quinta-feira, 31 de maio de 2007

Arte digital não-interativa?


Foi lançada esse mês em português, no projeto LX2.0 da Lisboa 20 Arte Contemporânea, a narrativa virtual Manhã dos Mongolóides.
Os autores, a artista coreana Young-Hae Chang e o poeta americano Marc Voge, são conhecidos por suas obras digitais lineares e fechadas, fugindo de imagens, botões e outras tendências da narrativa digital contemporânea.
A dupla, que se opõe à interatividade como característica distintiva da nova mídia, promove uma literatura criada a partir de animações rápidas em Flash, tendo como inspiração a poesia concreta e o cinema experimental.
Manhã dos Mongolóides é uma narrativa sobre o preconceito e a separação Oriente/Ocidente, contando a história de um homem branco que após uma noite de bebedeira acorda confuso em Seul.
O trabalho de Chang e Voge, ao questionar a função da interatividade no meio digital, serve como exemplo da variedade de vertentes na área da arte/narrativa digital.
O projeto em si também é bem interessante e merece um acompanhamento!

terça-feira, 29 de maio de 2007

Panorama da MPB: da "Era dos Festivais" ao Funk.

No texto que hoje apresentamos para dar continuidade à proposta de reflexão sobre a música brasileira contemporânea (ver post original), os alunos Mariana Gomes Caetano e Felipe Claudino propõem uma análise do movimento hip-hop, apresentando brevemente sua história, sua chegada no Brasil e as transformações que passa ao se instalar em nosso contexto.


Hip-Hop: A arte da periferia ganhando o mundo.

Felipe Claudino e Mariana Gomes Caetano

Resumo: Pretendemos fazer um breve estudo sobre a cultura hip-hop, com ênfase no aspecto musical, mostrando sua história e sua trajetória no Brasil. Será mostrado também como esse movimento quer pensar uma nova estética popular, bastante crítica em relação à realidade brasileira, suas relações com a indústria fonográfica, expondo as possíveis incorporações e rejeições que ocorrem dentro do rap nacional.O objeto de estudo escolhido foi o rap devido a sua grande expansão no Brasil, principalmente a partir dos anos 90. A “voz da periferia” encontrada nos guetos norte-americanos vem para o Brasil em boa parte com a mesma temática: mostrar de forma criativa e com uma estética própria as condições as quais os residentes da periferia – em sua maioria negros – estão expostos.No entanto, como qualquer movimento cultural que se expande por outros locais, o seu sentido é reinterpretado, “re-significado” no Brasil. As diferenças encontram-se principalmente quando se compara esse movimento no Rio de Janeiro e São Paulo. O Rio de Janeiro, usando a mesma linguagem exposta no hip-hop norte-americano, promove uma mudança na temática a ser explicitada. Além de mostrar de forma contundente a vida dos moradores carentes e sua relação com a violência, tráfico, falta de infra-estrutura, etc., o rap carioca abrange características do “estilo carioca de ser”, mostrando o gosto pela diversão noturna, certa “malandragem” no modo de se esquivar dos problemas vividos, e até mesmo uma reflexão sobre a classe média burguesa, mostrando suas contradições e hipocrisias (isto é visto, por exemplo, em músicas como Retrato de um playboy e Lôrabúrra de Gabriel, O Pensador).Em São Paulo, destaca-se o caráter contestador do hip-hop. Postura que mantém vínculo com o estilo norte-americana, com a devida adequação à realidade brasileira, apresentando relexões acerca de fama, sucesso, dinheiro e favela, preconceito e violência, sobretudo policial.


segunda-feira, 28 de maio de 2007

Farinha pouca, meu pirão primeiro

Desde 2000, uma companhia muito curiosa atua no segmento da troca de arquivos digitais. Atuando junto às grandes indústrias de entretenimento, o Media Defender é uma das milhares de vozes que levanta a tão desgastada bandeira anti-pirataria. Sua atuação consiste em espalhar arquivos falsos de filmes e músicas, criando ruídos na transferência dos arquivos verdadeiros, o que resulta em uma grande lentidão. Entretanto, não é só desse serviço de que ela dispõe. Utilizando-se da mesma rede p2p, o Media Defender também oferece um serviço de marketing que promete interceptar as buscas dos usuários. Isso faz com que determinado produto se torne figura fácil na lista dos itens disponíveis para download, para o qual a empresa garante velocidade excepcional. A idéia rasteira de que as mídias não são "boas" ou "ruins" em si mesmo, mas dependem do uso que delas se fazem - o que Mcluhan, já em 64, considerava como "o sonambulismo de nossos tempos" - parece ainda estar em voga... e em prática!

domingo, 27 de maio de 2007

Stronda Music

Semanas atrás, recebi de uma aluna um arquivo musical inusitado. Era uma balada cantada por voz feminina, arranjos para coro e instrumentos, que poderia ter sido gravada por qualquer baladeira clássica dos anos 60. Poderia. Isto se a letra não fosse somente a repetição de uma mesma frase: o nosso famoso "Vai tomar no c.." - que causava um efeito hilário, quando combinada com os elementos acima mencionados.
A mensagem comentava ainda qualquer coisa sobre usar a música como truetone para celular... o que me fez respondê-la rindo para depois esquecer da história. Até que hoje me deparei com a sua amplificação nas páginas da Revista - suplemento do Jornal O Globo - com matéria de duas páginas do jornalista Carlos Albuquerque.
Sob o título "Deboche em rede", ele comenta esta "tendência", captando o espírito da coisa.
"Longe das gravadoras e apenas a um clique de distância do respeitável público, as músicas de João Brasil e da dupla Cris Nocoletti/Cacá Bloise e Prexeca Bangers estão tirando a maior onda na internet. São produções toscas, com jeito caseiro e 100/% iconoclastas, porque respeito é bom, mas eles não gostam."

A partir daí, ele destaca a trajetória destas produções que têm em comum o escracho, a produção tosca, o descompromisso, a Internet como ambiente de circulação e o estouro a partir do boca a boca (ou clique a clique).
Sobre a balada da dupla Cris e Cacá ele conta que foi feita numa noite de bebedeira com amigos, no espírito de total sacanagem com um vizinho que reclamava do barulho...E que daí foi tocada em rodas de violão, depois gravada para uma peça de teatro, a gravação vazou para a Internet, fizeram um clipe para o You Tube, depois já tocou em festa na Pista 3 (casa noturna de Botafogo - Rio de Janeiro)- na bola de neve que está se tornando o padrão de divulgação via redes digitais.
Nesta batida, estas produções já estão ganhando um rótulo - "Stronda Music". E há gravadoras de olho na produção - que na matéria é associada ao estouro da banda Mamonas Assassinas, na década passada.

Do nosso ponto de vista, o fenômeno aponta para mais pistas do que simplesmente a retomada do humor dos Mamonas. Uma delas, a que explicita a estética e as estratégias do digital trash. Este fenômeno foi discutido de forma pioneira no Simpósio de mesmo nome, idealizado e organizado pelo colega Vinicius Pereira no final do ano passado na ESPM, do qual participei e vai virar livro em breve. E que se desdobrou no blog que comentei outro dia.

Fenômeno que, do meu ponto de vista, caracteriza-se justamente por este tipo de produção tosca, debochada, politicamente incorreta, low tech, que tem na paródia a sua marca mais forte. Que poderia ser pensada como "lixo cultural" - mas que aponta para uma apropriação criativa e irônica dos ícones da mídia ao mesmo tempo que explicita o modelo de circulação "viral" da informação no ambiente da Internet, a partir das ferramentas de compartilhamento tais como You Tube, My Space, Orkut, etc.

Exemplos da "Cultura da Interface" - conforme denominou Steven Johnson na obra de mesmo nome. Pois, no argumento do autor, torna-se necessário perceber a estreita relação entre o mundo de excesso informacional e a necessidade de filtros que mediem a nossa relação com esta informação a partir de inúmeros pontos de vista. E onde este processo de colagem ou de corta e cola é fundamental, revelando estratégias que tentam responder às questões: “o que significa toda esta informação? Como ela se relaciona com a minha visão particular de mundo?”
Este argumento nos leva a outro. O de que a “liberação do pólo da emissão” defendido por alguns autores tais como Pierre Lévy ou André Lemos como a marca da cibercultura não pode ser compreendida sem esta segunda noção de mediação ou interface.
Ainda segundo Johnson: se estas práticas permeiam a nossa relação com o mundo contemporâneo em todas as mídias, a flexibilidade da informação digital faz com que este seja o universo quase natural destas “metaformas” cuja marca principal é o hibridismo. Neste sentido, a digital trash é elemento fundamental da cibercultura. E assim, o que pode parecer uma bobagem - lixo cultural sem "relevância social" maior, reveste-se de novos significados que merecem atenção, por traduzir o espírito desta nossa época.

Uma outra pista interessante é a dos vasos comunicantes entre o digital trash e as mídias tradicionais. Reparem: faz parte do processo dar um rótulo para esta produção - Stronda Music; perceber "com que este som se parece" (como diz Simon Frith no seu livro Performing Rites) - no caso o som dos Mamonas Assasinas e assim reconhecer um potencial mercado para este consumo.Junto com isto, a matéria do Globo na seção comportamento identifica aí uma "tendência"... Neste processo, podemos reconhecer as estratégias e tensões discursivas dos agentes envolvidos em torno do processo de valoração, autoridade e legitimação cultural - inclusive nós mesmos ao escrevermos este post. Tema que, neste exato momento, estamos discutindo nas reuniões do LabCult, a partir das leituras de Bourdieu e Simon Frith.



Hits do Stronda Music pra pescar na rede:

Vai tomar no c... - Cris Nicolotti e Cacá Bloise
Baranga, Supercool, Pau Molão e Cobrinha Fanfarrona - de João Brasil
Vivo para mulé, Barro, Cafetão e Filosofia do Playson -Prexeca Bangers

Dicas de leitura:

Cultura da Interface - Steven Johnson - Zahar Ed. RJ, 2001
Campo intelectual e prjeto criador - Pierre Bourdieu. In: Problemas do estruturalismo - Zahar Ed, RJ, 1968
Performing Rites - On the value of popular music -Simon Frith -Harvard Univ Press - Cambridge, Mass -1996

Diálogo entre Culturas.

Quem trabalha com jogos eletrônicos - e vive preocupado com a escassez de espaços para discussão - não pode perder o I Colóquio de Pesquisas em Educação e Mídia, que tem como tema central “Diálogo entre Culturas”. O evento será realizado nos dias 28, 29 e 30 de agosto na UNIRIO, que fica ao lado do Campus da UFRJ, Praia Vermelha. O Colóquio abarca nove Grupos de Trabalhos, que compreendem estudos concluídos ou em fase de conclusão sobre produção, recepção, consumo, formas de apropriação e modos de uso de produtos midiáticos e tecnológicos, nos contextos educacionais. Dentre estes GTs, gostaria de destacar o de número 04, que é exclusivamente voltado para pesquisas sobre Games e capitaneado pela minha amiga, Profª Lynn Alves (UNEB), importante referencial no ramo dos jogos eletrônicos.
Já os docentes que coordenam grupos de pesquisa, certificados no diretório do CNPQ, poderão enviar propostas para compor as mesas redondas. Além disso, a abertura do I Colóquio de Pesquisas em Educação e Mídia será incrementada com uma palestra proferida pela renomada professora Lúcia Santaella. Já os amantes da boa música serão contemplados com uma roda de chorinho, que acompanhará o coquetel de encerramento. Os interessados devem se apressar, pois o prazo para a submissão de trabalhos e propostas de mesas é só até o próximo dia 5 de junho.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Blogs novos na área

Dois blogs coletivos de pesquisa bacanas, ambos editados por grupos de meu queridissimo colega e brother - em todos os sentidos da expressão - Vinicius Pereira, professor da UERJ e que já esteve no LabCult discutindo as idéias de McLuhan conosco no ano passado: Digital Trash e visuaudiolfactil
Lá na UERJ o Vinicius, ao lado do Erick Felinto, tem sido um importante interlocutor, por tratar de temáticas próximas às nossas áreas de interesse acadêmico.
Mantemos uma colaboração muito estreita e creio que os grupos de pesquisa podem ganhar muito na troca de idéias e informações.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Call for papers

Estão abertas as inscrições para submissão de trabalhos ao I Congresso Internacional Arte e Novas Tecnologias. O evento acontece no MAC-SP, entre os dias 13 e 17 de agosto.
A dead-line para envio das propostas é dia 31 de maio e as mesas temáticas são: 1) Produção e Circulação da Arte; 2) Sociedade, Arte e Cultura; 3) Tendências estéticas 4) Ciberespaço e virtualidade.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

O lado A e o lado B da música

E pegando carona no post do Marcelo, lembrei de um fato curioso. A Currys, maior loja de eletrônicos do Reino Unido, acaba de anunciar que não vai mais vender fitas cassetes. Peter Keenan, o diretor-geral da companhia, disse que não pretende mais renovar o estoque de fitas quando esse esgotar, pois o formato tornou-se obsoleto com a internet.

Na verdade, desde o surgimento do CD a popularidade de mídias como o vinil e o cassete despencaram. O LP foi o primeiro a desaparecer das lojas e hoje habita um círculo fechado de consumidores formado por artistas e “audiófilos” como se auto-define o próprio Ed Motta. A Poly Som, criada em 1999, é hoje a última fábrica de vinis em funcionamento no Brasil. Situada na Baixada Fluminense, a fábrica prensa vinis para artistas como Nando Reis, Los Hermanos e Caetano Veloso. Apesar das dificuldades, a fábrica ainda sobrevive graças a esses artistas e colecionadores que defendem apaixonadamente a produção de vinis.

Hoje, o formato é cultuado entre os músicos por uma série de razões. Uma delas é técnica; o compact disc, com seu sistema digital, inibe os graves e os agudos. Na procura de um som mais limpo, essa variação de tons acaba sendo comprimida e perde-se o “frescor” da gravação. Outros fatores envolvem a questão da valoração. Veja o caso dos djs, por exemplo; os mais importantes insistem em usar o LP nas suas mixagens e fazem de seu uso um elemento de diferenciação.

Para tocar na pista, muitos artistas de outros estilos musicais tem prensado vinis. Vanessa da Matta está entre eles. Seu hit “Ai, ai, ai” foi um dos mais tocados no verão do ano passado e deve seu sucesso nas pistas graças ao lançamento da música tembém em LP. Se para alguns gêneros essa é uma opção estética, para outros é uma questão mercadológica. No hip-hop o LP é a regra; trás credibilidade e facilita a divulgação.

Essa apropriação de suportes apontados como ultrapassados pelo mercado nos faz pensar que esse momento, em que o cassete deixa de ser comercializado, pode não significar necessariamente o fim do formato. Talvez seja um novo começo. Sai de cena a fita cassete como mídia acessível ao grande público, mas suas utilidades podem ser redefinidas a qualquer momento, assim como aconteceu com o vinil. Fim do lado A; início do lado B.