quinta-feira, 29 de julho de 2010

Música e exercício tem tudo, tudo a ver!

Como alguns sabem, há anos sou fascinada não apenas por videoclipe e música, mas por exercício. Desde  a pré-adolescência pratico todo tipo de atividade física, o que já incluiu, por exemplo, balé, dança de salão, vôlei, basquete, natação, handball, hidroginástica, aeróbica (!) e até judô e taekwondo. Atualmente, sou totalmente apaixonada por corrida e ciclismo indoor. E olha que sou daquelas que compra sapatilha e bermuda de ciclismo, que acompanha a evolução cardíaca através do frequencímetro e gasta horrores num tênis de corrida competente.


Sempre tive a quase certeza de que exercício físico tem tudo a ver com música. Além de um puxar o outro - a música frequentemente "chama" a dança - ambos melhoram o humor, relaxam, ajudam a pensar, trazem ótimas sensações durante e após sua execução e fazem muito bem pra saúde (nem lembro quando foi a última vez que fiquei gripada ou qualquer coisa do tipo). Por causa disso, não fiquei surpresa ao ler essa reportagem muito legal no site da revista Runners que relacionada a performance da corrida com a música!


De acordo com pesquisas científicas, a música não apenas ajuda na concentração, mas sobretudo melhora a performance do corredor. Há muito tempo eu já havia comprovado isso: muitas vezes estou hiper esgotada de uma corrida e de repente começa a tocar no meu iPod alguma música que amo de paixão. Na mesma hora o cansaço praticamente desaparece e eu até consigo aumentar meu ritmo, e isso obviamente não pode ser explicado apenas fisiologicamente.


Na matéria, há a "fórmula da canção perfeita" para corrida e, nela, o ritmo e as batidas por minuto são fundamentais. Os pesquisadores descobriram que são necessários exatamente 120 BPM para que a música promova uma resposta física por parte do corredor. "Erva Venenosa", de Rita Lee, tem 128 BPM, por exemplo, e é ideal para o corpo começar a se mexer.


Outros elementos fundamentais são a melodia, a harmonia, o significado da letra (por exemplo, músicas que falam de vitória, velocidade e superação) e, principalmente, a afetividade que o corredor tem com ela. 


Eis minhas músicas prediletas pra manter um ótimo nível na corrida. Vamos correr?



Shivers. A evolução rítmica me faz enlouquecer, principalmente na hora do refrão. Arrepio do início ao fim.



Last of The Wilds. Rock na medida certa.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O FESTLIP 2010 e suas lacunas (ou Lusofonia 75%)

Começa amanhã (quarta, dia 14) e vai até o dia 25 deste mês de julho a 3ª edição do FESTLIP, o Festival de Teatro da Língua Portuguesa. O evento abarca desde espetáculos teatrais até uma "mostra gastronômica" com espécimes culinários dos países participantes - a saber, e em ordem alfabética, que é para não haver problemas: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, todos falantes da última flor do Lácio em suas mais diversas configurações - passando por workshops e um espetáculo musical, o Festlipshow, que rola dia 17, no Teatro Odisséia, às 23h.

Ano passado não deu pra conferir o FESTLIP por causa da FLIP; em 2010, graças à bendita Copa do Mundo, os eventos foram alocados em datas diferentes. Ótima oportunidade para conferir uma programação que engloba linguagens, encenadores e propostas totalmente desconhecidos por estas bandas. A grade completa pode ser conferida aqui. Pelo menos a duas peças eu gostaria imensamente de assistir: "Agosto - contos da emigração", do lendário grupo português A Barraca, e "Chovem amores na rua do matador", que o Grupo (também de Portugal) Trigo Limpo concebeu a partir de texto de Mia Couto e José Eduardo Agualusa, destaque do Festival de Teatro de Oeiras no ano que passou.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas... Para um Festival que se propõe a colocar em diálogo as manifestações culturais dos países falantes de Língua Portuguesa, me parece no mínimo estranho (e, na pior das hipóteses, uma omissão grave), a ausência de algumas bandeiras no line up do Festlipshow. Com Teresa Cristina e a Orquestra Voadora representando o Brasas, o Cheny Wa Gune Quarteto defendendo a camisa de Moçambique, Abel Duëre atacando por Angola e Hélio Ramalho por Cabo Verde, fica a pergunta: cadê Guiné, cadê São Tomé, cadê Portugal nessa história? Não havia um mísero músico capaz de representar cada um destes países e, assim, tornar a proposta do evento mais coerente consigo própria?

É por estas e outras que eu tenho alguns problemas com o conceito de Lusofonia, ou pelo menos com o modo tal e qual ele costuma ser apresentado e desenvolvido. A começar pela etimologia da própria palavra, que produz uma incômoda sensação de que o sentimento lusófono é algo que parte de Portugal - luso, sacaram? - e se espraia inocentemente pelo resto do mundo, o que dá margem a discussões estéreis sobre o berço da língua e sobre o local onde ela supostamente é mais pura, por vezes redundando em questionamentos tostines do tipo "quem tem sotaque, o português, o brasileiro ou o angolano?" - sotaque é coisa que apenas o Outro possui, nunca Eu. Depois, dependendo de quem se apropria do conceito, a Lusofonia, longe de dar conta da pluralidade de matrizes e expressões culturais e simbólicas atravessadas pelo falar da Língua Portuguesa, acaba se tornando um novo tipo de etnocentrismo, pautado não pela valorização da diversidade, mas sim pela exaltação do comum a partir de um ponto de vista determinado. Dito de outra forma, a Lusofonia made in Portugal é diferente da made in Brasil que é diferente da made in Angola e por aí vai. E se já tinha algumas restrições em relação à primeira, a escalação do Festlipshow me deixou com a incômoda sensação de que a Lusofonia made in Brasil também tem um bocado de problemas. Sendo impossível, pelo menos por enquanto, dissolver as identidades nacionais num Todo Lusófono vagamente utópico, o ideal e esperado seria que, pelo menos, todo os países falantes da Língua Portuguesa fossem contemplados de alguma forma.

Curiosamente, a lacuna que eu apontei no parágrafo anterior não se verifica na Mostra teatral, apenas na escalação do show musical, o que me deixou com a impressão de que foi a produção do evento que marcou bobeira. Custava pesquisar mais um pouquinho a fim de descobrir se não havia um Timorense levando um som bacana que pudesse enriquecer ainda mais o line up do show? E já agora falando do meu lugar de pesquisa (porque não há ser humano que consiga conhecer a produção musical de todos os países do mundo, embora seja possível conhecer um pouquinho em profundidade a produção daquele que ocupa nossa cabeça durante quatro anos de doutorado): uma vez que a proposta do FESTLIP é promover a integração e a mistura e etc e tal (vejam que não estou defendendo a presença do Rancho Folclórico de Miranda do Douro, embora isso também me pareça perfeitamente viável), custava sondar um JP Simões, um Terrakota, um Cacique 97, um Batida, ou mesmo um Diabo na Cruz, uns Quais, uma Márcia, enfim, artistas, bandas e coletivos portugueses que andam pensando as tais pontes sonoras que nos poem em contato uns com os outros?

Fica a dica para 2011...

domingo, 4 de julho de 2010

A TV na Terrinha segundo o jornal O Globo

Não deixa de ser louvável que a Revista da TV do Jornal O Globo do dia 27 de junho tenha dado visibilidade à produção televisual portuguesa contemporânea ao abordar o caso da SIC. Pena que a história tenha ficado meio mal contada. Em regra, não há nenhuma informação incorreta na matéria de Tatiana Contreiras, apenas algumas omissões importantes e outros tantos exageros que poderiam ser moderados. Por exemplo, ao sustentar que a SIC, criada em 1992, foi a primeira emissora privada portuguesa após anos de controle estatal, fica parecendo que o Estado português deixou de atuar no ramo televisivo – o que não é verdade, haja vista que as RTPs 1 e 2 continuam a existir.

A omissão mais grave, contudo, é aquela que simplesmente apaga a maior concorrente da SIC, a TVI. Neste aspecto em particular, fica evidente o desejo da matéria em promover a primeira, que sempre foi uma espécie de veículo privilegiado não apenas da teledramaturgia brasileira – e global – em terras lusas, como também de uma certa linguagem/ know how brazuca de se fazer TV (experimente digitar no Youtube a expressão “big show SIC” para ter uma amostra de quão próximos eram os imaginários dos programas de auditório brasileiros e portugueses em meados dos anos 90). A despeito disso, já faz um bom tempo que a SIC perdeu a liderança nos sharings de audiência, sobretudo a partir do início dos anos 00, quando a TVI investiu pesado nos formatos de reality show e, depois, numa produção teledramatúrgica própria que atualmente responde pelas maiores audiências da TV portuguesa (em dias sem futebol, vale registrar).

Parêntese. Eu confesso que não sou muito fã das novelas da TVI, embora curtisse dar uma espiadela ocasional em “Meu amor”, quando não para ouvir a música de abertura do José Cid. Neste quesito, a concorrente “Perfeito coração” da SIC me agradava muito mais, talvez por basear-se numa estrutura dramatúrgica mais próxima daquilo a que estamos acostumados no Brasil. Não duvido que o êxito das novelas da TVI decorra precisamente da busca por uma linguagem própria, mais afeita aos códigos narrativos portugueses do que as congêneres brasileiras. Fecha parêntese.

Da omissão ao exagero: óbvio que é do interesse da Globo (e do Globo) promover o produto nacional, mas de uns tempos pra cá eu comecei a encarar com algum ceticismo este discurso sobre a hegemonia das telenovelas brasileiras em Portugal. Porque não apenas as novelas da TVI lideram os rankings de audiência como também a produção portuguesa da SIC alcança índices mais expressivos do que as novelas brasileiras. Ao chegar em Lisboa no mês de julho do ano passado, surpreendi-me com o horário ingrato no qual “Caminho das índias” era exibida: onze e meia da noite, muito distante do prime time, portanto. Quando “Viver a vida” estreou no horário nobre, apostei com a minha orientadora portuguesa que tão logo “Perfeito coração” fosse lançada, a novela de Manoel Carlos seria exilada para as onze da noite. Ela duvidou, alegando que as temáticas do cotidiano de Manoel Carlos seriam sucesso garantido. Não deu outra: foi a congênere lusa estrear para os dramas de Helena e cia serem ultrapassados na preferência local por três novelas da TVI, pelo telejornal da RTP1... e por “Perfeito coração”.

***

P.S. ainda em clima de Copa: o documentarista português Ivan Dias esteve no Brasil durante as últimas duas semanas cumprindo uma dupla tarefa: coletando entrevistas para um filme sobre o papel do cavaquinho na constituição do imaginário musical luso-brasileiro e captando depoimentos para um doc sobre a histórica partida de futebol entre Portugal e Brasil no Mundial de 1966, quando a seleção de Eusébio, Colina e cia encaçapou o Brasil de Pelé, nos eliminando do torneio ainda na primeira fase. O mote deste último projeto é o novo embate entre os dois times, durante a Copa da África do Sul, utilizando como interlocutora privilegiada a comunidade lusa residente no Brasil que testemunhou o confronto original. Se no jogo do último dia 25 o que reinou foi o já clássico discurso das “nações irmãs” – para o qual certamente contribuiu o insosso zero-a-zero do placar final – em 66 o buraco deve ter sido bem mais embaixo: minha mãe, ela mesma uma imigrante portuguesa, me contou que estava fazendo compras numa papelaria na ocasião do jogo de 66 e as funcionárias se recusaram a atendê-la por ela ser portuguesa. Muito se fala sobre o preconceito sofrido pelo brasileiros que moram em Portugal, falta alguém escrever a história daquilo pelo que passaram os imigrantes portugueses no Brasil dos anos 50 e 60.

Em relação ao documentário sobre o cavaquinho, atesto apenas que Ivan Dias me parece um nome pra lá de confiável na abordagem do tema: é de sua autoria a eficiente série da RTP “Povo que canta”, uma viagem inspirada pelas recolhas etnomusicológicas de Michel Giacometti por diversas regiões portuguesas à procura de evidências da mutabilidade das formas tradicionais em canto e dança. O episódio duplo sobre Trás os Montes é particularmente instigante.