por Gustavo Alonso

Há cerca de duas semanas, no dia 28 de novembro, aconteceu o primeiro show da dupla Victor e Leo em Niteroi. Foi no clube Rio Cricket, em Icarai. Não pude perder essa oportunidade de ir no show da dupla, visto que em diversas oportunidades escrevi sobre a atual musica “sertaneja universitária” e sobre o trabalho dos rapazes neste blog. (Veja posts anteriores sobre o sertanejo universitario:
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Fiquei sabendo do show através de um dos inúmeros cartazes espalhados pela cidade. O cartaz e o flyer do show tinha como chamariz os seguintes dizeres: "um evento para toda familia". Apesar de toda família niteroiense ter sido convidada, conheço vários niteroienses que sequer os perceberam e/ou estão pouco se lixando para saber quem é Victor e Leo.
Entrei no
site dos rapazes e me impressionei com a quantidade mensal de shows. O mais incrível é que eles alternavam shows no Sul do Brasil e no Sudeste. Por exemplo: dia 25 eles estavam em Ribeirão Preto/SP; no dia 27 em Esteio/RS; no dia 28 em Niteroi. Me perguntei: como isso é possível? Mais tarde descobri a resposta. A dupla tem dois palcos e estruturas que viajam pelo Brasil. Enquanto a estrutura que atualmente esta no Sudeste viaja e se realoca em outro lugar eles fazem show no Sul do Brasil. Isso permite uma intensa agenda de shows e a maximização do tempo. Por outro lado, se os percursos dos palcos “diminui”, as milhagens aéreas da banda cresce, a medida que é forçada a cortar o Brasil de sul a norte em busca de palcos distintos e habilitados. Trata-se de uma estrutura bastante profissionalizada.
Percebe-se isso claramente quando se vai a um show destes. Mesmo consciente disso, me surpreendi. Parecia que eu estava entrando num show do Rock in Rio. Das roletas aos mictórios, das tendas de cerveja ao palco, tudo lembrava muito os grandes shows internacionais que já vi por aqui no Rio. O show, diga-se de passagem, é patrocinado pela cerveja Itaipava, que tem exclusividade na venda de álcool. Havia uma área VIP, mictórios suficientes, barracas bem organizadas e sempre livres. Comprava-se cerveja com tickets obtidos em “containers” também sem fila. O preço da cerveja era amargo: 4 reais a lata! Fiquei com a sensação de que, se essa estrutura me surpreendeu, imagine o quanto não deve ser impactante para alguém do interior? Ou não...
De qualquer forma é importante que se diga que o show não lotou! De fato, os dois campos de futebol do Rio Cricket são gigantescos. Não sei quantas pessoas caberiam là, mas eu chutaria que o show teve metade de sua lotação máxima. Estava confortável. Mesmo assim a impressão era de que estava relativamente cheio, tamanha a quantidade de pessoas que foram ver os mineiros.
O show não era barato, paguei 40 reais por uma meia entrada masculina.² Em relação a classe social presente, claro, notei pessoas de classe média em sua maioria, brancas, algumas poucas (pouquíssimas, mas já foi o suficiente para me espantar!) vestidas de “cowboy”, botas e chapéus. Também havia algumas poucas aparentemente de classe social mais baixa, mas nada que me chamasse a atenção de forma decisiva. Com certeza o preço do ingresso pesou. Mas, mais do que qualquer valor monetário, o que pesou para a relativa baixa lotação do show foi o fato de Victor e Leo ainda serem pouco conhecidos no Rio de Janeiro.
Já escrevi neste blog sobre como o Rio de Janeiro ainda é visto como um dos poucos bastiões da resistência ao atual sertanejo universitário que, desde do inicio da década vem tomando o Brasil, tomando palcos que antes tocavam o axé e outros ritmos populares. O Rio é um dos poucos lugares onde as pessoas encontram dificuldade de relacionar a musica a determinados artistas; poucos são os que conseguem diferenciar Victor e Leo de Fernando e Sorocaba, por exemplo; as rádios cariocas ainda tocam muito timidamente o gênero musical do sertão.
Vamos ao show propriamente dito. Confesso que estava meio alterado, pois o show aconteceu depois de um final de semana (domingo) cheio de atividades etílicas. Apesar de neste final de ano os rapazes terem lançado um novo disco (“Boa sorte pra você”, sobre o qual já escrevi
aqui) a turnê ainda se chamava “Ao vivo e em cores”, nome do disco e DVD ao vivo anteriores à “Boa sorte...”. Ou seja, parece que os rapazes lançaram "meio que mais ou menos" o novo CD. No show cantaram apenas a canção titulo do novo disco e se esqueceram do resto do novo repertorio. Foi uma pena. Mas senti que esta atitude foi voluntaria, afinal eles demonstram-se muito preocupados em “conquistar” o Rio de Janeiro. Nesse sentido, cantar musicas que sejam “conhecidas” deste publico pouco habituado ao sertanejo é essencial. Daí a preferência pelo repertorio já consagrado no dois discos “ao vivo” da dupla.
Durante o show me diverti bastante, mas de certa forma me decepcionei. Menos com o concerto, a estrutura ou a atitude dos rapazes e mais com a participação tímida do publico. Esperava um atitude menos recatada da platéia, que estava bastante tímida, não conhecia as canções menos famosas e pouquíssimas vezes cantou junto com Leo. Houve momentos que ficou meio constrangedor perceber que o publico não conhecia as letras, apesar dos mineiros tentarem fazer o publico acompanha-los. Por isso fiquei um pouco frustrado. Talvez por que estivesse muito influenciado pelos vídeos vistos via Youtube das apresentações “ao vivo” da dupla, nas quais o publico canta TODAS as musicas, dos antigos sucessos às novas canções. A todo momento ficava claro que eu estava no Rio de Janeiro e não em qualquer cidade do interior do Brasil. Talvez por isso tudo não tenha havido o tradicional ‘bis’. Nem eles ameaçaram fazê-lo, nem o publico exigiu. Foi estranho. Isso não impediu, no entanto, que Victor declarasse ao final do show: “Niteroi: vocês entendem de sertanejo!”.
De fato em diversos momentos Victor e Leo deixam claro essa intenção de romper a barreira estética carioca. Embora já tenham feito shows até na Marina da Gloria (em 24/07/2010), eles raramente se apresentam aqui. No programa
“Estrelas” de 28 de novembro de 2009, entrevistados por Angélica em um saveiro no meio da Baia de Guanabara, Leo demarcou esse pouco conhecimento da cidade: “ é engraçado... o básico do ciclo turistico do Rio a gente não conhece ainda... o Pão de Açucar, o bondinho, o Cristo...”. Essa tentativa de se aproximar do Rio de Janeiro vem, nas falas dos irmãos, junto com a tentativa de se legitimar esteticamente como gênero. Afinal, deslocar o Rio de Janeiro como epicentro da cultura nacional é compreensível. Foi no Rio que se construiu o imaginário do samba enquanto símbolo do Brasil. Para ser legitimado enquanto gênero nacional é preciso conquistar esta praça. No entanto, este talvez seja o território mais duro de se conquistar, justamente porque a sociedade carioca resite ser deslocada do ultimo quinhão que resta a essa antiga capital política e econômica, agora reduzida a capital cultural. Mas por quanto tempo ainda serà o Rio a capital cultural brasileira? O axé baiano, o sertanejo, o pagode mineiro, goiano e paulista da década de 1990 jà haviam balançado a preponderância carioca. As investidas de Victor e Leo parecem apontar a continuação desta desestabilização do Rio de Janeiro.
Na ultima premiação do
prêmio Multishow de 2010, quando ganharam o titulo de dupla sertaneja do ano, Victor proferiu um discurso para os “resistentes” à musica sertaneja, muitos dos quais cariocas:
“Dentro de um espaço longo de tempo o pessoal comentou sobre do preconceito [acerca] da musica sertaneja, tida por muito como chula... o breganejo... como dizem. Em todos os estilos o que [hà] é a essência, e se houver verdade, as palavras não vão precisar ser ditas. A musica pode ser ouvida e vai dizer muito mais que palavras”.
Logo após a vitoria, Leo escreveu no site da dupla: “Muito mais que uma vitória da dupla Victor e Leo, foi o grande passo dado pela música brasileira, através deste prêmio, que abre espaço e reconhece uma cultura com tanta verdade, raiz e história, como a música sertaneja, que vem do interior do Brasil, especialmente das áreas rurais, e que ganha cada vez mais espaço nos grandes centros. Isso é que precisa ser comemorado e reconhecido. Parabéns aos organizadores do Prêmio por terem aberto este espaço e quebrado uma barreira que está no fim, mas que ainda existe.”
Se em alguns momentos a dupla parece afinar seu discurso às hostes sertanejas, em outros parece querer furar a barreira resistente se afirmando para além da da musica rural. Victor
expressou assim essa problemática: “Qualquer pessoa que monte uma dupla no Brasil é sertanejo. Por quê? Não pode ter um estilo próprio? Você não pode ter um estilo próprio? Se você é uma dupla vc é tachado de dupla sertaneja. Eu acho que não é por ai! Até porque a maioria das duplas que são tachadas de sertanejas, não fazem, há muito tempo, uma musica sertaneja sequer!”
Como será que Victor e Leo serão lidos caso consigam de fato tomar o Rio de Janeiro na mesma proporção que tomaram o Brasil? Há um processo, sobre o qual já escrevi
aqui, que parece ver na dupla uma aproximação com a MPB. Serão eles lidos como MPB no futuro? Serão vistos como sertanejos? Sertanojos? Breganejo? Sertanejo universitário? Caipiras? Raiz?
Não sei. Constato apenas que as disputas pelas categorias de legimidade estão em intensa disputa. Ainda não esta claro quais categorias serão vitoriosas, embora haja alguns sinais bastante contundentes. Como diria o romano Julio Cesar: “Alea jacta est” ou “a sorte esta lançada”!
Notas:
² Lista de preços do show em Niteroi: Pista Feminina Meia: R$ 30,00; Camarote Feminino Meia: R$ 100,00; Pista Feminina Inteira: R$60,00; Camarote Feminino Inteira: R$200,00; Pista Masculina Meia: R$40,00; Camarote Masculino Meia: R$120,00; Pista Masculina Inteira: R$ 80,00; Camarote Masculino Inteira: R$ 240,00.