
Eu bem que tentei.Tava conseguindo ficar longe da discussão sobre Tropa de Elite. Ficar quietinha, sem ter que tomar partido frente ao que tem cheiro de bobagem - que o filme é "de direita", "fascista", porque apresenta o ponto de vista de um capitão do BOPE sobre a violência. Meu argumento era fácil: não tinha visto ainda, ia ver no cinema.
Mas, sucumbi. Assisti no fim de semana. Pirata, na casa de uma amiga.
Resultado: não falei de outra coisa, perdi o sono, achei o filme do cacete, entendi porque as elites não gostaram de tropa...mas não é sobre isto que vou falar aqui.
Como o nosso blog é sobre cultura digital, o que me interessa é retomar uma das importantes discussões, que o Marcelo já tinha tocado em post anterior:pirataria.
Foi no almoço de sábado que resolvi assistir. Tava na rua, com esta tal amiga, que só falava do filme.Ela comprou a cópia no Flamengo, quase na esquina de onde estávamos.Na saída do restaurante, passamos em frente. Ela cumprimenta o vendedor e pergunta se ainda tem.
Ele responde: não estamos dando conta, a procura tá demais.Mas, ainda tem:e mostra uma cópia, passando no DVD player portátil.
Nesta hora, uma voz de mulher pergunta pelo "Tropa 2".A primeira impressão - e pode ser só impressão, mesmo! - é de alguém que o IBGE classifica como de "classe D/E". Que talvez não tenha grana para entrar no São Luiz, que é o cinema do bairro e cobra por volta de 15 pratas pela inteira. O vendedor diz que tem... mas se ela não quer o Tropa 1. Ela diz que já viu, gostou muito, e quer o 2.(Conforme Marcelo já disse, o 2 é o "Notícias de uma guerra particular" do João Moreira Sales - documentário também muito bacana, lembram?).
Não consigo deixar de admirar o interesse dela pelo filme. Bacana! eu comentei na hora, esta discussão sair do mundinho dos formadores de opinião e estar na boca do povo.
Imagine agora se, ao invés de estar sendo vendido em camelô, esta mesma compradora tivesse oportunidade de entrar numa lan-house no Flamengo, baixar o filme pela Internet e assistir lá mesmo, numa cabine. Ou fazer uma cópia pra ver em casa - pela qual ela tivesse pago legalmente à produtora sem a intermediação de piratas.
Isto é um exemplo de aplicação da "cultura do acesso", que a indústria dos games já utiliza há muito tempo. O Luiz Adolfo discute a questão na dissertação dele sobre o game Stars Wars Galaxies: o jogador pode piratear a mídia à vontade, mas para jogar precisa de uma senha - e tem que pagar por ela.
No caso dos filmes, a senha dá acesso ao próprio filme - e se custar menos que o do camelô, porque não pagar por ele?
Não ganho dinheiro com a indústria do entretenimento - só pensando sobre ela na Universidade. Sou contra a pirataria. Mas, me parece tão óbvio que não dá para combatê-la com argumentos morais e sim entendendo que o espírito da cultura digital é o de disseminação da informação de forma barata e veloz.
Mas, neste caso, os cinemas vão deixar de existir?
Bem, para início de conversa, sabemos que um dos problemas de distribuição no Brasil é que o território nacional é grande. Em muitos municípios, não há casas de cinema e os cinéfilos vivem de locação de DVDs.
Por outro lado, tem lan-house em todo lugarejo da nação.
Eu outro dia comentava aqui no blog que, em recente viagem pro Tocantins, vi lan-houses nos lugares mais inusitados. Onde não tem sinal de celular, em aldeia indígena, em tudo quanto é pequena cidade que não tem cinema nem outra diversão, a lan tá presente e é objeto de desejo, principalmente da garotada.
Pois é. Através do acesso pago, legal, o Brasil inteiro estaria vendo Tropa de Elite e o José Padilha, a produtora e os patrocinadores estariam ganhando por isto.
Por outro lado, ir ao cinema ainda é apreciado como um ritual, uma "experiência" diferenciada. Eu mesma tentei ver Tropa no Festival do Rio, não consegui; mas estou doida para estrear no cinema para ver de novo. Aliás, também vale conferir a média de público do filme, para ver se a pirataria atrapalhou a carreira do filme...ou se ajudou.
Não tem jeito. Não somos a favor da pirataria. Nem contra o pagamento de direitos autorais (viu, Fernando Brant!). Mas, tá claro que toda a estratégia de produção e distribuição de cultura que tem que ser repensada. Ou a indústria do entretenimento se liga, ou então, como diria o capitão Nascimento: "Perdeu, perdeu!"

Um dos momentos impagáveis do show aconteceu um pouco mais pro final, entre os vários intervalos entre uma música e outra, quando Tallarico, em toda a sua graça de fanfarrão, virou pra platéia e disse "Bem, eu estava lá atrás no backstage, conversando com duas meninas, e elas me disseram que eu deveria dançar pra vocês". Do nada, Tallarico começa a fazer a famosa Dança do Siri, do Pânico na TV. Ficou chocado com a gritaria generalizada que veio a seguir no Citibank Hall. De tão surpreso, qualquer interrupção era um pretexto para fazer a tal dança que "What the hell. I don´t know what that means, but it´s fun".




