terça-feira, 30 de novembro de 2010

Namoro no rádio


A rádio Nativa FM (103,7) transmite todos os dias, das 20h às 22h, o programa Paquera Nativa. Há umas semanas venho ouvindo quase todas as noites para entender qual o perfil dos ouvintes que esperam arrumar um namorado ou namorada com a ajuda do rádio. Pelo o que percebi, claro que ainda muito empiricamente, são pessoas na faixa etária entre 40 e 60 anos, das classes C e D, moradores do subúrbio do Rio, que enfatizam, num primeiro momento, que gostariam de um companheiro/a (não falam em namorada ou namorado), e que querem fazer amizade com o possível candidato antes de se comprometerem amorosamente. A emissora tenta equilibrar a participação de homens e mulheres.

A novidade deste programa, no entanto, é que o contato do público com o rádio é mediado pela internet. Primeiro os interessados em participar fazem um cadastro na internet e a produção do Paquera Nativa liga para aqueles que se cadastraram. Aí os ouvintes entram ao vivo no ar, descrevem como são fisicamente e ainda narram como desejam que seja a pessoa com a qual querem se encontrar. Aí dizem o número do celular (é engraçado que muitas vezes antes mesmo do locutor terminar o papo com o participante, a gente ouve o celular da pessoa tocar. Um exemplo de que há um retorno). Tradicionalmente, e ainda em muitos programas hoje em dia, os ouvintes ligam diretamente para a emissora a fim de participarem.

Enquanto eu escuto o Paquera Nativa, fico pensando porque existe no rádio um programa deste tipo, já que esse formato de programação fazia e ainda faz muito sucesso na TV . Lembro do Silvio Santos com o “Namoro na TV” e o “Em nome do amor” (com o famoso e tosco bailinho). Até a MTV, há uns poucos anos investiu no “Fica comigo”, e atualmente o Rodrigo Faro transmite o “Vai dar namoro”. E cada vez mais a internet é uma ferramenta utilizada para juntar casais, nos bate-papos e as redes sociais. Uma diferença é que no rádio e na internet os candidatos não levam um fora na frente de milhares de telespectadores, como acontecia com esses programas na TV.

Enfim, uma das questões legais do Paquera Nativa é a nova forma que o rádio está encontrando para lidar com os ouvintes ao utilizar a internet, que no caso deste programa, é a porta de entrada. Antigamente era o telefone. Fiquei refletindo nas mudanças que as novas tecnologias podem ter trazido para a comunicação massiva. Ou seja, pensei que pode haver uma segmentação ainda maior de público no rádio em virtude da mediação pela internet. E, obviamente, uma transformação da programação ao disponibilizar a internet para um cadastro prévio dos ouvintes antes deles participarem ao vivo.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

My Chemical Romance: Uma experiência musical para além da música

Cada vez mais eu tenho acreditado - e visto por aí - que, na luta pela atenção entre as diversas bandas, grupos e artistas solos de música, ganham aqueles que oferecem ao público a oportunidade de participar de uma experiência que vai além da venda do disco - no formato que for.

Uma banda que ganhou minha atenção nas últimas semanas foi o My Chemical Romance (os meus seguidores do Twitter que têm sofrido com isso).

O lançamento do quarto disco - Danger Days: The True Lives of The Fabulous Killjoys - foi rodeado de vídeos misteriosos, contas do Twitter que aterrorizaram os fãs e a apresentação dos Killjoys, os heróis justiceiros - interpretados pelos membros da banda - que estão lutando contra uma empresa de drogas sintéticas, a Better Living Industries.


Os primeiros vídeos a serem lançados foram esses:


Depois, veio a apresentação dos personagens e do primeiro single, "Na Na Na", no vídeo "Art Is The Weapon":


Só depois é que veio o primeiro videoclipe do disco:


No canal da banda no YouTube, também encontramos alguns comerciais da empresa, como o vídeo abaixo:


Recentemente, o segundo videoclipe (para a música SING) foi lançado:


O que eu achei mais interessante nessa história toda é que se trata um bom exemplo de "transmídia" ou "convergência" aplicado à música, coisa meio rara de se ver por aí. Os vídeos e a história dos Killjoys poderia ter parado no lançamento, mas parece que vai continuar por um bom tempo. Aos poucos, alguns mistérios vem sendo mostrados ao público. Os únicos dois videoclipes que saíram desse disco contam a história da luta contra a Better Living Ind. a e algumas outras músicas possuem relação direta com a história. S/C/A/R/E/C/R/O/W, por exemplo, é o nome de alguma empresa ainda desconhecida do público. Além dos videoclipes, há o locutor Dr. Death Defying que tem um programa de rádio onde narra alguns acontecimentos, o telejornal da Better Living Ind. e o site da empresa. E isso sem falar da cidade fictícia Battery City, onde toda a ação acontece.


Esse caso mostra mais uma vez que, em relação a um momento interior, a venda direta de música não parece ser o foco primeiro das bandas e das gravadoras. Mesmo uma banda relativamente grande como o My Chemical Romance, primeiro criou estratégias de fortalecimento de laços com os fãs, para depois fazer o lançamento oficial do disco, sem esquecer que é importante manter os laços ao continuar a história dos Killjoys contra a Better Living Ind.

Para ver mais: site oficial da banda, canal YouTube, blog Cassie - The Venomous (fã que tem "logado" tudo o que acontece com os Killjoys).

Sobre a mediação:


Mediação = colocando em comunicação, aproximando artista e público
No modelo da indústria fonográfica de século XX, a do mainstream, a do massivo, a filtragem era feita por parte da indústria. Era ela quem decidia o que ia ser ouvido, quando ia ser ouvido, aonde e por que pessoas. Não que ela tenha perdido totalmente seu poder, mas num período de 10 anos os lucros caíram pela metade.
No momento atual o que temos é um excesso de informação e músicas disponíveis, ou seja, uma descentralização da mediação, no momento anterior a indústria fonográfica centralizava a mediação e a filtragem musical.
Quanto maior o excesso, maior a necessidade de filtros para a aproximação dos artistas do público. Os mediadores funcionam como filtros.
Comunidades no Orkut, perfil no Facebook são tentativas de filtragem, que intencionam levar o público a ouvir o som da banda no Myspace ou para assistirem a um vídeo e etc. Tenho observado que o poder de mediação dessas redes é relevante, porém bastante reduzido, para as bandas essas redes não tem passado de murais de divulgação. Você manda uma mensagem automática da para 500 amigos, alguns repassam para mais 500 amigos, algumas pessoas seguem o link e no show da umas 100 cabeças e é assim que funciona.
Mas um ator muito importante vem tomando a cena, ele vem daquele modelo antigo da indústria, mas agora numa roupagem diferente, procurando não apenas ser ouvido, mas também ouvir; são as web rádios. Elas são uma ótima forma de divulgação para as bandas e muitas delas estão sempre a procura de novos sons, de boa qualidade, para alimentar a programação. Quando o som vem até você é muito mais fácil, e eu diria até mais prazeroso, e para as bandas que têm suas músicas na programação também é muito gratificante.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Minha nova obsessão

Uma das bandas que eu mais me arrependo de não ter conferido ao vivo durante a minha sejour lisboeta no ano passado foi o Tiguana Bibles. Ao efetuar o download – gratuito, vale reforçar – do EP “Child of the moon” no site da Optimus Discos, fui imediatamente cativado pela mistura de romantismo neo-noir e rockabilly onírico que transborda das cinco faixas do álbum. Uma em especial – a versão lentinha de “Lost words” – se tornou a minha música favorita das últimas três semanas, após ter se convertido, meio sem querer, em peça fundamental no processo de pré-produção do curta-metragem que estou parindo. Nunca fui muito dado a escutar coisas em modo repeat, e sempre achei que o melhor botão de um CD Player (sim, ainda sou do tempo destas traquitanas) era o eject, que me permitia trocar de disco e variar a trilha sonora; esta é a razão pela qual, em toda a minha curta vida apenas duas faixas foram capazes de se tornar obsessões nesse sentido. Sendo “First of the gang to die” do Morrisey a outra faixa, e tendo Boz Boorer, produtor dos Tiguana, já colaborado com o gênio inglês, posso afirmar com alguma certeza que minha obsessão por “Lost words” não é de todo incompreensível, certo?

Victor Torpedo (guitarra), Pedro Serra (baixo) e Carlos Mendes (bateria) possuem ótimos antecedentes: em algum momento pré-TB, fizeram parte das excelentes bandas Bunnyranch, Tédio Boys e Parkinsons, todas nomes fundamentais daquela que ficou consagrada como “cena de Coimbra”, a mesma de onde saíram É mas foi-se, Belle Chase Hotel, Wraygunn, Legendary Tigerman, d3Ö, Sean Riley and the Slowriders e tantas outras ao longo dos últimos dois decênios e meio. E depois, há a voz da londrina Tracy Vandal, mais nova integrante da lista de vozes-femininas-que-eu-gostaria-de-ouvir-cantando-pra-mim-quando-eu-chegasse-no-céu – existindo céu e tendo o Criador bom gosto musical, naturalmente. Ouçam-na no mesmo EP entoando os versos de “Lonesome town” e tentem adormecer em paz depois. Ou atraquem-se de uma vez por todas com o videoclipe de “Lost words”.

(Eu por cá continuo na torcida por um longa-duração do Tiguana Bibles, da mesma forma que espero pelo debut do Governo, a banda capitaneada por valter hugo mãe que igualmente compõe o rol de descobertas-musicais-que-fazem-o-doutorado-valer-a-pena. Um concerto no Circo Voador reunindo os dois não seria totalmente despropositado, não?)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Auto-Ajuda e esoterismo no rádio


Uns amigos meus de São Paulo me enviaram, na semana passada, um link para uma emissora de rádio paulista, a Rádio Mundial (http://radiomundial.com.br/), que é mais um exemplo para discutirmos a questão da localidade do rádio hoje e da presença de grupos muito específicos e segmentados na construção das programações. Os programas são todos baseados nos temas de auto-ajuda e esoterismo, duas áreas que migraram do mercado editorial, onde movimentam milhões, para a comunicação de massa. A emissora atua nas freqüências AM e FM, e por isso, tem um público bem diferenciado. No entanto, segundo dados fornecidos pela rádio, predominam ouvintes de classes AB e, atualmente, contabilizam-se 14 mil ouvintes por minuto.

A escuta da Rádio Mundial é muito divertida e surreal!! Durante a madrugada, há programas voltados desde a meditação até a solução de problemas sentimentais. Pelos nomes a gente pode perceber a mistura de assuntos e de perfis: “Prece da meia noite”, “Vida sentimental”, “Seu astral”, “Ministério do Espírito Santo”, “Mistérios revelados”, “ Harmonia corpo e alma” e “Despertar da alma”.

Mas o melhor é logo de manhãzinha, às 8h, um programa chamado “Biocibernética bucal”, em que os apresentadores são dentistas e pretendem ensinar que cuidar bem dos dentes é uma boa saída para conectar-se de forma positiva com o universo. Á tarde, às 16h, é transmitido o “Stop a destruição do mundo”, apresentado por dois psicanalistas que analisam a ação predatória entre os seres humanos.

A diversidade de assuntos numa mesma emissora me incomodou, mas ao mesmo tempo levou a pensar sobre a apropriação do rádio hoje por diferentes atores sociais, que criam, através de suas sonoridades, uma multiplicidade de paisagens sonoras, localizadas, e com um público cada vez mais pulverizado.

Planeta Terra Festival 2010

E novamente jogo-me para São Paulo para conferir um festival de música. Essa foi a vez do Planeta Terra Festival, que aconteceu no último sábado (20/11/10), virando para o domingo, no Playcenter (essa deve ser a última edição do festival neste local, já que o Playcenter será fechado).

No line up bandas / projetos como Hot Chip, Mika, Phoenix, Empire of the Sun, Passion Pit, Girl Talk, Of Montreal, Mombojó, Pavement, entre outros, e a grande atração da noite: Smashing Pumpkins. Deu pra ver que o foco do evento eram artistas (e também público) bem moderninhos e indie, sem nenhum cunho pejorativo, muito pelo contrário. Pra variar fico irriquieta porque obviamente nunca dá para ver tudo e eu quero estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo. Mas dentre os shows que assisti fica o destaque para:

1 - Smashing Pumpinks. Claro, o favorito da noite. Parece que Billy Corgan dorme no formol. Para mim ele é o mesmo em termos de capacidade vocal e aparência desde a minha adolescência. Ele e a nova banda mostraram muita competência e conseguiram fazer nego ir à loucura, principalmente com as mais velhinhas "Today" e "Bullet With Butterfly Wings".



2 - Mika. O cara realmente tem um algo a mais, tanto no som quanto nas performances. Ele domina o palco e o público com suas excentricidades e carisma. Mesmo ele chamando Cherisse Osei (baterista) de "la favorita" várias vezes, acho que ele é mesmo "el favorito" da banda. No backstage ele atendeu os fãs com toda paciência do mundo, tirando foto, dando autógrafos etc. Músicas da banda como "We Are Golden", "Grace Kelly" e "Relax, take it easy" pra mim já estão entre as top dos últimos anos.



3 - Phoenix. A banda francesa que venceu o último Grammy na categoria "melhor banda alternativa" também se destacou, principalmente com "Lisztomania" e "1901", que foram cantadas em coro por uma boa parte do público. E foi bem legal também quando o vocalista Thomas Mars desceu do palco e foi levado (e trazido de volta) pela galera para uma plataforma que ficava a alguns metros do palco, algo que ele costuma fazer em seus shows, mas que não perde a graça.



Bom, essas foram as minhas impressões sobre o festival. Acabou não dando para ir nos brinquedos nesse dia e curtir o parque em si porque, além das filas gigantes, acho que a combinação álcool + montanha russa não deve ser muito boa... =P

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

De Anna Julia à musica aleatoria!

por Gustavo Alonso

Estive vendo alguns videos na net e me deparei com a seguinte entrevista de Marcelo Camelo para um programa português:



Em determinado momento da entrevista Camelo se empolga muito ao falar de dois projetos parelelos: a banda "Imprevisiveis" e a "Orquestra Youtube".

No primeiro projeto Camelo e seus amigos desconhecidos fazem sons com objetos estranhos ou tiram sons bizarros de instrumentos cotidianos.

No segundo projeto Camelo brinca de musica aleatoria. Ele abre varios videos do youtube ao mesmo tempo e coloca-os para tocar. O acaso faz o resto. Empolgado com o projeto que chamou de Orquestra Youtube, ele parece estar "cansado", ao menos discursivamente, do formato canção:

"estou com muita dificuldade de pensar em melodia agora porque a orquestra youtube acabou com a musica pra mim! A orquestra youtube é como E=Mc²! Minha contribuiçao fundamental, seminal, para a musica mundial é a orquestra youtube"

Veja o que é a Orquestra Youtube de Camelo:


Confesso que me incomoda esta postura hermética do compositor, na qual o experimentalismo acaba muito parecido com abstrações desligadas da pratica comunicativa. Parece ainda uma resposta intima de um compositor que se chocou muito com o sucesso de uma musica comercialmente, Anna Julia, em 1999-2000. E se os Los Hermanos parecem ter ido muito além desta primeira canção, o repudio ao formato-canção por Camelo parece querer pouco dialogar com o massivo ou com o gosto popular. Confesso que não me sinto tocado por este tipo de proposta, apesar de reconhecer certo valor nas obras "do acaso". Mas confesso também achar isso um pouco reciclagem de algumas posturas de décadas anteriores, simplesmente feitas por outras tecnologias.

Fico pensando que o uso atual do Autotune nos videos do Youtube é mais original do que a proposta do Camelo. Aqui e aqui ja foram postados neste blog alguns videos do Autotune, mas estes dias esbarrei com um video nacional feito através do "programa" que achei fantastico. Eh o video "Calma ai", um pagode com a cara da geração 2.0, cujas imagens originais são de um motorista bêbado e falador. Eles me parecem mais "revolucionarios" que a proposta de Camelo, porque dialogam com as novas tecnologias, com a musica tradicional, com o formato canção, sem necessariamente destruir determinado padrão, mas problematizando-o, assim como suas formas de reprodução. E, acima de tudo, os videos do Autotune parecem mais atuais; não apenas revolta reabilitada de outras décadas...

Vale a pena conferir:

o original:


o pagode de Autotune "Calma ai"

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O som da década


Uns dias atrás me peguei naquela clássica conversa sobre a situação atual da música. Foi então que surgiu a inevitável pergunta: Qual é o som dos 2000? Quais as bandas mais representativas dessa década que passou? Claro que a primeira resposta é que não temos mais um som que marcou a década, como nos 70 e 80. Mas disseram isso também dos 90 e hoje ficou claro que existe um som daquela época, inclusive já rolam festas revival dos 90.

Enfim, poderia escolher uma saída tangente e dizer que não foi a década de um estilo musical, mas a década do mp3. Com ele multiplicaram-se os tocadores portáteis, as comunidades de torrent, as redes sociais relacionadas a música, etc. Assim, a música dos 2000 deixaria de significar o som mais influente da década e poderia ser qualquer som. A banda do bairro, um som japonês recomendado no LastFm ou aquele disco psciodélico dos anos 60 que você só ficou disponível agora, em algum blog especializado. Seria então o fim da história da música? A velocidade e abundância teriam colocado a música de todas as épocas e regiões em um mesmo plano, esvaziando suas diferenças?

Um discurso interessante, mas que não é a única resposta para o problema. Assim, a solução para provar que existe sim o som dos 2000 foi a velha fórmula: fazer uma lista. Foi então que apareceu o segundo impasse: a metodologia. Pensei primeiro em buscar nas listas da BilBoard e Rolling Stones os maiores hits e os discos de melhor crítica. Mas logo desisti. Ainda que goste dessas revistas, não acredito que listas atentas apenas à indústria fonográfica sejam as definitivas. E também não vejo o LabCult como mais um espaço para replicar dados da mídia tradicional. 

Resolvi adotar um critério assumidamente subjetivo, ou seja, listar bandas que me vieram a cabeça. O caminho então foi percorrer meu Itunes e ver o que rolava de anos 2000 para dar uma inspirada. Dei de cara com o fato de que não sou o mais empolgado com o novo e passo mais tempo cavando baús que assistindo MTV. Portanto, a maioria dos meus sons mais novos, ou são muito obscuros para representar a década, ou são discos novos de bandas já antigas que, ainda que lançados nos anos 2000, remetem aos anos 90.

Na impossibilidade de elaborar um inventário dos anos 2000 assim, de bate pronto, lanço mão do método colaborativo e convoco meus colegas e leitores (será que existe algum?) a contribuir. 

Seguem abaixo os sons que me vieram a cabeça:


Amy Winehouse -  Essa capturou o pulso da década e arrebatou a todos. Jovens e adultos.

The Strokes -  O bom e novo Rock n Roll

White Stripes -  Idem

Nacao ZUmbi -  O primeiro disco sem Chico Science eh de 2000. Pra mim, a banda mais importante do Brasil.

Black Allien - Só para colocar Niterói no mapa da música atual. Babylon by Gus Vol. 1.

Fat BOy Slim - Arranca gritos de uhu  em qualquer pista desde o famoso DVD ao vivo em Brigton.

Lady Gaga - Nunca escutei, mas alguma coisa me diz que e impossível deixá-la de fora.

Tribalistas - OK, nao precisamos assumir que o Rebolation é música da década só porque massacrou no carnaval. Mas toda lista que não seja séria ( e essa definitivamente não é)  tem que ter um espaço para o Hit Parade.

Los Hermanos - Se colocarmos a banda como da decada do 00, a música Ana Julia fica de fora - o que melhora em muito a discografia dos barbudos.

jay z , arcade fire, arctic monkeys, black eyed peas, outcast, o funk do dia…

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Renovação? Onde?

Na última semana de outubro, o programa matinal Bom dia Brasil da Rede Globo de Televisão levou ao ar uma série de reportagens sobre as novas configurações da música pop pelo mundo. O primeiro episódio, conduzido pelo jornalista Pedro Bassan (correspondente da Globo em Lisboa faz pelo menos dois anos) foi dedicado à música portuguesa. Quando eu soube que a Globo estaria deslocando um jornalista para ficar sediado na capital portuguesa, a primeira coisa que me ocorreu foi questionar se e em que medida essa presença seria traduzida em reportagens que fugissem do óbvio e do senso comum, e nos revelassem aspectos pouco usuais da vida e da cultura em Portugal. Pelo que a tal matéria sobre a nova música portuguesa me permitiu visualizar, começo a acreditar que a Globo só mandou o Bassan pra Lisboa porque enviá-lo pra outro lugar da Europa deve ter ficado muito acima do orçamento. A quantidade de estereótipos que transbordam da reportagem é tão grande que me fez pensar no que diabos o jornalista ficou fazendo em Lisboa durante esse tempo todo, a ponto de, sendo encarregado de produzir uma matéria sobre a renovação da música portuguesa, tenha escolhido falar apenas e unicamente sobre... fado.

Não estou negando que o fado é um formato musical a partir do qual várias dinâmicas de identidade cultural se articulam na Terrinha, e que o mesmo tenha passado por um considerável processo de oxigenação ao longo das duas últimas décadas. É óbvio que não dá pra tecer qualquer reflexão sobre música portuguesa e passar ao largo do fado: restringir-se ao fado, contudo, é perder a dimensão da pluralidade que constitui a música lusa contemporânea. Depois, quando fazem uma matéria sobre música brasileira e falam apenas do Carnaval, a gente fica chateado...

E o pior da supracitada matéria não é ter se limitado ao fado: é tê-lo feito a partir de variados chavões sobre a tristeza, a saudade, a melancolia das ruas de Lisboa e incontáveis evocações daquilo que chamo “imaginário navegante”, o que significa pensar Portugal a partir das narrativas dos descobrimentos, como se isso até hoje pautasse o modo como os portugueses se inserem no mundo. Nesse sentido, o momento mais extremo da coisa toda é quando o repórter fala que “o país nunca se recuperou da morte de Amália Rodrigues”, como se você pisasse em Lisboa e fosse recebido por multidões de carpideiras lamentando o falecimento da fadista. Um pulinho na exposição que o CCB organizou ano passado a propósito dos dez anos de morte de Amália teria bastado para que o repórter percebesse a diferença entre “lamentação” e “celebração”, mas isto deixa pra lá. Logo em seguida, vem a declaração de que o neo-fadista António Zambujo seria uma espécie de “maior artista de Portugal na atualidade”, o que, sem desmerecer o belíssimo trabalho do cantor alentejano, me pareceu um bocado exagerado. Em termos de projeção midiática no âmbito do fado, eu acho que a Carminho ou mesmo a Ana Moura são muito mais visíveis nesse sentido.

Para ninguém dizer que estou pegando pesado, o trecho da reportagem no qual se tenta discorrer sobre as conexões entre fado e salazarismo até que é bastante consistente, embora haja alguns equívocos quando ela sustenta a batida tese de que o regime do Estado Novo promovia o fado como música nacional (Salazar sempre foi mais ruralista do que fadista, por assim dizer, e o fado, enquanto música urbana de origem marginal, nunca foi consenso entre os altos escalões culturais da ditadura, mas aí já seria exigir demais pruma matéria de oito minutos).

Isto posto, sugiro iniciarmos uma mobilização on line. Que tal #vainaZDB,bassan ?

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Evangélicos nas FMs


Minha televisão está quebrada desde a semana passada e, por isso, estou ouvindo rádio todas as noites. Isto foi uma ótima experiência, pois voltei à posição de ouvinte, já que há anos me posiciono frente ao rádio apenas como estudiosa. E esqueci um pouco, ao longo do tempo, como é importante dar uma averiguada no nosso objeto de estudo sem pretensão e com distanciamento.

Confesso que fiquei chocada com a mudança de perfil das FMs em poucos anos. As emissoras evangélicas invadiram a frequência FM. Contei cinco emissoras religiosas posicionadas, seguidas no dial, sendo que quatro são evangélicas. São elas: FM 104.5 (da Igreja Universal), FM 105.1 (Rede Aleluia – Evangélica), 106.7 (Rádio Catedral – católica), 107.9 (Gospel FM), 88.7 (Rede Novo Tempo – Evangélica). Não me dei conta ao longo do tempo a respeito da presença religiosa na comunicação de massa, pois vemos este fenômeno também na televisão.

Dentre essas cinco emissoras, a que mais de chamou a atenção foi a 104.5, da Igreja Universal. A programação não conta apenas com músicas evangélicas. Em meia hora de escuta, ouvi Celine Dion cantar “All by myself”, Lulu Santos interpretando “Tempos modernos”, intercaladas com algumas músicas gospel. Confesso que achei bizarro!!! Pode ser preconceito, mas não pude momentaneamente me livrar do espanto. Nunca ouvi uma programação tão diversificada! Pensei até na falta de identidade da emissora, mas por que deve haver identidade fixa?

Fiquei curiosa para saber qual o perfil dos ouvintes da 104.5 e se a própria emissora sabe qualificá-los além do simples fato de compartilharem as mesmas crenças religiosas.

Em meio à programação musical tão diversificada, o locutor chamava os ouvintes para um culto denominado “Noite do Desmanche”, que é realizado toda semana no templo maior da Igreja Universal, na Avenida Suburbana, em Del Castilho. Pensei: que diabos é isso?? Fiquei curiosa, mas o locutor não explicou o que era, mas é óbvio que os ouvintes da rádio estão familiarizados com isso.

Intercalando a programação musical, há vários depoimentos de fiéis que relatam suas vidas antes e depois de entrarem para a igreja. Num deles, uma pessoa disse que "se utilizava de álcool" antes de encontrar Jesus. Em todos os depoimentos que ouvi as pessoas falavam que antes viviam no mundo das drogas, do álcool, da falta de dinheiro e de emprego. Uma delas relatou que, após entrar para a Igreja, virou uma grande empresária e agora tem seis carros. Outra disse que passou por uma situação muito difícil antes de encontrar Jesus: andava de Audi e passou a andar de Fiat.

A escuta das emissoras evangélicas me fez pensar sobre a necessidade de analisarmos o rádio hoje respeitando a sua diversidade e segmentação, cada vez maiores, para fugir das generalizações que marcaram a sua construção histórica.

Além disso, acho interessante pensarmos nas mudanças que estão ocorrendo nos meios de massa nos últimos anos e tentarmos olhar a fundo a respeito de novos usos que agentes sociais específicos estão fazendo dos meios massivos. Além disso, refletirmos sobre quem são os múltiplos ouvintes que se inserem nesses múltiplos ambientes sonoros que surgem do rádio.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

My life in the bush of bytes

David Byrne e Brian Eno em estúdio, 1977


No último fim de semana, enquanto procurava por My life in the bush of ghosts com o máximo de kbps possível, acabei por descobrir um site totalmente dedicado ao disco. O que me provocou grande interesse e entusiasmo é o fato do site não ter sido criado por um grande fã desta obra prima de Brian Eno e David Byrne, mas na verdade, de ser uma proposta dos dois artistas de estender “o espírito” do álbum de 1981. O site entrou no ar em 2006, ano em que a versão remasterizada do álbum foi lançada, o que atesta o atraso da notícia aqui no Labcult por 4 anos. De qualquer maneira, acredito que ainda seja interessante publicar o post.

A página inicial informa que estão disponibilizadas para download todas as 24 pistas separadas das faixas Secrete Life e Help Me Somebody, e incentiva a produção de remixes seguindo a linha das licenças do tipo Creative Commons. Abaixo, segue o texto/convite do site:

download/remix/share

This is the first time complete and total access to original tracks with remix and sampling possibilities have been officially offered on line. In keeping with the spirit of the original album, Brian and David are offering for download all the multitracks on two of the songs. Through signing up to the user license, and in line with Creative Commons licenses, you are free to edit, remix, sample and mutilate these tracks however you like. Add them to your own song or create a new one. Visitors are welcome to post their mixes or songs that incorporate these audio files on the site for others to hear and rate. To launch the Remix site click here!

Para baixar as pistas, basta somente fazer um rápido registro aceitando os termos e condições propostos. Em seguida, o usuário deve indicar onde se localiza no mundo e bem... foi aí que a coisa começou a ficar estranha. Para começar, a América Latina não está no Listen Map (apesar da grande simpatia de David Byrne por “nós”, latinos) que indica os participantes que subiram seus remixes. Acabei me localizando na ilha africana de Madagascar por simpatia, ou sei lá que outro motivo de afeto.

Listen Map do site


Outra dificuldade, bastante frustrante, foi a de não conseguir escutar as faixas que adicionei a playlist da home. Mas para quem conseguir escutar os remixes, também é possível dar notas aos trabalhos ali disponíveis. Os remixes se apresentam encima de um gráfico de conceitos dos autores da obra original, fornecendo informações como nome e o criador do remix, data em que foi feito e o número de bpm. O site conta até agora 1.524 registros e 272 remixes submetidos. A produção de vídeos com trilha sonora baseada em My life in a bush of ghosts também é incentivada.

Apesar dos problemas que pude experimentar, achei a iniciativa muito interessante e surpreendente, não pelo fato de envolverem as figuras de Brian Eno e David Byrne, que tanto admiro ética e esteticamente, mas por depender da moderação direta das “demonizadas” gravadoras majors Emi/Virgen e Universal. Como isso foi possível em 2006? Gostaria e muito de saber como se deu o “por trás das câmeras” da negociação naquela época entre os artistas e as gravadoras. Mas enfim, superficialmente, encaro isso como uma atitude de generosidade e marketing “saudável” por ambas as partes, mais ou menos no caminho da proposta de In Rainbows do Radiohead em 2008. By the way, Thom Yorke e David Byrne também são amigos...

A iniciativa também me lembra da primeira da empreitada do tipo aqui no Brasil, por parte de Tom Zé em 2000, que lançou junto ao álbum Jogos de Armar (Faça Você Mesmo) um segundo CD intitulado “Cartilha de Parceiros (CD Auxiliar)" com pistas das gravações de estúdio separadas. O texto esclarecia que não se tratava de um CD duplo, mas de um CD “anexo” e igualmente incentivava que o material fosse reutilizado em novas criações. A idéia se amarra ao próprio conceito do disco, composto por releituras e recriações de Tom Zé encima de sua própria obra e de clássicos como Pisa na Fulô e Asa Branca. Não é por nada que nosso Tom Zé é caro amigo do David Byrne, tendo inclusive sua carreira "ressuscitada" por ela.

De maneira geral, todo o assunto nos remonta às velhas discussões sobre autoria e as tão freqüentes práticas de do it yourself na era digital. Criar não é suficiente, e seguramente nunca foi, deve-se compartilhar e almejar a extensão do que criamos através dos outros. Se isso vai dar dinheiro ou não, ou para quem pode dar, parece ser o maior problema para alguns.