
É possível cortar os pulsos numa noite de sexta-feira e ser feliz? Cida Moreira, André Frateschi e Tom Waits provam que sim. A dupla (o trio?) fica em cartaz no teatro do Centro Cultural
Solar de Botafogo até o próximo dia 9 com o espetáculo Canções para cortar os pulsos - a música de Tom Waits, uma homenagem sincera e encantadora ao Bardo da Sarjeta, cantor e compositor de inúmeros talentos mas injustamente pouco conhecido no Brasil. Durante pouco menos de duas horas, desfilam pelo palco melodias arrebatadoras como Downtown train, All the world is green, Tango till they're sore, Take it with me, e por aí vai. O repertório se concentra nos álbuns "Rain dogs", de 1985, "Frank's wild years", de 1987, e no recente "Mule variations", que rendeu a Waits uma indicação ao Grammy do ano de 1999.Seria chover no molhado elogiar o tom sóbrio da encenação, que mesmo nos momentos de excesso é perfeitamente coerente com a obra do homenageado. Mas uma coisa que me agradou bastante foi o fato de Cida & André terem temperado cada acorde do show com o imenso carinho que sentem pela música de Waits, para além do fato (ou talvez justamente por causa disso) de ela ser considerada "estranha", "underground" ou "experimental". Amar o desviante é condição sine qua non para se tornar fã não apenas de Tom Waits, como também de outros tantos poetas tidos como "marginais" e que tematizam o mesmo universo, como Charles Bukowski. E as leituras hegemônicas que tendem a ser feitas tanto das canções do primeiro quanto dos versos do segundo me parecem pecar justamente pela ausência de afeto, como se aqueles personagens (e, por extensão, seus criadores) estivessem sendo observados à distância, por um cientista munido apenas de seu microscópio. O resultado costumam ser leituras que ressaltam unicamente o lado bizarro, extravagante e anormal daquele mundo, como se aquelas criaturas fossem incapazes de amar e serem amadas. Cida & André não. A proposta do espetáculo é levar o público a enxergar beleza no desvio e na distorção, e não a despeito delas.
Em determinado capítulo do Perfoming rites, ao discorrer sobre a importância da voz no contexto da música popular massiva, Simon Frith postula que há determinados artistas cuja identidade reside tão fortemente no modo como se utilizam da voz que tentar imitá-los nesse registro renderia um resultado, no mínimo, ridículo (pensemos em alguém tentando soar como Lou Reed, Leonard Cohen ou... Tom Waits). Penso que Frith poderia dar um pulinho no Solar de Botafogo semana que vem para conferir a performance de Cida Moreira e André Frateschi - enquanto Cida recria o estilo vocal do bardo retendo da matriz alguns poucos elementos fundamentais, o franzino André surpreende ao subir ao microfone e rugir guturalmente como apenas o próprio Waits faria, e tudo isso sem parecer forçado.
O serviço, então, pra quem quiser conferir:
Cida Moreira & André Frateschi
CANÇÕES PARA CORTAR OS PULSOS - A MÚSICA DE TOM WAITS
No Centro Cultural Solar de Botafogo
Rua General Polidoro, 180 (Tel.: 2543-5411)
De 31 de julho a 10 de agosto
Quinta a sábado às 21h30
Domingo às 20h
Ingresso: R$ 40; R$ 30 (com filipeta) e R$ 20 (meia-entrada).
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