Por Rafael Dupim
Já que Adorno é o tema do mês, resolvi dar uma relida na coletânea “Indústria Cultural e a Sociedade”, focando as partes dos textos em que o autor fala de Jazz. Esse é um dos temas mais controversos da obra de Adorno. Isso porque o Jazz é considerado por muitos como “a grande música do século XX”. Mas Adorno a descreve como símbolo de degradação estética, sintoma da produção cultural voltada a fomentar os meios de massa. Nas linhas do texto, o Jazz estaria para a música assim como a telenovela para as artes narrativas.
Fica claro que Adorno não tinha qualquer intimidade com o Jazz. E que, quando escreveu, ainda não havia para ele o BeepBop, o Cool, o Fusion ou o Free Jazz. O que ele chama de Jazz é na verdade toda a música americana que se espalhou pelo mundo a partir do rádio e também cinema e televisão. Ou seja, Adorno não falava de Jazz. Talvez ele quisesse dizer Pop.
Se trocarmos a palvra Jazz por Pop music, a crítica do autor parece ganhar mais consistência. Ainda assim, sobrariam polêmicas para discutir sua visão. Principalmente aqui, um Laboratório de Culturas Urbanas.
No entanto, temos que levar em conta que, em relação a Adorno, temos a vantagem do tempo. Os textos de Adorno registram o espanto de uma mente brilhante diante do nascimento da cultura de massas. Mas os contornos dessa cultura são hoje bastante heterogêneos. Até mesmo a fronteira entre Jazz e Pop ja não é mais tão precisa.
Para pensarmos mais a respeito dessas fronteiras entre Pop e Jazz, sugiro assitir a “Possibilities”, de 2009. O filme é o encontro de Herbie Hancock com artistas dos mais variados subgêneros do Pop. Hancock é um dos maiores nomes do Jazz ainda vivos (em outro momento dedicarei um post somente a esse mestre). Tocando e cantando com ele no filme estarão Jack White, Sting, Cristina Aguilera, Santana, Beck e outros.
Fica aí um trecho do filme e aquela perguntinha: O que Adorno acharia disso tudo?
4 comentários:
Gostei muito da idéia que você lançou neste texto. Era realmente estranho ler algo depreciativo do Adorno sobre o jazz, e ao mesmo tempo ter autores como Eric Hobsbawm dedicando uma história social do gênero num livro.
está errado. era mesmo Jazz. Adorno sabia distinguir bem, inclusive, do estilo de música mais recente, com improvisos, a que alude em "On Popular Music". o problema do jazz é que ele simplesmente instaurava uma pseudo-individuação onde pretendia dar seu troco ao establishment, e daí nunca escapar ao esquemas de produção estandardizada de música, como pretendia.
o senhor quis simplificar Adorno, e isso fica muito mal a qualquer um.
É isso mesmo que o "Necessário..." disse. A tentativa de simplificar Adorno - eu diria "adulterar", trazer para baixo, nivelá-lo à mentalidade difusa - soa maldosa, e isso não se faz.
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