
A expressão “País do Carnaval” vem sendo utilizada durante décadas para definir o caráter festivo e acolhedor do povo brasileiro. Uma propaganda poderosa que de boca em boca, através da literatura, das lentes e alto-falantes dos meios de comunicação foi capaz de atrair os olhares curiosos do mundo para os nossos festejos de rua. Mas, "o Brasil não é o 'país do carnaval', como se lê no título do romance de Jorge Amado e sim um país de 'muitos carnavais', como se ouve na canção de Caetano Veloso" (Risério, 1995, p. 90). Os festejos que ocorrem nas capitais do Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia, são três das formas mais consagradas e distintas de se fazer carnaval. Enquanto a folia carioca está apoiada nos desfiles luxuosos das escolas de samba, caracterizando-se, especialmente, pela sua condição de espetáculo e de competição, o carnaval pernambucano acontece ao som do frevo e está mais relacionado as idéias de tradição e participação popular. “O carnaval baiano, por sua vez, é reconhecidamente uma festa também de grande participação popular, embora muito mais afeita a hibridações e ao trânsito entre tradições e inovações do que, por exemplo, a folia carnavalesca pernambucana” (MIGUEZ, 2008, p. 97). Argumento esse de fácil comprovação quando se pensa no papel desempenhado pelo trio elétrico de Dodô e Osmar a partir da década de 1950, uma parafernália tecnológica que nas palavras de Fred de Góes (1982) modernizou o carnaval, introduzindo as guitarras elétricas e reconfigurando a forma de se brincar carnaval.
Essas diferenças entre as folias carioca, baiana e pernambucana são culturais, mas também econômicas, já que cada uma das manifestações requer uma estratégia diferenciada, uma forma particular de tornar o evento rentável. Patrocínio, comercialização de fantasias e bebidas, turismo e midiatização são alguns dos setores que fazem do carnaval uma indústria do entretenimento multimilionária.
Nesse sentido, volto minhas atenções nesse post para o carnaval do Rio de Janeiro, não aquele protagonizado pelas escolas de samba, mas sim o que ocorre nas ruas, com a participação de blocos e que renasceu com força total nos últimos anos, tornando-se uma segunda opção para brincar a festa de Momo. O Rio hoje conta com um carnaval paralelo ao que ocorre no sambódromo e que é caracterizado por uma estrutura reconhecidamente mais popular, que parece atrair um público mais jovem, que é embalado por samba, mas também por outros gêneros musicais e que, portanto, possui características próprias que merecem ser investigadas pontualmente. Aqui, me interessa o crescimento desse circuito e a disputa simbólica relacionada aos gêneros musicais e aos modelos de negócio que começam a ser testados no evento.
Em 2009, quando o carnaval de rua carioca já havia se tornado um grande sucesso, reunindo pessoas no centro da cidade e nas orlas ao som de bandas e blocos como o Afro-reggae, Monobloco, Banda de Ipanema, Cordão do Bola Preta, Simpatia É Quase Amor e tantos outros, a prefeitura decidiu abrir edital para selecionar o patrocinador oficial do evento. Ao vencer o edital, a cervejaria Antarctica ficou responsável por distribuir banheiros químicos e sinalizações pelos circuitos da festa, além de produzir panfletos com a programação. Em troca a empresa pôde explorar o carnaval para fortalecer sua marca diante dos foliões. Entendo esse acordo como o pontapé inicial para a profissionalização do carnaval de rua no Rio de Janeiro, um momento em que o evento é consagrado, ao mesmo tempo em que se torna necessário uma maior ingerência, despertando o interesse das entidades privadas, atraídas pelas possibilidades de geração de lucros. Em 2010 divulguei aqui no blog o evento “Desenrolando a Serpentina” em que vários setores envolvidos com o carnaval se reuniram para discutir questões relativas a organização da festa para 2011.
Partindo dessa busca por um modelo de organização para o carnaval de rua do Rio, gostaria de discutir a suposta declaração de Cláudia Leitte (cantora de axé music) que segundo o blog Casos da Cidade do Jornal Extra, do site “Diário do Rio” e de outros canais na internet pretende ainda em 2011 trazer para o carnaval de rua do Rio o seu bloco. Suposta porque apesar de ter gerado polêmica entre os foliões mais conservadores, não consegui confirmar essa informação no site oficial da cantora. De qualquer forma, considero interessante que a mais remota possibilidade de uma cantora de axé music se apresentar no carnaval carioca tenha gerado tamanha resistência:
“Mas acho que o desejo de Leite não deve se materializar. É que ela quer simplesmente trazer o estilo de carnaval da Bahia para o Rio de Janeiro e, Claudinha, não me leve a mal, isso não rola! Só um não-carioca, sem um pingo de consciência, vai pagar R$ 500,00 por um abadá no Papa (trio elétrico dela)! Tendo centenas de blocos desfilando… Espero que a Prefeitura do Rio não aceite essa bahianização do carnaval carioca”.
Essa “baianização” do carnaval carioca pode ser identificada em dois níveis: o primeiro deles é a capitalização da festa, ou seja, a transformação das entidades carnavalescas (blocos) em empresas de entretenimento que comercializam suas fantasias para os foliões. Esse aspecto é uma regra no carnaval baiano, já gerou diversas pesquisas acadêmicas e apesar de ser reconhecidamente uma forma de exclusão social e privatização do espaço público é ainda hoje o elemento central do carnaval de Salvador, a única forma de garantir que tantos artistas de peso estejam presente no evento. Afinal, a prefeitura não conseguiria por conta própria arcar com as os elevados cachês de artistas como Ivete Sangalo, Daniela Mercury e de mais uma centena de artistas que se apresentam no carnaval. Nesse sentido, é a profissionalização da festa que pode acabar com o genuíno carnaval carioca. Profissionalização essa que já começa a ocorrer: o bloco de Carlinhos de Jesus, por exemplo, foi criticado por ter feito uso de cordas de isolamento e abadás.
Outra forma de se interpretar tal “baianização” é a incorporação do gênero axé music no carnaval carioca. Na sessão de comentários do site "Diários do rio" vários internautas apontaram a execução da música baiana durante a festa como uma forma de descaracterização cultural. Em 2009 o Bloco “A Coisa tá preta” de Preta Gil (filha de Gilberto Gil) fez sua estréia no carnaval de rua do Rio. O bloco desfilou sem cordas na praia de Ipanema e arrastou milhares de foliões ao som de sambas e de canções de axé music. Apesar do sucesso do projeto, presenciei a manifestação solitária de um folião que berrava ao lado do trio: “Preta Gil vai se f..., o Rio de Janeiro não precisa de você!”. Depois de ser vaiado, o manifestante abandonou o desfile. Esse evento revela que mesmo no carnaval, quando se fala de uma suspensão das leis e da inversão de papéis sociais, a legitimação continua sendo necessária: Quem pode se apresentar no carnaval? Quais músicas podem ou devem ser executadas? É legítimo tocar axé music no carnaval do Rio? E mesmo na Bahia, famosa pela diversidade musical, vale tudo? Daniela Mercury já foi vaiada ao entrar na avenida tocando música eletrônica. Hoje existem meia dúzia de blocos eletrônicos que chegam a contratar DJs internacionais, além dos blocos de samba, forró, reggae e rock que se misturam aos já tradicionais blocos de axé.
Entendo que essa tensão entre a tradição e o novo está relacionada diretamente aos gêneros musicais executados em cada festa. Se o axé tocado em Salvador é um gênero mais propício ao hibridismo musical, se aproximando de outros estilos sem nenhuma (ou pouca) preocupação com a conservação de suas raízes, o samba, carro-chefe do carnaval carioca, por sua vez, possui uma cena musical mais ligada tradição e que, portanto, vê a incorporação de elementos “estrangeiros” como uma forma de diluição de sua identidade cultural.
Bem, o carnaval de 2011 está próximo e talvez tenhamos mais pistas se o carnaval de rua carioca vai caminhar mais para a ortodoxia do carnaval pernambucano ou para a “diversidade neoliberal” do carnaval de Salvador.


