quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O amor segundo J.S.

Quem me vê assim, escrevendo sobre música e cultura portuguesa semana sim e outra também, pode até pensar que meu envolvimento com Portugal sempre teve a intensidade dos últimos cinco anos. Ledo engano. Como bom adolescente cujo vínculo com a cultura lusa se dava única a exclusivamente por intermédio da herança familiar, romper com o peso desta tradição e renegar toda e qualquer afinidade com Portugal era um dos meus passatempos favoritos. Um dos pontos de virada desta relação turbulenta se deu com a descoberta, lá pelos idos de 2002 ou 2003, da obra do escritor José Saramago. Lembro até hoje da sensação de enfrentar – a palavra é mesmo essa – as primeiras dez, quinze páginas da “História do cerco de Lisboa” e todo o peso simbólico que o nome do escritor trazia consigo, para logo em seguida me surpreender deslumbrado com a riqueza de sua prosa. Fico profundamente irritado toda vez que leio nalgum lugar que Saramago é “difícil”, “árido” ou, pior, que o autor não sabe pontuar as frases. Ora, perder-se nos labirínticos parágrafos concebidos pelo escritor é o que há de mais precioso na experiência de se ler Saramago. Fora que, por detrás da aparente complexidade do texto, residem sentimentos de uma simplicidade estarrecedora.

Senão, veja-se este trecho da “História do cerco de Lisboa”, que junto com “O ano da morte de Ricardo Reis” talvez seja de fato um dos livros menos acessíveis do Mestre: nele, Raimundo Silva, o revisor que por descuido, convicção ou ambos, altera uma palavra da supracitada “História...” (e, assim, metaforicamente modifica o passado segundo o qual os Cruzados teriam ajudado na expulsão dos mouros da cidade de Lisboa), é conduzido de carro por sua superiora, Maria Sara, por quem nutre uma espécie de paixão platônica, até bem próximo de onde ele mora, na região do Castelo de São Jorge. Depois me digam se trecho equivalente da literatura em língua portuguesa deu conta de maneira tão certeira do preciso instante em que nasce um sentimento.

“Um dia, talvez por efeito duma luz que fará recordar esta, límpida e fria tarde que vai esmorecendo, se dirá, Lembras-te, primeiro o silêncio dentro do carro, as palavras difíceis, o olhar tenso e expectante, os protestos e as insistências, Deixe-me na Baixa, por favor, tomo aí um eléctrico, Ora essa, levo-o a casa, não me custa nada, Mas sai do seu caminho, Eu, não, o automóvel, Não é cómodo subir aos sítios onde eu vivo, Ao pé do castelo, Sabe onde moro, Na Rua do Milagre de Santo António, vi na sua ficha, depois um certo e ainda hesitante desafogo, corpo e espírito meio distendidos, mas as palavras sempre acauteladas, até ao momento em que Maria Sara disse, Pensarmos nós que estamos onde foi a cidade moura, e Raimundo Silva a fingir que não percebera a intenção, Sim, estamos, e a tentar mudar de conversa, porém ela, Às vezes ponho-me a imaginar como terá sido aquilo, as pessoas, as casas, a vida, e ele calado, obstinadamente calado agora, sentindo que a detestava como se detesta um invasor, foi ao ponto de dizer, Saio aqui, que estou perto, mas ela não parou nem respondeu, o resto do caminho fizeram-no em silêncio. Quando o carro parou à porta, Raimundo Silva, embora sem ter a certeza de ser isto um acto de boa educação, achou que devia convidá-la a subir, e logo se arrependeu, É uma indelicadeza, pensou, e aliás não devo esquecer-me que sou subordinado, foi nesta altura que ela disse, Fica para outro dia, hoje é tarde. Sobre esta frase histórica se há-de fazer extenso debate, pois Raimundo Silva está capaz de jurar que as palavras então ditas foram outras, e não menos históricas, Ainda não é tempo.”

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Por que estou rememorando estas coisas? Porque na sexta-feira passada finalmente chegou aos cinemas cariocas o belo documentário “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes, que parte do dia-a-dia do escritor português durante o processo criativo do livro “A viagem do elefante” para tecer um singelo retrato da história de amor entre Saramago e a jornalista espanhola Pilar del Rio. No fundo, o documentário em si mesmo é como um livro de Saramago: por detrás de todas as frases cáusticas contra Deus e a humanidade, o que há é um profundo desejo pela vida e uma vontade de amar incontrolável. E como se Saramago por si só não fosse suficiente, ainda somos brindados com uma bela trilha sonora da banda Noiserv composta exclusivamente para o filme. “José e Pilar” também é uma boa oportunidade para revisitar o longa anterior de Gonçalves Mendes, o subestimado e intrigante “Floripes”. E para descobrir a literatura de Saramgo, ora pois.

No mais, fica o conselho: assista agora, porque sempre é tempo.

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