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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Perfeito coração

O Panteão Nacional, em Lisboa, sede de uma das inúmeras mostras comemorativas sobre Amália Rodrigues


O que eu vou dizer agora até pode soar um bocadinho mórbido, mas parece que eu dei sorte em chegar a Portugal justo no semestre em que se celebram os dez anos da morte de Amália Rodrigues. Em nenhum outro contexto seria tão abundante a quantidade de matérias de jornal, especiais televisivos e exposições em tributo à célebre fadista. Como os veículos de mídia portugueses são razoavelmente diferentes entre si, não dá pra unificar todos numa mesma abordagem comum, mas em menor ou maior grau, todos eles de alguma forma deixam patente o desejo de desmitificar Amália, retirando-a do pedestal dos deuses intocáveis e aproximando-a da rica e contraditória figura humana que ela foi (e continua sendo, ora).



Isso implica na problematização de certos sensos comuns que, de tão repetidos ao longo das décadas, acabaram por se configurar como verdades incontestes: por exemplo, a ideia de que o repertório de Amália concentra-se exclusivamente no fado (Amália cantou chanson francesa, flamenco, música brasileira...) ou de que a artista era uma espécie de ícone cultural do Estado Novo e protegida de Salazar (mito este muito difundido após o 25 de abril e que atingiu não apenas Amália como também todo o universo do fado). O modo como Amália fez-se presente na vida cultural portuguesa para além de sua atuação como cantora – são inúmeros os longas-metragens protagonizados pela artista, e suas múltiplas aparições na TV lusa encontram-se devidamente documentadas no excelente documentário “Estranha forma de vida”, de Bruno de Almeida – os papéis sociais e identitários que articulou através de sua performance e mesmo dos trajes que vestia (e que, algumas vezes, ela mesma desenhava) parecem cada vez mais inscrever Amália Rodrigues no rol dos ícones pop portugueses, coisa que, não faz muito tempo, seria impensável, dado o caráter intocável que o fado e a figura de Amália possuíam.



Curioso que o processo de poparização de Amália Rodrigues se dê no mesmo momento em que um álbum de versões pop/rock do repertório amaliano, projeto concebido e executado por integrantes das bandas The Gift e Moonspell, esteja faz 23 semanas na lista dos 30 discos mais vendidos em Portugal, e há pelo menos um mês liderando o top de vendas, com concertos esgotados em todos os sítios. Parece não haver habitante desta península que ainda não tenha escutado pelo menos uma vez a onipresente versão dos Amália Hoje para “Gaivota”, ratificando, ao meu ver, uma tendência que já vinha se definindo bastante clara desde o êxito de álbuns como o “Canção ao lado” da Deolinda e do recente “Tasca beat” do Oquestrada: tem gente por estas bandas querendo revirar o fado de trás pra frente, o que é ÓTIMO; o fato de tais iniciativas estarem sendo bem recebidas pelo público em geral (embora o Amália Hoje tenha recebido algumas bordoadas da crítica) demonstra um desejo consciente ou inconsciente de se recuperar e transformar o passado musical português; por fim, e embora algumas pessoas só estejam dando conta disso agora, tenho pra mim que o fado e Amália não se tornaram pop de uma hora pra outra. Eles sempre foram.