por Gustavo Alonso
Discussões sobre a atual música sertaneja frequentemente questionam o apodo "universitário" atribuído ao gênero nos dias de hoje. Alguns dizem que o sertanejo continua a mesma coisa, duplas melodramáticas, letras exageradas, participação acentuada na indústria cultural, popularidade em alta. Não haveria nada de novo. De forma que não haveria razão para tal apodo, que seria simplesmente uma reformulação "do mesmo", uma artimanha da indústria e dos próprios artistas para vender mais.
Alguns chegam a dizer que o atual sertanejo universitário é uma moda passageira, uma bolha que estourará em poucos anos, deixando orfãos artistas de quinze minutos de fama. É frequente a comparação com o chamado Forró Universitário, que no início do milênio fez sucesso com grupos como Falamansa, Rastapé, Trio Virgulino, dentre outros. De forma que, para aqueles que comparam os dois gêneros, assim como o Forró Universitário, o Sertanejo Universitário não durará muito tempo.
No entanto há algumas diferenças sensíveis entre os dois "movimentos". O Forró Universitário era um apodo para qualificar determinados grupos que se baseavam na "boa" tradição do forró, desde Luiz Gonzaga, e faziam um som que era bem aceito pelo público mais elitizado das universidades. Era uma forma de legitimar um produto musical e de distinguir determinado consumo deste bem, que se diferenciava do tecnobrega/tecnoforró, que desde meados dos anos 90 vinha tomando o cenário cultural do forró. O tecnoforró incomodava (e ainda incomoda) os mais tradicionais pois tinha pouco apego à tradição e buscava fundir novas práticas culturais e tecnológicas ao legado do forró com uma certa "irresponsabilidade".
De forma que o Forró Universitário era uma reação (reacionária?) a um determinado tipo de som muito popular, visto pelo público mais elitizado como banal e comercial e pouco apegado "às raízes". Assim, associar o termo "universitário" ao forró era, ao mesmo tempo, resguardá-lo na "boa" tradição e distinguir-se do povão.
No entanto, o forró já é "univesitário" há pelo menos 40 anos. Desde a incorporação de Luiz Gonzaga à "boa" tradição da MPB. Mas nem sempre foi assim. Cabe lembrar que a imagem que ficou associada durante muito tempo ao baião, xotes e forrós de Luiz Gonzaga foi a imagem do mau-gosto, das brigas de faca e da música maliciosa. De meados dos anos 1950 até o final dos anos 1960, Luiz Gonzaga ficou praticamente recluso e afastado das grandes mídias, sendo considerado figura cujo auge já havia terminado. Depois da Bossa Nova, só com muita dificuldade Gonzagão fazia shows nas capitais do Sudeste (apesar de na época morar na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro). Não obstante o desprezo de uma determinada intelectualidade, os shows pelo interior do Brasil continuavam. Apesar da carreira intensa pelo resto do Brasil, até o próprio Gonzagão considerava, em meados dos anos 1960, que seu período áureo já havia passado. Em 1966 ele aceitou ser biografado. Quando parecia que sua carreira estava decaindo de vez, Gonzagão foi louvado pela MPB: primeiro por Vandré e depois pelos tropicalistas Gil e Caetano, que o colocaram no mesmo panteão de João Gilberto e Dorival Caymmi.
De forma que através do aval de Vandré e, sobretudo, dos tropicalistas na virada dos anos 70, Luiz Gonzaga pode se tornar um dos pais da tradição, aceitável e consumível entre os universitários e o público mais elitizado. Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira chegaram a agradecer nominalmente a Caetano Veloso na canção "Bicho, eu vou voltar" do LP O Canto Jovem de Luiz Gonzaga, de 1971. Trata-se de um disco onde Gonzaga canta canções dos "novos" artistas da MPB, de Edu Lobo a Caetano e Gil, de Vandré, de Dori Caymmi e Nelson Motta a Antonio Carlos e Jocafi. Regravou também seu maior clássico, "Asa Branca". O forró ganhava as bençãos universitárias e o maior forrozeiro do Brasil cantava a MPB, gênero intimamente associado aos estudantes das universidades do país.
De forma que falar de forró universitário diz muito pouco nos dias de hoje para além da pura e simples distinção. Não há novidade nenhuma em se afirmar que o forró tem respaldo e é ouvido nas universidades. Não há quase nada de novo aí. Desde há pelo menos 40 anos ele vem sendo ouvido e aceito pelos universitários.
Com o sertanejo não é assim. A música sertaneja nunca havia sido associada à estética universitária antes da invenção do apodo "sertanejo universitário", por volta de 2005. Pelo contrário, a música sertaneja sempre foi vista como algo exógeno à universidade, de mau-gosto, brega, cafona, demais melodramático, fora da sensibilidade de pessoas ditas "cultas".
É claro que poderia haver pessoas com formação universitária que, aqui e ali, ouviam música sertaneja em sua intimidade. Mas dificilmente teriam coragem de afirmar e defender o gênero como legítimo dentro de um campus universitário. Se alguém o fizesse perigava ser simplesmente ignorado pelos colegas de bancada universitária, quando não rechaçado e acusado de ter "mau-gosto".
É claro também que isto variou de curso para curso. Por exemplo, mesmo nos dias de hoje num curso de Ciências Humanas pega muito "pior" falar de música sertaneja do que no de, sei lá, Química, tamanha a força com que a identidade da MPB e gêneros importados "legítimos" toca os universitários supostamente "críticos" e/ou "conscientes". E ainda há a variante regional. No Rio ainda pega bastante mal um universitário bradar a plenos pulmões ser fã de Victor & Leo ou Cesar Menotti & Fabiano, quanto mais de Luan Santana. Em várias outras regiões do Brasil não há essa reserva entre os universitários, pelo contrário.
De qualquer forma, o que estou querendo apontar aqui é que em nenhum momento antes de 2005 a música sertaneja conseguiu gravitar em torno da legitimidade dos universitários. Isso não quer dizer que ela não tivesse discursos de legitimação próprios, mas que estes não passavam pela defesa da audição por parte de universitários. A música sertaneja antes de 2005 elencava a popularidade, a alta vendagem, a modernização e a sensibilidade melodramática "verdadeira" como legitimadores de seu próprio sucesso.
Não se sabe exatamente como e onde surgiu o apodo "universitário" para a música sertaneja. Especula-se que tenha surgido com a dupla João Bosco & Vinícius, artistas com formação universitária parcial que começaram a fazer shows no interior do Brasil em repúblicas universitárias, ganhando fama no meio. Outros dizem que o apodo pegou por causa da dupla Cesar Menotti & Fabiano que, mesmo não sendo universitários, também faziam shows para este público.
O próprio fato de não se saber a origem exata do nome denota a própria validade deste apodo para toda uma geração de artistas. Além dos artistas já citados, há Maria Cecília & Rodolfo, Victor & Leo, Paula Fernandes, Luan Santana, Guilherme & Santiago, Fernando & Sorocaba, Hugo Pena & Gabriel, Michel Teló e uma infinidade de outros artistas.
De forma que, se o termo ganhou legitimidade rapidamente (apesar de algumas resistencias iniciais de alguns artistas e sobretudo dos sertanejos dos anos 90), há de se refletir como isso foi obtido. Embora a indústria cultural lucre rios de dinheiro com este apodo, a questão é que o lucro obtido pela indústria cultural não foi pura e simplesmente uma "invenção" secreta de algum super cérebro das grandes gravadoras.
Quem diria, em 2005, que o termo seria algo vendável? Nunca antes na história do gênero ele tinha entrado na universidade. Se o termo tornou-se muito vendável foi porque ele encontrou lastro na mudança de padrão estético de parte da população e, sobretudo, dos próprios universitários.
Parece-me possível apontar que a mudança do gosto do público universitário responde a uma transição no panorama universitário brasileiro. A partir do crescimento das universidades privadas e também dos investimentos em universidades públicas na última década, pode-se dizer que, pelo menos em questão estética, o público universitário mudou. Os "apocalípticos" poderão dizer que mudou "para pior", mas estes sempre preferem ver o "buraco do queijo", esquecendo-se do queijo propriamente dito. A ampliação do público universitário gerou um novo padrão de gosto e é justamente essa mudança que incomoda aqueles que, de dentro da universidade, rejeitam o apodo. Sobretudo aqui no Rio de Janeiro, a resistência ao apodo é bastante grande, até porque, em parte, parece-me que a universidade carioca ainda não entrou de cabeça no gênero, como em outras regiões do Brasil.
Esta é uma das diferenças fundamentais entre o sertanejo atual em relação ao forró universitário. Se no caso do forró não havia nada de novo no apodo "universitário", no mundo sertanejo esse apodo faz toda a diferença, tendo raízes numa mudança "objetiva" da sociedade e da própria universidade, visível através da mudança do padrão de gosto deste grupo.
Antes do sertanejo universitário, para se falar de música POPULAR, tinha que se sair do referencial universitário. Agora, parece-me que isso já não é mais tão relevante como era antes.
De uns tempos cá os sertanejos vêm, claramente, buscando disputar, inclusive discursivamente, este cenário universitário. Neste blog eu
já escrevi um pouco sobre isso, especialmente em relação a dupla Victor & Leo, que parece ser a mais bem sucedida nesta ponte com o mundo universitário, o sertanejo e a MPB, juntando "tradições" antes vistas como distintas.
Com essas questões em mente, não foi sem espanto, no entanto, que me deparei com o seguinte DVD lançado pela Universal em 2010:
Trata-se de uma coletânea de vídeos ao-vivo de duplas sertanejas. De fato, é uma coletânea tipicamente "caça-níquel". No entanto, a capa transparece, voluntariamente ou não, esta tônica de disputa do meio universitário. Ela é muitíssimo parecida com a capa dos discos Phono 73, lançado pela Philips (hoje Universal) em 1973:
A semelhança da capa não parece involuntária. Afinal, a mesma gravadora lançou os dois materiais. De qualquer forma fica clara a intenção de se desestabilizar um local tradicionalmente habitado pela Bossa Nova-MPB-rock.
Se por um lado a música sertaneja parece conquistar o meio universitário, por outro lado a própria música sertaneja sofre uma transição bastante interessante. É curioso perceber como a guitarra eletrica não tem mais espaço na música sertaneja. Basta lembrar que o que incomodava a muitos nos anos 90 era a ultilização desta por duplas como Chitãozinho & Xororó e Zezé Di Camargo & Luciano, dentre outras. Em menos de vinte anos ela desapareceu, sendo substituída pelo violão de cordas de aço, sem efeitos. O teclado, também um importante instrumento nos anos 90, foi trocado pela tradicional sanfona. De forma que, se a música sertaneja mudou o padrão de gosto do universitário brasileiro, por outro lado também foi mudada por este. O violão, instrumento nobre da MPB-Bossa Nova ganhou espaço novamente. A sanfona, instrumento da tradição forrozeira e interiorana, retorna com tudo.
E no canto também há mudanças perceptíveis. O "vibrato", aquela prática de fazer a voz vibrar, que remete ao bolero e a tradição latina e operística de canto, está cada vez mais em extinção. O canto sertanejo ainda incomoda, mas choca menos que nos anos 90. Em entrevista com um artista sertanejo que fez sucesso nos anos 90, este me disse que Leo, da dupla Victor & Leo, soava para ele como "João Gilberto cantando sertanejo". Para além da ironia e rancor da afirmação, ela denota uma transição no padrão de gosto, e a aproximação do pai da Bossa Nova. De fato, se ouvirmos os primeiros discos independentes de Victor & Leo (de 2002) e ouvirmos o último disco ("Boa Sorte pra você", de 2010), percebe-se claramente a virtual extinção do vibrato.
De forma que a chegada dos sertanejos à universidade implica mudanças relativas tanto no gênero, quanto no meio de inserção. Tanto a louvação ao sertanejo universitário quanto o repúdio puro e simples não dão conta desta problemática e passam ao largo da compreensão mais profunda deste cabo de guerra do gosto e das identidades socio-culturais nacionais.