
Sábado, dia 4 de setembro será mais um dia crucial na carreira de Ivete Sangalo. A cantora brasileira mais bem sucedida do momento, com cerca de 9 milhões de discos vendidos e que cobra um cachê em torno de 500 mil reais por apresentação, irá subir no palco da Madison Square Garden, famosa casa de espetáculos localizada em Nova York. Desse show também sairá o seu terceiro DVD ao vivo que será lançado pela Universal Music. Os registros dos shows de uma das principais representantes da “axé music” tem sido acompanhados de uma grande mobilização midiática, com produção caprichada, dando ares de grande acontecimento: O primeiro foi gravado no extinto estádio Fonte Nova em Salvador através do selo MTV ao vivo e sedimentou de vez sua carreira solo ao vender mais de 2,6 milhões de CDs; o segundo, já pela Multishow, levou cerca de 45 mil pessoas ao Maracanã e ainda hoje é o DVD mais vendido na América latina. Dessa vez o evento será fora de casa e, portanto, se revela mais uma estratégia para tentar deslanchar carreiras de artistas brasileiros no cenário musical internacional. Depois dos fiascos de Alexandre Pires e da dupla Sandy e Júnior, ficou claro que essa não é uma tarefa das mais fáceis. Se outros artistas baianos como Daniela Mercury, Carlinhos Brown e a própria Ivete são relativamente populares em países europeus como Espanha, França e Portugal, nos Estados Unidos e seu mercado fonográfico concorrido e quase auto-suficiente, a missão fica mais complicada.
Para esse show, Ivete se afasta um pouco mais do gênero que a consagrou. Embora os hits carnavalescos ainda façam parte de seu repertório, estas serão intercaladas por canções de ritmos mais universais. A cantora já adiantou que incluirá nesse disco músicas cantadas em inglês e espanhol (buscando, nesse sentido, o público americano e de origem hispânica). Além disso, mesmo em suas produções anteriores, o axé music já aparecia cada vez mais diluído em canções que flertavam com outros estilos musicais como funk, soul e reggae. Trata-se de uma estratégia orientada para a expansão de sua carreira para além dos trios elétricos.
No que diz respeito a indústria fonográfica e sua crise com os suportes de gravação, o show reafirma a importância das apresentações ao vivo. Uma parceria entre a cantora e a empresa de viagens aéreas Tam promoveu uma bem sucedida venda de pacotes de viagem para assistir o show em Nova York. Não é preciso calcular muito para perceber que ver Ivete Sangalo na cidade americana será muito mais dispendioso do que aguardar sua turnê brasileira, no entanto, entra ai a “economia da experiência” que legitima o investimento feito por cerca de 5 mil fãs: “Assistir Ivete Sangalo no Madison Square Garden é uma experiência única”. Por outro lado, esse evento também relativiza essa crise da indústria fonográfica ao demonstrar a importância da participação das gravadoras em grandes ações promocionais. Como Ivete é hoje a principal artista no cast da Universal, sendo sua recordista em vendas de CDs e DVDs, a gravadora não poupou investimentos para o projeto que traz convidados de fama internacional, cenografia elaborada pelo mesmo artista que trabalhou com Madonna e Black Eyed Peas e uma forte campanha publicitária. Nesse sentido o show realmente é único, uma superprodução que só acontece uma vez para que seja feita a gravação do DVD. Menos interessada em lucrar com a micro-turnê americana, Ivete e sua produtora (a Caco de Telha, pertencente ao irmão da cantora) está voltada para a divulgação de seu trabalho, que depois tende a reverter dividendos para a gravadora e turbinar sua agenda de shows, evidentemente mais simples, pelo país afora.
Por fim, gostaria de lembrar mais uma vez das estratégias de endereçamento dos conteúdos musicais. Em matéria do “New York Daily News" a cantora foi denominada como a “Beyonce do Brasil”. Apesar de aparentemente negar tal comparação, Ivete já buscava essa aproximação desde que ajudou a promover a turnê da artista pop americana esse ano aqui no Brasil. Foi ela quem abriu o show de Beyonce em Salvador e São Paulo. E em comerciais de TV a similaridade física e de performance foi amplamente explorada. Ivete chegou a adotar corpetes que lembram o figurino utilizado por Beyonce em seus shows. A estratégia de usar artistas mais conhecidos como referência ainda é uma forma bem sucedida de posicionar artistas desconhecidos em um determinado mercado musical.
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