David Byrne e Brian Eno em estúdio, 1977Para baixar as pistas, basta somente fazer um rápido registro aceitando os termos e condições propostos. Em seguida, o usuário deve indicar onde se localiza no mundo e bem... foi aí que a coisa começou a ficar estranha. Para começar, a América Latina não está no Listen Map (apesar da grande simpatia de David Byrne por “nós”, latinos) que indica os participantes que subiram seus remixes. Acabei me localizando na ilha africana de Madagascar por simpatia, ou sei lá que outro motivo de afeto.
Outra dificuldade, bastante frustrante, foi a de não conseguir escutar as faixas que adicionei a playlist da home. Mas para quem conseguir escutar os remixes, também é possível dar notas aos trabalhos ali disponíveis. Os remixes se apresentam encima de um gráfico de conceitos dos autores da obra original, fornecendo informações como nome e o criador do remix, data em que foi feito e o número de bpm. O site conta até agora 1.524 registros e 272 remixes submetidos. A produção de vídeos com trilha sonora baseada em My life in a bush of ghosts também é incentivada.
Apesar dos problemas que pude experimentar, achei a iniciativa muito interessante e surpreendente, não pelo fato de envolverem as figuras de Brian Eno e David Byrne, que tanto admiro ética e esteticamente, mas por depender da moderação direta das “demonizadas” gravadoras majors Emi/Virgen e Universal. Como isso foi possível em 2006? Gostaria e muito de saber como se deu o “por trás das câmeras” da negociação naquela época entre os artistas e as gravadoras. Mas enfim, superficialmente, encaro isso como uma atitude de generosidade e marketing “saudável” por ambas as partes, mais ou menos no caminho da proposta de In Rainbows do Radiohead em 2008. By the way, Thom Yorke e David Byrne também são amigos...
A iniciativa também me lembra da primeira da empreitada do tipo aqui no Brasil, por parte de Tom Zé em 2000, que lançou junto ao álbum Jogos de Armar (Faça Você Mesmo) um segundo CD intitulado “Cartilha de Parceiros (CD Auxiliar)" com pistas das gravações de estúdio separadas. O texto esclarecia que não se tratava de um CD duplo, mas de um CD “anexo” e igualmente incentivava que o material fosse reutilizado em novas criações. A idéia se amarra ao próprio conceito do disco, composto por releituras e recriações de Tom Zé encima de sua própria obra e de clássicos como Pisa na Fulô e Asa Branca. Não é por nada que nosso Tom Zé é caro amigo do David Byrne, tendo inclusive sua carreira "ressuscitada" por ela.
De maneira geral, todo o assunto nos remonta às velhas discussões sobre autoria e as tão freqüentes práticas de do it yourself na era digital. Criar não é suficiente, e seguramente nunca foi, deve-se compartilhar e almejar a extensão do que criamos através dos outros. Se isso vai dar dinheiro ou não, ou para quem pode dar, parece ser o maior problema para alguns.

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