Minha televisão está quebrada desde a semana passada e, por isso, estou ouvindo rádio todas as noites. Isto foi uma ótima experiência, pois voltei à posição de ouvinte, já que há anos me posiciono frente ao rádio apenas como estudiosa. E esqueci um pouco, ao longo do tempo, como é importante dar uma averiguada no nosso objeto de estudo sem pretensão e com distanciamento.
Confesso que fiquei chocada com a mudança de perfil das FMs em poucos anos. As emissoras evangélicas invadiram a frequência FM. Contei cinco emissoras religiosas posicionadas, seguidas no dial, sendo que quatro são evangélicas. São elas: FM 104.5 (da Igreja Universal), FM 105.1 (Rede Aleluia – Evangélica), 106.7 (Rádio Catedral – católica), 107.9 (Gospel FM), 88.7 (Rede Novo Tempo – Evangélica). Não me dei conta ao longo do tempo a respeito da presença religiosa na comunicação de massa, pois vemos este fenômeno também na televisão.
Dentre essas cinco emissoras, a que mais de chamou a atenção foi a 104.5, da Igreja Universal. A programação não conta apenas com músicas evangélicas. Em meia hora de escuta, ouvi Celine Dion cantar “All by myself”, Lulu Santos interpretando “Tempos modernos”, intercaladas com algumas músicas gospel. Confesso que achei bizarro!!! Pode ser preconceito, mas não pude momentaneamente me livrar do espanto. Nunca ouvi uma programação tão diversificada! Pensei até na falta de identidade da emissora, mas por que deve haver identidade fixa?
Fiquei curiosa para saber qual o perfil dos ouvintes da 104.5 e se a própria emissora sabe qualificá-los além do simples fato de compartilharem as mesmas crenças religiosas.
Em meio à programação musical tão diversificada, o locutor chamava os ouvintes para um culto denominado “Noite do Desmanche”, que é realizado toda semana no templo maior da Igreja Universal, na Avenida Suburbana, em Del Castilho. Pensei: que diabos é isso?? Fiquei curiosa, mas o locutor não explicou o que era, mas é óbvio que os ouvintes da rádio estão familiarizados com isso.
Intercalando a programação musical, há vários depoimentos de fiéis que relatam suas vidas antes e depois de entrarem para a igreja. Num deles, uma pessoa disse que "se utilizava de álcool" antes de encontrar Jesus. Em todos os depoimentos que ouvi as pessoas falavam que antes viviam no mundo das drogas, do álcool, da falta de dinheiro e de emprego. Uma delas relatou que, após entrar para a Igreja, virou uma grande empresária e agora tem seis carros. Outra disse que passou por uma situação muito difícil antes de encontrar Jesus: andava de Audi e passou a andar de Fiat.
A escuta das emissoras evangélicas me fez pensar sobre a necessidade de analisarmos o rádio hoje respeitando a sua diversidade e segmentação, cada vez maiores, para fugir das generalizações que marcaram a sua construção histórica.
Além disso, acho interessante pensarmos nas mudanças que estão ocorrendo nos meios de massa nos últimos anos e tentarmos olhar a fundo a respeito de novos usos que agentes sociais específicos estão fazendo dos meios massivos. Além disso, refletirmos sobre quem são os múltiplos ouvintes que se inserem nesses múltiplos ambientes sonoros que surgem do rádio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário