sexta-feira, 28 de outubro de 2011

No Rio, a parada é o funk!



Domingo, 30 de outubro, é dia de festa para o funk no Rio de Janeiro. Comemorando dois anos da aprovação da lei Funk é Cultura, as batidas do pancadão carioca farão o Largo da Carioca tremer no evento Rio Parada Funk. Para acompanhar a apresentação de 10 equipes de som, 50 dj’s e 40 mc’s, o Labcult recomenda o uso de protetor auricular para os ouvidos mais sensíveis.


A iniciativa do evento tem por principais articuladores a APAFunk – Associação dos Profissionais e Amigos do Funk – e a produção do Eu Amo Baile Funk, festa que agita o Circo Voador e que já contou com presenças de figuras históricas do melody como Stevie B e Trinere, autores dos clássicos Spring Love e They’re playing our song.


Ultrapassando os limites territoriais dos bailes de comunidades e clubes, localizados principalmente nas zonas norte e oeste da capital carioca, o funk faz parte da paisagem sonora da cidade, seja através dos paredões de caixas das equipes nos bailes, ou dos auto-falantes de telefones celulares de muitos jovens que circulam por aqui.


O super baile começa às 10h da manhã e segue até as 20h. Entre os destaques teremos as figuras de Mr. Catra, Mc Galo, Mc Sabrina – acompanhada de um dos percussores do Funk, o dj Grand Master Raphael; Junior e Leonardo, Os Avassaladores (do hit Sou foda, cantado por Erasmo Carlos numa brincadeira) , os dj’s Rafael Pitbull e Léo Santos. Sempre bebendo na fonte do Miami Bass - vertente do hip hop que serviu de base para o surgimento do funk em sua versão carioca -, o coletivo Apavoramento Sound System leva quatro Cars-Systems, aumentando os graves ainda mais e dando um toque hype no evento. Equipes de grande destaque na história do funk dão a estrutura necessária à dimensão do evento; entre elas temos a Cash Box, com seu som acima do normal; Furacão 2000, A Coisona, Espião e CurtSom Rio.


Não podemos deixar de destacar que conseguir promover tal empreitada não foi uma tarefa fácil. Primeiro, o evento foi adiado de meados de setembro para o fim de outubro. Em seguida, o Iphan, que antes havia autorizado a ocupação da Avenida Rio Branco e o entorno da Cinelândia, alegou que o som poderia afetar a estrutura de construções antigas e atrapalhar a programação do Teatro Municipal e do Museu Nacional de Belas Artes. Mas quem disse que fazer baile funk é fácil? Frequentemente enfretando problemas com o poder público, a galera do funk superou as restrições e finalmente encontrou no Largo da Carioca o local para ter sua Parada.


De acordo com o jornal O Dia, a programação será a seguinte:


PALCO 1
EQUIPE SOUL GRAND PRIX
13h DJ Caçador
15h30 MC Dourado
16h30 Sinistro e Mião

PALCO 2
EQUIPE CASH BOX
14h DJ Léo Santos
16h30 MC Bob Run
17h Danda e Taffarel
17h30 MC Galo

PALCO 3
EQUIPE DUDA'S SOUND
15h30 MC Davi
17h MC Crazy
17h30 Garrincha e Julinho

PALCO 4
EQUIPE PIPO'S
12h DJ Fabinho Las Vegas
16h MC Xacal
16h30 MC Tuzinho
16h45 Marcelo e Padilha
17h MC Pixote
17h30 MC Sabrina

PALCO 5
ESPIÃO VIDA LOKA
14h DJ Buchecha
14h30 Mano Kacau
15h Lu di Paula
16h Andrezinho Shock
17h Mano Teko
17h30 MC Martinho

PALCO 6
EQUIPE PITBULL
12h DJ Rafael Pitbull
14h30 DJ Napô
15h30 MC Fornalha
17h Só Talento
17h15 As Pretas
17h30 Coyote e Raposão

PALCO 7
EQUIPE CURTSOM RIO
12h DJ Ulisses
14h30 MC Indira
15h MC Mulato
15h30 MC Dollores
16h Junior e Leonardo
17h Gorila e Preto

PALCO 8
EQUIPE A COISONA
13h DJ Caverna
14h30 DJ Marcinho
15h As Malcriadas
15h30 Os Avassaladores
16h30 MC Juliane
17h MC Créu

PALCO 9
EQUIPE BIG MIX
13h DJ Queiroz
13h30 DJ Bráulio
15h30 MC Romário
16h50 MC Lany
17h MC Tchully
17h15 MC Romeu

PALCO 10
EQUIPE
FURACÃO 2000
12h DJs Mancha e Douglas
13h MC Pivete
14h MC Lança e Nego
14h30 MC Maysa
15h Mulher Filé
15h30 Kadu e Gatinhas
16h30 MC Bruninha
17h30 Bó do Catarina

PALCO PRINCIPAL
DESTAQUES
18h20 Mr. Catra
18h50 MC Marcinho
19h15 Márcio G
19h30 Os Ousados
20h Gorila e Preto

EXTRA
OFICINAS E PALESTRAS
Serão realizadas antes dos shows, a partir das 10h

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Mais auto tune e Gregory Brothers

E continuando a série de músicas feitas a base de apropriações de matérias jornalísticas veiculadas na TV + personagens marcantes + histórias dramáticas que viram cômicas + auto tune + uma boa dose de criatividade seguem abaixo dois novos "hits" atribuídos à banda Gregory Brothers (a segunda certamente é deles): "Backing up" e "Reality Hits You Hard Bro" (primeiro a matéria original e depois a música). Os caras estouraram quando fizeram a música "Bed Intruder", que foi comentada e discutida aqui no blog ano passado.









Ambas estão no youtube, já têm centenas de versões, paródias e outros tipos de reapropriações e já podem ser compradas no iTunes. O Gregory Brothers realmente parece ter se consolidado como a grande referência desse tipo de produção musical, trazendo à tona questões sobre autoria, (i)materialidade e distribuição musical.

sábado, 8 de outubro de 2011

Longas portugueses no Festival do Rio 2011

Como já virou tradição aqui neste espaço, é chegada a hora de arranjar um tempinho na agenda para conferir a programação de longas portugueses no Festival do Rio - misto de ritual anual e compensação conformada por me considerar incapaz de dar conta do restante da mostra. A boa notícia - para alguém de agenda apertada como eu, sobretudo - é que em 2011 o cardápio se resume a meros quatro filmes, então com um bocadinho de esforço talvez dê para assistir a tudo. Por outro lado, a escassa quantidade de filmes - mesmo se levando em conta as reduzidas dimensões do mercado luso - parece indicar que a tal da crise europeia talvez esteja afetando o setor cinematográfico do país (houve edições passadas da Mostra em que o cardápio made in Portugal batia a casa das dezenas).

Até o momento em que escrevo estas linhas, "Viagem a Portugal" é o único liberado para venda (com sessões hoje, segunda e quarta, respectivamente na Gávea, no antigo Espaço Unibanco de Botafogo e na Barra). O longa é a primeira ficção dirigida pelo luso-brasileiro de ampla vivência no âmbito do documentário Sergio Treffaut, o mesmo realizador do poema sobre a imigração "Lisboetas". Ao que a sinopse parece indicar, o filme parece uma variação ficcional sobre o mesmo tema de sua obra mais conhecida, rodado em preto e branco e estrelado por Maria de Medeiros. Promissor.

Quem só tiver a chance de ver um filme deve optar por "Sangue do meu sangue", última realização do já veterano João Canijo, raro caso de cineasta português contemporâneo em que é possível apostar sem receios. Seus filmes costumam ser contundentes na medida, e a obsessão do diretor com atualizações de tramas da mitologia clássica no contexto português - rural ou urbano - atual quase sempre gera resultados instigantes (veja-se "Filha da mãe", "Noite escura" ou "Mal nascida"). A ambientação da história num bairro periférico de Lisboa deve estabelecer algumas interfaces com o longa de Treffaut. Sessões segunda (17), terça (18) e quarta (19), respectivamente no Estação Botafogo, na Barra e na Gávea.

"Quinze pontos na alma" é o longa de estreia do roteirista Vicente Alves do Ó. Sua recepção pela crítica lusa não foi das mais entusiasmadas (nem entusiasmantes), então não sei dizer se o filme pode ser uma grande surpresa ou uma tremenda furada. Em vingando a segunda possibilidade, como conforto sempre é possível contar com belos planos da cidade de Lisboa e um bom desempenho de Rita Loureiro.

O cardápio se encerra com "Por aqui tudo bem", co-produção luso-angolana dirigida por Pocas Pascoal. O recente desejo de exumação do passado colonial português pela via da Sétima Arte vem rendendo resultados bastante desiguais - ora sublimes como "Terra sonâmbula", ora medonhos como "O último voo do flamingo", ambos baseados em romances de Mia Couto. É o tipo de experiência, contudo, que por vezes vale mais pela temática do que pela realização propriamente dita. E de mais a mais, qual foi a última vez em que você teve a chance de assistir a um filme angolano em tela grande?

O serviço completo dos filmes (sinopse, horários e códigos de compra) segue logo abaixo. E que venha 2012 - com tese defendida mas ainda às voltas com Portugal. As sessões assinaladas em amarelo são aquelas nas quais vocês talvez me encontrem na fila.

POR AQUI TUDO BEM

(Por Aqui Tudo bem)

de Pocas Pascoal. Com Ciomara Morais, Cheila Lima,

Willion Brandão, Vera Cruz, Catarina Avelar. Portugal /

Angola, 2011. 94min.

No fim do verão de 1980, Maria e Alda, duas irmãs

de 16 e 17 anos, chegam a Lisboa fugindo da

guerra civil em Angola. Entregues à própria sorte,

elas precisarão aprender a sobreviver sem dinheiro

numa cidade estrangeira. Muitas vezes no limite da

delinquência, as duas devem crescer e se tornar

mulheres. Quando os problemas se tornam quase

insuperáveis, uma notícia chega para abatê-las

ainda mais. Esse baque, porém, é o que lhes dará

força para decidir de vez seus destinos: Alda vai

para a França e Maria volta para Angola, à procura

de suas raízes.

Expectativa 2011 - (LEP) - 10 anos

SEX (14/10) 12:00 Est Sesc Rio 3 [ER351]

SEX (14/10) 17:45 Est Sesc Rio 3 [ER354]

DOM (16/10) 16:00 Est Vivo Gávea 1 [GV147]

QUINZE PONTOS NA ALMA

(Quinze Pontos na Alma)

de Vicente Alves do Ó. Com Rita Loureiro, João Reis,

Marcelo Urgeghe, Dalila Carmo, Carmen Santos. Portugal,

2011. 92min.

Em uma noite, em Lisboa, Simone sai do trabalho

atrasada para uma festa. Ela tem vinte minutos

para chegar ao seu destino, mas quando cruza um

viaduto, percebe a presença de Guilherme, um homem

que está prestes a pular. Ela sai do carro para

tentar ajudá-lo. Os dois se aproximam e se beijam.

Mas assim que ela abre os olhos novamente, ele

já não está mais lá. Agora, ela só pensa em descobrir

quem foi o homem que a beijou. O mistério,

no entanto, se transforma numa obsessão que fará

Simone deixar para trás sua casa, seu marido e sua

vida perfeita em busca de um sonho.

Expectativa 2011 - (LEP) - 12 anos

QUI (13/10) 13:45 Est Sesc Rio 3 [ER345]

QUI (13/10) 20:15 Est Sesc Rio 3 [ER348]

SEX (14/10) 17:20 Est Sesc BarraPoint 1 [BP138]

DOM (16/10) 15:30 Est Vivo Gávea 4 [GV447]

DOM (16/10) 22:00 Est Vivo Gávea 4 [GV450]

SANGUE DO MEU SANGUE

(Sangue do meu Sangue)

de João Canijo. Com Rita Blanco, Anabela Moreira,

Cleia Almeida, Rafael Morais, Marcello Urgeghe . Portugal,

2011. 139min.

Na periferia de Lisboa, Márcia trabalha como cozinheira

e vive um cotidiano simples com sua irmã e

seus dois filhos. A filha, Cláudia, estuda enfermagem

e trabalha como caixa em um supermercado,

enquanto o filho, Joca, já esteve preso e vive no

tráfico. Apesar dos problemas com a lei, Joca ainda

é protegido por Ivete, irmã de Márcia, uma cabeleireira

que arriscaria a própria vida para salvar a do

sobrinho. Mas as preocupações de Márcia mudam

completamente quando Cláudia confessa seu amor

por um professor mais velho e casado, fazendo a

mãe relembrar fantasmas de seu próprio passado.

Panorama do Cinema Mundial - (LEP) - 16 anos

SEG (17/10) 14:30 Est Sesc Botafogo 3 [BT363]

SEG (17/10) 19:15 Est Sesc Botafogo 3 [BT365]

TER (18/10) 17:40 Est Sesc BarraPoint 2 [BP258]

QUA (19/10) 15:00 Est Vivo Gávea 4 [GV462]

QUA (19/10) 22:00 Est Vivo Gávea 4 [GV465]

VIAGEM A PORTUGAL

(Viagem a Portugal)

de Sérgio Tréfaut. Com Maria de Medeiros, Isabel Ruth,

Makena Diop, Rebeca Close, João Pedro Bénard. Portugal,

2011. 75min.

Maria é uma médica ucraniana em viagem para

Portugal. Apesar de ter um visto de turismo, ela é

a única de seu vôo a ser detida ao chegar ao aeroporto

de Faro. Interrogada pela polícia de imigração,

sua situação se complica quando os policiais descobrem

que o homem que espera por ela do lado de fora é um senegalês. Os agentes tem de seguir regras

rígidas de controle de entrada de estrangeiros,

tendo que investigar se o caso se trata de imigração

ilegal, tráfico humano ou uma simples viagem a turismo.

Baseado numa história real.

Expectativa 2011 - (LEP) - 10 anos

SAB (8/10) 13:50 Est Vivo Gávea 1 [GV106]

SAB (8/10) 18:10 Est Vivo Gávea 1 [GV108]

SEG (10/10) 13:45 Est Sesc Rio 3 [ER324]

SEG (10/10) 20:15 Est Sesc Rio 3 [ER327]

QUA (12/10) 17:20 Est Sesc BarraPoint 1 [BP128]

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Sertanejo In Rio

por Gustavo Alonso

Há tempos venho tentado escrever um post sobre a penetração da música sertaneja no Rio de Janeiro. Este é um tema que particularmente me interessa muito, e que volta e meia venho abordando em meus textos, inclusive alguns aqui já publicados. Tomei coragem agora por que hoje fui ao show da dupla Victor & Leo no estacionamento da feira de São Cristóvão e novamente espantei-me de ver um show muito "menor" do que o que vejo com frequencia no "youtube"...



Paguei 20 reais pelo ingresso-meia, o que achei muito razoável. Comprei pela internet supondo que, por esse preço, setores populares também se apoderariam dos ingressos e eu ficaria sem nenhum se deixasse para última hora. Mas então algo espantoso aconteceu. Pra começar, o show não alcançou metade da lotação. Fiquei com a impressão de que o show estava somente "meio-cheio", sobretudo porque a área VIP era bastante grande e a galera da "gentalha", onde eu me encontrava, chegava mais ou menos até a mesa de som. Ou seja, havia todo um grande espaço vazio pra trás, que suportaria ainda pelo menos mais 2/3 do público presente. Para além dos números "objetivos", fiquei com a sensação clara de que o chamado sertanejo universitário ainda não colou no Rio de Janeiro.

Em outra oportunidade comentei aqui no blog sobre a baixa lotação do show de Victor & Leo em Niterói-RJ em 28 de novembro de 2010. Ou seja, de fato Victor & Leo, embora tenham seu público, ainda têm dificuldade de serem de fato populares entre o público fluminense. Na época, os preços do show da dupla no clube Rio Cricket de Niterói estavam salgados, e provavelmente afugentaram os fãs mais populares. Mas os preços desta vez não serviriam como desculpa.

Desta vez a popularidade de Victor & Leo no Rio foi colocada de fato à prova - e saiu perdendo. O show da dupla na Feira dos Nordestinos aconteceu exatamente no último dia do Rock In Rio, o que motivou Victor, o compositor da dupla, a dizer ao final do show: "A gente estava muito curioso em saber como ia ser um show no mesmo dia do Rock In Rio. Mas parece que se há um Rock In Rio lá, há um Rock In Rio aqui. A gente gosta de rock, samba, bossa...". Victor parecia manifestar uma oposição bastante suave a programação do festival, que não incluiu qualquer sertanejo na programação, apesar do pessoal do axé (Cláudia Leite, Ivete Sangalo) e do samba (Diogo Nogueira) e da MPB terem encontrado abrigo na programação do Rock In Rio.

Aliás, enquanto muitos ainda se indignam com participação sobretudo de Claudia Leite no RIR, ainda não vi ninguém reclamando de Stevie Wonder ter tocado Bossa Nova e cantado samba em seu show. "Você abusou" e "Garota de Ipanema" foram cantados pelo ídolo, cujo capital simbólico parece ter sido suficiente para que quase todos os participantes do RIR e o público que viu em casa achasse "normal" haver samba e Bossa num festival de rock, mas que o axé deveria ser inadimissível. Me pergunto por que... Talvez porque a Bossa já esteja entronizada, enquanto o axé ainda luta por legitimação, sobretudo entre os meios mais intelectualizados.

E aí voltamos ao sertanejo universitário. Porque NENHUM artista sertanejo universitário foi chamado para o RIR? Nem ao menos Luan Santana foi sequer cogitado! Nem Victor & Leo, ou João Bosco & Vinícius ou Cesar Menotti & Fabiano... Era possivel haver um "dia sertanejo" no RIR, se a vontade de ganhar dinheiro dos produtores fosse maior que a aparente repulsa contra alguns gêneros estéticos. Digo repulsa e não preconceito por que o silêncio foi a estratégia usada, e não o simples ataque aos sertanejos. De qaulquer forma o silêncio é problemático, ainda mais se nos dermos conta de que a música sertaneja é atualmente a mais popular do Brasil. E se já há axé no RIR, porque não sertanejo universitário? Aliás, o sertanejo é atualmente mais popular que o axé. O sertanejo universitário é, hoje, o que o axé foi entre 95 e 2005. O sertanejo é atualmente a música mais popular do Brasil, goste-se ou não.

Parece que a sociedade carioca se esmera muito em preservar-se das supostas invasões estéticas... Nesse sentido, o ódio generalizado à presença do axé (que fez Claudia Leite comparar os metaleiros a Hitler) e a simples inexistência de espaço para o sertanejo demonstra que o Rio de Janeiro vem tentando resistir a gêneros cujos centros culturais estão em outras regiões do país.

Apesar deste fato estar mudando gradualmente parece que ainda há uma grande resistência a incorporar os temas do sertão e a alegria baiana, ou pelo menos em afirmá-los. Não deixa de ser curioso que, para alguns mais radicais, a música "verdadeiramente" roqueira do exterior é muito mais desejável do que as canções "estrangeiras" de outros estados do Brasil. O rock, quando incorporado nesse sentido, parece apontar pura e simplesmente uma demarcação de territórios, enquadradora de "verdades musicais", conservadora de determinadas raízes, negadora de outras versões que não aquelas tradicionalmente consagradas e legitimadas como "boa" música...

Estes questionamentos sobre as dificuldades cariocas de se incorporar a música sertaneja acelerararam-se em mim depois que presenciei o último "Viradão Carioca" em maio deste ano. Dois sertanejos foram convidados pela prefeitura do Rio de Janeiro em maio passado. Na sexta, 20 de maio, veio Jorge & Mateus, cujo grande sucesso é a canção "Amo noite e dia". Os goianos se apresentaram no palco popular da quinta da Boa Vista. Neste dia espantou-me muito o fato que o público não chegava a 5 mil pessoas. Aquilo me chocou muito, pois como o lugar é imenso, deu uma impressão ainda pior. Considerando que em qualquer outro lugar do interior deste "Brasil profundo" a dupla conseguiria publico mais significativo, é de se constatar que Jorge & Mateus tb não conseguiram fazer valer seu cartaz de "sertanejos universitários" em terras cariocas, assim como Victor & Leo. Depois desse dia fiquei com a impressão de que os artistas sertanejos ainda são irrisoriamente populares no Rio de Janeiro, e que a capital carioca é de fato o último bastião contrário ao gênero sertanejo, e que a resistência era de fato forte...

No mesmo "Viradão Carioca", no domingo, foi a vez de Luan Santana realizar seu show na mesma gigantesca Quinta da Boa Vista. Fui ao show esperando ver um público apenas um pouco maior do que aquele do show de Jorge & Mateus. Mas aí espantei-me novamente! A enorme Quinta da Boa Vista estava simplesmente tomada por uma multidão desde a saída do metrô! Não havia espaço vazio. O público, percebia-se claramente, era bastante popular, sobretudo da Zona Norte do Rio de Janeiro. Pude presenciar o fanatismo de pais e filhos, a empolgação das massas pelo cantor sul-matogrossense. Se não tive idade para presenciar o início da carreira de Roberto Carlos, aquela multidão ansiosa por ver seu ídolo lembrou as leituras que já fiz sobre o início da Jovem Guarda. Segundo foi noticiado no final daqule dia, a Guarda Municipal estipulou em 80 mil pessoas presentes! Era como se o Maracanã praticamente lotado tivesse cruzado o viaduto e ido para a Quinta da Boa Vista para ver Luan. É provável que D. Pedro II, ultimo monarca morador da Quinta, sentisse inveja desta popularidade. Confesso que achei o número um pouco alto, mas de fato não se pode ignorar que a Quinta estava lotadérrima.

Mas então veio-me um questionamento estético que penso ser de grande relevância: até que ponto o público carioca vê Luan Santana como um artista associado ao movimento sertanejo universitário? Digo isto porque parece haver uma escuta distinta do público carioca em relação a Luan. Enquanto em todos os outros lugares do Brasil um público mais ou menos afeito a Luan Santana também lotaria a platéia de Victor & Leo ou Jorge & Mateus, no Rio isso não acontece. Parece que Luan é ao mesmo tempo um símbolo de duas questões estéticas candentes hoje: 1) ele é uma mediador essencial para a possivel entrada sertanejo universitário no Rio de Janeiro (não a toa gravou seu último DVD na capital carioca) e; 2) a escuta de sua obra autonomiza-se nos ouvidos cariocas a ponto de Luan tornar-se praticamente dissociado do movimento estético que o gerou.

Neste sentido, volto a questão do Rock In Rio. Porque Luan Santana não poderia estar no RIR? Para negar-lhe espaço, usa-se o argumento de que ele "é" sertanejo". Só que, enquanto o axé conseguiu entrar no templo do Rock, o sertanejo obteve simplesmente o silencio. Talvez por que o publico do festival seja sobretudo formado de brancos de classe média do Rio de Janeiro e de outros estados, cujo espírito em busca de distinção busca com frequência dizer mais 'não' do que 'sim'.

De qualquer forma fica a questão: se jazz, rock, metal, soul, MPB, samba e axé tocam no Rock In Rio, por que não o sertanejo? Poder-se-ia dizer: oras, então por que não o pagode, o funk, o forró, o tecnobrega... De fato, é compressível o questionamento... Mas nenhum destes gêneros populares tem, HOJE, a popularidade do sertanejo universitário. E alguns deles tem dificuldade de romper a barreira regional.

Ao mesmo tempo, vale a pena disputar a legitimação via RIR? Volto então a frase de Victor, que disse no show gostar de "rock, samba, Bossa...", ou seja, de não ter preconceitos... Claro que há um tom de oposição ao radicalismo dos fãs roqueiros do RIR, e que é difícil que Victor não tenha nenhum "preconceito". Seja como for, ainda assim é possível ver diferenças gritantes entre o rock e a música sertaneja. Menos pelas suas supostas diferenças essenciais e mais pelas distintas posturas dos artistas em relação ao "novo".

Hoje em dia é até dificil definir a música sertaneja pelo que ela é... cada vez mais as vertentes estão se fundindo, o sertanejo, caipira, MPB, forró, pagode, brega cada vez parecem se misturar com velocidade estonteante. Já escrevi sobre isso num post. Para quem duvida do que estou falando, recomendo a escuta da música "O troco", cantada pela dupla Maria Cecília & Rodolfo. A letra é tipica de uma nova escrita na música sertaneja, em que o papel de corno é rejeitado e a alegria descompromissada e a vingança esnobe contra o ex-amado é praticada. Musicalmente, a canção parece um axé baiano. Cantado por uma dupla sertaneja universitária, com ajuda dos pagodeiros do Exaltasamba.



Seja como for, a defesa do hibridismo é recorrente entre os sertanejos. Penso que esta prática é interessante por exacerbar que os dados do sertanejo ainda estão sendo jogados. Não há definição ainda sobre qual o caminho que será entronizado como tradição num futuro próximo. As linearidades estão em disputa. O rock, por sua vez, crescentemente busca demarcar uma linearidade "louvável" e seus fãs se regozijam em expulsar os indignos desta herança... É compreensível esta disputa, e até saudável em determinada medida. Mas para mim torna-se claro cada vez mais quem está jogando em nome de um passado ideal que nunca se torna presente, e quem busca saídas para "linha evolutiva" da música brasileira, para usar um termo do tropicalismo. A música sertaneja parece mais interessada em remapear o Brasil e o rock cada vez mais vira peça de museu, salvo exceções raras e louváveis.

Escrevo estas últimas linhas vendo o último show do RIR, Guns´n´Roses com muita chuva e hits de vinte anos atrás, o que dá um gostinho de certeza as palavras que acabei de proferir. No mais, não desgosto de todo dos museus...