sábado, 4 de setembro de 2010

Victor & Léo e a Globo : o sertão na televisão


Há algum tempo as duplas do chamado “sertanejo universitário” vêm chegando às praias cariocas. Não obstante ainda é possível encontrar pessoas indiferentes ao gênero, que afirmam sequer conhecer canções de duplas como Victor & Leo, Fernando & Sorocaba, Jorge & Matheus, Maria Cecilia e Rodolfo, Bruno e Marrone, João Bosco & Vinicius, entre outros.

De fato, diferentemente do “velho” sertanejo, cujos principais artistas foram logo mapeados (e em parte repudiados) pelos cariocas na época do primeiro boom do gênero nos anos 1990, o “sertanejo universitário” ainda engatinha no reconhecimento instantâneo, especialmente entre as classes médias.

Em conversas recentes que tive com amigos próximos, poucos foram os que conseguiram cantar uma música da dupla Victor & Léo, talvez a mais bem sucedida de todas as duplas do atual sertanejo universitário, sendo Victor Chaves o compositor que mais arrecadou direitos autorais em 2009 em todo o Brasil (ver dados do ECAD: http://www.ecad.org.br/ViewController/publico/RankingAutoral.aspx).

Há de se demarcar que nos dias atuais o meio musical apresenta-se cada vez mais dividido em guetos e, com a crise da indústria fonográfica e do advento da internet, esta cada vez mais difícil (e paradoxalmente ao mesmo tempo mais fácil) entrar em contato com o grande sucesso popular do momento. Diante de tantas opções no mundo do MP3 e dos vídeos do Youtube, de fato é possível viver uma vida inteira sem se dar conta da popularidade dos atuais sertanejos.

No entanto, muitos dos meus amigos logo se rendem ao fato de que já ouviram a dupla. Basta que se cante uma parte da música Deus e eu no sertão, de autoria de do próprio Victor Chaves, compositor de quase todas as músicas da dupla. Cabe lembrar que a canção esteve na abertura da novela Paraíso, da TV Globo
(http://www.youtube.com/watch?v=-ZX6C5wT00g). Ao ouvir outras canções da dupla como Borboletas, Fada ou Lembranças de amor, grande parte de meus colegas declara já tê-las ouvido em algum lugar. A música sertaneja atual està constantemente na mídia, mas passa despercebida pela maioria de nós, especialmente entre a classe média carioca.

O Rio de Janeiro representou, desde o primeiro boom da música sertaneja nos anos 1990, um espaço de resistência ao gênero, visto pelos críticos culturais como um “modismo”, uma “falsificação” da música caipira e/ou um passo a mais da industria cultural na conquista e usurpação dos valores populares. A capital carioca foi um dos últimos lugares no país atingidos pela música de Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Matogrosso e Mathias Zezé Di Camargo & Luciano e outros.

Em parte a reação do Rio de Janeiro, e especialmente das classes médias e altas, se deve ao repúdio à mudança de centro cultural do pais. Não custa lembrar que o samba, gênero “genuinamente” carioca ficou associado à nacionalidade brasileira ao longo do século XX. Que outro gênero é capaz de também representar o país? O sertanejo? Direitas e esquerdas cariocas parecem ter se unido num repudio que durou pelo menos 20 anos, até a invasão sertaneja na virada 1989/1990. Não custa lembrar que, por exemplo, Chitãozinho & Xororo começaram a carreira em 1970 e que a partir de 1982, com o sucesso de Fio de cabelo, já vendiam 1 milhão de discos todos os anos. Diante da conquista de todo o país, apenas coube ao Rio capitular.

Mas nem todos entregaram todos os pontos.

O que é raramente contado é que o repudio das classes médias cariocas, muito saudosista dos tempos “áureos” da música popular (entenda-se MPB) dos anos 1960/70, contou com apoio da Rede Globo de Televisão.

A TV de Roberto Marinho não olhou com bons olhos a popularidade da música sertaneja e resistiu o quanto pode colocar o gênero em sua programação, especialmente nas novelas globais, o grande produto de luxo da emissora, vendida para vários países ao redor do globo. Muitos de meus amigos dizem-me que os sertanejos sempre estiveram na Rede Globo e que esta foi fundamental para o sucesso do gênero. A primeira afirmação é uma meia verdade; a segunda uma falácia.

Durante o boom sertanejo da virada década, entre 1987 e 1994, a Globo colocou apenas seis canções sertanejas nas trilhas sonoras de suas novelas:

1) Você ainda vai voltar - Leandro & Leonardo em “Felicidade”, novela das 19hs, exibida de 7 de outubro de 1991 a 30 de maio de 1992;
2) Não olhe asim - Leandro & Leonardo em “Deus nos Acuda”, novela das 19hs, exibida de 31 de agosto de 1992 a 27 de março de 1993;
3) Eu só penso em você (Always on my mind) - Zezé di Camargo & Luciano (partic. especial Willie Nelson) em “Fera Ferida”, novela das 20hs, de 15 de novembro de 1993 a 16 de julho de 1994;
4) Nuvem de lágrimas - Fafá de Belém e Chitãozinho & Xororó em "Barriga de aluguel", novela das 18hs, de 20 de agosto de 1990 a 1° de junho de 1991;
5) No rancho fundo - Chitãozinho & Xororó em “Tieta”, de 14 de agosto 1989 a 31 de março de 1990;
6) Luar do sertão - Roberta Miranda em “Tieta”, 1989.

Há de se considerar no entanto que uma destas canções (Eu so penso em você) não foi composta por músicos brasileiros e o processo de mediação pelo qual passou foi diferente das outras canções. A quarta canção, Nuvem de lagrimas, um enorme sucesso simultâneo na voz de Fafá de Belém e Chitãozinho & Xororó, foi a porta de entrada para a música sertaneja através de um “figurão” da MPB. A dupla paranaense só foi aceita na Globo porque recebeu o aval abençoador de Fafá.

A relativa incorporação de Chitãozinho & Xororó diz muito sobre os projetos globais. Eles entraram na programação global através do aval de Fafá de Belém, Lamartine Babo e Ary Barroso, estes últimos compositores de No rancho fundo. O mesmo se aplica a Roberta Miranda, que não entrou na programação global através de alguma de suas inúmeras composições mas via Catulo da Paixão Cearense, compositor de Luar do Sertão. Legitimados como “caipiras”, o aceite de cantores sertanejos se deu mediante o esquecimento de suas trajetórias estéticas modernizadoras e a associação ao tradicional som do campo.

A Rede Globo é uma tradicional apoiadora da música “caipira” e ao longo dos anos 1980 veiculou programas ligados às raízes do campo brasileiro, especialmente o Som Brasil, apresentado por Rolando Boldrin (e posteriormente por Lima Duarte) entre 1981 e 1989. Os sertanejos, vistos à época como “falsificadores” da tradição camponesa nacional, foram excluídos do programa. O que a Globo fazia em 1989 era nada mais nada menos que a continuação de uma política estética de privilégio dos “caipiras” frente aos sertanejos, mesmo que abrindo novas brechas devido à pressão do sucesso popular.

Apenas Leandro & Leonardo conseguiram romper o bloqueio global com composições originais, mas isso aconteceu apenas em 1992/93, quando já era impossível ignorar o movimento.

Mesmo considerando todas estas seis canções “sertanejas” lançadas em trilhas sonoras globais durante 8 anos, é muito pouco se levarmos em conta a enxurrada de sucessos sertanejos na virada da década! É importante falar que o sucesso das canções sertanejas aconteceu independente das vontades dos diretores da trilhas globais. Canções presentes no imaginário coletivo de largos setores populares brasileiros foram “esquecidas” pela emissora. Clássicos do repertório de Chitãozinho e Xororó como Meu disfarce, Evidências, Foge de mim, O rio, Somos assim, Brincar de ser feliz e Tudo por amor ficaram de fora. De Leandro & Leonardo a Globo não se importou com o sucesso popular de Entre tapas e beijos, Pense em mim, Desculpe mas eu vou chorar, Paz na cama ou Sonho por Sonho. De Zezé Di Camargo & Luciano ficaram de fora Cama de capim, Coração em pedaços, Saudade bandida, Salva meu coração e até o mega-sucesso É o amor! Isto para ficar apenas nas duplas mais conhecidas!

No entanto há um fato curioso acerca da incorporação de É o amor pela TV Globo: ela foi relida duas vezes em trilhas da emissora, nunca pela dupla sertaneja. A primeira vez aconteceu em 1999, oito anos depois da gravação original, na novela Suave Veneno. Naquela oportunidade Maria Bethânia regravou a canção com bastante repercussão. A segunda vez aconteceu dezoito anos depois da gravação original, quando a emissora carioca resolveu incluí-la na trilha sonora de “Caras e bocas”, novela de 2009. Em vez da versão original de 1991, os produtores da trilha preferiram uma versão em hebraico – é isso mesmo que você leu – hebraico! A versão é bastante interessante, embora pouquíssimos na face da Terra sejam capazes de entender uma palavra sequer da canção tema dos personagens Hannah e Benjamin, um casal de jovens judeus (http://www.youtube.com/watch?v=lPKw0oMLNdQ). Mais “limpas”, tanto a versão cantada por pelos desconhecidos Gê & Lilaz (da versão Ahava – . É o amor em hebraico) quanto a de Maria Bethânia são bastante sintomáticas da releitura da MPB acerca da música sertaneja. Os produtores tiraram os “excessos” do canto operístico e vibratos da versão original; a instrumentação estridente que tanto choca os ouvidos das classes médias cariocas também foi removida. Mais “contidas”, menos “melodramáticas”, as versões cumprem um papel bastante interessante na releitura dos clássicos da música sertaneja. Curiosamente a versão hebraica tem uma leve pegada de reggae, numa confusão globalizatoria típica da época atual, e nem por isso menos bela.

Durante o auge da música sertaneja, entre os anos de 1987 e 1994, a Globo produziu cerca de 40 novelas, cada uma delas com trilhas nacional e internacional, sendo que cada disco tinha por volta de 12 a 15 canções. Cerca de 480 canções nacionais foram gravadas nas trilhas sonoras globais em 8 anos: apenas 6 eram cantadas por sertanejos, sendo 2 de fato originais.

O historiador Paulo Cesar de Araujo encontrou fenômeno semelhante em sua pesquisa sobre a música “brega” nos anos 1970. As trilhas sonoras da emissora, símbolo do “padrão Globo de qualidade”, não aceitavam artistas como Odair José, Waldick Soriano e Agnaldo Timóteo em suas faixas. Em contrapartida, a emissora do Jardim Botânico, tradicional apologeta do regime ditatorial, incorporava a MPB em suas trilhas. Este paradoxo é ainda mais impressionante se levarmos em conta que a MPB construiu seu imaginário ao longo dos anos 1970 associando-se à resistência a ditadura.

Nos anos 1980 a Rede Globo foi menos resistente aos “bregas”: de Agepê a José Augusto, de Wando a Gilliard, de Gretchen a Elymar Santos, todos eles encontraram abrigo nas trilhas da emissora.

O Rock nacional também encontrou abrigo na Globo. A emissora prontamente incorporou o o novo movimento bem no inicio da década de 1980, quando este surgia, chancelando músicos do gênero em sua programação. Marina foi a primeira desta geração a ser agraciada com a incorporação global com Nosso estanho amor (com participação de Caetano Veloso na gravação) na trilha de Plumas e paetês, novela de 1980. Lulu Santos teve Tesouros da juventude incluída em O amor é nosso, de 1981. Em 1982 ele emplacou Tempos modernos na novela Sol de verão, junto com a Blitz e o hit Você não soube me amar. Neste mesmo ano o Barão Vermelho teve incluída a canção Down em mim na novela Final feliz. Ritchie entrou com Menina Veneno em 1983 na novela Pão-pão, beijo-beijo.

Muito atenta ao movimento que surgia, a emissora carioca incluiu os cinco primeiros artistas do Rock nacional a despontar. A inclusão de suas músicas se deu exatamente no mesmo ano de lançamento de seus LPs, o que demonstra que a Globo não estava simplesmente aproveitando sucessos consolidados, mas ajudando a forjar o Rock nacional. No entanto, a emissora carioca raramente é lembrada como uma das forças que ajudaram a criar o gênero.

Se a Globo ajudou a criar o Rock nacional, o mesmo não se pode dizer acerca da música sertaneja, cujo fortalecimento popular e mercadológico não passou por trâmites legitimatórios das novelas globais. É importante frisar que as novelas globais eram importante veículos para popularização das canções em todo território nacional em horário nobre, auxilio que a música sertaneja dispensou.

Não digo que a Globo foi contra a música sertaneja ostensivamente, afinal os sertanejos se apresentaram em programas globais como Domingão do Faustão e Globo de Ouro, assim como tiveram especiais de fim de ano produzidos pela emissora entre os anos de 1990 e 1992. A Globo não se manteve alheia à chegada do gênero às capitais do Sudeste, mas manteve discreta aceitação da música sertaneja, bastante característica de suas próprias ambigüidades. O principal produto da empresa de Roberto Marinho são as novelas, exportadas para vários países. A partir de 1973 a Globo começou a inventar aquilo que ficaria conhecido como “padrão Globo de qualidade”, um requisito básico para toda sua programação. “Dr. Roberto” não queria ser um mero “alienador das massas”, como acusavam as esquerdas, mas tinha pretensões “educativas”. Para atingir tal padrão os dirigentes globais começaram uma “limpeza”. É desta época a demissão de Chacrinha, visto pelos diretores como por demais “popularesco”. O apresentador só voltaria a emissora uma década depois, mais limpo e contido. No campo musical o “padrão Globo de qualidade” significou a incorporação da MPB às trilhas sonoras da rede, em detrimento dos “bregas”, como enfatizou Paulo Cesar de Araujo. Como principais vitrines da emissora, não foi considerado de “bom tom” pelos diretores globais expor um país “sujo”, “exagerado”, “simples”, “banal”. É deste mesmo diagnóstico que padeceu a música sertaneja no inicio dos anos 1990.

A exclusão da música sertaneja das trilhas sonoras cumpre um papel fundamental na construção da noção de “bom-gosto” almejada pela empresa de Roberto Marinho. Neste mesmo pacto estavam juntos os direitistas apoiadores do golpe e da ditadura e as esquerdas que a ela se opuseram.

Chama a atenção o fato de que o processo de exclusão da música sertaneja das novelas nacionais não aconteceu somente na TV Globo. A TV Manchete produziu duas novelas de temática rural exatamente no período de auge da música sertaneja: em 1990 Pantanal fez muito sucesso mostrando uma parte do país até então pouco conhecida por muitos brasileiros. No ano seguinte foi a vez de Ana Raio e Zé Trovão, outro grande sucesso da emissora de Arnaldo Bloch.

Da primeira foram lançados três LPs com canções de Ivan Lins, Simone, Orlando Moraes, Sá & Guarabira, João Bosco, Maria Bethânia, Caetano Veloso e outros artistas todos ligados ao mundo urbano da MPB. O terceiro LP da novela era de canções instrumentais (!), regidas e compostas pelo maestro Marcus Viana, que fizeram pano de fundo às belas imagens de paisagens pantaneiras que apareciam com freqüência nas telas de todo o país. Os únicos músicos rurais a aparecer nas trilhas de Pantanal foram Sérgio Reis e Almir Sater. No entanto cabe apontar que ambos se viam (e eram vistos pela MPB) com músicos caipiras, “verdadeiros” representantes do campo brasileiro, opositores da música sertaneja. Era clara a associação construída pela Manchete que avalizava uma construção feita ao longo dos anos 1970/80 acerca do elo MPB-caipiras.

Na novela seguinte, Ana Raio e Zé Trovão, a Manchete abriu um espaço para uma única música de Chitãozinho & Xororo, Cowboy do Asfalto, um grande sucesso da dupla. Foi a única exceção. Na trilha sonora composta por dois discos com músicas nacionais, o novo gênero de Chitãozinho & Xororó ficou meio deslocado entre Chico Buarque, Lenine, Marcus Viana, Maria Bethânia, Almir Sater, Renato Borghetti e Marcus Viana, e outros. A canção Cowboy do Asfalto era usada nas cenas de rodeio vivenciadas pelos personagens principais. Apesar do enorme sucesso dos sertanejos exatamente neste período, a emissora Manchete ignorou as outras canções estouradas nas rádios populares.

Uma trilha de novela marcou a virada das televisões brasileiras acerca da música sertaneja: Rei do Gado. Esta obra de Benedito Ruy Barbosa veiculada de 17 de junho de 1996 a 15 de fevereiro de 1997, num total de 209 capítulos, foi a responsável pela incorporação da música sertaneja à Rede Globo de Televisão. Quase todos os grandes nomes sertanejos estavam presentes, de Chitãozinho & Xororo a Roberta Miranda, Zezé Di Camargo & Luciano a Leandro & Leonardo, de João Paulo & Daniel a Chrystian e Ralf. Pela primeira vez os sertanejos entraram em definitivo no horário nobre, ainda que misturados na trilha com os nomes da MPB como Orlando Moares, Djavan, Zé Ramalho, Dominguinhos e cantores “caipiras” como Almir Sater e Sergio Reis, que faziam uma ponta na novela como a dupla fictícia Pirilampo e Saracura.

A partir de Rei do Gado tornou-se relativamente normal incorporar os cantores sertanejos. No entanto cabe lembrar que em 1996 a música sertaneja já não estava tão em evidencia como no inicio da década, apesar de ainda continuar forte. No fim das contas a Globo demorou para incorporar os sertanejos. Depois desta data tentou compensar: músicas sertanejas estiveram presentes em O amor esta no ar (1997), Era uma vez (1998), Torre de Babel (1998-1999), Terra Nostra (1999-2000), Amazônia (2007), Chocalate com Pimenta (2003-2004), América (2005) e A favorita (2009), além da trilha do seriado Carga Pesada (2003). As outras emissoras também incorporaram os sertanejos em suas novelas. Na TV Record a trilha de Estrela de fogo (1998-1999) era quase que integralmente composta de músicas sertanejas; o SBT produziu a novela Amor e ódio (2002), que tinha abertura cantada por Christian e Ralf; na novela Jamais te esquecerei (2003) havia participação de Chitãozinho & Xororó, Chrystian & Ralf e Guilherme & Santiago na trilha sonora.

Mas voltemos a Victor & Léo. A canção da abertura, a melancólica Deus e eu no sertão, não foi a primeira a ser adaptada pelos diretores globais. Um ano antes Tem que ser você já havia tocado na novela A favorita. Aliás, esta novela denota uma transição na produção de trilhas globais. Pela primeira vez, além dos tradicionais discos com canções “nacionais” e “internacionais”, foi lançado o disco A favorita – Sertanejo. A música sertaneja ganhava mais espaço: de Chitãozinho & Xororó a Rud & Robson, de Leonardo a Daniel, de Roberta Miranda a Jorge & Matheus, de Edson & Hudson a Bruno & Marrone, de Victor & Renan a Hugo Pena & Gabriel, um novo espaço foi produzido pela emissora para veicular novos artistas que surgiam.

A trilha de Paraíso (2009) também vai na mesma linha, mas neste caso foram dois discos somente com canções sertanejas que serviam de trilha para a novela rural. Quase vinte anos depois do primeiro boom dos músicos sertanejos, a Globo aceitou e incorporou em definitivo o novo gênero. Não obstante, é curioso que o tema de abertura Deus e eu no sertão seja bastante triste, saudosista e ligada a uma matriz temática “caipira”, embora a dupla tenha claramente uma postura moderna diante do debate estético do sertanejo atual. Deus e eu no sertão é possivelmente a única música da dupla que idealiza o campo, algo incomum na música atual. Não obstante, o fato de a Globo ainda preferir um tema nostálgico de Victor & Léo para embalar um enredo sobre uma roça “verdadeira” parece demonstrar um ranço global cultivado por anos. Cabe perguntar: qual a importância de apontar uma verdade sobre o campo e/ou o camponês? Ou, num questionamento a la Bourdieu: qual é o “campo” do campo?

Nunca vi ninguém
Viver tão feliz
Como eu no sertão

Perto de uma mata
E de um ribeirão
Deus e eu no sertão

Casa simplesinha
Rede pra dormir
De noite um show no céu
Deito pra assistir
Deus e eu no sertão

Das horas não sei
Mas vejo o clarão
Lá vou eu cuidar do chão
Trabalho cantando
A terra é a inspiração
Deus e eu no sertão

Não há solidão
Tem festa lá na vila
Depois da missa vou
Ver minha menina

De volta pra casa
Queima a lenha no fogão
E junto ao som da mata
Vou eu e um violão
Deus e eu no sertão...

6 comentários:

Alessandro Mello disse...

veja a citação de Paz na Cama num episódio de Ó Paí Ó

http://www.youtube.com/watch?v=vUIfx53UxYQ

Jefferson Chagas disse...

Tema maravilhoso Gustavo. Parabéns.
Estava aqui pensando na música "É o amor". Acho que antes dessa versão em hebraico, rolou aquela versão da Bethânia. Só não sei se essa foi tema de novela... Vc lembra?

Gustavo Alonso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gustavo Alonso disse...

De fato Jefferson, a gravação de "Eh o amor" de Bethania é de 1999 e estava na novela Suave Veneno! vou acrescentar isso ao texto!
valeu a lembrança! tinha planejado escrever sobre isso e acabei esquecendo diante da pressa! abçs

Gustavo Alonso disse...

Encontrei mais estas musicas dos sertanejos nas novelas da Globo:
-'Amor clandestino', de João Mineiro e Marciano (tema de Dirce0 em Meu bem, meu mal, de 20 de outubro 1990 a 18 de maio de 1991.
-'Brincar de ser feliz' - Chitãozinho e Xororo em Pedra sobre Pedra, 1992
-'Eu te amo', Zezé Di Camargo e Luciano, em Perigosas Peruas, 19992
-'Pensando em minha amada', Chitãozinho e Xororo, em Mulheres de Areia, 1993.
A canção de Zezé Di Camargo é uma versão do Beatles, 'And I love her', logo a mediação de entrada desta canção não é a mesma das outras. Merece crédito as canções de Chitãozinho e Xororo. Anos depois de só deixa-los entrar nas trilhas de suas novelas mediante a tradição caipira, a Globo finalmente os incorporou.
A canção de João Mineiro e Marciano é a única da dupla, cuja carreira durou de 1973 a 1991, gravada pela emissora.
De qualquer forma parece claro que os grandes sucessos sertanejos não foram veiculados pela Globo, especialmente se pensarmos nas carreiras de Zezé Di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, Rick e Renner, João Paulo e Daniel, Matogrosso e Mathias, entre outros.

Anônimo disse...

Cara olha isso:

http://www.youtube.com/watch?v=4bdeyytywi0

quando eu vi fiquei tão apavorado que até postei o video aqui a um tempão atras.

Vale citar tb a parada que deve ser o record planetário da propaganda televisiva:o comercial da Bombril com a musica "pense em mim" -> 3minutos diretos!

http://www.youtube.com/watch?v=gR4qC3dIa6c