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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ivete Sangalo no Madison Square Garden - parte 2

Desde que escrevi aqui no blog aquele post sobre o show da Ivete Sangalo no Madison Square Garden, tenho me interessado pelas estratégias utilizadas por músicos brasileiros em busca de projeção internacional. Como bem me lembrou Simone, a bem sucedida carreira de Carmen Miranda entre as décadas de 1930 e 1950 é um marco para essa discussão. A atriz e cantora luso-brasileira participou de inúmeros produções cinematográficas nos Estados Unidos, gravou grandes sucessos musicais em português e inglês e foi uma das artistas mais bem remuneradas de Hollywood em seu tempo. Depois dela, vários artistas brasileiros como Tom Jobim, Chico Buarque e outros grandes nomes da MPB obtiveram êxito em suas carreiras internacionais, mas nada comparado a trajetória da “pequena notável”, como ficou conhecida Carmen, um ícone cultural de grande visibilidade em todo o mundo.

Voltando para o século XXI, as estratégias utilizadas por Ivete Sangalo também chamaram a atenção do crítico musical do “The New York Times”. Jon Pareles chamou Ivete de “a maior cantora pop do Brasil”, destacou seu “fôlego” e domínio sobre os 15 mil fãs que assistiram o show. Mas segundo ele, “não será fácil” para a baiana “expandir seu território e se juntar a artistas como Beyoncé, Madonna e Shakira como uma pop star reconhecida globalmente”. O jornalista aponta como obstáculos a barreira lingüística do português, mas também o ritmo de sua música: “uma batida que poucos fora do Brasil conseguiriam acompanhar”.

Respondendo a curiosidade do Gustavo, o repertório do show foi preenchido basicamente de grandes sucessos da cantora, em português mesmo. Mas a apresentação contou com três canções em inglês: os hits “Human Nature” (Michael Jackson), Easy (Lionel Richie) e a inédita “Where It Begins” que contou com a participação de Nelly Furtado.

Ainda de acordo com o jornalista americano, Ivete enfrenta um dilema. "Ela tentou uma estratégia de cruzamento internacional: colocar sintetizadores e uma batida 'club' como denominadores comuns em um pot-pourri de hits. Mas desistir completamente da propulsão musical brasileira neutralizaria a música dela”.

Achei interessantíssima essa observação, pois nos permite problematizar a perspectiva romântica que sugere a música como sendo uma arte universal, capaz de ser interpretada ou mesmo consumida da mesma forma por qualquer pessoa, independentemente das diferentes bagagens culturais. É muito comum ver artistas usando esses argumentos. No entanto, as adaptações rítmicas feitas por Ivete revelam que mais do que uma questão da língua em que se canta, existe uma série de elementos musicais que parecem necessitar de “tradução”, ou seja, que deve ser mediada para um novo público. O que é a música que Ivete faz? ( deve se perguntar o gringo) É para cantar, dançar? Dançar como?

Não sou especialista no tema, mas me parece que quando a Bossa Nova repercutiu lá fora, houve uma influência sonora e aproximação com o Jazz, e isso facilitou a aceitação desse estilo de música brasileira em outros países. No caso atual, o Axé Music, parece haver, especialmente no caso de Ivete Sangalo, uma aproximação com a música pop dançante, e a cantora tem intensificado essa relação ao produzir um axé cada vez menos temperado, mais globalizado, digamos.

Daniela Mercury é outra artista baiana que vem buscando novos horizontes musicais, mas de forma mais radical. Muitas das críticas (negativas e positivas) feitas à Daniela são nesse sentido. Para os simpatizantes é uma artista que sabe ousar, que não ficou presa a um modelo bem sucedido, para outros ela optou por uma mistura sonora que confunde o público, não sendo mais identificado com o carnaval e nem com nenhum outro gênero. Hoje o que Daniela produz é muitas vezes interpretado como world music, uma categoria de difícil definição. O seu último álbum Canibália é simbólico nesse sentido. O repertório traz canções de axé, MPB, samba e eletrônico.

Já Ivete Sangalo é mais cautelosa, faz um show de 5 milhões fora do seu país ao som de seus grandes sucessos, e sabe que se a carreira internacional não decolar, todo esse evento ainda repercutirá positivamente aqui no Brasil, onde os fãs aguardam ansiosamente para assistir o show em DVD.