Por Rafael Dupim Souza
Nas noites de terça-feira, a TV Brasil exibe a série Mama África, uma coletânea de documentários sobre o continente. Em uma dessas noites assisti a “The Lions Trail”, traduzido como “M.Bude procurando o Leão”. Além de um emocionante passeio pelas sonoridades africanas, o filme relata os fatos por trás da musica "The Lion Sleeps Tonight", mundialmente conhecida como tema da animação “Rei Leão”, da Disney.
Como mostra o filme, essa música foi gravada pela primeira vez em 1939 por um cantor sul-africano, da etnia Zulu, chamado Solomon Linda. Mbube, que significa leão em Zulu, era o nome orginal da canção. Um sucesso absoluto na África do Sul, que vendeu mais de cem mil cópias na década de 30.
Dez anos depois, em 1949, a música chegou aos ouvidos do cantor popular americano Peter Seeger. Em seguida, Seeger regrava a música, tomando o cuidado de mudar algumas notas e o nome da canção. Para registrá-la, se vale de uma velha malandragem do music business escolhendo o pseudônimo de Paul Campbell. O que segue é a história de um super hit, que já arrecadou até hoje mais de 15 milhões de dólares em direitos autorais. O documentaário monta em paralelo imagens de Peter Seeger explicando na televisão a “inspiração” na música original e registros recentes da terra natal de Solomon Linda. O cantor morrera em 1962, miserável, sem parte na fortuna de Mbude.
Por coincidência, ou sincronicidade, esse documentário me apareceu nos mesmos dias em que lia um texto sobre a economia em torno da grande circulação de samples nas redes de informação. Foi o suficiente para relacionar o filme ao texto e me despertar para uma questão política bastante contundente à música na atualidade. É dessa questão que tratarei no texto de estréia no querido LabCult.
[Para registro, samples são amostras de sons (fragmentos de músicas) que na era digital tomaram grande importância por serem a base para a composição de músicas a partir de colagens (remixes, mash ups, etc).]
Há algum tempo, um dos sonhos de consumo de músicos e amadores que querem experimentar sonoridades é um sampler, equipamento que armazena amostras de som na memória e permite ao controlador acioná-las em loopings. Com esse equipamento é possível também aplicar os mais variados efeitos ao sample. O resultado é uma série de novas possibilidades de composição a partir de qualquer som previamente programado.
Como apresenta Paul Thebergé no artigo “Ethinic Sounds – the Economy and Discourse of World Music Sampling”, para fomentar esses aparelhos uma grande rede de músicos, produtores e programadores se articula em torno do comércio de sonoridades. Um dos focos principais desse mercado é a exploração de regiões remotas do globo em busca de sons e instrumentos exóticos.
Munidos de gravadores, esses novos bandeirantes captam sons tribais, folclóricos, etc. e os organizam em bancos de samples. Esses acervos são reunidos em pacotes e colocados à venda como matéria prima para composição de trilhas sonoras, músicas de pista, música ambiente, etc. O preço de um pacote de amostras do extremo oriente, por exemplo, chega a 750 dólares. Já o som de uma única flauta peruana pode sair por 2,95 dólares.
Provavelmente você já escutou uma cítara Indiana, um tambor africano ou um cantor árabe e ficou se perguntando de quem era aquela música. Grandes chances de ser um som selecionado entre as opções de um sequenciador operado por um europeu ou americano.
Como mostra Thebergé, a transfomação de sonoridades em mercadorias é legitimada por uma rede discursiva que confere valor e autenticidade a esses sons a partir de sua origem étnica. Por outro lado, o discurso procura embaçar a fonte original do som, que é o trabalho do músico de um país periférico que permitiu tal gravação.
Mas a questão não se encerra na disputa por direitos autorais. Quando o artista local não é creditado pelo som que deu origem ao sample é como se sua expressão não fosse considerada música. Para esse mercado, o instrumento tocado por um músico de origem diversa é quase como o canto de um pássaro. Uma expressão primitiva que se transforma em música somente quando reinserida no contexto da música ocidental. Sendo assim, não se considera necessário dar qualquer crédito ao autor do som. Como no caso Mbude, nada é repartido.
Como conlcui Thebergé, esse é um problema central da passagem da schizophonia (termo de Murray Shaffer que conceitua a separação do som de sua fonte, algo só possível com as técnicas de gravação e reprodução) para o que Steven Feld chama de schismogenesis. Essa palavra, ainda mais estranha, se refere à progressiva diferenciação e interação entre as culturas do mundo, que é intensificada pelos interesse eonômicos e industriais do mercado global.
Mbude e o mercado de samples ilustram um impasse. Cada vez mais a diversidade de culturas e modos de vida é representada nos fluxos informacionais, no entato, essas representações nao deixam de manter exlcuídas, da partilha do capital econômico e cultural, as vastas populações que deram origem a essas manifestações.

