Quando falamos sobre a reconfiguração dos modelos de negócio da indústria fonográfica, é comum considerarmos elementos como: novas maneiras de produzir e criar música e as várias maneiras que a música circula hoje.
Por isso, já faz algum tempo que queria comentar aqui no blog do LabCult um caso muito interessante. Trata-se da "Bed Intruder Song", feita pelos Gregory Brothers. Se você não sabe do que estou falando, vamos começar do início.
Tudo começou com uma notícia e um vídeo bizarro.
A reportagem falava sobre uma mulher que acordou com um homem estranho na sua cama. Ele invadiu a sua casa e tentou estuprá-la. De tão bizarra, a história poderia parar por aí.
Mas trazendo a lei de Lavoisier para o ambiente digital - onde nada se perde, nada se cria, tudo se transforma/ recria/ reapropria/ faz mash-up - os Gregory Brothers resolveram fazer uma música a partir do vídeo original. Não, eles não se juntaram num estúdio e gastaram exaustivas horas criando a letra e a harmonia, sobre o quase estupro. Usando o Autotune, eles simplesmente "musificaram" o vídeo original.
O Autotune, que começou a ser usado no início dos anos 90 para corrigir a voz dos cantores, também pode ser usado para distorcer a voz humana (ou você acha que a Cher, realmente, tem voz de robô?). Os efeitos usados com Autotune têm sido muito usados recentemente em cantores como o Kanye West e Ke$ha.
Enfim, voltando ao assunto, essa é a música feita pelos Gregory Brothers + Antoine Dodson (o irmão da vítima, que tem um site oficial - antoine-dodson.com - pós-fama-repentina-via-youtube).
Resultado: a música está bombando! O que era mais uma brincadeira da banda - que passou a se apresentar como banda, de fato, depois desse sucesso, inclusive com participação do Weezer em um dos vídeos - entrou na lista de mais baixadas do iTunes, em duas listas da Billboard e virou música "de verdade", dando mais destaque para as outras produções da banda, que podem ser vistas no YouTube (destaque para a Mommy & Daddy Song, outra "clássica" dos Gregory Brothers).
E ganhou status de música pop! Vários covers e remixes. Um cover bem legal é esse aqui embaixo.
Para terminar, gostaria de fazer duas observações sobre a Bed Intruder Song.
A primeira delas vai um pouco na direção do argumento (na minha opinião) equivocado de que "DJ não é músico". Assim como os DJs (não querendo generalizar, mas como essa não é a discussão aqui, vou deixar assim mesmo - perdoem-me, DJs!), os Gregory Brothers podem ser olhados sob a lupa preconceituosa de que eles não são músicos, justamente por se apropriarem de um material já existente, uma espécie de found footage musical, para fazer a sua música. Ora, mais uma vez nos deparamos com a teoria da geração espontânea musical; sabemos que a música nunca foi criada a partir do nada. Aqui, a diferença é que a fonte inspiradora é mais explícita e há o uso de meios digitais para "musificar" algo que, a princípio não era músico.
A outra é sobre a questão da "cultura do amador", tão criticada por alguns autores. Sem querer parecer determinista demais, vemos como a internet faz surgir certas práticas que colocam em xeque alguns papéis e funções que foram tão demarcados pela indústria fonográfica desde os anos 50. No caso da "Bed Intruder Song", há o músico que não é bem músico, que brinca de computador; o compositor que nem sabia que estava compondo a música e os consumidores/ ouvintes que, estando em rede, espalham a música-que-não-é-bem-música transformando-a em música-de-fato; e sem falar nos canais legitimadores como o iTunes, a Billboard e os diversos jornalísticos que falaram sobre o caso.