
Algumas das coisas mais bacanas da música portuguesa contemporânea surgiram e continuam surgindo por intermédio de pequenas gravadoras. Nos anos 80, a vertente mais arrojada do rock português não teria existido sem a articulação de companhias discográficas como a Dansa do Som e a Ama Romanta. No contexto atual, veja-se o caso das “primas” Flor Caveira e Amor Fúria, cada uma a seu modo contribuindo para a oxigenação do pop/rock lo-fi made in Portugal. Ou mesmo a Merzbau (de Tiago Sousa), que entre 2005 e 2009 consolidou-se como referência no âmbito da música experimental/exploratória, e por onde Noiserv, B Fachada (pós-FC), Jesus the Misunderstood e Walter Benjamin (!) lançaram CDs e EPs recomendadíssimos. Com o fim da Merzbau, quem parece ter herdado sua reputação é a Mbari, cujo elenco inclui Tó Trips (a metade sem cartola do Dead Combo), Norberto Lobo, Lula Pena, Tigrala e... B Fachada, que num ritmo intenso de dois álbuns por ano, acaba de soltar no mundo mais uma obra (“B Fachada é pra meninos”, um primor de título).
Longe de mim estar aqui aproveitando este espaço para fazer uma defesa dos pequenos contra os grandes, do “underground” contra o “mainstream” ou coisa que o valha, até porque a gente tá careca de saber que os territórios são menos demarcados do que se supõe. Contudo, me parece que a relação menos tensa que tais empresas desenvolvem com determinados imperativos de mercado pode, em alguns casos, fomentar estudos de caso interessantes.
Imerso que estava no universo da Flor Caveira e família, confesso que nunca dei a devida atenção à portuense Meifumado. Até que outro dia comecei a receber umas newsletters da gravadora anunciando o lançamento de mais uma banda nova – chamada Guta Naki – e resolvi fazer justiça à malta. A editora discográfica, que faz 7 anos em 2011, vem se destacando pelo ecletismo de sua proposta e pelo caráter de ponta de seus lançamentos. Enquanto na FC e na Amor Fúria o conceito estético que reúne os artistas a elas vinculados parece algo evidente (por exemplo, no diálogo com o imaginário tradicional ou na invocação de certas marcas de portugalidade, e em que se pese a diferença entre, digamos, Tiago Guillul, João Coração e Os Golpes), no caso da Meifumado o buraco é muito mais embaixo. Não há nada, a princípio, que aproxime os trabalhos de Mc Jihad, Abstrat SirQ (os nomes são um capítulo à parte) ou Paco Hunter a não ser uma certa tendência ao minimalismo mutante e a multiplicidade de propostas. Mesmo nomes como Paulo Zé Pimenta, um dos fundadores da Meifumado, parecem assumir diversas personalidades dependendo do projeto em que estão engajados.
Conheci a Meifumado meio por acaso, ao esbarrar num disco espertamente intitulado “5 anos, 13 merdas” enquanto garimpava CDs pelos sebos de Lisboa ano passado. De cara, a tosquíssima arte da capa chamou a minha atenção, e passado o estranhamento sonoro inicial, logo logo tornei-me fã de algumas faixas, como “Foz girl” (PZ) e “Pensacola” (Paco Hunter). Vasculhando no site da gravadora para escrever este post, surpreendi-me ainda mais. Primeiro, pela varidade do “catálogo”. Em um segundo momento, pelas estratégias que a Meifumado utiliza para fazer circular tão vasta produção. E aí não consegui evitar as comparações com o caso Flor Caveira, que aqui seguem sem qualquer juízo de valor, vale ressaltar – apenas dão conta de propostas diferentes. Lembro que, ao adquirir os discos da Flor Caveira, havia me surpreendido com o esquema mezzo do-it-yourself mezzo artesanal da editora: CD-Rs com o nome do disco escrito à mão e que não raro travavam nos aparelhos leitores, mas que ao mesmo tempo vinham embalados em capas cuidadosamente elaboradas do ponto de vista do design gráfico. No caso da Meifumado, depois de escutar as faixas em streaming no próprio site da gravadora (coisa que recomendo efusivamente, sobretudo se a sua parada são as sonoridades eletrônicas), você tanto pode adquirir o CD, o MP3 ou efetuar o download de faixas isoladas por módicos 0,99 de euro. Como se não bastasse, ainda é possível assistir a uma série de vídeos, cada um mais criativo do que o outro, só perdendo em termos de arrojo para as criações de Paulo Furtado na persona do Legendary Tigerman.
Ao visitarem o site da Meifumado, não deixem de clicar no link “Info”. É onde vocês podem compartilhar da missão da gravadora, exposta num português mais-claro-impossível:
“A Meifumado continua a cagar na precaução...
Com o mesmo utópico objectivo:
a criação e edição de boa música (conceito original, não?)
Todas as convenções implícitas de uma editora são orgulhosamente ignoradas.
Venham ver o barco a afundar !”
Afundemos todos juntos, ora pois. E com muito gosto.