sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Luan Santana e Adorno



Já que este mês está consagrado a Adorno, proponho a analise do vídeo acima. Trata-se de uma entrevista do mega-star do atual sertanejo universitário Luan Santana. Apesar da tenra idade, o rapaz já possui uma carreira de sucesso que sertanejos da geração anterior levaram décadas para conquistar. Zezé Di Camargo lançou 3 discos na dupla Zazá & Zezé e dois solo até atingir o sucesso na dupla com o irmão Luciano. Nisso se passaram 11 anos. Chitãozinho & Xororo demoraram vinte anos para obter respaldo popular semelhante. Luan Santana comanda um staff que se locomove em 2 carretas, 1 ônibus e inclusive um jatinho particular.

Sem olhares moralistas, não pretendo fazer aqui um discurso do tipo “de como um artista deveria ser e não é”, quase sempre linha mestra dos adornianos.

Mas não foi sem espanto que assisti esta entrevista realizada em 23/08/2010 e veiculada no SBT no programa da Marilia Gabriela. Logo no começo do vídeo o cantor conta que seus últimos discos foram gravados “ao vivo” por falta de tempo de ir para o estúdio!

De fato, a gravação de CDs e DVDs ao vivo é uma pratica comum dos atuais sertanejos. Muitas vezes as musicas são até lançadas “ao vivo”, como conta Luan Santana. Antes da gravação propriamente dita, ele “ensina” a canção para o publico, que se esforça para fazer o coro especialmente nos refrões.
Victor & Leo, talvez a dupla mais bem sucedida do momento têm 3 discos “ao vivo” e apenas 2 de estúdio. Jorge & Matheus têm dois “Ao vivo” e nenhum de estúdio! João Bosco e Vinicius têm 4 discos seja no formato “ao vivo” ou “acústico” e apenas um gravado em estúdio.

Prática comum no mundo sertanejo atual, não espanta que com Luan Santana seja assim também. O que é espantoso é que ele diga que não pode ir ao estúdio por falta de tempo. Sua agenda lotada até o fim do ano impede que isso seja feito, segundo o próprio.

De qualquer forma ressoa ecos de Adorno nesta prática, que parece bastante cruel para com o artista. A mercadoria ganha tal caráter de fetiche que se autonomiza a ponto de impor seu tempo de produção ao próprio artista. A primeira vista parece que um mundo sem autonomia ou “independência” se desenha para o artista sertanejo, dominado pelas malhas da “industria cultural”. Parece-me ser esta a linha daqueles que leriam Adorno ao pé da letra.

De qualquer forma me interesso mais pelos solavancos do real do que pelos impulsos teóricos que almejam a consistência realista. Adorno parece não dar conta de todo o processo. Em pelo menos dois aspectos o pensador alemão fica devendo em relação à Luan Santana.

Se é verdade que o tempo de produção foi encurtado, por outro lado parece que se perdeu o “referente estúdio”. Não custa lembrar que para Adorno a gravação musical já era um “crime em si”. Por dois motivos: distorcia o real em suas ondas alheias ao musico de carne e osso e integrava o artista nas malhas da “industria cultural”. Luan Santana e os sertanejos parecem ter desistido do “referente” para fazer da musica simples performance, na qual a participação do publico é fundamental.

Chegamos ao segundo aspecto: a gravação “ao vivo”. Com todas as implicações que esta idéia pode ter, o “ao vivo” parece simbolizar uma mudança de padrão na industria fonográfica. Claro que isso não começou com os sertanejos, mas é um processo que tem longa data, pelo menos 15 anos segundo minhas falíveis recordações. O “Acustico MTV” foi a primeira tentativa de comercializar mais largamente as gravações ao vivo. Antes, por questões técnicas e sobretudo culturais, o “ao vivo”, embora existisse e fosse vez por outra lançado, definitivamente não puxava as vendas de um artista. Não custa lembrar que o primeiro “Acustico MTV” foi o de Gilberto Gil, em 1994, quando ainda era visto como uma prática “alienigena” e chamava-se Unplugged MTV.

Parece que, além implodir o referente da musica, a hegemonia do “ao vivo” está mudando o status do significado da própria canção e vice-versa. Agora o publico tem que participar, tem que aparecer, tem que estar lá, até porque hoje em dia os artistas ganham mais dinheiro com shows do que com direitos autorais e vendagens de discos. O disco se torna o palco do publico e parece ser cada vez menos necessário uma voz ou afinação correta para se cantar a musica, diante da multidão de vozes cantando junto. Seria a revolta das massas? Será que Adorno se remexeria na cova com esta afirmação?

O que me parece claro, se é que há algo claro neste mundo, é que não podemos desprezar o “véio”. Como já se perguntou um antropólogo da musica sertaneja, Allan De Paula Oliveira, serà possivel “dançar com Adorno, sem que este leve a dança...”?

4 comentários:

Jefferson Chagas disse...

O que mais me irrita em gravações ao vivo é essa obrigação de participação do público. Sim, pois tem artistas que não possuem uma recepção calorosa quando sobem ao palco, e cabe aos técnicos no estúdio recriarem o burburinho, os gritos histéricos, palmas e acompanhamento dos refrões. Esses dias estava ouvindo o disco ao vivo da Daniela Mercury, não lembro bem o ano da gravação, mas naquela época a cantora já havia perdido a coroa da axé music para Ivete e seu público é claramente pouco receptivo a sua performance (uma pena, tendo em vista que a considero, ainda hoje, a melhor artista da axé m.) e, portanto, percebe-se uma recriação do calor humano no disco. Também já cheguei a experimentar uma situação hilária, em um estúdio lá na Bahia presenciei a gravação em estúdio de uma performance ao vivo. Era algo muito tosco, 10 pessoas cantando a música, alguns gritinhos, palmas... tudo ensaiado. Uma inversão total!

Ari Holzbach disse...

Tô passada, Jefferson!! A construção de realidades midiáticas parece não ter limites... 0.0

Gustavo Alonso disse...

gente vcs estão muito adornianos nos comentarios,não?
eu pessoalmente não gosto dos 'ao vivo', alias desde a época dos acusticos... não tinha muita consciencia porque, mas nunca me agradou muito... Em geral tem a ver com o que o Jefferon falou, eu não gostava de pagar para "ouvir a voz do publico"!
mas acho que temos pensar as implicações destes "ao vivo", mais do que censura-los...
tentei apontar algumas questões... mas a principal é a falta do "referente" estudio. Não estamos um pouco saudosistas do estudio?

Simone Pereira de Sá disse...

Acho esta discussão super interessante! Pois, confirma um argumento que nos é muito caro no LabCult.A de que a reprodutibilidade técnica nunca é "fiel" ao original e que ela é sempre culturalmente mediada. Desta maneira, o que chamamos de original e de cópia depende sempre dos gêneros musicais, das audiências, e das tecnologias do momento.
Como diz Jonathan Sterne, contrariando o argumento benjaminiano de perda da aura, "as cópias é que criam o original".
E neste momento, onde o disco perde valor na indústria, "perder tempo" em estúdio ao invés de fazer shows passa a fazer sentido!