espaço e reconhece uma cultura com tanta verdade, raiz e história, como a música sertaneja, que vem do interior do Brasil, especialmente das áreas rurais, e que ganha cada vez mais espaço nos grandes centros. Isso é que precisa ser comemorado e reconhecido. Parabéns aos organizadores do Prêmio por terem aberto este espaço e quebrado uma barreira que está no fim, mas que ainda existe.”

Se em alguns momentos a dupla parece afinar seu discurso às hostes sertanejas, em outros parece querer furar a barreira resistente se afirmando para além da da musica rural. Victor expressou assim essa problemática: “Qualquer pessoa que monte uma dupla no Brasil é sertanejo. Por quê? Não pode ter um estilo próprio? Você não pode ter um estilo próprio? Se você é uma dupla vc é tachado de dupla sertaneja. Eu acho que não é por ai! Até porque a maioria das duplas que são tachadas de sertanejas, não fazem, há muito tempo, uma musica sertaneja sequer!”

Como será que Victor e Leo serão lidos caso consigam de fato tomar o Rio de Janeiro na mesma proporção que tomaram o Brasil? Há um processo, sobre o qual já escrevi aqui, que parece ver na dupla uma aproximação com a MPB. Serão eles lidos como MPB no futuro? Serão vistos como sertanejos? Sertanojos? Breganejo? Sertanejo universitário? Caipiras? Raiz?

Não sei. Constato apenas que as disputas pelas categorias de legimidade estão em intensa disputa. Ainda não esta claro quais categorias serão vitoriosas, embora haja alguns sinais bastante contundentes. Como diria o romano Julio Cesar: “Alea jacta est” ou “a sorte esta lançada”!

Notas:
² Lista de preços do show em Niteroi: Pista Feminina Meia: R$ 30,00; Camarote Feminino Meia: R$ 100,00; Pista Feminina Inteira: R$60,00; Camarote Feminino Inteira: R$200,00; Pista Masculina Meia: R$40,00; Camarote Masculino Meia: R$120,00; Pista Masculina Inteira: R$ 80,00; Camarote Masculino Inteira: R$ 240,00.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Primeira reportagem sobre e-mail no Brasil

Uma amiga postou esse vídeo no Facebook recentemente. Achei tão incrível que não pude deixar de compartilhar com os leitores do LabCULT.


Ta aí a Record antecipando tendências hehehe

Enoteca

Qual a primeira coisa que você escuta ao acordar?

Esta é uma questão que vem me encucando faz pelo menos cinco meses, desde que precisei me habituar a despertar toda terça e quinta no ingrato horário das 5h40.

Quando regressei de Portugal no início deste ano, tinha pontos junto à Vivo que me permitiram trocar o combalido aparelho liga-e-manda-mensagem por um modelinho da Sony que, entre outras bossas, me habilitava a poder colocar a música que eu bem entendesse como despertador. Aquela cena de abertura do filme "Vanilla sky", quando o Tom Cruise levanta ao som de "Everything in its right place" do Radiohead, me inspirou na minha primeira escolha. Não deu certo, obviamente. Acordar com os miados do Thom Yorke revelou-se profundamente perturbador.

Aí fiz a experiência, durante umas duas semanas, com "The seventh seal" do Scott Walker, que começa com uns trompetes meio mariachi - outra bola fora. Descobri que os trompetes mariachi mais me assustavam do que facilitavam o meu despertar, fora que a voz de barítono jacquesbreliana do Walker contribuía pra que eu já começasse o dia com dor de cabeça. Juro que até cheguei a transferir "Search and destroy" dos Stooges pro chip, mas esta eu decidi que só me arrisco a utilizar como despertador se um dia eu entrar em coma profundo.

Um dia, como quem não quer nada, e diante da constatação de que músicas esquisitas demais me assustavam, intensas demais me deixavam com dor de cabeça e pesadas demais me fariam ter um ataque cardíaco, optei pela coisa mais improvável em se tratando de trilhas sonoras para o bom despertar: a faixa "1-1" do "Music for airports" do Brian Eno - apenas um pianinho emitindo notas sustentadas e aquela atmosfera de... bem, aeroporto ao fundo. Foi uma revelação espiritual. Funcionou que foi uma maravilha, como continua funcionando até hoje, aliás.

Esta semana comecei a ler "On some faraway beach - the life and times of Brian Eno", escrita por David Sheppard, motivado que estava pelo recém-lançado álbum "Small craft on a mil sea", regresso de Eno à ambient music que marcou sua obra nas últimas duas décadas, cinco anos depois do (algo falhado, embora seja um disco que curto bastante) opus pop "Another day on earth". A leitura - um calhamaço de 400 e tantas páginas - é recomendadíssima para quem se interessa por discutir os limites da invenção no âmbito da música pop. Ainda não cheguei à parte que mais interessa (o momento entre a saída do Roxy Music e a concepção do disco "Another green world"), mas pelo que já folheei do livro, todas as inúmeras parcerias de Eno - de David Bowie a U2 - estão lá. E como o livro é recente, ele cobre inclusive a atuação de Eno como produtor do último disco do Coldplay.

Na humilde opinião deste que vos escreve, Brian Eno é simplesmente um dos maiores criadores de paisagens sonoras em atividade. E a trajetória do cara cobre momentos e estilos tão distintos que quase dá pra dizer que, tal como o sal de frutas, há Enos para todos os gostos: a colaboração com David Byrne no clássico e revolucionário "My life in the bush of the ghosts" explora a faceta bricoleur do artista (e num mundo minimamente justo, a faixa "Strange overtones" do último disco que os dois lançaram juntos seria um sucesso radiofônico incontestável); Placebos e Scissor Sisters não existiriam sem os seminais álbuns glam lançados por Eno no início dos 70's (ouçam "Baby is on fire", de "Here come the warm jets" e depois me digam se não tenho razão); por fim, há o Eno da tetralogia "Music for airports", das parcerias com Harold Budd, Robert Fripp e Daniel Lanois, e de "Small craft in the milk sea" - aquele cuja faixa de abertura, "Emerald and lime", tem grandes chances de virar a minha nova música de despertar.

[Como este post menciona uma quantidade considerável de músicas que talvez muitos não conheçam, e é de trilhas sonoras que ele se trata, fiz essa playlistizinha aqui. Espero que curtam!]

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O rádio nas músicas

Desde a semana passada estou acompanhando a lista das músicas mais pedidas em emissoras de rádio populares. Na Nativa FM, por exemplo, entre as mais votadas pelo público está a música de Daniel, “Do outro lado do rádio”. Este título me fez pensar sobre como as letras das músicas muitas vezes nos mostram a função que este meio de comunicação ocupa no cotidiano. As músicas deixam claros os significados do rádio no dia a dia.

Nos anos 1980, temos muitos exemplos do rádio como mediador das afetividades. Uma série de letras inclui o rádio como um meio que desperta a lembrança, como em Rádio Blá (1987), de Lobão, “Eu ligo o rádio e blá, blá, blá, blá, blá blá, eu te amo” , ou em “Vitrine”, de Ruban (1986) “eu ligo o rádio e tento te esquecer e uma canção antiga me lembra você”, e na letra de “Sintonia” (1986), de Moraes Moreira, “Escute esta canção que é para tocar no rádio, no rádio do seu coração”.

Percebemos, nos trechos das músicas, a percepção do imaginário coletivo sobre o papel do rádio no romantismo, nas lembranças, enfim, nas sensibilidades. As letras demonstram essas significações na vida prática, criadas pelo rádio. As músicas nos possibilitam perceber a presença do rádio no universo dos ouvintes e as relações que estabelecem com este meio de comunicação.

São muitos os sentidos criados pelo rádio e um deles é a função do locutor, que sempre é visto como companheiro e como mediador daquilo que se quer dizer à pessoa amada quando não se sabe onde ela está. Na música “Amigo locutor” (2008), de Léo Magalhães, isso fica bem claro no refrão “Vai locutor, diz que eu tô completamente apaixonado, louco de amor, diga por favor, fala aí no ar, não sei viver sem ela...”

Na música “Do outro lado do rádio” (2010), de Daniel, vemos um sentido semelhante estabelecido entre o ouvinte e o rádio: “Hei, você do outro lado do rádio, escute esta canção que fala de um amor que talvez nunca tenha amado, a voz de um coração não cala, você talvez não tenha escutado”.

Penso que essas letras que incluem o rádio como elemento mediador das afetividades nos informam muito a respeito de práticas, materialidades, formas de aproximação do meio que podem ser ótimas fontes para entendermos a história do veículo e de suas funções como meio de massa ao longo das décadas.

Gestão colaborativa das marcas e web 2.0

Saindo um pouco do universo musical e indo para o mundo do consumo e ciberespaço, queria discutir hoje rapidamente o potencial da web 2.0 para a gestão colaborativa das marcas. Como muitos tem percebido, é cada vez mais notório o esforço de certas empresas para marcar sua presença no ciberespaço, principalmente nos sites de redes sociais. A maioria das grandes empresas já possui perfil no Twitter, Facebook, Orkut etc. Mas o ponto é: como elas tem se apropriado desses sites para se comunicar com seus consumidores e potenciais consumidores?

Vemos muitas empresas que entram nesses sites sem saber muito bem o que fazer. Às vezes parece que elas acham que basta ter um perfil no Twitter, por exemplo, para ganhar mais visibilidade. Como se fosse algo automático. Como se o Twitter da empresa fosse um cartão de visita mais informal dela. Mas, é claro, não é bem assim. Cada site de rede social tem sua própria dinâmica de funcionamento e seus próprios valores, pois cada um é apropriado de maneira distinta pelos sujeitos e também, não podemos esquecer, numa perspectiva mais micro, cada comunidade de usuários vai se apropriar desses ciberespaços de maneira diferente também.


Voltando ao Twitter, temos que perceber que sua dinâmica é bastante (ainda que não só) conversacional. Ou seja, as pessoas em geral usam o microblog para trocar ideais. E de maneira bem direta e simples (até porque ou justamente porque tem-se o limite dos 140 caracteres por mensagem). Ou seja, não adianta a empresa ter perfil no Twitter e ficar falando sozinha, enviando mensagens meramente institucionais, por exemplo. Não. Tem que conversar, tem que ouvir o cliente, tem que responder. Tem que ser realmente uma comunicação bidirecional.

E, mais ainda, tendo em vista que a web 2.0 é marcada por produções coletivas e pela participação ativa dos usuários - que, claro, nunca foram "passivos", mas agora contam com ferramentas que facilitam a expressão de suas opiniões e a criação de conteúdos próprios - chegou-se num momento em que as marcas devem prestar mais atenção que nunca às demandas dos consumidores e devem propor uma gestão colaborativa: empresa + consumidor pensando juntos. Afinal, um tem interesse no outro, então o ideal é que sua relação seja win-win, ou seja, ganham os dois lados.

Dambrós e Reis (2008) ressaltam em seu artigo que as empresas devem:

1. Valorizar esse movimento de troca na Internet e, mais do que isso, participar mesmo dele (comunicação de mão dupla e não de mão única);
2. Estar atenta ao que os clientes dizem, ouvi-los e responder-lhes;
3. Aproveitar e estimular sua participação na gestão da marca;
4. Criar uma relação de confiança e tornar a empresa cada vez mais relevante.

Um exemplo ótimo de empresa que tem buscado fazer tudo isso é a Fiat, que recentemente lançou o "primeiro carro colaborativo" da história: o Fiat Mio. Esse case já está super conhecido, mas pra quem ainda não conhece trata-se do seguinte: a Fiat criou um blog coletivo onde as pessoas podiam enviar suas ideias, opiniões, sugestões etc. para criar um carro junto com a Fiat. O resultado foi o Fiat Mio, lançado (mas infelizmente ainda não comercializável) agora em novembro no 26º Salão do Automóvel em SP. Creio que cada vez mais novas ações desse tipo vão surgir, mas sinceramente o que me preocupa ainda mais é a questão do atendimento ao cliente, que em geral ainda tem muuuuito a melhorar...