Quarta passada tivemos a segunda aula da disciplina Som + Imagem que Simone e Fernando Morais, professor de cinema e membro recente do PPGCOM, estão ministrando aos alunos da pós.
Eu já terminei meus créditos no doutorado mas desde que li a ementa, achei arrebatadora a ideia de acompanhar discussões vindas de uma professora do som, ligada à Sociologia, e outro do cinema (embora Fernando estude com ênfase o som no cinema).
Como eu imaginava, hoho, a aula foi inspiradora. Lemos os três primeiros capítulos do livro The Audible Past, do Jonathan Sterne, e passamos quase quatro horas discutindo a importância dos sons na modernidade e como a escuta é socialmente construída. Eu achei a leitura muito madura (para usar uma expressão que Fernando falou bastante) e "abridora de mentes", hehehe.
Mas mais do que isso, achei a leitura extremamente divertida. E acho que isso faz toda a diferença.
Em meio às reflexões mega sofisticadas, Sterne conta a história de um cidadão com problemas de surdez que desenvolve uma engenhoca para curar o mal e tenta "patentear a si mesmo", hahahahaha!
Ou quando ele analisa uma propaganda de 1925 sobre fones de ouvido que começa com "Você PRECISA de um fone de ouvido", numa tentativa sintomática de persuasão. Ou quando ele conta as versões oficiais de surgimento de algumas tecnologias de reprodução sonora e lembra que provavelmente boa parte da narrativa pode ter sido modificada porque muita gente se empolga ao relatar a sua própria descoberta e costuma cometer lapsos para deixar tudo mais florido. Quem nunca fez isso???
Ou, pra finalizar com chave de outro, quando o inventor do fonoautógrafo, a partir de observações do ouvido humano, inseriu partes de um ouvido humano DE VERDADE no meio da invenção. E para evitar fofocas, medos e preconceitos, disse que eram partes de um ouvido de cachorro :-PPP
Já li muita coisa reflexiva e divertida, como Cultura da Convergência, de Henry Jenkins, e vou confessar que acho admirável um autor conseguir pensar o mundo - no meio de toda a sua fascinante complexidade - de uma forma bem humorada e leve. Lembro até hoje que logo na introdução, Jenkins comenta que quis comprar um celular que apenas fizesse ligações, "sabe, para poder falar", e não conseguiu.
Um dos maiores exemplos disso pra mim vem de Richard Campbell, um grande pensador do jornalismo e autor de 60 Minutes and The News: a Mythology for Middle America. Ele começa a introdução de seu livro falando de um diálogo que teve com sua avó croata (!!). Com uma tradução lindamente feita pela mãe de Afonso de Albuquerque, professor de comunicação e política e jornalismo da pós, me despeço deste texto com os dois parágrafos iniciais e GENIAIS desse autor delicioso:
Certa vez, no início da década de 1980, tentei explicar à minha avó croata - ela também no início de seus oitenta anos - porque eu tinha abandonado um ótimo emprego de professor de inglês numa escola secundária para ingressar num programa de doutorado em rádio, televisão e cinema na Northwestern University. Do seu ponto de vista, lá de Dayton, Ohio, só podia haver duas razões. Primeiro, ela achou que seu neto pudesse estar atrás do emprego de âncora de Walter Cronkite, na CBS, mas quando Dan Rather conseguiu esse emprego, ela teve que rever sua opinião. Em seguida ela passou a achar que seu neto, armado com um doutorado em rádio-TV-cinema, certamente estaria qualificado para consertar seu aparelho de televisão que recentemente tinha ficado complicado pela transmissão a cabo.
Minha avó sempre foi um ponto de referência na minha vida - um bom antídoto para aqueles momentos em que começo a me sentir muito superior e intelectual. Quando vou a Ohio, levo minha avó à igreja e ocasionalmente assisto com ela à televisão (e faço também alguns ajustes no seu aparelho de TV e desse modo ela fica sabendo que minha educação não foi completamente desperdiçada). Seus programas favoritos incluíram, ao correr dos anos, Lawrence Welk, luta livre de estúdio, Dallas e 60 Minutes. Os seus hábitos de assistir televisão, porém, desafiam a caracterização acadêmica, tipicamente elitista, dos espectadores de televisão como “batatas de sofá”. Quando está se sentindo extraordinariamente bem, minha avó conversa com a televisão. Ela anda pela sala. Ela grita com os personagens. Sendo uma Democrata fã de Roosevelt (Franklin Delano Roosevelt), ela discute política com a televisão. Eu já a vi quase maldizendo Ronald Reagan, Mike Wallace ou um vilão do 60 Minutes.
Dá MUITA vontade de ler o resto né? Pois sim, o resto também é tão bom quanto ;-)