sexta-feira, 4 de abril de 2008

O Canto da(s) Cidade(s)


"Críticos anticarnaval, moralistas de plantão, guardiões da "qualidade" da música brasileira, horrorizai-vos: a axé music veio, mandou tirar os pés do chão e jogar as mãozinhas para o alto e venceu." A frase hilária é do jornalista Marco Aurélio Canônico da Folha de São Paulo. E isso por quê? Porque saiu o balanço geral do Ecad - Escritório Central de Arrecadação e Distribuição que confirmou a supremaçia do axé entre as músicas mais executadas no Brasil. A pesquisa revelou que o compositor mais tocado foi o Carlinhos Brown, a artista mais lucrativa foi Ivete Sangalo com média de R$350 mil por show, e desde 2005 das 10 músicas mais executadas, apenas uma não era axé music.

Gente, sou baiano. E o axé faz parte da minha paisagem musical. Durante anos ouvi a crítica especializada dizer que tudo não passava de um modismo que não duraria até o verão seguinte. Mas eis que a cada estação o axé reaparece com uma nova banda, cantora, loira ou morena do tchan e claro... com mais uma dúzia de hits. O carnaval extrapolou o cenário soteropolitano e entrou de vez no calendário cultural de várias cidades, nordestinas ou não. E alguns artistas hoje administram carreiras internacionais sólidas. Mesmo depois de 15 anos (quando Daniela Mercury transformou o gênero em sucesso nacional com o Canto da Cidade) o axé continua firme e forte e tem hoje na figura de Ivete Sangalo e seu milhares de DVDs vendidos o carro chefe do "movimento baiano".

Curioso, é pensar que se os números legitimam a potencialidade econômica do gênero, o mesmo não funciona para a questão da qualidade. Na verdade aqui, mais uma vez, a popularidade funciona como justificativa para questioná-la. Estigma da música massiva e do entretenimento de forma geral que está fadado a não ser levado a sério. O próprio tom da matéria da Folha é irônico e associa o axé a uma manipulação, um movimento involuntário... é triste; o axé tá aí...não dá prá resistir. Toda a justificativa de seu sucesso está associada a um plano de marketing diferenciado de outros gêneros como o rock. Em nenhum momento o axé é contemplado em sua especialidade musical. O caráter artistico é inexistente; voz, arranjo, rítmo e performance não são "contabilizados". O gênero existe no mapa da crítica musical apenas como uma aberração. Pois de modismo passou a gênero estabilizado e complexo, uma vez que o termo axé esconde uma diversidade de rítmos e influências musicais que vão do samba reggae ao frevo e o samba de roda e suas hibridações com o rock e o pop. Se a pesquisa do Ecad revela a predominância do gênero no cenário musical brasileiro, não esclarece os fatores que levaram o axé a tal posto. Quando passarmos a analisar a esfera cultural do gênero talvez possamos ter pistas.


Um comentário:

Simone Pereira de Sá disse...

Jeferson,

Vc tem toda razão. Gostando ou não, as análises poderiam ser um pouco mais sofisticadas.
E mais uma curiosidade: o outro grande vendedor, que ultrapassasa Ivete Sangalo na lista de Cds mais venddos (ela ganha na soam CD mais DVds, quem é? Padre Marcelo Rossi...
(tsc, tsc, tsc.)