Peço licença aos rude-boys do Specials (bandinha de ska-rock britânica, muito bacana, por sinal, que junto com o Madness formava a dupla de ouro da gravadora TwoTone no início dos anos 80) para formular uma ou duas considerações sobre a questão do estereótipo. O discurso do senso comum muitas vezes tende a culpar os consumidores do estereótipo como maiores responsáveis pela sua perpetuação. Dito de outra forma, se tantos “gringos” não viessem ao Rio de Janeiro sedentos por uma noite na Boate Plataforma, a imagem da cidade como sinônimo de carnaval-mulata-e-malandragem poderia ser gradativamente questionada, por exemplo.
Tenho sérios problemas com este argumento. Em parte, porque o discurso do estereótipo não é totalmente descolado de evidências empíricas. Estereótipo não é invenção, é redução. É você promover determinadas características particulares que constituem uma certa identidade (étnica, nacional, de gênero, etc) ao status de verdade essencial sobre a mesma, como se, metonimicamente, as partes dessem conta do todo. Em vez de compreendermos o carioca ou o brasileiro em toda a sua complexidade, fraturando a idéia de uma identidade única e coerente em si mesma – coisa que dá um baita trabalho – é mais confortável tentar apreendê-la a partir de um cast de signos de fácil reconhecimento. Ou, conforme disse certa feita uma amiga minha, de forma algo jocosa, “o estereótipo poupa tempo”.
Engana-se quem pensa que espetáculos tipo “Vai Brasil
Estávamos em Veneza e descobrimos uma montagem de Otelo de Shakespeare no Teatro Goldoni, que fica a poucos minutos do Grande Canal. Sabíamos que a peça seria falada em italiano, e embora nossa compreensão não fosse lá essas coisas, o fato de conhecermos o texto da peça decerto facilitaria nossa vida. Ao efetuarmos o pedido na bilheteria, o funcionário de imediato reconheceu que éramos estrangeiros e prontamente se pôs a esclarecer (em inglês, of course): “No musical. No musical. It’s an italian talk play” [sic].
Muito provavelmente, ele julgou que havíamos nos perdido pelas intrincadas ruelas de Veneza, e confundido o teatro que exibia Otelo com o que servia de palco para Carnival The Show, um espetáculo que reproduz (durante todo o ano, afirmavam enfaticamente os cartazes) a “experiência mágica” do Carnaval de Veneza. O pacote incluía não apenas uma encenação ficcional da festa, com suas tradicionais máscaras e fantasias que bem pareciam saídas do Casanova de Fellini (ou da cena da orgia em De olhos bem fechados, a referência fica a seu critério), como também um jantar de comidas típicas servidas por venezianos vestidos a caráter.
Mais do que apontar culpados, talvez me pareça mais pertinente pensar que o funcionamento do discurso do estereótipo pressupõe um acordo mútuo entre as partes envolvidas. Os usos e apropriações deste discurso, tanto na parte de “lá” quanto na parte de “cá” (e quando “lá” e “cá” se embaralham – por exemplo, se considerarmos a experiência migrante-diaspórica ou a do viajante – é que a coisa fica particularmente bacana), estes é que podem assumir variadas e inesperadas formas.
Um comentário:
Tiago,
Concordo plenamente.
Lidei muito com esta questão durante minha tese de doutorado, sobre a imagem da Carmen Miranda.
O argumento que defendi foi o de que o Brasil inventou a Carmen Miranda (não os gringos, ou só os gringos - tal como a crítica brasileira "disseram que voltei americanizada" - acusava)- com a ajuda da própria Carmen.
A discussão sobre a "verdade" dos clichês - ainda que meias verdades; ou verdades pouco complexas, ainda está para ser mais explorada, para além daquela tese clássica de que "é tudo manipulação".
Postar um comentário