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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Cultura da Convergência e Henry Jenkins na nova Contracampo

Para os interessados nos temas relacionados à cultura da convergência e narrativas transmidiáticas, aí vai a dica: Está no ar a nova edição da Revista Contracampo, do PPGCOM-UFF, com um dossiê dedicado ao assunto. Além de artigos sobre o tema, essa edição é puxada por uma entrevista exclusiva com Henry Jenkins, autor de Cultura da Convergência (2008), com diversas questões desdobradas das levantadas por Jenkins neste livro, bem como algumas outras interessantes (o reflexo da cultura da convergência e seu viès participativo no processo educacional, nas transformações necessárias na relação entre aluno e professor, por exemplo).

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Pra aliviar a tensão

Como muita gente, eu tive uma semana excepcionalmente estressante. Por um lado foi ótimo: perdi um quilo inteiro em quatro dias e agora estou abaixo do meu peso, ou seja, preciso ganhar dois quilos!!! Por outro lado, meu cérebro está cansado demais e, por isso, só consegui lembrar de uma coisa pra gente discutir no post de hoje: a maneira como a cultura participativa transforma o sentido dos objetos culturais.


Há uma corrente na internet que usa os trailers - cuja linguagem é secular e já foi apreendida por todos - para transformar os sentidos dos filmes. Comédias viram filmes de terror, dramas viram comédias e por aí vai. Olha o que um usuário da internet conseguiu fazer com o filme Mary Poppins, um clássico infantil de 1964:





Genial hein? Sem usar nenhuma imagem que não fosse do filme, Mary Poppins se transformou numa bruxa que amedronta criancinhas. Esse vídeo tem mais de 10 milhões de visualizações no YouTube.


Outro clássico do gênero é o hilário "Brokeback to the Future", que transforma os protagonistas do clássico filme De Volta para o Futuro num casal homossexual que sofre por amor:


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sampler e Política

Por Rafael Dupim Souza

Nas noites de terça-feira, a TV Brasil exibe a série Mama África, uma coletânea de documentários sobre o continente. Em uma dessas noites assisti a “The Lions Trail”, traduzido como “M.Bude procurando o Leão”. Além de um emocionante passeio pelas sonoridades africanas, o filme relata os fatos por trás da musica "The Lion Sleeps Tonight", mundialmente conhecida como tema da animação “Rei Leão”, da Disney.

Como mostra o filme, essa música foi gravada pela primeira vez em 1939 por um cantor sul-africano, da etnia Zulu, chamado Solomon Linda. Mbube, que significa leão em Zulu, era o nome orginal da canção. Um sucesso absoluto na África do Sul, que vendeu mais de cem mil cópias na década de 30.

Dez anos depois, em 1949, a música chegou aos ouvidos do cantor popular americano Peter Seeger. Em seguida, Seeger regrava a música, tomando o cuidado de mudar algumas notas e o nome da canção. Para registrá-la, se vale de uma velha malandragem do music business escolhendo o pseudônimo de Paul Campbell. O que segue é a história de um super hit, que já arrecadou até hoje mais de 15 milhões de dólares em direitos autorais. O documentaário monta em paralelo imagens de Peter Seeger explicando na televisão a “inspiração” na música original e registros recentes da terra natal de Solomon Linda. O cantor morrera em 1962, miserável, sem parte na fortuna de Mbude.

Por coincidência, ou sincronicidade, esse documentário me apareceu nos mesmos dias em que lia um texto sobre a economia em torno da grande circulação de samples nas redes de informação. Foi o suficiente para relacionar o filme ao texto e me despertar para uma questão política bastante contundente à música na atualidade. É dessa questão que tratarei no texto de estréia no querido LabCult.

[Para registro, samples são amostras de sons (fragmentos de músicas) que na era digital tomaram grande importância por serem a base para a composição de músicas a partir de colagens (remixes, mash ups, etc).]

Há algum tempo, um dos sonhos de consumo de músicos e amadores que querem experimentar sonoridades é um sampler, equipamento que armazena amostras de som na memória e permite ao controlador acioná-las em loopings. Com esse equipamento é possível também aplicar os mais variados efeitos ao sample. O resultado é uma série de novas possibilidades de composição a partir de qualquer som previamente programado.

Como apresenta Paul Thebergé no artigo “Ethinic Sounds – the Economy and Discourse of World Music Sampling”, para fomentar esses aparelhos uma grande rede de músicos, produtores e programadores se articula em torno do comércio de sonoridades. Um dos focos principais desse mercado é a exploração de regiões remotas do globo em busca de sons e instrumentos exóticos.

Munidos de gravadores, esses novos bandeirantes captam sons tribais, folclóricos, etc. e os organizam em bancos de samples. Esses acervos são reunidos em pacotes e colocados à venda como matéria prima para composição de trilhas sonoras, músicas de pista, música ambiente, etc. O preço de um pacote de amostras do extremo oriente, por exemplo, chega a 750 dólares. Já o som de uma única flauta peruana pode sair por 2,95 dólares.

Provavelmente você já escutou uma cítara Indiana, um tambor africano ou um cantor árabe e ficou se perguntando de quem era aquela música. Grandes chances de ser um som selecionado entre as opções de um sequenciador operado por um europeu ou americano.

Como mostra Thebergé, a transfomação de sonoridades em mercadorias é legitimada por uma rede discursiva que confere valor e autenticidade a esses sons a partir de sua origem étnica. Por outro lado, o discurso procura embaçar a fonte original do som, que é o trabalho do músico de um país periférico que permitiu tal gravação.

Mas a questão não se encerra na disputa por direitos autorais. Quando o artista local não é creditado pelo som que deu origem ao sample é como se sua expressão não fosse considerada música. Para esse mercado, o instrumento tocado por um músico de origem diversa é quase como o canto de um pássaro. Uma expressão primitiva que se transforma em música somente quando reinserida no contexto da música ocidental. Sendo assim, não se considera necessário dar qualquer crédito ao autor do som. Como no caso Mbude, nada é repartido.

Como conlcui Thebergé, esse é um problema central da passagem da schizophonia (termo de Murray Shaffer que conceitua a separação do som de sua fonte, algo só possível com as técnicas de gravação e reprodução) para o que Steven Feld chama de schismogenesis. Essa palavra, ainda mais estranha, se refere à progressiva diferenciação e interação entre as culturas do mundo, que é intensificada pelos interesse eonômicos e industriais do mercado global.

Mbude e o mercado de samples ilustram um impasse. Cada vez mais a diversidade de culturas e modos de vida é representada nos fluxos informacionais, no entato, essas representações nao deixam de manter exlcuídas, da partilha do capital econômico e cultural, as vastas populações que deram origem a essas manifestações.





Clássico modelo de sampler da marca AKAI






segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

YouTube revolucionário

Nestas quentes férias cariocas (ontem a sensação térmica chegou a inacreditáveis 45 graus...), estou no último capítulo de um livrinho muito útil para pesquisadores/amantes de novas tecnologias, audiovisual e música: YouTube: a revolução digital, de Jean Burgess e Joshua Green.

Pois é, um livro sobre o YouTube. Seguindo uma corrente liderada por Henry Jenkins, o mago contemporâneo da convergência cultural, o livro aborda o YouTube sob a perspectiva da cultura participativa, uma característica fundamental do site para a qual eu ainda não tinha dado a devida importância. Além de analisar o modelo de negócios (essa parte achei meio chatinha) e a história de surgimento do YouTube, o livro conta interessantes casos de pessoas comuns que através de seus canais, comentários, videos amadores, vlogs e muito mais, estão inseridas em uma imensa e complexa rede social que tem a sua própria lógica. Isso é denominado pelo autores de "Youtubidade" (adooro neologismos, hehe).

Uma das histórias fofíssimas se refere ao usuário "geriatric1927", um viúvo britânico de 82 anos que faz experimentações simples usando o Windows Movie Maker e comentários pessoais sobre tudo em seu canal. Seu primeiro vídeo, denomidado humildemente de "First Try" foi postado em 2006 e até agora tem mais de 2,8 milhões de acessos. Seu canal conta com mais de 51 mil assinantes e vem crescendo constantemente. Peter, o dono do canal, já fez até gora 222 vídeos. Quem não se apaixona por um velhinho simpático, modesto e tecnológico?


O vídeo é tosco mas arrebatou corações ao redor do mundo. Inclusive o meu :-)

Além de história muito interessantes com esta, o livro conta com um artigo de Henry Jenkins ("O que aconteceu antes do YouTube?". O texto notoriamente segue o pensamento de Raymond Williams ao tentar mostrar a necessidade social que já estava patente no mundo todo antes do nascimento do site) e um artigo de John Hartley sobre YouTube e alfabetização digital (este é o último capítulo. Ainda não li).

Enfim, uma leitura agradável para dias quentes, quentes, quentes.