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sábado, 22 de janeiro de 2011

mãe na flip

Aproveitando a (boa) matéria de capa do caderno Prosa & Verso (jornal O Globo) de hoje anunciando a vinda do poeta, romancista, músico (o único deslize da reportagem de Guilherme Freitas é ter omitido a existência da ótima banda Governo) e artista plástico português valter hugo mãe (escrito assim mesmo, com letras minúsculas) na próxima FLIP, bem como o lançamento de dois de seus últimos livros pelas editoras 34 e Cosac & Naify, deixo-vos na tarde deste sábado quente com a ensolarada composição "(Diz) a verdade", de vhm e Paulo Praça, para o álbum "Disco de cabeceira", deste último.

Quem quiser ouvir apenas a canção pode clicar aqui. Mas eu recomendo efusivamente a visualização do videoclipe, logo abaixo. É pop made in Portugal com a bênção de António Variações em seu melhor. Porque felizes são aqueles que têm senso de humor.


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Na pista


Não sei se isso também acontece como vocês, mas às vezes a gente adquire determinado material (com fins de investigação acadêmica ou não), coloca ele na gaveta e só depois de um tempo, quase sempre do nada, o dito cujo cruza o nosso campo de visão e a gente pensa “como eu nunca dei importância para isso antes?”. Fenômeno congênere ocorreu comigo semana passada quando, ao vasculhar a minha estante de álbuns adquiridos durante a estadia em Portugal à procura de algo novo para escutar, deparei-me com o “3 Pistas – volume 2”. O disco já é meio velhinho (foi lançado em 2009), mas só agora sinto-me capaz de tecer algumas considerações sobre ele.


O projeto “3 Pistas” foi idealizado pelo radialista Henrique Amaro como rubrica do programa “Portugália”, da Antena 3. Cada banda convidada tem à sua disposição três pistas de áudio para gravar duas canções – uma de própria lavra e uma versão. O que poderia funcionar como limitação técnica, muito pelo contrário, parece estimular a criatividade dos artistas no sentido de construir releituras minimalistas de determinadas músicas (tarefa na qual algumas bandas se saem melhor do que outras, nomeadamente aquelas que já possuem uma estética lo-fi logo à partida).


Mas o mais bacana do projeto “3 Pistas” fica reservado às versões. Poucas coisas são tão reveladoras dos graus de filiação e parentesco que determinado artista deseja estabelecer com outros músicos, e do modo como esse mesmo artista busca se inserir numa dada linha genealógica do universo pop, quanto uma aparentemente inocente versão (álbuns de duetos também são excelentes objetos nesse sentido). Pena que, para o público brasileiro, boa parte da graça advinda de um disco como o “3 Pistas” dependa de um conhecimento mínimo do quem-é-quem da música portuguesa durante os últimos 40 anos (a exceção que muito nos toca talvez seja a releitura quase fiel – inclusive no sotaque – que JP Simões faz do “Retrato em branco e preto” de Chico Buarque e Tom Jobim). Tiago Guillul gravando “A glória do mundo” dos Heróis do Mar e trazendo para primeiro plano a atmosfera religiosa que já habitava a versão original; Linda Martini pegando na canção “Adeus tristeza” de Fernando Tordo e transformando-a numa toada épica de mutilar o coração; ou ainda Os Pontos Negros revisitando com tintas strokeanas a festivalesca “Esta balada que te dou”, de Armando Gama: as implicações de tais escolhas infelizmente permanecem obscuras pra nós. Restam-nos, a título de consolo, as releituras no âmbito do pop/rock anglófono que nos são muito mais familiares: nesse quesito, o volume 2 do “3 pistas” alterna casamentos quase óbvios (Sean Riley & the Slowriders com Bruce Springsteen, The Vicious Five com AC/DC e, por que não dizer, JP Simões com Chico Buarque) com flertes verdadeiramente surpreendentes (D3ö e Amy Winehouse, Dapunksportif e Billy Idol, Clã e Klaxons).


Minhas faixas favoritas incorrem neste último domínio, aliás. Embora depois que a gente escute a relação faça todo o sentido, dificilmente alguém imaginaria “Where is my mind” do Pixies aparecendo assim quase nua, coberta apenas por um tecladinho Casio manhoso (encontrado na rua, reza a lenda) e pela voz de David Santos como o Noiserv imaginou. E encerrando o álbum de forma majestosa, temos At Freddy’s House despindo “Dancing in the dark” de Bruce Springsteen de qualquer vestígio épico e convertendo-a numa balada de insuspeita melancolia.


***


E como dizia o outro, quando menos se espera, chega o (Pai) Natal.

Um feliz 2011 – também conhecido como o ano da tese – para todos.

E que as Musas Lusas nos protejam.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Totalmente fumado


Algumas das coisas mais bacanas da música portuguesa contemporânea surgiram e continuam surgindo por intermédio de pequenas gravadoras. Nos anos 80, a vertente mais arrojada do rock português não teria existido sem a articulação de companhias discográficas como a Dansa do Som e a Ama Romanta. No contexto atual, veja-se o caso das “primas” Flor Caveira e Amor Fúria, cada uma a seu modo contribuindo para a oxigenação do pop/rock lo-fi made in Portugal. Ou mesmo a Merzbau (de Tiago Sousa), que entre 2005 e 2009 consolidou-se como referência no âmbito da música experimental/exploratória, e por onde Noiserv, B Fachada (pós-FC), Jesus the Misunderstood e Walter Benjamin (!) lançaram CDs e EPs recomendadíssimos. Com o fim da Merzbau, quem parece ter herdado sua reputação é a Mbari, cujo elenco inclui Tó Trips (a metade sem cartola do Dead Combo), Norberto Lobo, Lula Pena, Tigrala e... B Fachada, que num ritmo intenso de dois álbuns por ano, acaba de soltar no mundo mais uma obra (“B Fachada é pra meninos”, um primor de título).

Longe de mim estar aqui aproveitando este espaço para fazer uma defesa dos pequenos contra os grandes, do “underground” contra o “mainstream” ou coisa que o valha, até porque a gente tá careca de saber que os territórios são menos demarcados do que se supõe. Contudo, me parece que a relação menos tensa que tais empresas desenvolvem com determinados imperativos de mercado pode, em alguns casos, fomentar estudos de caso interessantes.


Imerso que estava no universo da Flor Caveira e família, confesso que nunca dei a devida atenção à portuense Meifumado. Até que outro dia comecei a receber umas newsletters da gravadora anunciando o lançamento de mais uma banda nova – chamada Guta Naki – e resolvi fazer justiça à malta. A editora discográfica, que faz 7 anos em 2011, vem se destacando pelo ecletismo de sua proposta e pelo caráter de ponta de seus lançamentos. Enquanto na FC e na Amor Fúria o conceito estético que reúne os artistas a elas vinculados parece algo evidente (por exemplo, no diálogo com o imaginário tradicional ou na invocação de certas marcas de portugalidade, e em que se pese a diferença entre, digamos, Tiago Guillul, João Coração e Os Golpes), no caso da Meifumado o buraco é muito mais embaixo. Não há nada, a princípio, que aproxime os trabalhos de Mc Jihad, Abstrat SirQ (os nomes são um capítulo à parte) ou Paco Hunter a não ser uma certa tendência ao minimalismo mutante e a multiplicidade de propostas. Mesmo nomes como Paulo Zé Pimenta, um dos fundadores da Meifumado, parecem assumir diversas personalidades dependendo do projeto em que estão engajados.


Conheci a Meifumado meio por acaso, ao esbarrar num disco espertamente intitulado “5 anos, 13 merdas” enquanto garimpava CDs pelos sebos de Lisboa ano passado. De cara, a tosquíssima arte da capa chamou a minha atenção, e passado o estranhamento sonoro inicial, logo logo tornei-me fã de algumas faixas, como “Foz girl” (PZ) e “Pensacola” (Paco Hunter). Vasculhando no site da gravadora para escrever este post, surpreendi-me ainda mais. Primeiro, pela varidade do “catálogo”. Em um segundo momento, pelas estratégias que a Meifumado utiliza para fazer circular tão vasta produção. E aí não consegui evitar as comparações com o caso Flor Caveira, que aqui seguem sem qualquer juízo de valor, vale ressaltar – apenas dão conta de propostas diferentes. Lembro que, ao adquirir os discos da Flor Caveira, havia me surpreendido com o esquema mezzo do-it-yourself mezzo artesanal da editora: CD-Rs com o nome do disco escrito à mão e que não raro travavam nos aparelhos leitores, mas que ao mesmo tempo vinham embalados em capas cuidadosamente elaboradas do ponto de vista do design gráfico. No caso da Meifumado, depois de escutar as faixas em streaming no próprio site da gravadora (coisa que recomendo efusivamente, sobretudo se a sua parada são as sonoridades eletrônicas), você tanto pode adquirir o CD, o MP3 ou efetuar o download de faixas isoladas por módicos 0,99 de euro. Como se não bastasse, ainda é possível assistir a uma série de vídeos, cada um mais criativo do que o outro, só perdendo em termos de arrojo para as criações de Paulo Furtado na persona do Legendary Tigerman.


Ao visitarem o site da Meifumado, não deixem de clicar no link “Info”. É onde vocês podem compartilhar da missão da gravadora, exposta num português mais-claro-impossível:


“A Meifumado continua a cagar na precaução...

Com o mesmo utópico objectivo:
a criação e edição de boa música (conceito original, não?)

Todas as convenções implícitas de uma editora são orgulhosamente ignoradas.

Venham ver o barco a afundar !”


Afundemos todos juntos, ora pois. E com muito gosto.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Melhores do ano... do lado de lá!

Hora de botar o Soulseek pra trabalhar, malta brasileira interessada em descobrir o que há de mais bacana na nova música pop feita em Portugal – e aqui passamos longe da “renovação” defendida por aquela infâme matéria do Bom dia, Brasil, vale destacar. A revista Blitz acabou de divulgar a sua tradicional listinha de Melhores do Ano, da qual participaram Ana Patrícia Silva, André Gomes, António Coelho, Cláudia Marques, José Miguel Rodrigues, Lia Pereira, Luís Guerra, Mário Rui Vieira, Miguel Cadete, Miguel Cunha, Pedro Barbosa da Silva, Pedro Dias da Silva, Ricardo Braz Frade, Ricardo Raínho, Rodrigo Madeira, Rui Miguel Abreu e Theo Thornton, jornalistas e colaboradores regulares da publicação.

Do 30º ao primeiríssimo lugar, que é pra aumentar o suspense...

30. Long way to Alaska – Eastriver

29. Francisco Ribeiro – Desiderata ou a Junção do Bem

28. Peixe:Avião – Madrugada

27. Linda Martini – Casa ocupada

26. Tiago Guillul – V

25. Carlos do Carmo & Bernardo Sassetti – idem

24. Tiago Bettencourt & Mantha – Em fuga

23. Carlos Barreto Lokomotiv – Labirintos

22. Bunnyranch – If you’ve missed the last train

21. Bernardo Sassetti Trio – Motion

20. Storm Legion – Desolation Angels

19. Pedro Abrunhosa e Comitê Caviar – Longe

18. More than a thousand – Make friends and enemies

17. Tigrala – Tigrala

16. The Poppers – Up with lust

15. Soaked Lamb – Hats & chairs

14. Rita Redshoes – Lights & darks

13. Mão Morta – Pesadelo em peluche

12. David Fonseca – Between waves

11. Nuno Prata – Deve haver

10. Paus – É uma água

09. Corações de Atum – Romance/Hardcore

08. Galandum Galundaina – Senhor Galandum

07. Lula Pena – Troubadour

06. Pop Dell’Arte – Contra mundum

05. Orelha negra – Orelha negra

04. B Fachada – Há festa na moradia

03. António Zambujo – Guia

02. Deolinda – Dois selos e um carimbo

01. Camané – Do amor e dos dias

Uma lista que tem o fadista Camané como cabeça-de-cartaz tinha tudo para ser previsível, o que felizmente não ocorre. Há, claro, os suspeitos de costume – David Fonseca, Mão Morta, Zambujo – mas no geral a lista da Blitz apresenta algumas boas surpresas. Primeiro, pelo regresso de alguns nomes que ou andavam sumidos (caso dos ge-ni-ais Pop Dell’Arte) ou não atravessavam uma maré muito favorável junto à crítica e ao público (nunca imaginei que Pedro Abrunhosa voltaria a ser levado a sério após um último disco algo falhado). Segundo, pela confirmação de bandas e artistas cujos primeiros álbuns haviam apontado caminhos promissores (num nível mais massivo, claro, o Deolinda, mas também Rita Redshoes, Peixe:Avião, Linda Martini e Soaked Lamb, que tem um adorável álbum de estreia). Terceiro, pela ausência quase total de nomes vinculados à Flor Caveira/ Amor Fúria, após um 2009 glorioso: apenas o “V” de Tiago Guillul frequenta a lista da Blitz, e mesmo assim um longinquo vigésimo sexto lugar. Nesse sentido, estranho a ausência do “Pequeno almoço continental” dos Pontos Negros, que merecia figurar ao lado do Soaked Lamb e dos Peixe:Avião no quesito “promessas cumpridas”. No mais, é saudar a estreia do Tigrala – banda formada pelo virtuoso guitarrista Norberto Lobo, que ao vivo leva um som lindíssimo – e o regresso de Lula Pena ao estúdio. A apresentação que reuniu o trio e a trovadora no Lisboa Mistura do ano passado foi qualquer coisa para o meu miocárdio.

A fotogaleria da lista pode ser conferida na íntegra aqui. Agora falta só aguardar a lista do Público, outra que também merece ser levada em conta. E como da última vez em que expressei minha opinião sobre listas choveram comentários de vozes dissonantes, ora muito bem, quem começa?