sábado, 11 de setembro de 2010

Rio Fanzine: ir sempre contra a maré faz bem para a alma

Vou confessar: apesar do interesse e da aposta na cibercultura, não foi sem uma pontada no baixo ventre que recebi a notícia do fim da coluna Rio Fanzine, de Calbuque e Tom Leão, no Globo.

Mais uma confissão: apesar da família assinar o jornal, leio pouca coisa dele, no dia a dia. Mas, abrir o café da manhã de sexta lendo o Rio Fanzine era de lei. Uma alegria! Um alívio!Uma inspiração eles estaraem por ali...

Adoro a dupla, aprendi a reconhecer o texto de cada um deles sem precisar conferir quem estava assinando, e também já sabia se o texto era de um terceiro colaborador, sem consultar os créditos.

Um episódio exemplar: no início dos 00, quando comecei pesquisa acadêmica eletrônica de música brasileira, eles foram dos primeiros entrevistados.

E. nos receberam na redação do Globo -eu, mais os bolsistas PIBIC da pesquisa(Roberto Souza Leão e Leonardo de Marchi) com a maior generosidade, dando dicas sobre fontes que foram fundamentais para o trabalho.

Naqueles anos, a festa Febre - primeiro num espaço improvisado de um restaurante meio careta da Gávea, depois nas quintas-feiras na Casa da Matriz, era meu programa preferido sempre que conseguia cruzar a poça da UFF pro Rio depois das aulas, com energia e a tempo de esticar.

O título deste post, eu roubei da dedicatória do Calbuque pro meu exemplar, quando eles lançaram um livro com artigos escolhidos pra comemorar os 18 anos da coluna, em 2004.(Rio Fanzine - 18 anos de Cultura Alternativa)

Lá, na orelha do livro, escrita pela mentora intelectual dos então moleques, a Ana Maria Bahiana, já ficava de alguma maneira o previsível o fim da coluna impressa, ao avisarem que "os tempos eram outros" - precisamente, o ano de 1986, de criação do Rio Fanzine.
"Tínhamos computadores - monstrengos esquisitos de pequenas telas negras rabiscadas de verde - mas a internet ainda era um projeto que não sabíamos que podíamos sonhar. CDs eram novidade, assim como videoclipes, que tomavam o lugar dos "especiais musicais"

Foi assim, movidos pela inquietaçào de captar o underground e ir sempre contra a maré, que o Rio Fanzine invadiu o Jornal O Globo como um espaço de respiro pro que (ainda) não tava nas paradas de sucesso.

Neste livro, dá pra sentir o impacto do trabalho em tempos pré-ineternet: Echo and the Bunnymem, Afrika Bambaata, Fausto Fawcett e Robôs Efêmeros, Bezerra da Silva, Rock de Brasília, Souxie and the Banshees aparecem nas matérias selecionadas dos anos 80; Marlboro, o surgimento do grunge, PLanet Hemp, o Jungle, no início dos 90, Tu-Do de música eletrônica daí em diante, etc, etc, etc, etc

Mas, novamente atentos aos fluxos, eles reconhecem na derradeira coluna, que os tempos hoje são outros. E que a multiplicação dos blogs, sites, plataformas e fanzines eletrônicos diversifica e democratiza as informações e não justifica mais a permanência da coluna.

Sagazes, transferem sua energia para o blog Rio Fanzine. E nas matérias do Caderno de Cultura do Jornal O Globo.

Eles não perdem nada, nós leitores perdemos pouco - afora uma dorzinha no coração para os trintões e quarentões; junto com a nostalgia da página impressa bem diagramada me esperando sem ter que abrir o computador ainda sonada, pela manhã - ; mas, o Jornal O Globo...ah! aí, acho que vou convencer a família a não renovar a assinatura.

2 comentários:

Unknown disse...

Bom texto Simone. Apenas torço para que tratem com atenção a página eletrônica do "Rio Fanzine". O blog permite até que exista uma interação mais viva ao permitir a inserção de links de vídeo e áudio - além de explorar melhor as imagens. Seria interessante que parte do conteúdo fosse publicado semanalmente em PDF - assim, com o tempo necessário para a produção de boas colunas e matérias. Afinal de contas este sempre foi um diferencial do Rio Fanzine em relação a outros espaços da mídia impressa. Acredito que a qualidade e artigos de mais fôlego será fundamental para que o blog do "Rio Fanzine" não seja mais um a cair na indistinção que vigora na internet, parecendo-se com outros tantos blogs voltados para a cultura pop e música alternativa.
Também é importante lembrar que parte do pessoal que escreve para o Rio Fanzine também escreve textos muito bons para o Segundo Caderno. Até presumo que, pelo menos parte dos leitores, têm uma identificação com a parte de "Cultura" do jornal O Globo que transcende a preferência pelo "Rio Fanzine", já que nomes como Tom Leão e Carlos Albuquerque também escrevem para outros espaços do jornal.
Portanto, apesar do espaço ser virtual - o qual costumeiramente às vezes é marcado por pequenos artigos e de abordagem superficial -, o grande desafio para a galera do "Rio Fanzine" é se diferenciar dos tantos blogs que, atualmente, fazem algo semelhante ao blog do RF.

Christiano Rangel

Simone Pereira de Sá disse...

Olá Christiano,

Pois é. Concordo com vc. Vi há pouco no twitter do Tom Leão uma mensagem falando disto: que o blog vai ser reativado e o site reformulado.Espero que els cuidem bem dele, de agora em diante.
E - claro que eles continuam no Caderno de Cultura do Globo, com ótima matérias.