terça-feira, 29 de março de 2011

Comunidade X Sociedade em "You've got mail"

Não sei porque exatamente, mas hoje lembrei daquele filme "Mensagem para Você" ("You've got Mail"), de 1998, que, apesar de focar a parte da comédia romântica, traz em paralelo a discussão sobre grandes cadeias de empresas - no caso era uma de livros - "engolindo" as pequenas lojas e comerciantes. No filme, Tom Hanks representava o "lado negro da força", com sua megastore de livros que praticamente levou à falência a pequena e fofa loja familiar de Meg Ryan.



E isso me remete diretamente à discussão sociológica sobre os conceitos de comunidade e sociedade, que desde o século XIX tem sido vistos como dicotômicos. Ferdinand Tönnies, sociólogo alemão que viveu a virada do século XIX para o XX, defendia veementemente que os agrupamentos sociais de tipos comunitários eram marcados pela solidariedade entre seus membros, por relações face-a-face afetivas de amizade e/ou laços sanguíneos, ao passo em que as sociedades seriam agrupamentos marcados pelo anonimato, pelas relações movidas por interesse e dinheiro, pela racionalidade no seu pior sentido.

O filme parece trazer exatamente essa visão: de um lado temos a pequena loja familiar de Meg Ryan, que atende à sua comunidade com afeto e que parece apagar totalmente a ideia de que a loja tem vendedores e consumidores. Lá parece que são todos amigos. Do outro lado tem-se a megastore de Tom Hanks, com suas proporções gigantes, foco claramente no lucro e vendedores uniformizados e treinados para auxiliar os consumidores a comprarem de modo efetivo e nada mais.

Mas o "Mensagem para você" - que, vale lembrar, traz também toda uma discussão super interessante sobre Internet, anonimato e relações de afeto online - trata de enfatizar para qual lado torce: a megastore, claro. E aí dá-lhe de mostrar todas as vantagens da megastore, como por exemplo o fato de ela ter uma quantidade e variedade de livros absurda para vender e espaços hiper confortáveis e relaxantes para a leitura e escolha de livros. Além disso, mostra que a grande loja também pode ser um lugar marcado por relações de afeto entre consumidores e funcionários.

Meu ponto aqui foi só lembrar como ainda estamos profundamente marcados pela dicotomia comunidade X sociedade por Tönnies (independentemente do lado escolhido), que acredito que o filme acima mencionado pode ter retratado.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Leituras podem ser boas e MUITO divertidas!

Quarta passada tivemos a segunda aula da disciplina Som + Imagem que Simone e Fernando Morais, professor de cinema e membro recente do PPGCOM, estão ministrando aos alunos da pós.

Eu já terminei meus créditos no doutorado mas desde que li a ementa, achei arrebatadora a ideia de acompanhar discussões vindas de uma professora do som, ligada à Sociologia, e outro do cinema (embora Fernando estude com ênfase o som no cinema).

Como eu imaginava, hoho, a aula foi inspiradora. Lemos os três primeiros capítulos do livro The Audible Past, do Jonathan Sterne, e passamos quase quatro horas discutindo a importância dos sons na modernidade e como a escuta é socialmente construída. Eu achei a leitura muito madura (para usar uma expressão que Fernando falou bastante) e "abridora de mentes", hehehe.

Mas mais do que isso, achei a leitura extremamente divertida. E acho que isso faz toda a diferença.

Em meio às reflexões mega sofisticadas, Sterne conta a história de um cidadão com problemas de surdez que desenvolve uma engenhoca para curar o mal e tenta "patentear a si mesmo", hahahahaha! 

Ou quando ele analisa uma propaganda de 1925 sobre fones de ouvido que começa com "Você PRECISA de um fone de ouvido", numa tentativa sintomática de persuasão. Ou quando ele conta as versões oficiais de surgimento de algumas tecnologias de reprodução sonora e lembra que provavelmente boa parte da narrativa pode ter sido modificada porque muita gente se empolga ao relatar  a sua própria descoberta e costuma cometer lapsos para deixar tudo mais florido. Quem nunca fez isso???

Ou, pra finalizar com chave de outro, quando o inventor do fonoautógrafo, a partir de observações do ouvido humano, inseriu partes de um ouvido humano DE VERDADE no meio da invenção. E para evitar fofocas, medos e preconceitos, disse que eram partes de um ouvido de cachorro :-PPP

Já li muita coisa reflexiva e divertida, como Cultura da Convergência, de Henry Jenkins, e vou confessar que acho admirável um autor conseguir pensar o mundo - no meio de toda a sua fascinante complexidade - de uma forma bem humorada e leve. Lembro até hoje que logo na introdução, Jenkins comenta que quis comprar um celular que apenas fizesse ligações, "sabe, para poder falar", e não conseguiu.

Um dos maiores exemplos disso pra mim vem de Richard Campbell, um grande pensador do jornalismo e autor de 60 Minutes and The News: a Mythology for Middle America. Ele começa a introdução de seu livro falando de um diálogo que teve com sua avó croata (!!). Com uma tradução lindamente feita pela mãe de Afonso de Albuquerque, professor de comunicação e política e jornalismo da pós, me despeço deste texto com os dois parágrafos iniciais e GENIAIS desse autor delicioso:

Certa vez, no início da década de 1980, tentei explicar à minha avó croata - ela também no início de seus oitenta anos - porque eu tinha abandonado um ótimo emprego de professor de inglês numa escola secundária para ingressar num programa de doutorado em rádio, televisão e cinema na Northwestern University.  Do seu ponto de vista, lá de Dayton, Ohio, só podia haver duas razões.  Primeiro, ela achou que seu neto pudesse estar atrás do emprego de âncora de Walter Cronkite, na CBS, mas quando Dan Rather conseguiu esse emprego, ela teve que rever sua opinião.  Em seguida ela passou a achar que seu neto, armado com um doutorado em rádio-TV-cinema, certamente estaria qualificado para consertar seu aparelho de televisão que recentemente tinha ficado complicado pela transmissão a cabo.

Minha avó sempre foi um ponto de referência na minha vida - um bom antídoto para aqueles momentos em que começo a me sentir muito superior e intelectual.  Quando vou a Ohio, levo minha avó à igreja e ocasionalmente assisto com ela à televisão (e faço também alguns ajustes no seu aparelho de TV e desse modo ela fica sabendo que minha educação não foi completamente desperdiçada).  Seus programas favoritos incluíram, ao correr dos anos, Lawrence Welk, luta livre de estúdio, Dallas e 60 Minutes.  Os seus hábitos de assistir televisão, porém, desafiam a caracterização acadêmica, tipicamente elitista, dos espectadores de televisão como “batatas de sofá”.  Quando está se sentindo extraordinariamente bem, minha avó conversa com a televisão.  Ela anda pela sala.  Ela grita com os personagens.  Sendo uma Democrata fã de Roosevelt (Franklin Delano Roosevelt), ela discute política com a televisão.  Eu já a vi quase maldizendo Ronald Reagan, Mike Wallace ou um vilão do 60 Minutes.

Dá MUITA vontade de ler o resto né? Pois sim, o resto também é tão bom quanto ;-)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Memes


Você sabe o que são “memes”? Memes são idéias que se propagaram na web, de pessoa a pessoa, podem ser imagens, frases, vídeos, site, hashtag etc, normalmente os memes sofrem uma série de mutações conforme vão ganhando alcance, eles fazem parte da cultura da internet.
Para entender melhor existe o site http://knowyourmeme.com/ que é basicamente uma enciclopédia dos principais memes e virais da internet mundial analisando-os desde sua origem às suas ultimas mutações.
O vídeo abaixo explica a origem do “TENSO”, meme brasileiro, muito legal.

terça-feira, 15 de março de 2011

20% dos divórcios nos EUA é culpa do Facebook



O negócio tá bem mais sério do que a gente imagina. Um estudo recente da Academia Americana de Advogados Matrimoniais (AAML), revelou que um em cada cinco pedidos de divórcios citam o Facebook como a causa principal do fim do relacionamento.

Nós brasileiros que já nos apaixonamos perdidamento por uma rede social como essa sabemos que é realmente muito difícil manter uma relação quando o scrap do teu cônjugue tá cheio de mensagens de meninas de biquini que você nunca ouviu falar. Mas o caminho entre sentir ciúmes e pedir divórcio é longo, certo?

“Se eu estou falando com uma pessoa na internet mais vezes do que converso com a minha mulher/marido em casa, não é preciso ser muito inteligente pra concluir que eu tenho mais chances de desenvolver maior afeto por aquela pessoa, rola toda uma fantasia e uma expectativa por trás da tela do computador” explica a psicóloga clínica Steven Kimmons.”Eu tenho mais contato com essa pessoa. Vamos nos aproximando mais e mais. ”

Mas daí a gente se questiona: É natural que pessoas procurem na internet o que elas não têm em casa, ou a maneira como a rede se comporta nos facilita encontrar pessoas com quem temos mais afinidade a ponto de abrir mão de coisas importantes como o casamento?

A vice-presidente da AAML adiciona que hoje em dia os advogados sempre exigem dos clientes que eles mostrem a eles suas páginas no Facebook. “Eu quero que você se lembre que o juiz pode ler essas coisas, por isso nunca escreva algo que você não quer que o juiz leia”.

Se você der uma rápida pesquisa no Google, vai perceber que esses casos de divórcio envolvendo Facebook e outras redes sociais estão cada vez mais bizarros : É como certa vez citaram no Twitter. “Na internet você está constantemente produzindo provas contra você mesmo”.
O post acima pertence ao site Youpix

Mais uma prova de que o virtual é o real. É claro que no ambiente online nós temos mais possibilidades para dissimulações, mas tudo que fazemos lá também faz parte de nós.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Tudo é Remix

Toda discussão sobre esse assunto desagua nas seguintes questões: Está o autor da obra "remix" criando de fato algo novo ou não? Tem o autor o direito de chamar tal obra de sua?
Seria mais simples de pensarmos sobre isso se não fossem as leis do Copy Right, condenando logo de primeira o "corta e cola", sem parar para pensar nas suas particularidades.
Partindo do princípio semoilógico de que todo discurso é um discurso outro e que só podemos estar dizendo o que dizemos porque isso já fora dito antes de alguma forma, é possível afirmar que tudo que fazemos é um remix, de tudo que dissemos, vimos e vivemos.

Um dos filmes de maior sucesso de Quentin Tarantino, Kill Bill, é pura "referência" e isso só prova o poder dessa linguagem. Clique aqui e assista um vídeo.


terça-feira, 1 de março de 2011

Sobre o vício dos jogos sociais

Os MMOSGs (Massive Multiplayer On-line Social Games) ou jogos sociais são aqueles games que foram criados para serem jogados coletivamente, "dentro" de um determinado site de rede social, com sua própria rede de amigos. Exemplos de jogos sociais são o Farmville (foto abaixo), Vampire Wars, City Ville, Café World, Social City (todos desenvolvidos para o Facebook).



No Orkut o que mais pegou, à semelhança do Face, foi o MiniFazenda. Esses jogos tem feito um sucesso enorme, chegando a impressionantes 94 milhões de usuários ativos por mês (quem chegou a essa marca foi o City Ville do Facebook, ultrapassando o antes favorito Farmville), segundo o site AppData, que mostra métricas de jogos sociais e outros aplicativos.



Esses joguinhos - que são muito criticados por seus gráficos toscos e narrativas pouco interessantes - tem uma capacidade absurda de "viciar" os usuários, que passam horas e horas diárias montando suas fazendas, cidades, clubes noturnos etc. Mas por que?

Uma série de fatores torna esses joguinhos viciantes:
1) A sociabilidade - quanto mais amigos jogarem com você, melhor será o seu desempenho no jogo;
2) Os laços afetivos - nesses jogos você acaba se tornando em muitos casos mais próximo de pessoas com quem pouco interagia, passando a ter laços afetivos mais fortes com elas;
3) A publicidade - são várias as mensagens publicitárias nos sites de redes sociais convidando os usuários a participarem dos joguinhos.
4) O sistema de recompensa - esse fator é a base de praticamente qualquer jogo, e não é diferente com os jogos sociais.
5) A visibilidade - atualizações sobre o desempenho do indivíduo nos jogos podem ficar visíveis para a sua rede de contatos.

Claro que depois de um certo tempo os usuários tendem a "encher" o saco de alguns desses joguinhos, mas aí sempre aparece um novo para manter o vício...