Recentemente comecei a frenquentar bailes-funk aqui pelo Rio por conta de minha pesquisa de mestrado. As primeiras experiências foram na quadra do Emoções, na Rocinha; depois na Ladeira dos Tabajara, no primeiro e icônico baile e realizado numa favela com UPP. Em todos eles me senti muito segura e à vontade. Mas até então estava tudo sendo fácil e pensava que deveria ir em algum baile fora dos limites territoriais onde circulo mais, leia-se a zona sul e centro da cidade.
Comecei a trocar algumas idéias com conhecidos mais assíduos nos bailes e fui convencida de ir ao baile da Mangueira por ele ser um dos melhores, o que na minha cabeça soou como um baile mais “autentico” do que poderia ter sido visto até então. Mas o meu problema com os bailes sempre foi o medo e desconforto que sinto diante da presença de armas. Quando perguntei sobre esse aspecto, as respostas confirmavam que havia gente armada e outras usando drogas, que tudo fazia parte do ambiente e que eu não deveria me preocupar. Entre os que me recomendaram a Mangueira estão o Mc Don Blanquito – que saiu dos Estados Unidos e resolveu ser Mc de funk no Rio - e Alexandra Lippman, também dos EUA, que faz sua pesquisa sobre o mercado de funk. O pensamento que mais instigava era do tipo: “ué, se esses ‘gringos’ já foram lá por que eu que sou daqui ainda não fui?”
Tentei juntar alguns amigos para me acompanharem no tradicional baile e se divertirem também. Para isso mandei emails e saí pelo gtalk tentando conseguir companhia. Alguns diziam para eu ir sim, e me davam dicas de como tomar cuidado, principalmente, na chegada e saída do morro. Mas em outras respostas surgiram várias advertências quanto à “chapa quente” dali - que teria subido de temperatura com o início da instalação de UPP´s na zona norte da cidade -. Com medo, acabei me sentindo desencorajada e fui mais uma vez num tranqüilo baile da zona sul, o do Vidigal, que rola toda sexta-feira de noite. Subi de moto e encontrei grupos de pessoas arrumadas e perfumadas dançando diante da parede de som de onde saíam pancadões, a galera bebendo na rua e barraquinhas de cerveja. Tudo muito bonito de se ver e ouvir.
Mas a sensação de que o Mundo Funk, como escreveu Hermano Vianna, está para além daquele perfumado baile teve um tanto de frustração. E veio a tal questão sobre as recorrentes discussões sobre autenticidade e o underground. Será que um baile autentico tem que ser necessariamente chapa quente? Para ser um lugar ser underground ele deve estar numa zona perigo e oferecer certos riscos?
Uma dos aspectos que acredito caracterizar esse Mundo Funk é a falta de limites: falta de regras tanto estéticas, vide as montagens que incluem desde abertura de Power Rangers e o non sense de uma eguinha pocotó, quanto éticas como os proibidões e o funk sensual tão recorrente em letras e coreografias femininas e masculinas.
Concluo o post dizendo que quando conseguir avançar para outros territórios funkeiros do Rio, compartilho com vocês a experiência. Fato é que ser mulher e morar no asfalto, infelizmente, determina alguns limites da pesquisa do objeto que me proponho a investigar. Enquanto isso Fé em Deus, DJ!
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