Uma boa forma de confrontar a evidência – quase sempre incômoda, por vezes reconfortante e geralmente inevitável – de que o tempo está passando é constatar que dois Rock in Rio Lisboa já transcorreram desde que você começou a fazer a sua pesquisa. Nos dias 21, 22, 27, 29 e 30 de maio, o Parque da Bela Vista, no subúrbio oriental de Lisboa, volta a sediar o evento que já teve mais edições na Terrinha do que na cidade onde originalmente nasceu. Parece ou não parece uma espécie de eco daquela discussão que atribui ao fado uma origem brasileira, embora ele tenha se consagrado como “música nacional” em Portugal? Eu acho que parece. De qualquer modo, e talvez justamente por causa desta particularidade, o Rock in Rio Lisboa sempre me soou como um belo estudo de caso para se analisar em que pé andam as relações simbólicas e musicais entre Brasil e Portugal.
Que o RIR Lisboa é um caso de sucesso me parece incontestável. Que seu perfil é muito mais massivo e “familiar” do que o perfil dos demais Festivais de Verão dos quais o RIR costuma ser uma espécie de tiro de largada idem (compare-se o Rock in Rio Lisboa com o Paredes de Coura ou mesmo o Sudoeste em termos de acessibilidade e presença de bandas hypadas e o Festival que começa semana que vem, ao alcance de cinco estações de metrô e dispensando a barraca de camping, mais se assemelhará à escalação musical de um programa da SIC do que à lista de melhores-discos-do-ano do suplemento Ípsilon). O que mais me interessa no RIR Lisboa como evento, contudo, é o modo como ele catalisa algumas das contradições mais instigantes do atual panorama musical luso-brasileiro, sobretudo no que tange à (1) suposta hegemonia da música brasileira em Portugal e (2) glorificada fase áurea do pop made in Portugal. Vamos a elas:
(1) Reza a cartilha do senso comum que a música brasileira é venerada pelos portugueses, fornecendo a – no mais das vezes – distorcida impressão de que o lugar ocupado pela nossa música na mídia lusa é equiparável ao da música massiva made in USA/UK. Pelo menos eu iniciei esta pesquisa defendendo esta hipótese. Sendo assim, é no mínimo desapontador (para a confirmação da minha hipótese, quero dizer) que uma artista como Ivete Sangalo esteja escalada para o ingrato horário da 20h30 (ok, no palco principal do primeiro dia de evento), abrindo os trabalhos para John Mayer e Shakira. As maiores surpresas nesse sentido parece que ficaram reservadas para o Palco Sunset que, tendo em vista o perfil deste tipo de Festival, corre o risco de ficar às moscas, com shows começando às 17h, quando a maior parte da galera ainda está descansando da ressaca da noite anterior antes de encarar uma nova rodada de shows noturnos. Quem madrugar na Bela Vista, entretanto, terá a oportunidade de conferir duetos luso-brasileiros apetitosos, como Rui Veloso, Maria Rita & Toni Garrido (22 de maio), Jorge Palma & Zeca Baleiro (dia 27), Tiago Bettencourt (ex-Toranja) & Tiê e Luis Represas & Martinho da Vila (dia 29) – se os shows do Palco Mundo, começando mais ou menos pelo mesmo horário, não ofuscarem as apresentações desta turma.
(2) A presença da música portuguesa no line up do RIR, curiosamente, obedece a uma dinâmica semelhante a que acomete os artistas brasileiros, mas a impressão que eu tenho é de que na edição atual há mais espaço para a música portuguesa no Palco Principal do que em anos anteriores, embora seja quase sempre na inglória condição de show de abertura (a fadista Mariza no dia 21, João Pedro Pais seguido do Trovante no dia 22, Xutos e Pontapés – oh, surpresa! – no dia 27 e o D’ZRT no dia 29). Já no palco Sunset, a música portuguesa é quase dominante: no dia 21, o cardápio oferece do fado alentejano de Antonio Zambujo ao fado felliniano do Oquestrada, passando pelo hip hop de Boss AC, que sobe ao palco junto com o músico angolano Yuri da Cunha; nos outros dias, além dos duetos luso-brasileiros já mencionados, rolará de Fingertips a Lucia Moniz, de Tim (dos Xutos) & Mariza ao rap do Expensive Soul. Estranho apenas a ausência de nomes como David Fonseca e Legendary Tigerman, pois se é de música massiva que o RIR se trata, nada mais natural do que incluir no line up dois dos músicos portugueses que mais venderam no ano que passou (embora depois do entrevero ocorrido no último Sudoeste, eu tenha sérias dúvidas de Paulo Furtado alguma vez será visto novamente em outro Festival de grande porte). Estranho, mas não me surpreendo, pois o massivo do RIR sempre esteve mais pra D’ZRT do que para David Fonseca (vejam que eu nem me dei ao trabalho de lamentar a ausência de um B Fachada ou mesmo do Blasted Mechanism...).
Enfim, tal qual Gordon Gekko, especulo, especulo. E aí, quem se habilita a continuar a discussão? Comentem, opinem, provoquem, façam o pino... A temporada dos festivais está apenas começando.
