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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ivete Sangalo no Madison Square Garden - parte 2

Desde que escrevi aqui no blog aquele post sobre o show da Ivete Sangalo no Madison Square Garden, tenho me interessado pelas estratégias utilizadas por músicos brasileiros em busca de projeção internacional. Como bem me lembrou Simone, a bem sucedida carreira de Carmen Miranda entre as décadas de 1930 e 1950 é um marco para essa discussão. A atriz e cantora luso-brasileira participou de inúmeros produções cinematográficas nos Estados Unidos, gravou grandes sucessos musicais em português e inglês e foi uma das artistas mais bem remuneradas de Hollywood em seu tempo. Depois dela, vários artistas brasileiros como Tom Jobim, Chico Buarque e outros grandes nomes da MPB obtiveram êxito em suas carreiras internacionais, mas nada comparado a trajetória da “pequena notável”, como ficou conhecida Carmen, um ícone cultural de grande visibilidade em todo o mundo.

Voltando para o século XXI, as estratégias utilizadas por Ivete Sangalo também chamaram a atenção do crítico musical do “The New York Times”. Jon Pareles chamou Ivete de “a maior cantora pop do Brasil”, destacou seu “fôlego” e domínio sobre os 15 mil fãs que assistiram o show. Mas segundo ele, “não será fácil” para a baiana “expandir seu território e se juntar a artistas como Beyoncé, Madonna e Shakira como uma pop star reconhecida globalmente”. O jornalista aponta como obstáculos a barreira lingüística do português, mas também o ritmo de sua música: “uma batida que poucos fora do Brasil conseguiriam acompanhar”.

Respondendo a curiosidade do Gustavo, o repertório do show foi preenchido basicamente de grandes sucessos da cantora, em português mesmo. Mas a apresentação contou com três canções em inglês: os hits “Human Nature” (Michael Jackson), Easy (Lionel Richie) e a inédita “Where It Begins” que contou com a participação de Nelly Furtado.

Ainda de acordo com o jornalista americano, Ivete enfrenta um dilema. "Ela tentou uma estratégia de cruzamento internacional: colocar sintetizadores e uma batida 'club' como denominadores comuns em um pot-pourri de hits. Mas desistir completamente da propulsão musical brasileira neutralizaria a música dela”.

Achei interessantíssima essa observação, pois nos permite problematizar a perspectiva romântica que sugere a música como sendo uma arte universal, capaz de ser interpretada ou mesmo consumida da mesma forma por qualquer pessoa, independentemente das diferentes bagagens culturais. É muito comum ver artistas usando esses argumentos. No entanto, as adaptações rítmicas feitas por Ivete revelam que mais do que uma questão da língua em que se canta, existe uma série de elementos musicais que parecem necessitar de “tradução”, ou seja, que deve ser mediada para um novo público. O que é a música que Ivete faz? ( deve se perguntar o gringo) É para cantar, dançar? Dançar como?

Não sou especialista no tema, mas me parece que quando a Bossa Nova repercutiu lá fora, houve uma influência sonora e aproximação com o Jazz, e isso facilitou a aceitação desse estilo de música brasileira em outros países. No caso atual, o Axé Music, parece haver, especialmente no caso de Ivete Sangalo, uma aproximação com a música pop dançante, e a cantora tem intensificado essa relação ao produzir um axé cada vez menos temperado, mais globalizado, digamos.

Daniela Mercury é outra artista baiana que vem buscando novos horizontes musicais, mas de forma mais radical. Muitas das críticas (negativas e positivas) feitas à Daniela são nesse sentido. Para os simpatizantes é uma artista que sabe ousar, que não ficou presa a um modelo bem sucedido, para outros ela optou por uma mistura sonora que confunde o público, não sendo mais identificado com o carnaval e nem com nenhum outro gênero. Hoje o que Daniela produz é muitas vezes interpretado como world music, uma categoria de difícil definição. O seu último álbum Canibália é simbólico nesse sentido. O repertório traz canções de axé, MPB, samba e eletrônico.

Já Ivete Sangalo é mais cautelosa, faz um show de 5 milhões fora do seu país ao som de seus grandes sucessos, e sabe que se a carreira internacional não decolar, todo esse evento ainda repercutirá positivamente aqui no Brasil, onde os fãs aguardam ansiosamente para assistir o show em DVD.




quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A Conquista da América? Algumas questões sobre o show de Ivete Sangalo em NY

Sábado, dia 4 de setembro será mais um dia crucial na carreira de Ivete Sangalo. A cantora brasileira mais bem sucedida do momento, com cerca de 9 milhões de discos vendidos e que cobra um cachê em torno de 500 mil reais por apresentação, irá subir no palco da Madison Square Garden, famosa casa de espetáculos localizada em Nova York. Desse show também sairá o seu terceiro DVD ao vivo que será lançado pela Universal Music. Os registros dos shows de uma das principais representantes da “axé music” tem sido acompanhados de uma grande mobilização midiática, com produção caprichada, dando ares de grande acontecimento: O primeiro foi gravado no extinto estádio Fonte Nova em Salvador através do selo MTV ao vivo e sedimentou de vez sua carreira solo ao vender mais de 2,6 milhões de CDs; o segundo, já pela Multishow, levou cerca de 45 mil pessoas ao Maracanã e ainda hoje é o DVD mais vendido na América latina. Dessa vez o evento será fora de casa e, portanto, se revela mais uma estratégia para tentar deslanchar carreiras de artistas brasileiros no cenário musical internacional. Depois dos fiascos de Alexandre Pires e da dupla Sandy e Júnior, ficou claro que essa não é uma tarefa das mais fáceis. Se outros artistas baianos como Daniela Mercury, Carlinhos Brown e a própria Ivete são relativamente populares em países europeus como Espanha, França e Portugal, nos Estados Unidos e seu mercado fonográfico concorrido e quase auto-suficiente, a missão fica mais complicada.

Para esse show, Ivete se afasta um pouco mais do gênero que a consagrou. Embora os hits carnavalescos ainda façam parte de seu repertório, estas serão intercaladas por canções de ritmos mais universais. A cantora já adiantou que incluirá nesse disco músicas cantadas em inglês e espanhol (buscando, nesse sentido, o público americano e de origem hispânica). Além disso, mesmo em suas produções anteriores, o axé music já aparecia cada vez mais diluído em canções que flertavam com outros estilos musicais como funk, soul e reggae. Trata-se de uma estratégia orientada para a expansão de sua carreira para além dos trios elétricos.

No que diz respeito a indústria fonográfica e sua crise com os suportes de gravação, o show reafirma a importância das apresentações ao vivo. Uma parceria entre a cantora e a empresa de viagens aéreas Tam promoveu uma bem sucedida venda de pacotes de viagem para assistir o show em Nova York. Não é preciso calcular muito para perceber que ver Ivete Sangalo na cidade americana será muito mais dispendioso do que aguardar sua turnê brasileira, no entanto, entra ai a “economia da experiência” que legitima o investimento feito por cerca de 5 mil fãs: “Assistir Ivete Sangalo no Madison Square Garden é uma experiência única”. Por outro lado, esse evento também relativiza essa crise da indústria fonográfica ao demonstrar a importância da participação das gravadoras em grandes ações promocionais. Como Ivete é hoje a principal artista no cast da Universal, sendo sua recordista em vendas de CDs e DVDs, a gravadora não poupou investimentos para o projeto que traz convidados de fama internacional, cenografia elaborada pelo mesmo artista que trabalhou com Madonna e Black Eyed Peas e uma forte campanha publicitária. Nesse sentido o show realmente é único, uma superprodução que só acontece uma vez para que seja feita a gravação do DVD. Menos interessada em lucrar com a micro-turnê americana, Ivete e sua produtora (a Caco de Telha, pertencente ao irmão da cantora) está voltada para a divulgação de seu trabalho, que depois tende a reverter dividendos para a gravadora e turbinar sua agenda de shows, evidentemente mais simples, pelo país afora.

Por fim, gostaria de lembrar mais uma vez das estratégias de endereçamento dos conteúdos musicais. Em matéria do “New York Daily News" a cantora foi denominada como a “Beyonce do Brasil”. Apesar de aparentemente negar tal comparação, Ivete já buscava essa aproximação desde que ajudou a promover a turnê da artista pop americana esse ano aqui no Brasil. Foi ela quem abriu o show de Beyonce em Salvador e São Paulo. E em comerciais de TV a similaridade física e de performance foi amplamente explorada. Ivete chegou a adotar corpetes que lembram o figurino utilizado por Beyonce em seus shows. A estratégia de usar artistas mais conhecidos como referência ainda é uma forma bem sucedida de posicionar artistas desconhecidos em um determinado mercado musical.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Rock in Rio 4 - Quatro motivos para prestarmos atenção

O pessoal do LabCULT sabe que eu adoro listas. É, listas de melhores, piores, promessas, fiascos e tudo que é possível organizar de forma hierárquica no emaranhado que é a nossa cultura popular massiva. Meu interesse, além de me divertir, está em comprovar na prática os argumentos do pesquisador Simon Frith, para quem o gosto musical é sim passível de discussão, e todos nós somos verdadeiros críticos culturais ávidos pela oportunidade de revelar e defender nossas opiniões.

Pois bem, todo mundo também já deve estar informado que o Rock in Rio vai acontecer novamente na cidade-sede do evento nos meses de setembro e outubro de 2011. Logo, eu e mais um monte de gente interessada em música já fizemos, mesmo que de forma descompromissada, listas com as atrações que esperamos ver nessa edição do festival. Calma! Não é esse o objetivo do post (isso pode entrar nos comentários), mas sim observar como o festival já tem provocado algumas discussões sobre música entre os internautas e refletido em seu planejamento algumas transformações do circuito musical.

Primeiramente cabe apontar como as oposições entre pop e rock, mainstream e underground, artistas nacionais e internacionais, e a tensão entre gerações são máximas que confirmam suas relevâncias no cenário musical, guiando as práticas de consumo e as estratégias de valoração. Embora os nomes das atrações ainda estejam longe de uma definição, a fala de Roberto Medina, idealizador do evento, que confirmou: “Meu sonho é trazer Lady Gaga e Shakira” já provocou polêmica. Paula Toller deu início a maré de críticas ao contestar o “não-reconhecimento às carreiras brazucas”. No entanto, alguns brasileiros participaram da coletiva de lançamento: Pitty, Ivete Sangalo, Toni Garrido, Sandra de Sá e Seu Jorge deram um tom “democrático” ao festival. Nenhum problema se o evento não trouxesse o termo “Rock” no título. Em enquete realizada pelo Jornal O Globo a participação de artistas pertencentes a outros gêneros que não o velho rock in roll foi rejeitada: “Rock é rock, não é axé, não é sertanejo, não é samba”, “Chega de axé e boy bands!!! Ivete Sangalo de jeito nenhum”. Mas é interessante observar (se não me engano o próprio Medina já comentou isso), que apesar do nome “Rock in Rio”, o festival sempre foi marcado pela mistura sonora: Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Daniela Mercury, Giberto Gil, Fernanda Abreu, Sandy e Júnior e Carlinhos Brown (ok, essa não foi uma boa experiência) já participaram do evento. Para evitar atritos o empresário vai repetir a estratégia de 2001, quando dividiu o festival em dias temáticos. A partir de Frith, Jeder Janotti propõe três campos fundamentais para a análise da música: as regras mercadológicas ligadas as práticas de consumo e endereçamentos dos produtos, as regras semióticas ligadas, por exemplo, a noção de autenticidade e regras técnicas ou formais (instrumentos, rítmo, etc) que são utilizadas em cada estilo musical. Entendo que esses três aspectos serão levados em consideração na hora da escalação dos artistas e sua organização nos chamados “dias temáticos”. Nesse sentido, Ivete e Shakira já não soam tão deslocadas.

Também chamou minha atenção a repercussão on-line: Se em 2001 a internet ainda engatinhava por aqui, atualmente temos uma maior penetração da rede com direito a banda larga, celulares com acesso móvel e novidades ciberculturais como o Facebook e Twitter. Medina anunciou que encomendou uma pesquisa do Ibobe para sondar os interesses do público brasileiro, mas também lançou perfis em todas as redes sociais existentes. Alguém tem dúvidas de que a repercussão nas redes sociais será essencial para definir o time de atrações? Já estou até imaginando o Twitter bombando a cada atração anunciada. Voltando a enquete do Globo, o site Music News apontou que as indicações de artistas se mostraram tão diversificadas que chegam a gerar um impasse. Inevitavelmente lembrei da teoria da “cauda longa” do Anderson e seu argumento de um mundo de abundância sobrepondo-se a um mundo de escassez. Afinal, um festival desse porte não se sustenta (eu acho) em cultura de nichos.

Outro aspecto que merece destaque está relacionado ao valor dos ingressos. Se em 2001 os tickets custaram R$ 35,00, para 2011 foi anunciado um valor entre R$ 90,00 e R$ 180,00, o que já tem assustado muita gente, inclusive eu. Acredito que a atualização dos valores está fortemente relacionada a revalorização da performance ao vivo no atual cenário musical, como tem sido apontados em várias mesas de discussão sobre o assunto. Só para esclarecer, enquanto o formato CD perde cada vez mais importância como fonte de renda dos artistas, os shows continuam atraindo um grande público.

Por fim, gostaria de destacar a questão da música eletrônica. Na última edição do Rock in Rio o gênero musical contou com uma tenda alternativa para seus admiradores. Em 2011 a organização do evento quer ir além. Fala-se de um dia inteiramente dedicado a discotecagem. Aí fiquei pensando aqui comigo: Quais os “top DJs” que conseguiriam arrastar 120 mil pessoas (público diário do festival) para a arena do rock? Vale fazer uma listinha não é?

segunda-feira, 22 de março de 2010

"Fronteira nebulosa entre o bom e o mau gosto"

Segue o link (aqui) para uma matéria interessante de Pedro Alexandre Sanches na Revista da Cultura.

A matéria faz a inesgotável discussão sobre o que é o "bom" e o "mau" gosto quando o assunto é música. Aborda questões como: quem tem legitimidade ou não para definir o que entra em cada uma dessas categorias, como se estabelecem e se modificam as fronteiras entre o "bom" e o "mau" gosto, a relação entre preconceito de gêneros musicais e a divisão de classe social e a relação entre artistas populares e a indústria cultural.

Faz também uma afirmação sobre o papel dos intermediários com a disseminação das novas tecnologias que podemos abrir para discussão aqui no blog:

"Os intermediadores da cultura acumularam poderio para orientar a legitimação (ou não) de artistas e estilos musicais. Mas é fato que esse poderio vem ruindo de forma espetacular desde o advento da internet. Intermediadores, como intelectuais, formadores de opinião, críticos e jornalistas, veem sua força encolher frente a cada novidade sobre pirataria, download, blog, Twitter etc."

Os intermediários perderam mesmo força ou utilizam novos meios de intermediação? Quem são os novos intermediários e qual a relação que estabelecem com os "antigos" intemediários?

O link é dica de @paulamartini

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

"Tira o PÓ do chão"

Só para completar o post do Heitor. Afinal, nada como ver e ouvir para crer no Axé-católico.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

SERTANEJO UNIVERSITÁRIO



Depois do forró, no final dos anos noventa e início deste novo século, agora é a vez do sertanejo receber o rótulo de universitário.
De acordo com uma matéria do Portal Globo, neste novo subgênero do sertanejo, "abusa-se dos violões e guitarras e até mistura percussão de axé. As letras e composições costumam ser 'fáceis', e a roupagem não é nada parecida com duplas como Zezé di Camargo e Luciano muito menos com Chitãozinho e Xororó. E o público também é outro. Os jovens que curtem o sertanejo universitário não são necessariamente adeptos de chapéus e fivelas de cinto". É o sertanejo da "night", da "balada".
A emergência de um novo movimento de produção e consumo musical como este aponta não somente para as transformações sociais que os gêneros musicais constantemente sofrem, como também para o fato de que estas transformações ocorrem dentro de características da cartografia musical do local de onde surgem (não por acaso que as boates citadas na matéria do Globo.com sejam todas de São Paulo, um dos lugares mais privilegiados para a emergência da música sertaneja moderna no final dos anos oitenta e noventa).

Segue o link para a matéria que fala sobre a emergência do tal sertanejo universitário.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Levemente doce, levemente salgado

Em tempo de tribos a Coca-cola, que não é boba nem nada, vêm fazendo sucesso com um projeto de marketing misto de programa de TV e gravação de CD/DVD difícil de nomear. Trata-se do "Estúdio Coca-cola Zero" que consiste em misturar bandas de gêneros musicais diferentes em um mesmo show. No site dá prá assistir as quatro mais recentes apresentações casadas entre o MPB da Vanessa da Matta e o rock Charlie Brown Jr; o reggae do Natiruts e o funk do DJ Marlboro; o sertanejo da dupla Chitãozinho e Xororó e o emo (emo é gênero musical?) do Fresno e mais recentemente o rock do Paralamas com o calipso do Calypso. Paralelo ao show, rolam espécies de reality-shows em que fãs trocam baladas e experimentam fazer parte de uma outra tribo.

Além da curiosidade que é ver Herbert Vianna tocar ao lado de Chimbinha e Joelma, o bacana é perceber como a noção de gênero musical é central nesse esquema. Se a princípio poderíamos pensar sob uma perspectiva pós-moderna e apontar tal colaboração como um evidente traço de perda das demarcações por gênero em reflexo a identidade contemporânea, mais fluída, sem perfis estabilizados que permite a qualquer um ouvir todos os tipos musicais sem choques culturais, o projeto acaba por ratificar a importância da categorização por gênero na administração da música massiva. Uma vez que o foco está na mistura proposital de ritmos bastante díspares e esta diferença entre os artistas é medida acima de tudo a partir do gênero musical ao qual pertence, o que assistimos é mais do que uma dobradinha entre bandas, é um provocação entre estilos musicais no qual se espera que os elementos tradicionais de cada estilo compareçam em palco. Nessa lógica, quanto mais distantes os gêneros, melhores são os resultados. Ouvindo Calypso com uma pegada rock e o Paralamas com direito a reboladas percebemos que os gêneros ficam mais evidentes quando são expostos a alterações.

domingo, 8 de junho de 2008

Coletivo musical



O celular tem cada vez mais se apresentado como plataforma bem sucedida de mídias sonoras. Do ringtone, passando pelo MP3 player e o rádio fm, a música, devidamente personalizada, invade os espaços públicos pegando carona com o telefone móvel. Michael Bull em "According the Sound" já nos chamava atenção para como o walkman foi capaz de criar uma espécie de "bolha" protetora para o usuário, que a despeito do ambiente ao redor conseguiu conservar uma paisagem sonora particular, enfatizando o atrito entre o ambiente público e o gosto privado. Desde então, vários aparelhos de reprodução sonora foram desenvolvidos explorando essa tendência até chegarmos aos atuais MP3 players e I-PODs.
A possibilidade de estar em um ambiente público, muitas vezes conturbado como os grandes centros urbanos e sua poluição sonora típica da modernidade e ainda assim conseguir se isolar a partir de um repertório musical, parece mesmo muito atrativa e eficiente. O número de pessoas que transitam pelas ruas com fones de ouvido evidencia essa necessidade.
Mas eis que a tecnologia, e ainda mais sua apropriação, nos surpreende sempre. Se os fones de ouvido permitem ouvir a música de forma privada, um alto-falante interno é capaz de reproduzir a música em alto e bom som para as pessoas ao redor. Sendo assim, não se assuste ao entrar em um ônibus (que vem se mostrando lugar privilegiado para o estudo de hábitos de consumo musical) e ouvir lá do fundo um funk rolando a todo vapor. Parece-me curiosa a necessidade dessas pessoas de além de ouvir música, compartilhá-la com os outros passageiros (que nem sempre são conhecidos). Simone deu uma pista em sala de aula ao comentar que o funk (sim, todas as vezes que ouço alguém ouvindo música via alto-falante do celular é funk) não se escuta com som baixo. E eu complemento com certa intuição de que para alguns gêneros a audição individual não funciona tão bem. É a partir de sua escuta compartilhada em grupo que o gênero mostra-se atrativo. O apelo rítmico e dançante do funk que sugere seu acompanhamento com coreografias e o bom humor de suas letras ambíguas e escrachadas parece mesmo sugerir um ambiente mais aberto à participação dos outros e menos a um consumo introspectivo como da música erudita e até mesmo de alguns rocks. Outra possibilidade é que ao demonstrar as músicas que estão ouvindo, esses consumidores estão de certa forma demarcando sua identidade. Mais do que consumir funk, talvez seja necessário que as outras pessoas saibam que elas ouvem funk e como ouvem. Enfim, é um ensaio. Aceito idéias. Ah! Essa imagem acima é uma base musical MD da Nokia. Acessório que permite ouvir o som dos celulares em alto-falantes.

domingo, 25 de maio de 2008

A Tribo das sete cores


Domingo, 25 de Maio de 2008. Dia de Parada Gay em São Paulo. Infelizmente não vou estar presente esse ano, mas acho que a data merece um post aqui no blog, afinal esse é um evento embalado ao som de pura música eletrônica. E é justamente sobre o som que a comunidade gay houve que eu quero falar; o house tribal.
O rítmo marcado por sons latinos e vocais de cantoras poderosas chamadas divas dão o tom do subgênero eletrônico que é o preferido pela cena e que por isso mesmo gera polêmica. Há quem assuma o tribal como a música da cena gay por excelência e há quem não admita estar vinculado ao som, ou pelo menos somente a ele.

O house tribal virou um rótulo para a noite gay. Em matéria do RRaul sobre a parada gay de Sampa, o blogueiro Marcos Carioca, com quem compartilho várias opiniões fez uma breve crítica ao gênero, associando sua preferência a uma suposta alienação e mau gosto dos gays. Tenho que discordar. Verdade seja dita; em se tratando de cena gay o tribal é hegemônico. Todos os djs da cena reverenciam o ritmo e ele domina a pista. Entre os principais nomes do gênero estão o israelense Offer Nissim e o americano Peter Rauhofer, os djs oficiais para remixar os singles da Madonna, além da "novidade" Freemasons que injetou uma sonoridade nova ao rítmo com a adoção de instrumentos de cordas. Aqui no Brasil já temos nossos grandes djs também; Ana Paula toca nas principais festas GLS espalhadas pelo mundo, Patrícia Tribal como o próprio nome denuncia revela sua preferência e o som dela possui vários adeptos (eu sou um deles) e sem falar nos tradicionalíssimos M-vee e Robix e tantos outros da cena carioca que seria impossível dizer aqui nesse breve post de reconhecimento.

Sim, pois o que estou tentando fazer nesse post é reconhecer o house tribal como o som da comunidade gay e dizer que não há mal nenhum nisso. O fato de o Brasil ser o único país onde os gays se identificam tanto com um subgênero eletrônico é bastante significativo e revela como o house tribal funciona como porta-voz da comunidade legitimando sua presença dentro de uma cena mais ampla que é a da ME. Que temos vontade de ouvir outros sons, beleza, temos sim. Mas acho que o house tribal tem garantido uma identificação na cena gay eletrônica e isso tem que ser reconhecido.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

A banda The Whip quer dançar

O título não é uma metáfora, a tradução veio literalmente da página do MySpace da banda The Whip, "I Just Want To Dance".

Está começando a ficar difícil ouvir uma banda e saber se ela é new rave ou não. Quer dizer, você assiste aos vídeos, olha o site, analisa as músicas, o material gráfico e vê claras referências ao ideal de new rave que a NME defende. Mas quem disse que o The Whip faz qualquer referência explícita ao gênero (??).



Partindo de cara para a música, a primeira do disco X Marks Destination, Trash (a do vídeo aí em cima), isso é o que tenho pra falar: pegada roqueira, samples, vocais repetitivos, mas bastante gritados - uma atitude meio punk farofa anos 00 - e feita para dançar. Já segunda música, Frustration, já acalma um pouco com os sintetizadores bem new wave e o X Marks Destination segue até o fim alternando momentos roqueiros com ou outros mais dançantes e alaçando a banda à categoria de uma das maiores promessas para 2008. Não duvido que a banda de Manchester/UK não seja uma boa aposta para festivais brasileiros com o Tim Festival, Skol Beats, Nokia, Motorola etc... É esperar o segundo semestre pra ver. Aqui embaixo, o vídeo de Sister Siam.

sábado, 19 de abril de 2008

Pós-baile Funk


Bem, funk não é minha especialidade, mas uma vez no Rio de Janeiro e procurando estar antenado no que rola no cenário musical, é impossível não identificar particularidades (leia-se curiosidades) do gênero. Apontado por alguns como a música eletrônica brasileira por excelência, o rítmo passa por um momento interessantíssimo no qual tem rompido limites mercadológicos, geográficos e estilísticos.

Esses dias, estava eu ouvindo um programa de house music da rádio Transamérica (103.1) , quando fui apresentado à mais nova atração da emissora... Furacão 2000 - o melhor do funk. Num primeiro momento eu pensei; vou mudar de frequência (opção melhor: Oi fm), mas a curiosidade me segurou e lá estava eu rumo ao meu trabalho ouvindo funk nas ondas do rádio. Ponto positivo para a legitimação do gênero... ou não?

Todos sabem que estou com um projeto de mestrado que investiga as novas práticas de consumo na "era digital" e sua relação com o papel do rádio fm. Boa parte do meu argumento parte do pré-suposto de que esses meios de comunicação são além de tocadores musicais, filtros que direcionam e ajudam a construir identificações com canções, artistas e gêneros. No entanto, começo a observar também, que para alguns produtos culturais a mediação massiva em vez de legitimar, funciona como algo negativo. Assim, me vi pensando nessa questão do funk (defendido como um gênero underground...ou de raiz) e sua veiculação no rádio. Como será que se dá essa relação? Conflituosoa?? (Por favor, adeptos... me respondam).

Ainda sobre esse programa mas num outro dia... (sim... já ouvi o programa outras vezes... rs) estava eu quase cantarolando o funk do creu, quando ouvi um som familiar... tratava-se de um sampleamento da música house "Heater" do dj Samim. Leigo que sou... fiquei surpreso, e cinicamente me perguntei: E pode??? Claro que pode, tanto que essa prática já é uma tendência do rítmo. Li no Folha de São Paulo: "recorrendo a ousadas colagens sonoras, dialogando com gêneros como o rock e o pop, Sany (Dj que exporta o som do funk para além das fronteiras brasileiras) vem alargando os limites do funk carioca ao lado de Djs como Edgar e Sandrinho, criando uma nova vertente para o gênero, batizado de pós-baile funk, que tem na Europa seu público".

Achei o máximo! É bacana ver o rítmo brasileiro se apropriando de projetos alheios. Isso, eu penso através da noção de gêneros de Mikhail Bakhtin, é uma prova "irrefutável" de sua legitimação. Uma vez que a renovação dos gêneros se dá através de sua mistura, e que essa miscigenação musical é mais eficiente quando os gêneros envolvidos já alcançaram uma certa estabilidade ao ponto de se reconhecerem as matrizes envolvidas. Numa apropriação é necessário reconhecer qual é a base (funk) e seus interlocutores (outros gêneros). Hibridismo é bom e eu gosto, principalmente quando toca no rádio.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

O Canto da(s) Cidade(s)


"Críticos anticarnaval, moralistas de plantão, guardiões da "qualidade" da música brasileira, horrorizai-vos: a axé music veio, mandou tirar os pés do chão e jogar as mãozinhas para o alto e venceu." A frase hilária é do jornalista Marco Aurélio Canônico da Folha de São Paulo. E isso por quê? Porque saiu o balanço geral do Ecad - Escritório Central de Arrecadação e Distribuição que confirmou a supremaçia do axé entre as músicas mais executadas no Brasil. A pesquisa revelou que o compositor mais tocado foi o Carlinhos Brown, a artista mais lucrativa foi Ivete Sangalo com média de R$350 mil por show, e desde 2005 das 10 músicas mais executadas, apenas uma não era axé music.

Gente, sou baiano. E o axé faz parte da minha paisagem musical. Durante anos ouvi a crítica especializada dizer que tudo não passava de um modismo que não duraria até o verão seguinte. Mas eis que a cada estação o axé reaparece com uma nova banda, cantora, loira ou morena do tchan e claro... com mais uma dúzia de hits. O carnaval extrapolou o cenário soteropolitano e entrou de vez no calendário cultural de várias cidades, nordestinas ou não. E alguns artistas hoje administram carreiras internacionais sólidas. Mesmo depois de 15 anos (quando Daniela Mercury transformou o gênero em sucesso nacional com o Canto da Cidade) o axé continua firme e forte e tem hoje na figura de Ivete Sangalo e seu milhares de DVDs vendidos o carro chefe do "movimento baiano".

Curioso, é pensar que se os números legitimam a potencialidade econômica do gênero, o mesmo não funciona para a questão da qualidade. Na verdade aqui, mais uma vez, a popularidade funciona como justificativa para questioná-la. Estigma da música massiva e do entretenimento de forma geral que está fadado a não ser levado a sério. O próprio tom da matéria da Folha é irônico e associa o axé a uma manipulação, um movimento involuntário... é triste; o axé tá aí...não dá prá resistir. Toda a justificativa de seu sucesso está associada a um plano de marketing diferenciado de outros gêneros como o rock. Em nenhum momento o axé é contemplado em sua especialidade musical. O caráter artistico é inexistente; voz, arranjo, rítmo e performance não são "contabilizados". O gênero existe no mapa da crítica musical apenas como uma aberração. Pois de modismo passou a gênero estabilizado e complexo, uma vez que o termo axé esconde uma diversidade de rítmos e influências musicais que vão do samba reggae ao frevo e o samba de roda e suas hibridações com o rock e o pop. Se a pesquisa do Ecad revela a predominância do gênero no cenário musical brasileiro, não esclarece os fatores que levaram o axé a tal posto. Quando passarmos a analisar a esfera cultural do gênero talvez possamos ter pistas.


quinta-feira, 29 de novembro de 2007

As "sub-rádios" da CidadeWebRock

Desde que deixou o dial do Rio de Janeiro em março de 2006 para operar somente na web, a Rádio Cidade, ainda vinculada ao rock, vinha mantendo um estilo e conteúdo de programação bem próxima à de quando operava no espectro radiofônico, antes de alugar a sua concessão no espectro para o grupo Oi.

Um ano depois, atentando para as facilidades oferecidas pelo formato de plataforma online, a rádio começou a testar algumas novidades. Nos últimos meses foram criadas as seguintes rádios vinculadas à Cidadewebrock: CidadeWebMetal (voltada para o metal e seus subgêneros), CidadeRockBrasil (apenas rock brasileiro - não sei se de todas as épocas...), CidadeClassicRock (rock dos anos 60, 70,80 e 90 e novidades de bandas clássicas) e CidadeOitentona (com músicas do pop e do rock dos anos 80 no geral). Algumas ainda funcionam em caráter experimental e outras já não mais.
Há um bom apuro quanto à arte visual no site de cada uma delas e as propostas parecem ser interessantes e bastante diversificadas em relação ao que se ouve por aí nas emissoras que transmitem em sinal de FM. Provavelmente deve servir como um teste para voltar ao dial quando o sinal das rádios for digitalizado e possibilitar transmitir transmissões simultâneas no mesmo canal. Ou não.

domingo, 30 de setembro de 2007

Gravadora MaxPop investe na dance music nacional


Que a música eletrônica vêm dominando a noite nas capitais brasileiras já não é novidade. Boates de diversos segmentos se multiplicam no espaço urbano e hit após outro, o gênero é um dos mais executados nas rádios do país. Festas eletrônicas cada vez mais freqüentes e lotadas tem apontado para a hegemonia das pick-ups ou melhor; CDjs. Tanta popularidade do ritmo acaba impulsionando artistas nacionais a se arriscarem no gênero dominado por estrangeiros. Basta ouvir os programas de dance music para constatar que o Brasil importa os grandes sucessos da balada, e a nossos djs resta remixar. A gravadora MaxPop Music quer mudar essa história. Dirigida a menos de seis meses pelo quinteto formado pelo cantor Latino, seus sócios e empresários Christovam Neumann e José Carlos “Kaká” Silva e os produtores e djs Fabianno Almeida e Ian Duarte, a gravadora vêm investindo na dance música nacional e já conta com um elenco bastante ativo na produção de hits que caíram no gosto dos baladeiros. O Ramada, por exemplo, emplacou “Clap your Hands” e já segue com nova música de trabalho “Stand up” destaque na trilha sonora da novela "Sete Pecados" da Rede Globo. Outros nomes são Kassino e Tati Medeiros que com "A Noite Inteira", música em português, uma rara exceção, vem obtendo bons resultados nas rádios. No site da gravadora dá pra ouvir as músicas e comprovar que a noite está cheia de canções nacionais disfarçadas de hit americano.

sábado, 16 de junho de 2007

Após ter morte decretada, dance music ressuscita

Esse era o título de uma matéria que saiu ontem no caderno "ilustrada" da Folha de São Paulo. Era o pretexto para o jornal falar - muito bem - do novo disco dos Chemical Brothers "We Are The Night", sem esquecer de dizer o quão insosso o penúltimo disco "Push The Button" era.

Em novembro de 2004 o jornal inglês "The Guardian" fez uma reportagem decretando a morte da dance music. As causas do falecimento eram apontadas como a falência dos grandes grupos britânicos, os discos sem relevância de artista outrora muito importantes como Moby, FatBoy Slim e Prodigy.

Mas, segundo Thiago Ney, que escreveu essa matéria da Folha, tudo mudou com o disco dos Chemical Brothers. Outras estréias destacadas na reportagem são Simian Mobile Disco com "Attack Decay Sustain Release", Justice e Digitalism. Há um quê de New Rave quando o repórter fala desses três duos e diz que elas "fazem uso de elementos do rock, como vocais, bateria orgânica e guitarras, para dar corpo a faixas dançantes".

E no Brasil são comentados os trabalhos novos do DJ Mau Mau, Nego Moçambique e o novato Propulse.

Para celebrar esse momento meio fênix que a Folha de São Paulo aponta, nada melhor do que dançar com vídeo Do It Again, dos Chemichal Brothers do disco "We Are The Night".

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Rede de televisão CBS compra Last FM...

...pela singela bagatela de 280 milhões de dólores. Isso só mostra como os "gigantes do entretenimento" estão apostando nas possibilidades que a Internet cria de interação com o usuário.

Não sabe o que é Last FM? Vai aqui um resumo básico. O serviço oferecido funciona de diversas maneiras. Primeiro, você entra no site, faz seu cadastro e baixa um programa que funciona como um plug-in para ser incorporado ao seu tocador de música no computador. No meu, por exemplo, o Last FM é acionado quando eu ouço música no Windows Media Player. Depois, você pode criar uma página pessoal no estilo orkut e adicionar amigos, participar de comunidades, escrever um blog, etc. Até aí, existe no mundo virtual uma penca de sites que oferem esse serviço. A graça desse está justamente em compartilhar o seu gosto musical com o resto do mundo já que o slogan do programa é justamente the social musical revolution. Na sua página do Last FM, aparecem as 10 últimas músicas que você ouviu, as bandas mais ouvidas na última semana, as suas bandas preferidas que (foram ouvidas no computador) e número de vezes que cada música foi ouvida. Baseado nisso, aparece uma lista de neighbours, que são as pessoas com gosto musical similar ao seu. É possível também procurar informações sobre a sua banda preferida e ver com quais ela se parece. Já descobri muita coisa interessante. E pra terminar também é possível abrir o programa do Last FM, fazer uma busca através de tags e montar uma rádio pessoal. Por exemplo, você pode ouvir uma seqüência de músicas que passe por forró, disco punk, electro, death metal e calypso. Depende do gosto de cada um...

Continua complicado de entender? Entra na minha página do Last FM e dá uma espiada. Só não vale rir do meu gosto musical. E depois que fizer o cadastro, se quiser me adicionar como amigo, favor deixar um recado antes. Brincaderinha...

domingo, 3 de junho de 2007

Bombou!!

Imagine um encontro acadêmico onde a atração principal é o show de uma banda que atende por Os Mizeravão. Que tem na bateria o organizador principal do encontro. E que conta com o convidado principal, respeitadissimo colega canadense que fez a palestra de abertura, dando uma canja... cantando I will Survive. Festa que continua noite a dentro com as Djs Simone Sá e Marina (aluna da UFba) além do nosso labcultiano Marcelinho. E as pessoas levam a sério e dançam!!
Pois é! Foi neste clima - de intensa observação participante - que se concluiu na sexta o I Encontro de Mídia e Música, realizado na UFba pelo grupo de pesquisa em música popular massiva, coordenado por Jeder Janotti.De volta, queria comentar com vocês a satisfação por participar d(o que a gente espera que seja só) a primeira edição de encontro tão produtivo e dar parabéns publicamente ao meu queridissimo amigo Jeder e seu grupo, que merecem nossos agradecimentos pela iniciativa e pela acolhida tão hospitaleira e afetiva.
A porção Música do LabCult compareceu em peso - eu, Marildo, Heitor e Marcelo (além da Janaína, aluna de mestrado da UFF).
Entre festas como a descrita acima, palestras bacanas, reencontro com amigos queridos e descoberta de novos, tivemos a oportunidade de entrar em contato com o que de melhor está sendo produzido na área de Comunicação e Música, através de 50 trabalhos discutidos nos Gts.
O que me impressionou foi a efervescência deste sub-campo da comunicação, comprovado pelo fato de que a grande maioria dos trabalhos era de mestrandos e doutorandos.
Mas, também fiquei muito feliz por estar em tão boa companhia nas palestras - Jeder Janotti, Angela Prysthon e Micael Herschman, além de rever o pesquisador canadense Will Straw. Sua palestra foi uma grata surpresa.Pois a qualidade da reflexão a gente já conhece de outros textos discutidos aqui no LabCult. O que me surpreendeu foi que ele deu uma pequena "guinada" em direção aos autores e reflexões da Teoria das Materialidades, apresentando uma reflexão em torno do LP e do CD como suportes que produzem diferentes organizações discursivas da música. Temas e aproach muitissimo próximos de nossas reflexões, produzindo aquela sensação de cumplicidade e possibilidade de diálogo quando encontra alguém pensando alguma coisa parecida...
No GT que coordenei - Gêneros e Cenas - destaco alguns trabalhos que creio que também dialogam com as nossas reflexões:

1) Gênero mediático e experiência mediada:perspectivas de investigação sobre dinâmicas de expressão e recepção do rock - Jorge Cardoso Filho (doutorando UFMG)
2) O bit e o beat do rock brasileiro - Danilo Fraga (mestre UFba)
3) O problema da sinestesia entre imagem e som na cena de núsica eletrônica - Paolo Bruni (mestrando UFba)
4) Pressupostos na análise da cultura dos discos de vinil: um olhar sobre a cena eletrônica brasileira do gênero Drum´n Bass - Marcela Moreira (mestranda UFba)
5) Gêneros musicais e sonoridade: construindo uma ferramenta de análise-Felipe Trotta ( UFPe)
5) Videoclipe e televisão musical: uma abordagem de gêneros - Thiago Soares (doutorando UFba)
6) Djs, Magnatas e regueiros: considerações sobre o reggae na Ilha de São Luis - Rogerio Costa (UFPe)

Neste GTs foram apresentados os trabalhos dos nossos pesquisadores Marcelo Garson - cooptação versus underground - hiopóteses sobre a ascensão do DJ superstar; e Heitor da Luz Silva e Janaína Faustino - Dinâmicas e reconfigurações no gênero MPB.

Para quem perdeu, a boa notícia é que está prevista uma publicação com os melhores trabalhos.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

O lado A e o lado B da música

E pegando carona no post do Marcelo, lembrei de um fato curioso. A Currys, maior loja de eletrônicos do Reino Unido, acaba de anunciar que não vai mais vender fitas cassetes. Peter Keenan, o diretor-geral da companhia, disse que não pretende mais renovar o estoque de fitas quando esse esgotar, pois o formato tornou-se obsoleto com a internet.

Na verdade, desde o surgimento do CD a popularidade de mídias como o vinil e o cassete despencaram. O LP foi o primeiro a desaparecer das lojas e hoje habita um círculo fechado de consumidores formado por artistas e “audiófilos” como se auto-define o próprio Ed Motta. A Poly Som, criada em 1999, é hoje a última fábrica de vinis em funcionamento no Brasil. Situada na Baixada Fluminense, a fábrica prensa vinis para artistas como Nando Reis, Los Hermanos e Caetano Veloso. Apesar das dificuldades, a fábrica ainda sobrevive graças a esses artistas e colecionadores que defendem apaixonadamente a produção de vinis.

Hoje, o formato é cultuado entre os músicos por uma série de razões. Uma delas é técnica; o compact disc, com seu sistema digital, inibe os graves e os agudos. Na procura de um som mais limpo, essa variação de tons acaba sendo comprimida e perde-se o “frescor” da gravação. Outros fatores envolvem a questão da valoração. Veja o caso dos djs, por exemplo; os mais importantes insistem em usar o LP nas suas mixagens e fazem de seu uso um elemento de diferenciação.

Para tocar na pista, muitos artistas de outros estilos musicais tem prensado vinis. Vanessa da Matta está entre eles. Seu hit “Ai, ai, ai” foi um dos mais tocados no verão do ano passado e deve seu sucesso nas pistas graças ao lançamento da música tembém em LP. Se para alguns gêneros essa é uma opção estética, para outros é uma questão mercadológica. No hip-hop o LP é a regra; trás credibilidade e facilita a divulgação.

Essa apropriação de suportes apontados como ultrapassados pelo mercado nos faz pensar que esse momento, em que o cassete deixa de ser comercializado, pode não significar necessariamente o fim do formato. Talvez seja um novo começo. Sai de cena a fita cassete como mídia acessível ao grande público, mas suas utilidades podem ser redefinidas a qualquer momento, assim como aconteceu com o vinil. Fim do lado A; início do lado B.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Ídolos Industriais


A nova edição do programa Ídolos está no ar. Para quem não está ligando o nome à atração: trata-se da segunda edição de um programa de calouros, adaptada do original "American Idol", exibida no SBT no ano passado com picos de audiência.
Por mais conhecida que seja a fórmula, algumas inovações explicam o sucesso do Programa – a começar pela hibridação entre “programa de auditório” e reality-show.

Assim, se estávamos acostumados a assistir competições de calouros sendo realizadas em palcos de TV na presença de jurados e da platéia, a produção do programa foi buscar atrás dos palcos, nos bastidores e no dia-a-dia de seus candidatos, ingredientes para apimentar a disputa. O que significa que, além do talento vocal, o que está em jogo é uma "história de vida" que a equipe de edição torna ainda mais surpreendente e atrativa.

Mas, o interesse maior do programa - que faz dele um excelente laboratório para as discussões do LabCult sobre indústria fonográfica, gêneros musicais e valoração é o tratamento do calouro como produto comercial, explicitando estratégias, interesses e discursos da indústria fonográfica. A começar pelo próprio prêmio em questão; o ainda cobiçado contrato com uma “gravadora major”. Além disso, a formação profissional dos jurados chama a atenção. Nada de cabeleireiros de famosos, modelos de revista masculina, apresentadores de programa infantil e a fauna de sempre. No "Ídolos" um time de profissionais realmente qualificado foi escalado. Arnaldo Saccomani (músico, radialista e produtor de artistas como Tim Maia e Mamonas Assassinas), Carlos Miranda (crítico musical, produtor de bandas com Skank e O Rappa e ex-diretor da Trama Virtual), Cynthia Zamorano (cantora, compositora e produtora) e Thomas Roth (compositor, intérprete e proprietário de uma gravadora) formam o grupo que utiliza-se de suas experiências para avaliar os cantores candidatos a ídolo pop.

Mora aí, nessa postura dos jurados, assumidamente comercial, o grande atrativo desse programa. Afinal, isso rompe com a idéia romântica de avaliação puramente artística dos calouros. O júri tensiona esta visão o tempo todo, discutindo abertamente a real viabilidade de o candidato escolhido ser um campeão de vendas. Nesse sentido, eles são os porta-vozes da indústria fonográfica e, no decorrer do programa o que veremos é a tentativa de "lapidar" as pedras brutas.

É assim que, após a apresentação do cantor (a), os jurados se revezam numa avaliação que não faz uso de notas numéricas, mas de uma análise oral bastante criteriosa. Em meio a termos como dissonância, ruído e vibrato o público tem acesso a um vocabulário próprio de artistas e profissionais da música.

Vence aquele que estiver mais afinado com o seu público. E claro; o que tiver público mais numeroso. Fazer as ligações para elegê-los é o primeiro passo. O segundo é comprar o CD - pelo menos essa é a expectativa.

Mas além das questões técnicas, os jurados também fazem observações sobre tudo que pode influenciar na eficiência da apresentação. Do repertório escolhido à postura no palco, do figurino ao ritmo escolhido. Estes elementos são levados em questão e discutidos ali, em sinal aberto para milhões de espectadores no Brasil inteiro. Os aspirantes a ídolo pop são constantemente questionados sobre suas escolhas e recebem "dicas" para melhorar a performance. "Você se veste como Pitty e vem cantar Elis Regina???" – indaga um dos jurados a um calouro, enquanto um outro é incentivado a mudar o repertório por que sua voz se adequa melhor a determinado gênero, ou ainda a manter-se fiel ao estilo musical para não perder a identidade musical, etc.

Essas discussões revelam a importância que a noção de gênero ainda possui para a indústria cultural. Em “Performing Rites”, Simon Frith afirma que é somente a partir da classificação da música em gêneros que é possível tornar a música uma comodity (produto vendável). Ao direcionar o consumo, a noção de gênero cria um mercado para a música.

Só para terminar, visitando o site do programa www.idolosnosbt.com.br, tem-se acesso a uma enquete realizada recentemente onde os visitantes são questionados sobre o ritmo predileto. O interessante não ficou por conta do resultado - nada surpreendente - que elegeu o pop rock como o favorito; mas sim pelas opções dos gêneros que foram reunidas em grupos no mínimo curiosos. Os agrupamentos sugerem aproximações de determinados estilos musicais, seja por uma questão técnica (rítmica mesmo) ou simbólica (referente a gosto). Segue o resultado da enquete:

MPB/ Bossa Nova - 9,7%
Sertanejo/ Country - 5,3%
Reggae - 3, 9%
Forró/ Calypso - 8, 1%
Funk/ Rap/ Soul - 12, 8%
Pop/ Rock/ Pop Rock - 43,1%
Samba/ Pagode/ Axé - 17,3%

E para quem ficou curioso com o programa - "Ídolos" vai ao ar nas noites de Quarta e Quinta-feira a partir das 20h30 e tem reapresentação dos "melhores" momentos aos Sábados 23h00 pelo canal do SBT.