sábado, 9 de janeiro de 2010

Nada como um post longo para queimar as calorias de Natal e Ano Novo

Depois que a XM de Coimbra anunciou que ia fechar as portas para mudança de endereço, e a Louie Louie do Chiado, em Lisboa, começou a deixar a desejar no quesito variedade de acervo, fiquei meio órfão no quesito lojas-de-discos-bacanas-além-mar. Até descobrir a Carbono, que fique registrado. Não se deixe enganar pelo site, que dá toda a pinta de não ser atualizado desde a década passada: a Carbono é um autêntico lugar de perdição onde viciados em LPs, CDs e DVDs de segunda mão são capazes de passar tardes inteiras à cata daquele álbum que pode mudar a sua vida, além de te deixar um punhado de euros menos favorecidos. Fica na Rua do Telhal (o acesso se dá pela Rua das Pretas, justo no momento em que ela começa a virar uma ladeira hardcore), perpendicular à Avenida da Liberdade, no lado oposto à Praça da Alegria.

Os LPs mais bacanas custam um bocadinho caro, é verdade (coisa que me parece uma constante em toda a Europa, aliás), mas garimpando bem dá pra encontrar muita coisa boa em CD na faixa dos 5 a 10 euros (artigos que na FNAC sairão por mais de 15 ou sequer estarão disponíveis). Fora as caixas, boxes e antologias afins, que no momento não são para o meu bico.

O grande diferencial da Carbono, contudo, fica logo à entrada da loja: uma prateleira de DVDs especializada em gore/exploitations diversos/pornô clássico-vintage onde sempre paro antes de explorar os CDs. A maioria dos artigos desta seção é importada, o que dá uma levantada considerável no preço, mas onde mais seria possível encontrar “Il gatto Nero” de Lucio Fulci com legendas em norueguês? Há disparates fora do meu escopo monetário, como uma caixa do Jodorovsky a meia-centena de euros ou uma edição da Criterion Collection do alucinado e reichiano “Sweet movie”, de Dusan Makajeiev por 30, embora – de novo – não há nada que uma boa pesquisa não resolva: nessa brincadeira, arrematei uma boa caixa com os cinco primeiros longas-metragens de Mario Bava a honestos 25 euros (média de 5 euros por cada filme, o que me parece bastante razoável) e, por um valor semelhante, um belo Box do Zé do Caixão. No caso, Coffin Joe, já que a edição era Made in UK.

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Alguns de vocês devem estar se perguntando por que diabos eu vim até Lisboa para comprar um Box inglês do José Mojica Marins. Eu respondo: porque ele deixa no chinelo a até bastante boa caixa que a Cinemagia lançou no Brasil já faz uns cinco, seis anos. Além de ser mais em conta para o bolso (na última vez em que vi esta caixa a venda no Brasil, ela saía por cerca de 140 reais, e hoje desconfio que a mesma esteja fora de catálogo), o Box inglês possui o adicional de trazer mais dois filmes que, no Brasil, só existem em VHS – “A estranha hospedaria dos prazeres” e “Inferno carnal” – plus o documentário sobre o cineasta dirigido pela dupla Barcinski & Finotti, outrora premiado em Sundance. Ok que a caixa brazuca ganhava muitos pontos no quesito extras, mas vamos combinar que alguns deles eram bem dispensáveis.

Ao fim e ao cabo, taí mais um aspecto que nos aproxima de Portugal: falta dar mais valor à prata da casa...

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O Pai Natal passou rapidinho aqui pela Alfama (o trânsito na IC19 andava meio congestionado por causa da chuva) e deixou perto do meu aquecedor/ grelhador de sardinhas a edição em vinil do mais recente álbum do mestre Tom Waits. “Glitter & doom” é o registro da célebre turnê que percorreu o interior dos Estados Unidos e alguns palcos pouco óbvios da Europa no ano retrasado – mas não passou por Portugal e, oh que surpresa, também não pelo Brasil. O álbum encontra-se disponível em LP e CD duplos, sendo que o CD2 é uma espécie de spoken word demencial com quase 40 minutos de Waits tergiversando sobre a vida, o universo e tudo o mais. Aqueles que optaram pelos bolachões recebem junto com o belo disco um cupom para sacar, no sítio da gravadora Anti-, não apenas a supracitada faixa de blábláblá (não incluída no vinil) como também a íntegra de “Glitter & doom” em mp3. Ou seja, nós sabemos que todo mundo vai ouvir o álbum nos seus players e Ipods mesmo, então nada mais justo que disponibilizar os arquivos com uma boa qualidade de som a quem já adquiriu o LP. Isso diz muita coisa sobre o modo como estamos ouvindo música hoje em dia, não? Eu acho que sim. O line up do show cobre parte significativa da carreira de Waits pós-“Swordfishtrombones”, dando preferência à recriação indecifrável de faixas obscuras de seus discos mais recentes que pouca gente ouviu – em outras palavras, nada de “Downtown train” ou “Ol’55” em “Glitter & doom”, o que pode tornar a experiência um bocado árida para os não convertidos.

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