
E isso me remete diretamente à discussão sociológica sobre os conceitos de comunidade e sociedade, que desde o século XIX tem sido vistos como dicotômicos. Ferdinand Tönnies, sociólogo alemão que viveu a virada do século XIX para o XX, defendia veementemente que os agrupamentos sociais de tipos comunitários eram marcados pela solidariedade entre seus membros, por relações face-a-face afetivas de amizade e/ou laços sanguíneos, ao passo em que as sociedades seriam agrupamentos marcados pelo anonimato, pelas relações movidas por interesse e dinheiro, pela racionalidade no seu pior sentido.
O filme parece trazer exatamente essa visão: de um lado temos a pequena loja familiar de Meg Ryan, que atende à sua comunidade com afeto e que parece apagar totalmente a ideia de que a loja tem vendedores e consumidores. Lá parece que são todos amigos. Do outro lado tem-se a megastore de Tom Hanks, com suas proporções gigantes, foco claramente no lucro e vendedores uniformizados e treinados para auxiliar os consumidores a comprarem de modo efetivo e nada mais.
Mas o "Mensagem para você" - que, vale lembrar, traz também toda uma discussão super interessante sobre Internet, anonimato e relações de afeto online - trata de enfatizar para qual lado torce: a megastore, claro. E aí dá-lhe de mostrar todas as vantagens da megastore, como por exemplo o fato de ela ter uma quantidade e variedade de livros absurda para vender e espaços hiper confortáveis e relaxantes para a leitura e escolha de livros. Além disso, mostra que a grande loja também pode ser um lugar marcado por relações de afeto entre consumidores e funcionários.
Meu ponto aqui foi só lembrar como ainda estamos profundamente marcados pela dicotomia comunidade X sociedade por Tönnies (independentemente do lado escolhido), que acredito que o filme acima mencionado pode ter retratado.
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