por Gustavo Alonso

Espanto-me de não ver nenhum post no blog sobre o Tropa de Elite 2.
Na verdade não tenho nenhum comentário fundamental sobre a realidade carioca, sobre a situação da polícia militar ou civil, sobre a corrupção de Brasilia como novo alvo do moralismo do Capitão/Coronel Nascimento.
Para começar sugiro o filme a todos. Tudo o que direi aqui não deve impedir ninguém de vê-lo, afinal trata-se de uma obra marcante, novamente, para o cinema nacional. É agil, é dinâmico, é direto, é politico, é informativo, é pedagógico, é muito bom. Não é um filme fácil de se esquecer. Novamente o diretor Padilha e os roteiristas Braulio Montovani e Rodrigo Pimentel conseguem fazer uma obra contundente e talvez mais impactante que o primeiro Tropa. Mas aí começa o meu incomôdo.
Os comentarios gerais dizem que o Tropa 2 é ótimo porque o Nascimento está menos "fascista", porque os personagens estão mais densos, porque a trama é mais atual, por falar de mílicias, por mostrar um BOPE menos justiceiro e mais embrenhado na máquina partidária e governamental, por mostrar armas assassinas como o Caveirão. Mas para quem já havia lido o livro "Elite da Tropa", de Rodrigo Pimentel, André Batista e Eduardo Soares, não há grande novidade. Ou mesmo para quem está minimamente por dentro do que acontece em segurança pública no Rio de Janeiro sabe do íntimo jogo que há entre poder público, milícias, traficantes, Bopes, polícias, etc...
É nesse aspecto que Tropa 2 se mostra forte... e fraco. Ele não quer nada além de ser pedagógico. Isso me incomoda. Vejo neste Tropa 2 mais semelhanças com o primeiro filme do que rupturas. Nos dois busca-se uma resposta para os problemas do RJ. No primeiro havia um quê de justiceiro na trajetória de Nascimento e, embora eu discorde que o filme fosse fascista, acho que ele permitiu este tipo de abordagem. Nesta segunda obra, Padilha não deixou margem para dúvida. Nascimento percebe seu erro, e rompe seus próprios fantasmas pessoais e familiares para descobrir que seu pensamento de 'Rambo' da primeira fita era simplista. Mas o tom pedagógico permanece. O filme ainda quer atingir o ser mediano que habita nossas cidades. Esta é sua potencia e ao mesmo tempo o grande problema da fita.
Afinal, se era para mudar o pensamento mediano e fazer um cinema político, que Padilha advoga a todo momento como necessário em nosso país, porque não lançar o filme ANTES das eleições? Essa eu não entendi. Que questões políticas estão implicadas nessa decisão? Terá sido o filme refém da própria máfia que quis denunciar?
Outra coisa me incomodou ainda mais. Parece que só há uma maneira de falar de violência no cinema nacional. Ela é espetacular, dinâmica e rápida. É visível, é barulhenta, é... enfim... Não discordo de nada disso, afinal cada dia mais a violência no Rio se mostra dessa forma, ou a mídia a mostra desta forma... Tanto faz, na verdade não quero discutir a realidade, mas o cinema nacional. Porque o cinema nacional insiste em nos vender esta realidade? Será essa a única forma de atingir as "massas"? Será esta a única forma de violencia de nossa sociedade?
Parece haver uma moral no cinema brasileiro: tudo tem que ser visível, gritado, berrado, intenso, cuspido na cara do espectador. Tudo é muito duro, é muito "na cara". Das comédias "Se eu fosse você" à fitas "realistas" como "Central do Brasil", "Estômago" e "Segurança Nacional". Para quem conhece um pouquinho do cinema argentino sente que, para os hermanos, o tom é outro. Eles são mais sutis, mas interiorizados, menos explosivos, esfregam menos a realidade na nossa cara, mas nem por isso são menos contundentes. Porque no Brasil o cinema tem que ser assim? Me ocorre uma única exceção, o ótimo "Não por acaso", de Philipe Barcinski. Não à toa a fita tem cara de "argentina".

Todas essas questões me foram levantadas pelo Tropa 2. Mas teve uma última questão que me incomodou mais do que todas as outras. A montagem/roteiro dos filmes sobre violencia pública no Brasil estão se repetindo.
Numa linha que remonta a "Cidade de Deus", os dois "Tropas" são debitários da mesma trama. Acho que é trama que se chama isso né? Desculpem-me os cinéfilos. O que quero dizer é que os filmes começam com uma situação conflituosa, violenta e espetacular. O espectador não entende nada, mas fica intrigado e busca compreender como se chegou até esta situação. O filme promete e cumpre esta promessa. Mostra em todos os detalhes como se chegou até o instante conflituoso. No caso do "Cidade de Deus" trata-se da famosa cena da galinha. Em Tropa 1 é o tiro no baile funk. Em Tropa 2 é a tentativa de assassinato do Coronel Nascimento. Em todos eles repete-se uma trama que cada vez mais se repete. Será esta a única forma de tornar a violência visivel? Será esta a única forma de pensar um enredo?
Estes pensamentos me remetem a outro filme que vi nos ultimos dias e que me incomodou bastante: "A Origem". O filme é fantástico, tecnicamente sobretudo. Apesar das minhas questões, reafirmo que é uma obra necessária nos dias atuais. O filme mostra um grupo de jovens que distorcem e mudam a realidade através dos sonhos e do questionamento sobre o que é verdade e mentira, sonho e realidade, ativo e passivo. É louvável um diretor como Christopher Nolan querer dar pitaco numa questão atual e necessária. Mas algumas questões saltam aos olhos.
Tive vários incomodos, mas o principal deles foi o fato de que, em Hollywood, até os sonhos têm que ser espetáculares. Até aí tudo, bem, não tenho problema com sonhos espetaculares. Mas a verdade é que senti sono, e de fato até tirei uma soneca durante o filme. Sempre sinto sono em filmes de ação. Não veria problema num sonho espetacular se essa não fosse uma forma hegemonica, e cada vez mais repetitiva, de se falar da realidade e também de questioná-la.
Isso me fez lembrar outro filme: Matrix. Saí do cinema depois de ver "A Origem" com a nítida sensação de
deja vu. Várias são os links possiveis entre as duas obras. Em ambas há um grupo de "revolucionários" meio confusos à primeira vista; há um discurso da vida como dominação; pretende-se ir além do "real"; há a espetacularização da violência; o mundo alternativo é espetacularizado. Enfim... outros links poderiam ser feitos. O fato é que a distancia entre "Matrix" (1999) e "A Origem" (2010) é de 11 anos. Mas o discurso ainda é o mesmo.
Será a violencia espetacularizada a única forma de levar as "massas" ao cinema? Cada vez mais essa tendência se impõe como hegemõnica. E sua pedagogia parece implicar a desvalorização dos filmes "lentos". Confesso, não gosto muito de filmes "lentos". Mas me incomoda ver a rapidez/agilidade/violencia/espetacular como unica forma de se pensar o cinema.
Voltando a Tropa 2, ao assumir o tom do espetáculo, da rapidez e agilidade da camera e roteiro/montagem/direção, o filme não está muito distante de Matrix. Especialmente porque Nascimento fala infinitas vezes que a situação crítica do RJ se deve ao "sistema" no qual vivemos. Ele não fala de sistema capitalista, mas refere-se à corrupção como "sistema" e o fim da fita mostra pedagogicamente onde atualmente se reproduzem os poderes das milicias e policias corruptas: Brasilia.
Tropa 2 parece querer mostrar que vivemos numa Matrix corrupta e corruptora. Ao apontar o alvo para Brasília, os resposáveis da fita parecem denunciar a necessidade de um "novo" Neo. Nesse sentido não há ruptura com o primeiro Capitão Nascimento. Nesse sentido me decepcionei com este novo Neo, ops, novo Capitão Nasci... ops... Coronel Nascimento. Que mania incessante essa de nascer de novo, e de novo, e de novo. Parece até o "sistema"... ou será essa "a origem" do sistema? ou o sistema de origem?