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sábado, 15 de maio de 2010

Quem vai?


Uma boa forma de confrontar a evidência – quase sempre incômoda, por vezes reconfortante e geralmente inevitável – de que o tempo está passando é constatar que dois Rock in Rio Lisboa já transcorreram desde que você começou a fazer a sua pesquisa. Nos dias 21, 22, 27, 29 e 30 de maio, o Parque da Bela Vista, no subúrbio oriental de Lisboa, volta a sediar o evento que já teve mais edições na Terrinha do que na cidade onde originalmente nasceu. Parece ou não parece uma espécie de eco daquela discussão que atribui ao fado uma origem brasileira, embora ele tenha se consagrado como “música nacional” em Portugal? Eu acho que parece. De qualquer modo, e talvez justamente por causa desta particularidade, o Rock in Rio Lisboa sempre me soou como um belo estudo de caso para se analisar em que pé andam as relações simbólicas e musicais entre Brasil e Portugal.

Que o RIR Lisboa é um caso de sucesso me parece incontestável. Que seu perfil é muito mais massivo e “familiar” do que o perfil dos demais Festivais de Verão dos quais o RIR costuma ser uma espécie de tiro de largada idem (compare-se o Rock in Rio Lisboa com o Paredes de Coura ou mesmo o Sudoeste em termos de acessibilidade e presença de bandas hypadas e o Festival que começa semana que vem, ao alcance de cinco estações de metrô e dispensando a barraca de camping, mais se assemelhará à escalação musical de um programa da SIC do que à lista de melhores-discos-do-ano do suplemento Ípsilon). O que mais me interessa no RIR Lisboa como evento, contudo, é o modo como ele catalisa algumas das contradições mais instigantes do atual panorama musical luso-brasileiro, sobretudo no que tange à (1) suposta hegemonia da música brasileira em Portugal e (2) glorificada fase áurea do pop made in Portugal. Vamos a elas:

(1) Reza a cartilha do senso comum que a música brasileira é venerada pelos portugueses, fornecendo a – no mais das vezes – distorcida impressão de que o lugar ocupado pela nossa música na mídia lusa é equiparável ao da música massiva made in USA/UK. Pelo menos eu iniciei esta pesquisa defendendo esta hipótese. Sendo assim, é no mínimo desapontador (para a confirmação da minha hipótese, quero dizer) que uma artista como Ivete Sangalo esteja escalada para o ingrato horário da 20h30 (ok, no palco principal do primeiro dia de evento), abrindo os trabalhos para John Mayer e Shakira. As maiores surpresas nesse sentido parece que ficaram reservadas para o Palco Sunset que, tendo em vista o perfil deste tipo de Festival, corre o risco de ficar às moscas, com shows começando às 17h, quando a maior parte da galera ainda está descansando da ressaca da noite anterior antes de encarar uma nova rodada de shows noturnos. Quem madrugar na Bela Vista, entretanto, terá a oportunidade de conferir duetos luso-brasileiros apetitosos, como Rui Veloso, Maria Rita & Toni Garrido (22 de maio), Jorge Palma & Zeca Baleiro (dia 27), Tiago Bettencourt (ex-Toranja) & Tiê e Luis Represas & Martinho da Vila (dia 29) – se os shows do Palco Mundo, começando mais ou menos pelo mesmo horário, não ofuscarem as apresentações desta turma.

(2) A presença da música portuguesa no line up do RIR, curiosamente, obedece a uma dinâmica semelhante a que acomete os artistas brasileiros, mas a impressão que eu tenho é de que na edição atual há mais espaço para a música portuguesa no Palco Principal do que em anos anteriores, embora seja quase sempre na inglória condição de show de abertura (a fadista Mariza no dia 21, João Pedro Pais seguido do Trovante no dia 22, Xutos e Pontapés – oh, surpresa! – no dia 27 e o D’ZRT no dia 29). Já no palco Sunset, a música portuguesa é quase dominante: no dia 21, o cardápio oferece do fado alentejano de Antonio Zambujo ao fado felliniano do Oquestrada, passando pelo hip hop de Boss AC, que sobe ao palco junto com o músico angolano Yuri da Cunha; nos outros dias, além dos duetos luso-brasileiros já mencionados, rolará de Fingertips a Lucia Moniz, de Tim (dos Xutos) & Mariza ao rap do Expensive Soul. Estranho apenas a ausência de nomes como David Fonseca e Legendary Tigerman, pois se é de música massiva que o RIR se trata, nada mais natural do que incluir no line up dois dos músicos portugueses que mais venderam no ano que passou (embora depois do entrevero ocorrido no último Sudoeste, eu tenha sérias dúvidas de Paulo Furtado alguma vez será visto novamente em outro Festival de grande porte). Estranho, mas não me surpreendo, pois o massivo do RIR sempre esteve mais pra D’ZRT do que para David Fonseca (vejam que eu nem me dei ao trabalho de lamentar a ausência de um B Fachada ou mesmo do Blasted Mechanism...).

Enfim, tal qual Gordon Gekko, especulo, especulo. E aí, quem se habilita a continuar a discussão? Comentem, opinem, provoquem, façam o pino... A temporada dos festivais está apenas começando.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Ôôô-ô, ôôô-ô, ôôô Rock in Rio-oo... Lisboa!



A operadora de telefonia móvel portuguesa TMN está caminhando a passos largos para arrebatar o título de “dona das propagandas mais constrangedoras envolvendo personagens da cultura midiática brasileira”. Acabou de ser lançada por estas paragens uma nova campanha na qual um boneco de ventríloquo participa de uma audição estilo “Ídolos”, de cujo júri faz parte ninguém mais ninguém menos do que a Daniela Mercury. Após cometer uma versão daquela música que diz “o amor de Julieta e Romeu, igualzinho o meu e o seu” com uma voz de taquara rachada que mais parece a do Bruno Aleixo depois da Gripe A, o boneco começa a tentar provar que sabe “falar brasileiro”, enumerando uma série de palavras e expressões “nativas” tais como boitatá, chuchu beleza e... Niterói! A atual peça só não consegue ser pior – embora seja indubitavelmente mais irritante – do que a campanha de verão da mesma empresa, ambientada numa praia e protagonizada por Reynaldo Gianecchini e Luana Piovani (havia uma versão “para meninos” e outra “para meninas” da propaganda – o ápice dramático da primeira peça consistia no ator brasileiro esfregando o celular pelo corpo suado, sob o olhar embevecido da rapariga que havia encontrado o aparelho perdido na areia da praia, e ao som de uma cançoneta italiana daquelas que costumavam vencer o Festival de San Remo em Mil-Novecentos-e-Muito).

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Após conferir “Morrer como um homem”, o mais recente longa-metragem do sempre necessário João Pedro Rodrigues, ambientado no universo travesti lisboeta e protagonizado pelo surpreendente Fernando Santos, fico me perguntando se haveria cineasta mais adequado para levar às telas a vida de António Variações, cuja cinebiografia vem sendo alvo de uma interminável disputa judicial em torno do roteiro do filme que promete atrasar – e muito – a realização da mesma. Ok que o estilo visceral e sem concessões de Rodrigues provavelmente afugentaria o “público médio”, mas o que uma cinebio de Variações menos precisa é do tratamento asséptico de um Carlos Coelho da Silva. Aliás, melhor dizendo, talvez Variações sequer precise de um longa-metragem sobre sua trajetória de vida: “Morrer como homem”, ainda que de forma indireta, cumpre perfeitamente esse papel. Se é possível falar de um espírito-Variações, ele está todo ali, em cada fotograma do filme, sobretudo na bela seqüência da floresta e na cena em que Tónia, a protagonista, durante uma viagem de carro, cantarola os versos de “Sempre ausente”.

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Já começam a aparecer, espalhados pelas paredes do metro de Lisboa e nas laterais das paragens de autocarros, alguns cartazes anunciando o próximo Rock in Rio Lisboa, a acontecer no já tradicional Parque da Bela Vista, em maio de 2010. Curioso pensar que o festival já vai para a sua quarta ocorrência Além-Mar, enquanto que a “matriz” brasileira estacionou pela terceira edição. “Voltei!”, anuncia o cartaz, no qual uma garota empunhando uma guitarra abre os braços sobre a cidade de Lisboa, tendo o Castelo de São Jorge à direita e a Ponte 25 de Abril ao fundo (pena que não há vestígio do Parque da Bela Vista, local onde de fato ocorrem os shows... Por que será?).

sexta-feira, 28 de março de 2008

Rock in Rio... Lisboa! Quem vai?

Com a presença dos californianos do Offspring devidamente confirmada, a terceira edição do sui generis Festival Rock in Rio Lisboa teve seu line up definido. O evento ocorrerá nos dias 30 e 31 de maio, e 1, 5 e 6 de junho na “Cidade do Rock” lusa, situada nos arredores de Lisboa.

No site oficial do Festival (http://rockinrio-lisboa.sapo.pt) é possível obter informações detalhadas sobre o dito cujo. No entanto, e a exemplo do que acontece na versão carioca do evento, é na periferia do Palco Mundo que se concentram as atrações mais interessantes – sobretudo para os que desejam expandir seus horizontes musicais e descobrir, por exemplo, que a música portuguesa contemporânea vai muito além do Madredeus.

De todas as edições do Rock in Rio Lisboa, aliás, a de 2008 é a que menos espaço dedicou às atrações portuguesas no palco principal. Apenas os veteranos do Xutos & Pontapés ocuparão o Mundo, no dia 1 de junho, espremidos entre o dinossauro Rod Stewart e a neo-soul woman Joss Stone, e abrindo para os alemães do Tokio Hotel. Nas edições 2004 e 2006, além do onipresente Xutos, Pedro Abrunhosa, Rui Veloso, Luis Represas e Da Weasel participaram do palco principal. Em termos absolutos, o espaço da música brasileira também diminuiu: apenas Ivete Sangalo (que participou das três edições!!) e os mineiros do Skank freqüentarão o Palco Mundo.

Por outro lado, na Tenda Electrónica e no Palco Sunset, concentram-se as atrações de perfil mais... alternativo (“alternativo”, aqui, como sinônimo de “não-tão-presente-nos-canais-hegemônicos-de-mídia”), e também mais palpitantes. Merecem destaque o trip-hop do Cool Hipnoise (31), a improvável parceria entre o rapper Boss AC e o veterano trovador Vitorino (4), o indie-rock cantado em inglês do Wraygunn (5) e o encontro do funk carioca de Deise Tigrona com o kuduru angolano do Buraka Som Sistema (6).

Mais sobre a terceira edição do Rock in Rio Lisboa, em breve, aqui neste espaço.