Preparando a aula de amanhã na pós. Uma das que considero de temática mais provocativa do semestre.
É que depois de discutirmos como a música constrói humores, identidades, links com lugares e com a memória, amanhã trataremos do dark side: como sonoridades e música podem provocar dor e serem utilizados como instrumentos de opressão.
O exemplo mais óbvio - recentemente discutido no GT de Cibercultura da Compós a partir do trabalho do José Claudio, pesquisador do LabCult, mais Vinicius e Rafael Sarpa - é o da cena noise.
Mas, neste caso, podemos argumentar que a dor é voluntária: os fãs do movimento subcultural de ruídos extremos cultiva e compartilha seu gosto musical sem coerção, no que os não iniciados vêm como uma espécie de sado-masoquismo sonoro que é absolutamente legítimo, já que auto-imposto.
Entretanto, nos interessa discutir as outras formas de "dor sonora": quando ela é impingida como forma de tortura, de poder, de demarcação da ordem ou para fins de repressão.
Pode ser a dor provocada de maneira involuntária pelo vizinho que cisma em ouvir o hino do Vasco pela décima vez quando preciso concluir um paper á meia-noite. Mas, pode ser intencional. Tal como quando as tropas americanas marcharam sobre a Cidade do Panamá do ditador Noriega em 1989, tocando rock. Ou quando estações de trem na Europa passaram a tocar música clássica, por constatarem que este tipo de música coibia a criminalidade. Ou ainda quando shoppings centers tocam Frank Sinatra para inibir a aglomeração de adolescentes em seus corredores.
Pensamos muito pouco sobre esta dimensão opressiva dos ruídos e como estes usos refletem abuso de poder. E ainda como a "autoridade para fazer barulho" é demarcada socialmente.
Para começarmos a pensar sobre o assunto, este paper, dos autores Martin Cloonan e Bruce Johnson, intitulado "Killing me softly with his song: an initial investigation into the use of popular music as a tool of oppression" (Popular Music, vol 21, no 1) é uma boa introdução.
E a legenda sonora fica com o industrial do Trobbing Gristle
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Um comentário:
Ok, só não entendo exatamente qual é o problema com o Hino do Vasco... ;-)
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